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Em Pittsburgh a hora é agora

O torcedor dos Steelers talvez seja o mais mimado da NFL. A franquia, ao contrário dos “grandes do momento” (vocês mesmos, Patriots e Seahawks) traz, em toda sua história, uma cultura vencedora – não é à toa que é o time com mais Super Bowls vencidos.

É bem verdade que houve uma falta de títulos desde o final da década de 1970, mas, quando Ben Roethlisberger chegou a equipe, ela parecia destinada a mais uma era brilhante. Roethlisberger levou Pittsburgh a dois títulos e ainda uma derrota na final, mas desde 2010 os Steelers não disputam um Super Bowl.

E se no início da carreira de Big Ben a defesa era as principal estrela do time, hoje a situação é diferente. Com Le’Veon Bell e Antonio Brown, aliados ao veterano QB, Pittsburgh vê hoje o seu ataque como um dos melhores da NFL, e o motivo de entrar em cada temporada com altas expectativas.

Mas os três têm tido dificuldades de se manter saudáveis durante os playoffs, como evidenciam as três últimas derrotas da equipe na pós temporada:

    • Em 2014, contra os Ravens, o ataque sofreu muito por não contar com Bell, que havia se machucado no último jogo da temporada regular.
    • Em 2015, contra os Broncos, nem Brown nem Bell jogaram. O ataque foi muito apático e saiu, mais uma vez, derrotado.
    • Em 2016, contra os Patriots, Bell saiu machucado no início da partida, e a estratégia de correr com a bola acabou muito afetada (nesse caso, o time perderia de todo jeito, mas talvez não fosse fácil como foi pra New England).

As sucessivas derrotas de Pittsburgh, quando imaginava-se que o time poderia chegar mais longe, deixam o torcedor preocupado: Big Ben está no final da carreira, e já tem falado em aposentadoria (acreditamos que para chamar atenção, no entanto).

Isso, aliado às incertezas em relação a Le’Veon Bell, que, por questões contratuais, não sabemos até quando estará na equipe, faz com que os Steelers estejam praticamente em win now mode.

Comandando o show

Ben Roethlisberger já se estabeleceu como um dos principais QBs da NFL e isso não está em discussão para nós. O importante para ele esse ano é estar saudável em janeiro – sabemos que ele perderá alguns jogos durante a temporada regular.

Le’Veon Bell é o melhor running back da liga. Seu backup não será mais DeAngelo Williams, mas James Conner, menino prodígio e queridinho da cidade.

Mais que amigos: friends.

O corpo de WRs é comandado por Antonio Brown, que também encabeça o topo das listas de melhores recebedores da NFL. Para tirar um pouco da carga de Brown, os Steelers contam com o retorno de Martavis Bryant, que perdeu a última temporada por suspensão. Bryant é – adivinhem – um dos melhores WRs 2 no football. De relevantes, completam o grupo Eli Rogers, que foi bem ano passado, e JuJu Smith-Schuster, escolha de segunda rodada no atual draft e, graças ao seu nome, já ganhou nossos corações e tem tudo para ser grande na NFL (seja lá o que isso signifique).

Os TEs, que costumam ser muito utilizados no ataque dirigido pelo ótimo coordenador Todd Haley, serão Jesse James e Vance McDonald. Não inspiram muita confiança, mas é possível que os vejamos com alguma frequência durante a temporada.

Por fim, precisamos falar sobre a linha ofensiva. O grupo, que pode não figurar na discussão de ser o melhor da liga, é, ao menos, um dos melhores. Toda a linha, que começa com o Center Maurkice Pouncey, passa pelos Guards Ramon Foster e David DeCastro, e termina com os Tackles Allejandro Villanueva e Marcus Gilbert, é composta apenas por jogadores bons ou excelentes. Tanto bloqueando para o passe, quanto para a corrida, esperamos que a OL seja um fator diferencial e que permita a equipe vencer jogos em 2017.

O objetivo aqui é ser pelo menos razoável

A defesa dos Steelers já foi a principal força da equipe, mas, recentemente, não tem inspirado muita confiança. Na final da AFC, além do ataque inoperante, Pittsburgh a viu permitir 36 pontos aos Patriots, o que tornou a missão de vencer em Foxborough praticamente impossível. Como o caminho para o Super Bowl muitas vezes passa pelo Gillete Stadium, a unidade precisa melhorar bastante essa temporada para permitir que o time sonhe com uma passagem para Minneapolis.

