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Análise Tática #26 – As jogadas-chave do Super Bowl LII

O Super Bowl LII talvez tenha sido a final da NFL mais prolífica da história em termos de ataque. Foram 1152 jardas totais somando os dois times, recorde da liga seja para jogos de temporada regular ou playoffs.

Como ninguém esperava, inclusive nós do site, como vocês podem conferir no preview tático, o Eagles se saiu melhor que o New England Patriots em um festival ofensivo. Podem conferir em qualquer analista brasileiro ou de fora, seja texto, vídeos ou podcast, absolutamente ninguém esperava isso.

Apontamos no preview tático que a chave para a vitória dos Eagles seria a atuação da defesa, mas esse ponto não envelheceu bem. Como apontou nosso amigo Vitor Camargo do Two-Minute Warning, a responsabilidade da vitória é em boa parte no ataque e na capacidade que Nick Foles teve de causar estragos com passes a partir da média distância. Parafraseando o que nosso colega escreveu (leia o texto completo), Philly venceu apesar da atuação defensiva e não por causa da mesma.

Comparando, foi algo assim que Blake Bortles não conseguiu. O QB dos Jaguars executou muito bem o plano de jogo, mas para vencer os Patriots é preciso mais que isso, e o ataque de Jacksonville não tinha teto suficiente para se sobressair.

As estatísticas

Total de 143 jogadas a partir da linha de scrimmage, apenas um punt entre os dois times (chutado pelo Philadelphia Eagles), um sack (que definiu o confronto), uma interceptação e um turnover on downs. Para completar o festival, houve também extra points perdidos e chutados na trave.

O Philadelphia Eagles executou 71 jogadas ofensivas, converteu 25 first downs em 34min04s de posse de bola. Teve ganho de 538 jardas em 10 drives, 374 jardas pelo ar e 164 jardas terrestres. Nick Foles completou 27 de 43 passes e o time correu com a bola 27 vezes.

O New England Patriots, por sua vez, executou 72 jogadas ofensivas em 25min56s de posse de bola, converteu 29 first downs. Teve ganho de 613 jardas em 11 drives, 500 jardas pelo ar e 113 terrestres. Tom Brady completou 28 de 48 passes e o time correu com a bola 22 vezes.

A bola longa dos Eagles

Jogadas de passe de mais de 20 jardas tiveram um fator importante em relação ao plano de jogo dos Eagles. Esticar o campo é um mantra repetido por técnicos de futebol americano e funciona como uma das premissas do jogo, deixando a defesa sempre em dúvida sobre o que virá a seguir.

Como o Eagles correu bem com a bola, média de 6,1 jardas por tentativa, o Patriots foi obrigado a aproximar os jogadores da linha de scrimmage como compensação. E essa dúvida é suficiente para armar o playaction fake. Foi exatamente isso o que vimos no primeiro touchdown da partida, passe de Nick Foles para Alshon Jeffery.

Observe na imagem, um conceito de rotas cruzadas perto do segundo “I” no logo do Super Bowl, com Alshon Jeffery atacando a endzone e Nick Foles a partir do playaction. Os jogadores de linha ofensiva estão em posição de três apoios e encaram 4-men-rush. A linha contém muito facilmente o rush dos Patriots, permitindo que Nick Foles fique confortável para escalar o pocket.

Olhando a defesa dos Patriots, eles estão marcando de forma individual todas as rotas, e as do meio disfarçando a posição dos marcadores como se estivessem em zona. Apenas um safety está em profundidade (cover 1 man). Esse cenário é ideal para Nick Foles atirar no fundo do campo, e o safety ficando preso nas rotas do meio ajudou. Passe perfeito e Alshon Jeffery ainda fez uma recepção física.

O interessante dessa jogada é sobre os seguintes pontos: esse cenário construído é o que não seria ideal para os Eagles ganharem dos Patriots. Foi repetido intensamente de que o ataque coordenado por Doug Pederson não poderia cair em situações que eles precisassem confiar no braço de Nick Foles, o que exatamente aconteceu. Os Eagles mostraram para Bill Belichick e Matt Patricia que eles podiam explorar a bola longa a partir do playaction, e isso aconteceu repetidas vezes, já que o jogo corrido se desenvolveu.

As Trick Plays

Como em uma tarde de College Football qualquer, além do tiroteio, o Super Bowl apresentou as trick plays. Duas jogadas de reverse-pass para o quarterback, cada uma executada por um dos times.

Aos 12:04 restantes do Q2, os Patriots estão na linha de 35. James White parte do outside para o lado de Brady, e este entrega a bola para o corredor. A linha bloqueia para a esquerda dando a entender de se trata de uma inside zone. Entretanto, White entrega a bola para Danny Amendola, configurando o reverse. Brady parte em uma rota wheel e Danny Amendola arrisca o passe na linha de 25 (10 jardas a partir da linha de scrimmage). Tom Brady derruba a bola, colocada à frente de seu corpo.

O interessante dessa jogada, é que por todo o processo do Super Bowl houve a dúvida sobre a lesão reportada na mão de Brady. Segundo informações, o jogador se machucou em um treinamento e precisou sofrer quatro suturas na mão direita (a de lançamento). Apesar de toda essa novela, a verdade é que pela forma como o passe foi colocado, Brady, um QB de 40 anos, não tinha atleticismo suficiente para buscar essa bola, o que nos rendeu essa belíssima imagem.