A linha defensiva aposta na volta do DE Cameron Heyward para se estabelecer como um sólido grupo, que contará ainda com o DT Javon Hargrave e o DE Stephon Tuitt como titulares. Se todos se manterem saudáveis, pode ser uma DL de respeito. O depth atrás deles, porém, preocupa.

O corpo de LBs talvez seja o grupo mais interessante da defesa, já que conta com veteranos, veteraníssimos e jovens talentos. Ryan Shazier é um excelente ILB, e, quando está saudável (infelizmente não sempre) é – está sim ficando repetitivo – um dos melhores da liga. Já do lado de fora, o ancião James Harrison é certeza de sólidas atuações. Na mesma posição, espera-se que as escolhas de primeira rodada Bud Dupree (em 2015) e TJ Watt (em 2017) contribuam pressionando os QBs adversários.

Parece que foi ontem.

Por fim, a secundária é o grande calcanhar de aquiles, não só da defesa, mas de todo time. E antes que algum torcedor clubista vá discordar, é só olhar para as movimentações recentes, que deixam isso bem claro.

Insatisfeitos com seus jogadores, diretoria e comissão técnica fizeram uma boa reformulação no grupo, a poucos dias do início da temporada: o CB Ross Crockell foi enviado para os Giants por um McLanche Feliz; o CB Joe Haden foi contratado; e ainda foi feita uma troca, envolvendo dois pirulitos, para adquirir o S JJ Wilcox. Além deles, restam na unidade, com pedigree, apenas o CB Artie Burns, escolha de primeira rodada em 2016, que até aqui se mostrou uma avenida, e o S Mike Mitchell.

Palpite: Pittsburgh tem um grupo ofensivo extremamente explosivo e talentoso, mas que pode desmoronar por conta de lesões ou da maconha. Como são muitas as peças, acreditamos que o ataque carregará uma defesa mediana até o dia que encontrarem uma defesa inspirada, que pode ou não pode ser o New England Patriots. De toda forma, não achamos que o que o time tem é o suficiente para chegar ao Super Bowl. Você leu aqui primeiro.

5 mentiras da offseason que ninguém consegue acreditar

A offseason da NFL é um terreno fértil para que histórias, daquelas bem fantasiosas, sejam contadas sistematicamente. Sem jogos ou performances para avaliar, técnicos e jogadores parecem coagidos a tentar criar um futuro artificial e utópico para mascarar a dura realidade que enfrentarão em breve. Mas você, estimado leitor do Pick Six, não será mais uma das vítimas do conto do vigário. Nós ligamos o nosso detector de mentiras e vamos expor alguns dos Pinóquios da NFL na offseason de 2017:

John Fox e Todd Bowles: dois senhores lunáticos

Em 2016, Chicago Bears e New York Jets tiveram temporadas péssimas: juntos, eles conseguiram somar apenas oito vitórias. Obviamente, tratam-se de times muito fracos, que precisariam de muitos reforços para apenas começar a pensar em ser competitivos em 2017. Mas o que aconteceu com ambos foi justamente o contrário: Bears e Jets perderam seus QBs titulares, Jay Cutler e Ryan Fitzpatrick, e vários outros jogadores-chave, como Alshon Jeffery, Brandon Marshall e Nick Mangold.

Os times fracos e a perda de jogadores relevantes parecem não ter limitado a capacidade dos head coaches John Fox e Todd Bowles de criar um mundo paralelo. John Fox declarou que acredita que o Chicago Bears está em “striking distance”, que pode ser traduzido por algo como “em posição de causar estrago”. Já Todd Bowles acredita que “o elenco possibilita que o Jets seja competitivo em 2017” e que “as expectativas são altas, mas que é muito cedo para saber se o time é capaz de chegar aos playoffs”.

Fox e Bowles são dois grandes mentirosos. Mesmo tendo muita boa vontade e considerando que as “perdas” de Jay Cutler e Ryan Fizpatrick podem, na verdade, ser verdadeiros reforços para os times, não há como levar a sério as declarações dos técnicos. O tempo de Cutler e Fitzmagic enganarem os torcedores realmente acabou e isso é muito bom para que as franquias superem o fim do relacionamento que não deu certo e busquem seu verdadeiro par perfeito. Porém, a falta de respostas, tanto na free agency quanto no draft, para a posição mais importante do football condena os dois times a viver muito abaixo da linha de mediocridade em 2017.

Mesmo que Mike Glennon e seja-lá-quem-for-o-QB-do-Jets façam trabalhos razoáveis, nenhum dos ataques superará a perda de Alshon Jeffery e Brandon Marshall. Além disso, o Chicago Bears joga em uma divisão que tem três times muito fortes e o New York Jets não tem nem chance de sonhar vencer a AFC East enquanto Tom Brady continuar respirando.

John Fox deve acreditar que “striking distance” significa “lutar para não ficar em último na divisão”. Se não acreditar, trata-se apenas de um mentiroso tentando minimizar o desastre da temporada anterior e criar um ambiente favorável à manutenção de seu emprego. Já Bowles deveria ter vergonha de mencionar “Jets” e “playoffs” na mesma frase e saber que o time será competitivo apenas quando se trata da disputa pela primeira escolha do draft de 2018.

Obviamente, não esperamos que nenhum dos dois treinadores venha a público dizer que seus times são dois lixos. Jogadores precisam de motivação. Mas precisam mentir tão descaradamente?

Acredita quem quer.

Tom Brady e Drew Brees e o dilema da reforma da previdência

A idade parece não ser um problema para Tom Brady e Drew Brees, que estão se aproximando dos 40 e não estão nem cogitando o inevitável declínio físico trazido pela velhice. Brady declarou recentemente que pretende jogar por até mais cinco anos, o que levaria a uma aposentadoria aos 44 na temporada 2021. Drew Brees parece ter ficado com ciúme e logo em seguida afirmou o desejo de permanecer ativo até os seus 45 anos de idade, que o deixaria em campo até a longínqua temporada 2023.

Por mais que os torcedores do New England Patriots e do New Orleans Saints queiram muito acreditar que o prolongamento das carreiras de Brady e Brees vai acontecer, não é o que a história da NFL nos mostra. Nenhum QB conseguiu obter resultados significativos após ultrapassar a marca dos 40 anos. Brett Favre parece ter sido o único a conseguir se aproximar de conseguir vitórias expressivas após completar 40 anos, quando disputou a final da NFC pelo Minnesota Vikings em 2009.

Na nossa idealização de fãs, nossos ídolos são super heróis que podem vencer qualquer barreira, inclusive a da idade. Não queremos acreditar que eles são meros seres humanos, mas são, mesmo que não pareçam. O declínio chega de maneira abrupta. Peyton Manning é a prova disso: conquistou vários recordes da NFL em 2014 e em 2015 foi literalmente carregado pelo Denver Broncos para vencer o SB 50 aos 39 anos.

Em algum momento, em breve, o declínio físico vai atingir Brady e Brees, que parecem mesmo ter a vontade de jogar por muitos anos. Como o desejo de jogar em idade avançada parece ser legítimo, tratam-se de mentiras sinceras, mas ainda assim são mentiras.

“Na primavera ou em qualquer das estações”

Houston Texans: Deus no céu, Tom Savage na terra

A aposentadoria de Tony Romo ainda faz corações despedaçados sangrarem em Houston. Romo parecia a única solução para um time a um QB de distância de uma corrida ao Super Bowl. Não é o que o Texans parece acreditar. De acordo com James Palmer, repórter da NFL Network, o time se sente “confortável” com o inexpressivo Tom Savage sendo o QB titular na próxima temporada.

Essa talvez seja a mentira mais fácil de ser desmascarada. Desde 2014, quando foi draftado pelo Houston Texans, Savage participou de cinco jogos em temporada regular, dois como titular. Conseguiu o astronômico número de 0 TDs anotados e 0 passes para mais de 40 jardas. Portanto, não se enganem: Houston será agressivo no draft e, provavelmente, trará um veterano como Jay Cutler (credo!) ou Colin Kaepernick.

Um monumento temperamental

Ben Roethlisberger é, indiscutivelmente, um grande QB. Nada do que será dito a seguir tem a pretensão de diminuir sua qualidade ou relevância. Mas precisamos dizer a verdade: ele adora fazer um draminha. Nenhum outro jogador da NFL é capaz de se esforçar tanto para mostrar que está jogando machucado. Ben precisa mancar mais do que o necessário e se arrastar em campo para mostrar seu heroísmo. Nessa offseason o drama se estendeu para um discursinho super falso de uma possível aposentadoria precoce.