Ele realmente não pode passar e receber passes ao mesmo tempo.

Agora observemos a chamada conhecida como Philly Special. Opção de Nick Foles para converter uma quarta descida para o touchdown restando 34 segundos antes do intervalo, quando os Eagles venciam por 15 a 12. Segundo relatos, essa jogada foi colocada no plano de jogo contra o Minnesota Vikings, mas não se fez necessária. Assim como a trick play dos Patriots, trata-se de um reverse pass para o quarterback, com alguns diferenciais.

Os Eagles se alinham em singleback com stack do lado direito. Nick Foles sai da posição de shotgun disfarçando que vai passar instruções de bloqueio à linha ofensiva, a estilo Peyton Manning. O QB toca as costas do right tackle, o snap sai diretamente para o RB em wildcat, esse se desloca para a esquerda em uma outside zone, faz o handoff para Trey Burton.

Nesse instante, Nick Foles parte da posição de linha ofensiva em direção à endzone. Touchdown. Aqui, cabe salientar que a questão da trick play, como o próprio nome sugere, é surpreender completamente a defesa adversária. Geralmente, isso começa snaps antes armando uma possível leitura de tendência a partir de determinado personnel.

No caso dos Eagles, o personnel com Corey Clement em campo indica uma jogada de corrida em zona ou passe, pela versatilidade do atleta em executar ambos os tipos de conceito – simplificando ao máximo a leitura, evidentemente, as possibilidades são maiores que isso. Como podemos ver nas primeiras amostras do NFL Turning Point pela NFL Films, Doug Pederson decidiu pela conversão da quarta descida e em discussão com Nick Foles, o quarterback chamou a jogada.

Como podemos conferir, jogadas antes, Nick Foles converteu uma terceira descida com ganho de 55 jardas a partir de um passe para Clement em uma rota wheel. Esse lance e mais outros com o camisa 30 em campo semearam a dúvida suficiente para fazer a trick play funcionar. Como disse Matt Patricia na coletiva pós-jogo a única forma de parar esse tipo de jogada é a defesa estar completamente ciente do que está acontecendo em campo, pois o reverse anula qualquer ajuste tático que poderia ser desenhado na cobertura.

Linha desbalanceada

Doug Pederson apresentou em seu plano de jogo uma variedade de conceitos que colocaram em cheque a capacidade de ajuste pelo New England Patriots. Um desses é a linha desbalanceada.

Acrescenta-se um jogador a mais de OL, geralmente um tackle e não um tight end, e este jogador se declara elegível a receber o passe para a arbitragem, mas sequer correrá uma rota. Sabemos que a linha ofensiva convencional se posiciona de forma simétrica em relação ao center. A OL desbalanceada posiciona um jogador a mais em um dos lados.

Na imagem acima, vemos o touchdown corrido de LeGarrete Blount partindo de uma inside zone com linha desbalanceada. O jogador extra é o camisa 73 Isaac Seumalo, marcado no retângulo vermelho. Ele alinha como um TE bloqueador, mas com melhor capacidade de realizar a função que um jogador com esse rótulo.

Acrescentar um jogador de linha na inside zone permitiu que o LT Halapoulivaati Vaitai bloqueasse em segundo nível, e esse foi o fator diferencial para que Blount chegasse a endzone.

A capacidade de ajustes de New England

Se tem alguma coisa que eu tive capacidade acertar nos previews sobre os Patriots é a capacidade de ajustes de Bill Belichick e o uso de Rob Gronkowski como ponto focal do ataque (“mas aí até eu”, deve estar pensando o caro leitor). Após um primeiro tempo ruim na conexão Brady-Gronk, a dupla começou a clicar as jogadas no início de terceiro quarto, resultando em um drive para touchdown apenas com recepções do Tight End.

Comparando com o que foi feito no primeiro tempo, a defesa dos Eagles não travou apenas um jogador na marcação individual de Gronkowski, confiando na capacidade de execução do defensor que estivesse no matchup.

A jogada apresentada acima ocorreu no jogo contra os Titans e uma vez anterior no primeiro tempo do Super Bowl, e ilustra exatamente o que o New England Patriots tem de melhor: a capacidade de ajustes táticos do staff de Bill Belichick e passar isso aos jogadores. Temos os Patriots alinhando em 11 personnel com set 2×2 e stack no lado esquerdo. A linha está em posição de 2 apoios e a situação de placar e relógio (PHI 32-26 NE Q4 9:22) indica o passe.

Amendola sai em motion da posição de Split-end para o lado do right tackle. Nesse momento, podemos ver os jogadores dos Eagles apontando entre si, o que significa que eles estão reajustando as marcações individuais na jogada. O Safety ataca o ponto em que as rotas dos três recebedores se cruzando no lado direito e deixa Gronkowski no mano a mano. Matchup que beira o injusto e touchdown para os Patriots, que naquele momento empataria o jogo em 32 pontos.

A pressão dos Eagles

O número de sacks leva a crer que Tom Brady jogou com pocket limpo a maioria das vezes. Mas esse tipo de análise preguiçosa focando apenas em drives brutos sempre leva a tirar conclusões erradas de qualquer situação estatística. Por vezes o front dos Eagles foi capaz de apressar passes ou acertar Brady com hits. Levar pancada de jogadores de mais de 140 kg afeta um QB de 40 anos de idade, por melhor que ele seja, simplesmente por questões físicas.

Essa pressão constante, principalmente em speed rush permitiu que Brady escapasse do sack algumas vezes escalando o pocket, mas quando ela vinha pelos A e B gaps, deixava o QB dos Patriots com a movimentação limitada, tendo que arriscar passes antes da hora. Isso explica principalmente a taxa de 56,25% passes completos (28/48), um pouco abaixo do que Brady normalmente produz.

Na jogada que praticamente selou o Super Bowl em favor dos Eagles, vemos Derek Barnett e Chris Long alinhados em wide-9-technique, enquanto Fletcher Cox (5-tech) e Brandon Graham (4-tech) estão na parte interna da linha. No resto do front, quando a jogada se desenvolver, percebemos que a defesa dos Eagles rotaciona para a direita, apesar de não ser uma fire zone blitz, e o mais importante, Malcolm Jenkins defende o flat, rota de James White, único jogador no lance livre para a recepção.

Chris Long é o jogador que consegue a melhor pressão em Brady com o speed rush, impulsionando o QB à direção de Brandon Graham, que consegue o strip-sack. A bola cai no chão e é recuperada por Derek Barnett. Os Eagles aproveitam o turnover na redzone e fecham o placar em 41 a 33.

O plano de jogo dos Eagles

Percebemos que o Eagles conseguiu a vitória no Super Bowl LII em uma situação de jogo que por muitas vezes pareceu desfavorável em determinados momentos. O maior tempo de posse de bola, o sucesso na conversão de terceiras descidas e a capitalização de pontos após drives em que parecia que o ataque dos Patriots havia entrado na partida foi essencial para que o time saísse com a vitória.

Doug Pederson explicou a ousadia na chamada das jogadas como “ser conservador é uma ótima maneira de terminar a temporada 8-8”, e o time, além de ser agressivo nas chamadas, conseguiu as converter, o que é mais importante.

Os Eagles jogaram com um quarterback reserva e conseguiram vencer os Patriots em um tiroteio. A secundária não conseguiu conter os recebedores dos Patriots (as 505 jardas aéreas não deixam mentir) e mesmo assim o time conseguiu responder em todas as instâncias do jogo.

O Super Bowl LII mostra ainda mais a importância de um coaching staff competente na construção de um plano de jogo. Pederson e sua equipe usaram a melhor arma dos Patriots contra eles, e surpreenderam mostrando leituras diferentes ao que havia passado na temporada regular. Por exemplo: no touchdown que deu a vantagem aos Eagles no final do último quarto, Zach Ertz correu uma rota slant em marcação individual, movimento que ele só tinha repetido no ano de calouro (2013).

Além do mais, tendo que responder drives de touchdowns para manter a vantagem no placar, Doug Pederson manteve a compostura e continuou apostando no plano de jogo montado, em vez de se afobar e tentar buscar Money plays que talvez estivessem marcadas do outro lado do jogo estratégico. Isso ajudou, sobretudo, a manter Nick Foles confiante e confortável a executar a melhor atuação de sua carreira.

Análise Tática #25 – Parte 4: O ataque do New England Patriots

Metamorfose. A unidade comandada por Tom Brady e coordenada por Josh McDaniels mostra, além de tudo, ser a prova do tempo e imprevisível. O time é capaz, mais do que qualquer outro na liga já foi, a ajustar adequadamente a cada adversário e explorar suas fraquezas.

O Patriots já foi um time de spread offense no início da década, aplicou bastante 12 personnel quando Rob Gronkowski e Aaron Hernández jogavam juntos, utilizou de run-heavy para vencer os Colts na final de conferência em 2014. Nos playoffs, New England utilizou bastante formações com dois running-backs contra os Titans e contra os Jaguars valeu-se bastante dos passes em rotas cruzadas.

E esse filme se repete há 18 anos. Domingo será a oitava aparição em Super Bowl da dupla Bill Belichick e Tom Brady, e na maioria delas o time manteve o grau alto de desempenho. Se nos três títulos entre 2001 e 2004 a fortaleza do time era a defesa, no Super Bowl XLIX e LII, o ataque fez seu trabalho. Esse cenário se repetirá no US Bank Stadium no domingo, com Tom Brady sendo responsável por comandar o melhor setor do time.

Estatísticas

Os Patriots conseguiram 8 touchdowns na pós-temporada, sendo 5 passados por Tom Brady e 3 corridos. Brady não foi interceptado e o único giveaway dos Patriots foi um fumble cometido Dion Lewis contra os Jaguars.

Passes para Running Backs

Utilizar os jogadores de backfield no jogo aéreo é uma arma utilizada por vários times da liga. Masterizado pela West Coast Offense de Bill Walsh, o passe para RBs é uma forma de criar uma dimensão extra para a defesa ler, aumentando as possibilidades de sucesso das jogadas.

O Patriots extrapola a dimensão do passe para RBs com o conceito jet-sweep. Trick plays são sempre pontos utilizados como inversores de fase no jogo, uma forma de “tapa na cara” do adversário.

A Jet-Sweep consiste em uma forma de passe parecido com o levantamento do vôlei. Um jogador sai em motion em direção ao quarterback, e no momento em que ele se encontra, sai o snap. O QB toca a bola com a ponta dos dedos e o ballcarrier a pega no ar. Com a bola na mão, o RB corre uma rota wheel na direção oposta do campo, como se fosse um end around.