“Vou usá-la para avaliar, para considerar todas as opções, para avaliar questões de saúde e familiares, avaliar a próxima temporada, se haverá uma próxima temporada”, disse Roethlisberger.

Ninguém no Pìttsburgh Steelers parece ter levado as declarações muito a sério. Por um bom motivo: não demorou muito tempo para Ben encerrar o teatro e anunciar que estará em campo em 2017.

Como disse Terrell Suggs, do rival Baltimore Ravens, antes de uma partida em que Ben era dúvida, “ele vai agir como ‘ai, não vou jogar, não sei, fiz só trabalhos individuais, lancei um pouco, mas ainda não sei’ e então vai colocar seu traseiro gordo no campo e jogar normalmente”.

Sempre divertido usar esta foto.

O time do futuro (que nunca chega)

A offseason é o momento perfeito para tentar reconstruir a imagem de jogadores que já mostraram flashes de talento, mas depois falharam completamente. Quem nunca ouviu o famoso “o QB X está trabalhando com um guru de QB” ou “o QB Y está trabalhando para melhorar sua mecânica”?

Blake Bortles parece ser o personagem perfeito para esse modelo de enganação. Depois de um ano muito promissor em 2015, na última temporada Bortles nos proporcionou momentos de ruindade épicos. O Jacksonville Jaguars, porém, está preso a Bortles, já que se trata de um QB de primeiro round do draft e que ainda mostra uma pequena esperança de recuperar pelo menos um pouco do talento que já mostrou.

Nada de anormal até aqui, certo? Mas o general manager Dave Caldwell parece ter ido um pouco longe demais em suas declarações. Entre outras coisas, Caldwell disse que “podemos vencer muitos jogos com Blake. Podemos vencer um Super Bowl com Blake, acho que o futuro é brilhante para ele”. Gostaríamos muito de acreditar em você Dave, mas simplesmente não conseguimos. Aliás, nem sua mãe conseguiria.

Uma turminha do barulho: não tente duvidar destes caras

Há uma convenção, espécie de contrato de social, entre time e torcedores, pautada pela velha máxima: não importa como você comece, desde que termine bem. E independente do que aconteça diante do New England Patriots, o Pittsburgh Steelers certamente terminará a temporada 2016-2017 bem. É o clássico caso em que a entrega já saiu melhor que encomenda, afinal, em um mês de agosto já relativamente distante, não havia consenso até onde esta equipe poderia chegar.

Hoje, contando com dois dos melhores jogadores ofensivos da NFL, um quarterback bicampeão do Super Bowl e um treinador que, concordem ou não, tem em si três toneladas de confiança, Pittsburgh é muito mais que um azarão.

Contra o tempo?

Vencer New England no Gillette Stadium é algo em que os Steelers, historicamente, não tem tido êxito. Consideremos ainda que eles estão indo a um lugar onde Bill Belichick e o New England Patriots têm uma campanha 16-3 nos playoffs, incluindo um 4-1 em finais da AFC. Pese ainda o fato de que Pittsburgh teve uma semana a menos de descanso e enquanto suava litros de sangue contra o Chiefs, New England cozinhava o Texans – ou você realmente acreditou que em algum momento Brock Osweiler fosse capaz de fazer algo?

Uma eventual derrota, porém, traria um significado simples, e não seriam necessárias análises quilométricas para compreender que, por enquanto, os Patriots são melhores que eles – qual a novidade, já que costumeiramente New England tem sido melhor que toda a liga? Não seria o fim do mundo.

E é aqui que reside o maior legado desta temporada para o Pittsburgh Steelers: não estamos diante da última chance de Tomlin e Roethlisberger vencerem o Vince Lombardi. A janela de tempo, na verdade, se abriu e para as próximas temporadas eles já entram em campo como favoritos à AFC: o ataque, já assustador, tem uma gama de possibilidade inexploradas para se tornar ainda melhor, enquanto o sistema defensivo, responsável por diversos calafrios nos torcedores nas últimas temporadas, neste ano provou que está sendo reconstruído de maneira eficiente por Kevin Colbert (GM) e Keith Butler (DC).