Nesse outro exemplo, o Patriots ataca o flat a partir do playaction em uma jogada que deveria ser de passe longo mas as opções estão marcadas. Os Titans estão sem safeties por estarem preocupados com o jogo corrido nesse ponto da partida, aspecto básico do futebol americano.

Tom Brady se livra da pressão e encontra Dion Lewis para um ganho de 8 jardas.

Rob Gronkowski como eixo motor

Falar sobre como Gronkowski é bom é chover no molhado. O TE é uma aberração física, criando um matchup desfavorável em 90% das defesas da NFL, mesmo após tantas lesões.

Bill Belichick investiu no TE após a derrota contra os Jets no divisional round de 2011. A partir daquele momento, o Patriots fez a transição do spread offense para um ataque de rotas mais curtas. Como diz Chris B. Brown em “The Essential Smart Football”, Belichick usa os TEs para tornar o ataque flexível mesmo com um set pesado, sendo capaz de receber passes e bloquear com a mesma excelência.

Isso nos ajuda a entender como Belichick trata seus RBs como assets descartáveis, ao mesmo tempo em que tem apreço por seu QB e seu TE. Mesmo se não fossem talentos geracionais dentro de suas posições, as tarefas que esses dois desempenham no ataque são primordiais para a execução do mesmo. Belichick pensa primeiro nas tarefas, ter dois talentos absurdos executando as mesmas é quase como um bônus que ninguém é tolo de recusar.

Simplesmente marcar Rob Gronkowski seja individualmente ou em zona é uma tarefa quase impossível. Além disso, Belichick e Josh McDaniels ainda potencializa ao máximo as chances de seu TE na jogada chamando um slant-flats.

Aqui, basta Tom Brady mandar um backshoulder fade e esperar que seu jogador ganhe a bola na força física. Basicamente, se um jogador tentar defender esse passe, fará uma falta de interferência, colocando os Patriots na linha de gol. Exemplo de como o Patriots é tão dominante por tanto tempo, um time que além de ter bons jogadores, ainda utiliza o sistema para maximizar suas habilidades.

Ajuste às necessidades

Em boa parte do AFC Championship Game os Patriots estiveram sem Rob Gronkowski, que saiu do jogo por concussão. Em parágrafos anteriores, eu disse que Gronk é o ponto central do ataque (à exceção do quarterback), então como o Patriots conseguiu a virada sem seu principal recebedor?

Bem, é de conhecimento geral que os Patriots são o time que melhor ajusta o plano de jogo de acordo com a situação. É talvez a capacidade que mais importa pelo fato de essa dinastia durar tanto tempo. Quando Gronkowski saiu do jogo, Josh McDaniels passou a colocar em campo sets mais variados de recebedores, bem como a habilidade dos mesmos em rotas curtas. Forma semelhante à que utilizou para combater a Legion of Boom no Super Bowl XLIX.

A jogada acima mostra as rotas utilizadas no primeiro touchdown de Danny Amendola no jogo contra os Jaguars. Sem Edelman, Amendola foi o responsável por usar as rotas de opção com cortes curtos ao longo da temporada. Aqui, ele corre uma shallow cross contra uma marcação em zona, e reagindo ao posicionamento em zona dos linebackers, cruza o campo inteiro. As demais rotas têm o objetivo de atrair os jogadores dos Jaguars para o fundo da endzone.

Observe que Brady poderia ter tentado o backshoulder fade em Brandin Cooks alinhado de Split-end, mas esse é um passe de baixa taxa de conversão. Ele espera a segunda leitura e conta com Amendola ganhando jardas após a recepção para o touchdown.

O TD da virada contra os Jaguars é mais um exemplo de como Brady tem a paciência de esperar a melhor opção para o passe aparecer livre, bem como o excelente trabalho de Dante Scarnecchia com a linha ofensiva ao permitir que isso aconteça. Duas rotas dig ao fundo da endzone enquanto Cooks corre uma slant/out.

Brady espera Amendola aparecer em cima do “P de Patriots” na endzone e manda o passe perfeito, o tipo de conexão que só é possível graças à capacidade do QB de antecipar esse momento. Vitória por 24 a 20 e os Patriots vão para o oitavo Super Bowl comandados por Bill Belichick.

Pontos-chave para o Super Bowl

É tolice não considerar os Patriots como favoritos no Super Bowl LII, ao mesmo tempo que também não se deve descartar o trabalho dos Eagles. Conter o poderoso front seven dos Eagles é uma necessidade. David Andrews terá um trabalho primordial contra Fletcher Cox no A-Gap.

Ano passado em Houston vimos um Patriots que parecia despreparado (uma novidade) contra os Falcons e que conseguiu fazer história graças aos ajustes de intervalo. Esse tipo de previsão não é possível de ser feita, já que seria pretensão afirmar que os técnicos não se preparariam adequadamente para um jogo da grandeza do Super Bowl.

Com Gronkowski fora do protocolo de concussão, o TE terá sua segunda atuação na grande final totalmente saudável fisicamente, já que esteve fora ano passado e jogou machucado no Super Bowl XLVI, em Indianapolis. O terror dos matchups será mais uma vez o eixo motor dos recebedores do New England Patriots.

 

Análise Tática #25 – Parte 3: a defesa dos Eagles

A terceira parte da nossa análise sobre o Super Bowl contempla a defesa dos Eagles. A unidade coordenada por Jim Schwartz foi uma das melhores da temporada, e fator importante para o time ter conseguido a seed #1 mesmo com a lesão de Carson Wentz.

A defesa dos Eagles nos playoffs apareceu sobretudo no jogo da rodada divisional contra o Atlanta Falcons, segurando o time da Georgia a apenas 10 pontos. Nessa partida, o ponto-chave da atuação da Philadelphia foi a atuação na redzone, reduzindo Atlanta a um field goal logo no primeiro drive da partida e um touchdown três campanhas depois.

Defesa de Redzone

O primeiro drive dos Falcons estancou na redzone após 7 jogadas partindo da linha de 26 jardas do campo de defesa. Ao chegar na linha 17 do campo de ataque, os Falcons correram a primeira descida, completaram um passe de 3 jardas na segunda e um passe incompleto na terceira, resultando em um field goal de 33 jardas por Matt Bryant.

Claro que a inépcia ofensiva dos Falcons se deve muito à capacidade de Steve Sarkisian, mas aqui não vamos considerar a capacidade de Jim Schwartz de ajustar sua defesa no campo curto. Esse ajuste será importantíssimo no Super Bowl LII, pois seria inocência pensar que um ataque comandado Tom Brady não conseguirá chegar à redzone algumas vezes durante a partida. Reduzir os Patriots a field goals será substancial para que a defesa ajude o ataque dos Eagles mantenha o controle da partida.

Q1 10:38 – 1st & 10 at PHI 17

Observando a distribuição do front de Philadelphia, observamos que os Falcons parte de uma jogada com dois motions para uma formação pesada de corrida (Strong, com Levine Toilolo ao lado do LT) e uma outside zone para o weakside. Hooper e Alex Mack são os dois jogadores que pela filosofia de bloqueios em zona (“bloqueie o homem à sua frente ou ao seu lado no sentido em que vai a jogada”), atacam o segundo nível.

O único defensor que fica desbloqueado a priori é o LB Mychal Kendricks, camisa 95. Ele é o mesmo que fecha o tackle. Observe que o camisa 71 Wes Schweitzer tenta engajar um bloqueio em Kendricks, mas tarde demais e o Eagle fecha a jogada. Perda de uma jarda por Devonta Freeman.

Q2 09:58 – 2nd & 11 at PHI 18

Os Falcons tentam atacar a defesa dos Eagles com um passe rápido no flat, a partir de um conceito semelhante com o smash (forçando a barra, é verdade, mas preciso dar alguma referência). Apesar disso, Jalen Mills (camisa 31) consegue fechar o tackle marcando essa região do campo em zona.

O pass rush ataca com um 4-men-rush, porém a velocidade do passe de Matt Ryan permite que o passe fosse completo. Aqui, provavelmente era uma jogada de passe designado e o QB fez uma leitura rápida, Com 11 jardas para o first down, Mills consegue fechar bem o ângulo do tackle, evitando que Austin Hooper conseguisse contornar em direção à endzone. Ganho de três jardas, que colocou os Falcons em situação óbvia de passe.

Q1 09:14 – 3rd & 8 at PHI 15

Nessa jogada ficam claros dois pontos: a inépcia ofensiva dos Falcons em concentrar as rotas no miolo do campo, e a capacidade da defesa dos Eagles em ler rotas de opção. Esse tipo de rota não dá para ter certeza da existência e de como eles operam realmente, a menos que se tenha o playbook. Mas conseguimos ter pistas de acordo com a movimentação do wide receiver.

No nível mais simples, o WR atinge o mesh point e quebra a rota para uma direção ou outra de acordo com a marcação na região em que se encontra. Mas na maioria das vezes, o uso de rotas de opção tende a ser mais complexo que isso e exige uma coordenação de leitura absurda entre QB e WR. Em algumas situações em que vemos QBs lançando passes totalmente fora de alcance é por que provavelmente ocorreu uma falta de sintonia no sentido da leitura da opção correta.

Falando especificamente sobre a jogada, os Falcons concentraram 3 rotas cortando para a região central do campo, facilitando o trabalho da defesa dos Eagles. O backfield com formação splitbacks tem o objetivo de tentar abrir a defesa, mas não é o que acontece.

Quando a jogada se desenvolve, toda a possibilidade de Matt Ryan explorar os matchups nas rotas wheel acaba pela ferocidade do pass rush dos Eagles, e ele tem que agir rápido e procurar uma opção para soltar a bola. Ele encontra Taylor Gabriel próximo a linha de 10 jardas mas não é suficiente para converter em um novo grupo de descidas. Excelente defesa de redzone por parte dos Eagles.

A Pick Six contra os Vikings

O NFC Championship Game foi destacado pela explosividade do ataque dos Eagles utilizando a Run/Pass Option. Entretanto, a defesa dos Eagles conseguiu um touchdown quando a partida ainda estava empatada, o que ajudou a mudar o momentum.

Conceito semelhante ao dagger, enquanto a defesa dos Eagles responde com uma Cover 2-Man híbrida, com marcação individual apenas no recebedor Z, enquanto o outro lado da jogada permanece totalmente em marcação em zona. O alvo da jogada é Adam Thielen, alinhado no slot do lado direito, e executará uma rota corner.