Claro, há questões a serem consideradas: Big Ben naturalmente não está ficando mais novo e toda vez que um QB avança pela casa dos 30 anos começam a surgir sinais de queda de produção. Mas você olha para Roethlisberger e tem certeza que lhe restam ao menos mais três ou quatro temporadas em alto nível. Algo difícil de imaginar para Tom Brady, cinco anos mais velho. Sim, estamos duvidando de Brady, então provavelmente quebraremos a cara – mas esta é outra história.

Tudo isto nos mostra que tanto Tomlin como Big Ben terão outra chance de vencer, que está não é a última chance de ambos. O que não significa que eles não podem fazer isso também neste ano.

Você ainda não viu o melhor deste ataque

A OL se tornou mais sólida e já é uma das mais consistentes da NFL, algo ótimo para um QB como Roethlisberger, que ao longo de sua carreira aprendeu a não ter medo de ser triturado fisicamente pelos adversários. Atrás dela LeVeon Bell foi um dos melhores jogadores da liga e a cada jogo e percebemos que sim, apesar de números já absurdos, ele pode fazer muito mais.

Além disso, ainda há janelas para Big Ben encontrar soluções que não atendam pelo nome de Antonio Brown; é claro que alguém com o talento de Brown será o principal alvo, mas também é consenso que Roethlisberger, ao longo de sua carreira, sempre fabricou ótimos alvos secundários, o que não aconteceu com a mesma proporção nesta temporada: Jesse James ainda engatinha enquanto luta contra o legado de Heath Miller; Ladarius Green recebeu 20 milhões de dólares para passar nove semanas no departamento médicos esquentando suas havaianas; Eli Rodgers e Sammie Coates por vezes ainda pecam pela inexperiência e Martavis Bryant está ocupado demais estudando o mercado de ervas medicinais.

A pós-temporada é o momento perfeito para Big Ben garantir o próximo contrato milionário de algum ser humano ainda em busca de sua real vocação. E se algum recebedor secundário aproveitar efetivamente toda a atenção que Brown atrai, Big Ben tornará o ataque aéreo dos Steelers melhor. E ainda há Le’Veon Bell que, enfim, sabemos que irá correr 40 vezes por jogo e o adversário que lide com esta bomba.

A oitava arte

Recentemente discutimos a relação entre esporte e arte e, bem, de qualquer forma, se poucos conseguem criar formas de expressão artística, qualquer pessoa digna de talento pode transformá-la. Existiram, claro, grandes atrizes antes de Meryl Streep, mas apesar de “Mamma Mia”, é inegável que a Meryl de “Sophie’s Choice” e “Kramer vs Kramer” trouxe sua própria revolução pessoal dentro do gênero, dando origem a um novo estilo e moldando as próximas gerações de atrizes. O que Le’Veon Bell está fazendo não é assim tão diferente; é como se ele levasse o balé a um campo de football.

Nesta temporada, Le’Veon se tornou o primeiro jogador da história da NFL com uma média superior a 100 jardas corridas e 50 jardas recebidas por partida e elevou a posição a um outro patamar! Contra Kansas City, no Divisional Round, foram incríveis 170 jardas.

Hoje, ninguém compreende como efetivamente Bell consegue encontrar espaços em todas as tentativas, encontrar o corte perfeito no instante de tempo exato em que poderá lhe proporcionar 5 ou 6 jardas extras. É um jogador que está redefinindo o que é ser um running back.

Não sei se vi algum RB como ele durante minha carreira ou mesmo voltando no tempo para estudar caras que jogaram antes de mim”, disse LaDainian Tomlinson, ex-RB de Chargers e Jets e atualmente comentarista da NFL. “Nunca vi alguém parar completamente tudo que ele pode fazer”, completou.

Durante a temporada regular, em apenas 12 partidas, Bell terminou com mais de 1800 jardas totais e nove touchdowns – em dois jogos de playoffs já foram 337 jardas, recorde para as duas primeiras partidas de um jogador na pós-temporada. Se o Steelers está atrás do Vince Lombardi, talvez Bell seja o melhor caminho: quando Le’Veon se aproxima da linha de scrimmage, ao mesmo tempo em que pode parecer que ele está esperando por uma abertura, na verdade ele pode estar tentando criar espaços. E nesse instante de hesitação, Bell influencia as decisões de todo o sistema defensivo adversário, que se torna incapaz de ler o que irá acontecer.