Patrick Robinson alinhado em um espaço de 8 jardas de Thielen, dá a entender que está marcando individualmente, mas ao realizar o bump-and-run, ele permanece em zona. Keenum não percebe a mudança e lança a bola em Thielen. Robinson no meio do caminho, a intercepta e a leva para endzone.

Pontos-chave para o Super Bowl (Capitão Óbvio)

É de conhecimento geral de que a melhor forma para vencer Tom Brady é pressioná-lo pelo meio da linha. A forma utilizada por Steve Spagnuolo no Super Bowl XLII se tornou quase um mantra na mente dos adversários do New England Patriots nos playoffs desde então.

Claro que essa estratégia deu certo algumas vezes, como no Super Bowl XLII e XLVI e no AFC Championship Game da temporada de 2015, ao mesmo tempo em que o Atlanta Falcons sackou Tom Brady 5 vezes no Super Bowl LI e não conseguiu a vitória. Times como o Indianapolis Colts de 2006 e o Baltimore Ravens de 2012 conseguiram outras estratégias defensivas para vencer o New England Patriots.

Apesar disso, a melhor forma condizente com as capacidades do Philadelphia Eagles aqui é não ceder touchdowns em campanhas na redzone. Como observamos anteriormente, o time lida muito bem com coberturas híbridas. Essa habilidade da defesa de Jim Schwartz pode ser essencial no confronto de pranchetas contra Josh McDaniels.

Mesclar coberturas é essencial para dificultar a leitura de Tom Brady e principalmente não cair no erro do Atlanta Falcons e do Jacksonville Jaguars. Duas defesas fortes em marcação individual mas que na hora decisiva tiveram que mudar para coberturas em zona por causa do cansaço dos atletas. Se o Eagles conseguir marcar com a mesma eficiência das duas formas, tende a levar vantagem e ajudar o front seven a conseguir os sacks.

 

 

Análise Tática #25 – Parte 2: o ataque dos Eagles

A temporada de 2017 foi o ponto de virada do ataque do Philadelphia Eagles. Após o ano de calouro de Carson Wentz, em que houve uma clara regressão na metade final da temporada, os Eagles se tornaram o time mais quente da liga. O balanço com a defesa permitiu com que por semanas o mesmo fosse o melhor time da liga.

Semana 14 da temporada regular, lesão de Carson Wentz e todo o desdobramento que você já leu aqui, então vamos pular essa parte da história. Mas além de contar com o ótimo desempenho de um quarterback reserva, o trabalho de Doug Pederson (HC), Frank Reich (OC) e John DeFilippo (QB coach) foi de extrema importância para atenuar a queda de nível do ataque com Nick Foles.

A Run/Pass Option

Mas como esses três homens encontraram a solução mágica? Bem, imagino que o leitor tenha ouvido repetidamente na temporada regular o chamado termo RPO martelado a exaustão pelos comentaristas da televisão ou no twitter. A Run/Pass Option (ou Ridiculous Protection Offense) é uma forma de simplificar a leitura do quarterback.

Esse sistema foi uma alternativa que os treinadores, principalmente no High School ou no futebol americano universitário encontraram para produzir maiores ganhos de jarda por jogada e não massacrar jogadores novatos com leituras complexas de campo inteiro ou progressões. Os técnicos de NFL adotaram esses esquemas modernos com o mesmo objetivo, encontrar novas formas de vencer.

Na temporada de 2012, vimos a utilização da zone read option a partir de formações pistol, em que o QB lia o comportamento de um defensor específico (geralmente um edge rusher) e optava pelo handoff ao running-back ou corria ele mesmo.

Programas universitários como Army, Navy e Georgia Tech utilizam a triple-option flexbone offense, outro derivado desse conceito, baseado quase que exclusivamente em conceitos de jogo terrestre. A maioria da NCAA costuma adotar a RPO dentro de sistemas de spread offense

O processo da RPO consiste em fazer uma leitura pré-snap ou pós-snap e decidir pelo passe ou pela corrida. Uma jogada é construída adotando um sistema de bloqueios para corrida como base e um conceito de passe com recebedores espalhados pelo campo. A linha bloqueará como se fosse uma corrida e o quarterback observará a reação de um jogador específico que terá tarefa dupla na jogada. Tal atleta é chamado de conflict defender.

As leituras pré-snap em RPO

Um quarterback realiza duas leituras básicas quando trabalha em RPO: contar a relação de jogadores no box (box count read) e quantos defensores cercam a área onde estará seu recebedor primário (ratio read). Se há pelo menos um bloqueador para cada atleta no box, a situação está favorável para a corrida, portanto o QB realizará o hand off.

Caso contrário, deverá olhar para a região do campo designada e realizar contagem semelhante. Aqui, o trabalho do coordenador ofensivo na preparação pré-jogo é essencial, pois se identifica a região do passe e marca-se a hard deck line como limite, geralmente localizada a 7 jardas da linha de scrimmage. Jogadores de defesa além dessa linha não serão considerados, pois estão muito distantes para reagir a tempo e atacar a bola. Esse tipo de procedimento funciona muito bem quando a RPO é construída com conceitos de passe em screen.

As leituras pós-snap em RPO

Em jogadas de passe mais profundo, geralmente o quarterback precisará adotar uma leitura pós-snap. Nesse caso, ele deverá identificar o defensor que terá tarefas de passe e corrida na mesma jogada, outro ponto em que o coordenador ofensivo deverá ser importante.

Esse jogador em conflito tomará um movimento e com base nisso o quarterback tomará sua decisão. Se tal jogador for um linebacker ou um edge rusher, a linha ofensiva sequer precisará bloqueá-lo, tendo em vista que a dúvida sobre o que virá na jogada será o suficiente para tirá-lo de ação.

A Run/Pass Option aplicada pelos Eagles

O Eagles aproveitou a primeira jogada da partida contra os Vikings para testar a Run/Pass Option. Primeira jogada do primeiro drive e evidentemente, a defesa de Minnesota quer conter a ameaça de Jay Ajayi (DjeiAdjai) no jogo terrestre.

Essa condição é propícia para vender a ameaça da RPO, dando à defesa mais uma dimensão a se preocupar, e aumentar a complexidade dos ajustes que deverão ser feitos. Além de passe e corrida, a defesa tem a ameaça intermediária a se preocupar.

Observando a disposição dos atletas em campo, observamos Philadelphia alinhada em 11 personnel, partindo do shotgun e com um set de recebedores em 2×1. O Tight End está do lado direito e terá funções de bloqueio. Jay Ajayi está no strongside (mesmo lado que o TE) e executará uma inside zone junto com a linha.

Nick Foles fará as leituras tradicionais: observar a quantidade de safeties em campo, o posicionamento dos demais defensive backs. Dentro da Run/Pass Option, Foles realiza a box count e percebe que há mais defensores no box que bloqueadores, e a ratio read indica a situação favorável para o passe.

Antes do snap, ele precisa identificar o defensor em conflito, e aqui estamos facilitando e marcamos o mesmo com o quadrado azul. O traço laranja indica a direção que o mesmo tomará quando snap acontecer, em direção a corrida.

O snap ocorre, o defensor em conflito toma o passo em falso e Foles sabe que precisa executar o roll-out para a direita, permitindo que Nelson Agholor executa a rota shallow-cross marcada em laranja, cruzar o campo até o lado direito, em que haverá a vantagem numérica.

Terrance Newman não consegue antecipar a rota (observe os passinhos para trás) e Agholor terá a vantagem física na recepção. First down.

O contraponto: leitura tradicional

Para mostrar a diferença de análise durante uma jogada entre a Run/Pass Option e o Pro-Style, vamos observar uma jogada “normal”, em que Nick Foles executou os procedimentos que todo pocket passer deve fazer na NFL.

Observemos a disposição em campo dos atletas no touchdown longo de Philadelphia logo antes do intervalo. Os Eagles armaram um set de 3×1 recebedores partindo de um 11 personnel no shotgun. O TE Zach Ertz está alinhado em spread, como se fosse um wide receiver, ainda que no slot. Isso indica para a defesa que o mesmo provavelmente correrá uma rota.

Nesse screenshot logo antes do snap, podemos identificar os safeties em campo. Um mais próximo ao box e outro mais distante. Pela situação de relógio e descida-distância, podemos determinar mesmo sem ver as rotas desenhadas, que a jogada será um passe. Outro ponto que ajuda a confirmar isso, basta observar o posicionamento dos jogadores de linha ofensiva, em dois apoios, postura adotada geralmente para recuar e proteger o quarterback.

Quando a jogada se desenvolve, observamos que as rotas dos três recebedores alinhados na parte superior têm o objetivo de inundar o lado esquerdo do campo, atraindo a defesa para lá (conceito flood). Duas rotas out que se quebram em profundidades diferentes e uma rota go.

Do lado direito, vemos Alshon Jeffery vendendo ao seu marcador uma rota post que termina na linha de 35 do campo de ataque. Como o defensor reagiu a esse hook up, Jeffery aproveita-se para criar a separação em direção ao fundo do campo.

Agora concentremos as nossas atenções em como Nick Foles observa o front dos Vikings. É essencial ao trabalho de todo quarterback identificar as techniques dos jogadores de linha defensiva, o que o ajudará a determinar de onde virá a pressão.

Antes do snap, Foles ajusta a pressão, indicando ao left tackle para atentar-se ao speed rush de Everson Griffen. Minnesota tem dois rushers alinhados abertos, formando a wide-9 tech, estância típica de quando o front tem certeza de que vai defender o passe. Danielle Hunter ainda se desloca em stunt para o A-gap, buscando confundir os bloqueios, mas é contido pelo center Jason Kelce, que estava flutuando entre os assignments.

No pass-block tradicional, geralmente os jogadores de linha ofensiva bloqueiam regiões que formam um semicírculo em volta do quarterback. Se algum jogador de defesa estiver pressionando o QB dentro desse determinado ângulo, o jogador de OL responsável pelo tal deverá efetuar o bloqueio. Os stunts são exatamente criados para confundir os bloqueadores quanto a suas tarefas, mas aqui não foi o caso, pela excelente linha ofensiva dos Eagles, mesmo com o desfalque do LT titular Jason Peters.

Voltando ao comportamento de Nick Foles na jogada, observe como ele mantém a cabeça virada para sua esquerda enquanto navega pelo pocket. Enfrentando uma cover 3, ele tenta atrair o safety do meio àquela direção. Foles quase sofre o sack por Griffen, mas ele consegue escalar o pocket até o ponto amarelo e se livrar dos rushers. Nesse momento, ele vira o rosto para a direita e conecta a big play com Alshon Jeffery.

Observando o desenvolvimento da jogada em campo aberto, conseguimos compreender que é nesse momento em que Jeffery consegue a separação em direção à endzone. TD e os Eagles viravam a partida antes do intervalo.