Bell também transpôs o que é ser um quarterback para sua posição: QBs geniais tem um relógio mental em perfeita sincronia, que lhes permite saber o instante em que a bola deve ser lançada, ou o momento em que não é mais possível permanecer no pocket e é preciso encontrar uma alternativa. Le’Veon possui o mesmo relógio, que lhe permite saber a fração de momento em que ele deve se chocar contra a parede, fazer um corte ou dar a explosão final. “Ele é único porque sua mente lhe dá a capacidade de esperar mais tempo”, diz Tomlinson. “Acredite: você não pode aprender ou desenvolver isso”.

A melhor dupla surgida desde Bruno & Marrone.

Canivete suíço

Antonio Brown é o mais próximo que um WR da NFL contemporânea esteve da perfeição: a defesa não pode recuar e ceder espaço porque ele é extremamente veloz; por outro lado, também não pode marcá-lo de perto, porque simplesmente não existe um CB capaz de acompanhá-lo pelo tempo necessário. Brown é ainda incrível em rotas curtas e após a recepção, correndo, é tão eficaz quantos os melhores RBs. Mas por incrível que pareça o grande trunfo de Antonio Brown surge quando ele é “humano“: se quando está em sinergia ele é imparável, quando algo dá errado, ele é capaz de encontrar soluções e ainda sim ser um dos WRs mais difíceis de ser marcado. A “culpa”, claro, também é de Big Ben

Antonio e Roethlisberger treinam semanalmente o que farão quando algo sai do planejado. Para Brown, a solução para quando algo não está no script é simples: voltar ao campo de visão de seu QB.

Você sabe onde seus olhos estão indo, então você só precisa saber como chegar a frente deles. A melhor coisa de jogar com Ben é que você sabe que ele não irá morrer facilmente, então você nunca desiste de suas rotas”, disse o WR.

Por tudo isso, Brown é um alvo constante, 150, 160 vezes por temporada. Então para os adversário, tentar marcá-lo torna-se um looping eterno: a cada snap você precisará estar de olho nele. Acrescente ainda como bônus o fato de Antonio ser canhoto, o que traz uma gama de ângulos diferentes em que ele pode agarrar passes – um terror para qualquer marcador.

É evidente que já há alguns anos a NFL está vivendo um período propício ao jogo aéreo, com talentos abundantes e esquemas que facilitam este estilo, e poucos tem aproveitado esta oportunidade no espaço-tempo da evolução do esporte como Antonio Brown.

Ele é ainda uma estrela em franca ascensão: tem seu próprio programa de entrevistas no site do Steelers, estrelou diversos comerciais para Pepsi e Madden e ainda se aventurou no Dancing With Stars. Onde Brown irá parar? Bem, em uma tarde quente de agosto, durante a preparação para temporada, um torcedor bradou para ele parar de retornar punts, afinal é um dos principais jogadores do time. “Foda-se”, respondeu o WR. “Eu posso fazer tudo”.

Hang loose.

Reconstruindo uma cortina

É claro que o sistema defensivo atual dos Steelers ainda está longe do que foi aquele que um dia foi apelidado de “Cortina de Ferro”. Mas qualquer reconstrução, começa obrigatoriamente pelos primeiros tijolos, aqueles que solidificam qualquer construção. E para Pittsburgh eles são S Sean Davis e o LB Bud Dupree.

Davis foi nomeado rookie defensivo dos Steelers na temporada e Dupree transformou o pass rush da equipe, até então próximo do deprimente. É uma unidade com talento, que está encontrando, dentro de suas limitações, um estilo de jogo próprio e eficaz.

Mas o grande nome deste sistema é James Harrison. Contra o Chiefs, Harrison foi perfeito: foram seis tackles (três deles para perda de jardas), dois QB hits e o único sack da equipe na partida. O melhor momento, porém, aconteceu quando o relógio marcava três minutos para o fim: como um caminhão sem freio ele pressionou o T Eric Fisher, induzindo-o a um holding durante a conversão de dois pontos. A nova tentativa teria então uma distância de 12 jardas e todos sabemos que Alex Smith é mentalmente incapaz de ter sucesso nestas condições.

Harrison passou pela NFL Europa em 2007, foi dispensado pelo próprio Steelers em 2013 e dos Bengals em 2014, aposentou-se para ressurgir das cinzas e ser fundamental para sua equipe. E enquanto os holofotes estão em Brown, Bell e Big Ben e em todo o dinamismo deste ataque, foi Harrison e a defesa que venceram um jogo de playoffs em que o Steelers não marcou nenhum TD: em 87 partidas de pós-temporada, só 6 times conseguiram sair vencedores sem entrar na endzone.

É o tipo de partida que vimos a “Cortina de Ferro” ganhar diversas vezes. É o tipo de disputa que vimos Harrison vencer em várias oportunidades em seu auge. Eles precisarão disso contra os próximos adversários que cruzarem seu caminho. E talvez vencer o Patriots em Boston seja humanamente impossível. Mas a verdade é que James Harrison está longe de ser humano. 

O Heinz Field sentirá muita saudade da sua própria cortina de ferro

“Ataques ganham jogos, defesas ganham campeonatos”, a mais antiga verdade da NFL (junto com “on any given Sunday…”) provavelmente será a grande responsável pelo fracasso dos Steelers essa temporada – sim, esse texto já começa com conclusões precipitadas.

O fato é que esse time dos Steelers lembra muito aquele Colts dos bons anos desperdiçados de Peyton Manning: um ataque incrível que encantará a NFL durante a temporada regular e uma defesa cujos únicos dois bons jogadores são os defensive ends, inevitavelmente pipocando na hora da verdade dos playoffs – vide a derrota para os Broncos na temporada passada, que fez o head coach Mike Tomlin chorar.

Tomlin tem grande culpa na decadência da sua defesa, pela dispensa do antigo (ênfase em antigo) coordenador defensivo Dick LeBeau, que apesar de realmente já não ser mais o mesmo, bem, não precisou mais que um jogo para que se notasse sua falta: impossível esquecer o papel ridículo que fez a defesa de Pittsburgh no jogo de abertura de 2015.

Para a sorte (ou azar) de uma das maiores torcidas da NFL, o outro lado do time é mais do que capaz de iludi-la durante a temporada regular e carregar esse peso morto que chamam de defesa. Ben Roethlisberger e Antonio Brown (1834 jardas, 10 TDs somente na temporada regular) são provavelmente a melhor dupla QB-WR da NFL no momento (Eli-Beckham podem querer disputar, mas como eles não vão aos playoffs não importam muito) e dói pensar em quão melhores eles poderiam ser não fosse a dupla de idiotas formada por Martavis Bryant e Le’Veon Bell.

1BellBrown juntos

Bell, Brown e Big Ben. O ataque dos sonhos nunca jogou um jogo inteiro junto.

Primeiro a notícia boa

Começamos lembrando que Big Ben lançou para 3938 jardas em 2015, ficando na 14ª colocação na NFL, em apenas 469 tentativas e 12 jogos (11 como titular). Se igualássemos suas tentativas às 661 de Philip Rivers (2º na NFL em número de jardas lançadas), Roethlisberger lançaria para incríveis 5550 jardas, que bateriam o recorde da NFL. Sem um bom running back para os quatro primeiros jogos nem uma boa defesa para os 16, desde que se mantenha medianamente saudável (jogar machucado é bastante rotineiro para ele), talvez o recorde de jardas lançadas não seja um objetivo irreal para o quarterback.

E falando em ter pouco apoio no backfield, não cansaremos de repetir que Le’Veon Bell é um idiota. Após uma temporada de mais de 2000 jardas totais em 2014, Bell foi suspenso pelas duas primeiras partidas de 2015 após ser preso por posse de maconha. Em 2016, ele perderá quatro por não ter se apresentado a um teste de drogas – procedimento padrão da NFL para controlar infratores.

De qualquer forma, Bell é um sério candidato (ou talvez já seja) a melhor RB da NFL e a voltar a produzir as mesmas 2000+ jardas, já que é capaz de participar do jogo aéreo, ao contrário do principal concorrente Adrian Peterson; tudo o que tem que fazer é deixar de idiotices e prejudicar o seu time com jogos de DeAngelo Williams como titular (907 jardas e 11 TDs ano passado entre suspensão e lesão de Bell, mas já com 33 anos e provavelmente perto de parar de produzir).

E entre talentosos e idiotas, também impossível deixar de observar o que faz (ou deixa de fazer por “abuso de substâncias”) o WR Martavis Bryant, 154 jardas contra Denver nos playoffs após voltar da suspensão de quatro jogos. Entretanto, como reincidente, recebeu uma punição de no mínimo uma temporada para 2016 (e a ameaça de nunca mais jogador futebol americano profissional se não andar na linha).

Pelo menos os Steelers terão opções e competição para seu lugar: Markus Wheaton e a estrela da pré-temporada Sammie Coates, depois de uma temporada inicial de mais aprendizado do que de tempo efetivo em campo. E esses dois ainda disputarão a condição de “segundo alvo favorito” com o novo TE Ladarius Green, que fez grandes apresentações substituindo Antonio Gates em San Diego e foi trazido para substituir o eterno alvo de segurança de Roethlisberger, o agora aposentado Heath Miller.

Por fim, como mais da metade de times da NFL, Pittsburgh tem problemas na sua linha ofensiva. O LT Kelvin Beachum trocou o time por um clima melhor em Jacksonville e seu substituto é o veterano da Guerra do Afeganistão, Alejandro Villanueva – que já demonstrou dificuldades na tarefa de proteger o lado cego de Big Ben em 2015.

Além disso, apesar de contar com uma boa proteção anterior, inclusive com o Pro Bowler David DeCastro, o time precisa rezar na esperança de que o C Maurkice Pouncey, um dos melhores da posição, consiga voltar a ter uma temporada saudável.

E agora a notícia ruim

Os DEs Cameron Heyward e Stephon Tuitt (14 sacks entre os dois) e os LBs Ryan Shazier e Bud Dupree. Aí acaba a lista de jogadores que seriam titulares absolutos em mais da metade das defesas da NFL, isso quando não estiverem desajeitados ou executando uma jogada mal planejada pelo coordenador defensivo. Para um time que já foi respeitado como uma defesa intransponível, é muito pouco.

Inclusive, parte daquela temida defesa dos anos 2000 ainda está no elenco. James Harrison (5 sacks em 2015) parece eterno do alto dos seus 38 anos, e ainda é importante para o time especialmente porque Jarvis Jones não justificou todo o hype recebido no draft de 2013 e não consegue assumir a titularidade como pass rusher oposto a Bud Dupree. Outro eterno dos “bons tempos”, que completa esse grupo de linebackers, é Lawrence Timmons (77 tackles e mais 5 sacks em 2015).

Cincinnati Bengals v Pittsburgh Steelers

38 anos e aquela vontade de garoto de agredir adversários.

A situação da defesa é complicada, mas ao contrário dos Colts de Manning (e provavelmente o de Luck também), não podemos culpar o GM Kevin Colbert por não tentar, como mostram suas três primeiras escolhas no draft de 2016.

Agora, Javon Hargrave (na terceira rodada) foi trazido para ocupar de imediato a posição de nose tackle entre Tuitt e Heyward, substituindo Steve McLendon, que tampouco teve um bom 2015.

Já o CB Artie Burns e o S Sean Davis foram as duas primeiras escolhas, em uma tentativa de melhorar uma secundária que cedeu 4661 jardas (30ª na NFL) no ano passado. O problema é que, enquanto Davis deve ser imediatamente titular ao lado de Mike Mitchell, Burns foi escolhido mais pelo seu potencial físico e deve passar por um período de adaptação antes de ser confiável (pense em Trae Waynes nos Vikings ano passado).

Enquanto isso, o time dependerá de Ross Cockrell, que tem dificuldades nos tackles apesar de cobrir bem, e do também veterano e decadente William Gay para cobrir os WRs adversários. Enfim, estamos diante do roteiro de um pesadelo.

Palpite: Esse ataque é maravilhoso, não há dúvidas. O problema é que a NFL também está cheia de grandes ataques e muitos deles estão no caminho dos Steelers. Se ganhar TODAS as partidas dentro da medíocre divisão (Andy Dalton vai acabar ganhando ela de novo) poderá sonhar com os playoffs, mas hoje um 8-8 mais provável. De qualquer forma, como título moral, este ataque ainda será uma bela fonte de opções no fantasy; é o que temos para esta temporada.