Run/Pass Option versus Pro-Style

Apesar de RPO ser o termo da moda e diferentes técnicos na liga estarem utilizando conceitos em seus playbooks, a leitura em estilo profissional ainda será por muito tempo a mais adequada a se vencer na liga. Dificilmente, veremos um time executar as jogadas de opção como base de seus ataques, mas é claro que essa nova dimensão dada ao jogo merece ser explorada, criando novas formas de vencer os oponentes.

Contra os Patriots, será essencial que o ataque comandado por Doug Pederson saiba executar bem as jogadas de opção e dosá-las na quantidade correta quanto aos conceitos profissionais. A defesa de Bill Belichick é a que melhor se prepara contra o adversário na liga, ainda mais quando o técnico tem duas semanas para explorar jogos anteriores e detectar tendências.

Nenhum time é capaz de vencer os Patriots jogando bem apenas de um lado da bola. A relação de interdependência entre ataque e defesa dos Eagles será importantíssima para que o time consiga manter Brady fora de campo e construir vantagem no placar. Para isso, o time precisará executar suas jogadas, no sistema que for, em um nível próximo a perfeição.

Análise Tática #25 – Especial Super Bowl LII

O ápice da temporada, o maior evento esportivo anual do planeta. O Super Bowl LII em Minneapolis está definido e será o confronto entre o New England Patriots e o Philadelphia Eagles.

Enquanto os Patriots buscam o sexto título de sua história, os Eagles buscam seu primeiro na era Super Bowl. Vencedores nas edições XXXVI (2001), XXXVIII (2003), XXXIX (2004), XLIX (2014) e LI (2016), o time de Massachusetts busca o título em anos consecutivos pela primeira vez desde 2004.

A principal força do time de New England é o ataque comandado pelo QB Tom Brady (prazer, Capitão Óbvio), líder na maioria das estatísticas avançadas, e provavelmente será anunciado MVP no sábado anterior à final.

A defesa do time teve momentos de dúvidas após a lesão de Dont’a Hightower e pela instabilidade do pass-rush. Nos playoffs, a unidade coordenada por Matt Patricia contornou as dificuldades e apareceu em momentos importantes contra Tennessee e Jacskonville, em que pese ter enfrentado ataques pouco explosivos.

Já o Philadelphia Eagles, melhor time da temporada regular, contornou lesões em posições importantes (QB Carson Wentz, LT Jason Peters, RB Darren Sproles e LB Jordan Hicks) e finalizou a primeira posição da NFC.

Nos playoffs, os Eagles contaram principalmente com sua defesa para vencer os Falcons e com a excelente atuação de Nick Foles para bater os Vikings.

Em razão do ponto máximo da temporada, a análise tática das próximas duas semanas virá em textos separados para cada unidade de cada time, (à exceção do special teams). Dois por semana. O espaço amostral da análise será determinado pelas duas partidas de cada time nos playoffs. Confira cada análise nos links abaixo:

Análise Tática #25 – Parte 1: A defesa dos Patriots

Por boa parte da temporada regular, a defesa dos Patriots foi alvo de críticas da torcida e dos especialistas – principalmente após as lesões do calouro Derek Rivers e de Dont’a Hightower, discutivelmente melhor jogador da unidade.

As atuações instáveis de Stephen Gillmore e Malcolm Butler, bem como a fragilidade do pass rush e dos linebackers em rotas laterais foram motivos de preocupação em Foxborough, mesmo que nós saibamos que no final das contas, Bill Belichick sempre encontra um jeito de fazer a unidade produzir.

As estatísticas

Contra Tennessee no divisional round o principal número a se mencionar é os oito sacks obtidos contra Marcus Mariota. Foram 61 jogadas e 27min04s em campo por 10 campanhas, cedendo 65 jardas terrestres em 16 tentativas. Foram 202 jardas aéreas em 22 passes completos de 37 tentados.

Contra Jacksonville no AFC Championship Game, a defesa passou 35min08s em campo, em 71 jogadas divididas em 12 drives. Foram 101 jardas terrestres em 32 tentativas e 273 jardas aéreas em 23 passes completos de 36 tentativas. Dessa vez, foram 3 sacks.

Apesar de boas atuações, em nenhuma das duas partidas a defesa dos Patriots forçou turnovers.

A importância dos sacks contra Tennessee

A defesa dos Patriots colocou o ataque de Tennessee em quinze situações de terceira descida, permitindo apenas cinco conversões.  Dos oito sacks, dois foram nessas ocasiões, em que a defesa forçou os punts.

Em uma unidade em que nenhum jogador é exatamente uma estrela da liga, New England se sobressai principalmente pela leitura pré-snap de cada jogador e a dedicação dos mesmos em cumprir sua função na jogada. Tennessee alinha seus recebedores em um set 2×2 em stack formation, concentrando a defesa no meio do campo.

Observe que o safety Patrick Chung lê o motion de Delanie Walker e o acompanha, dando a entender que o mesmo estará em cobertura individual contra o mesmo, apesar de seu posicionamento de quadril dizer o contrário.

Observe também que o jogador marcado com uma estrela (Corey Davis) está cercado por pelo menos três jogadores de New England. Esse sistema de cobertura é constantemente utilizado por Belichick e Patricia para anular recebedores velozes dos adversários. Pelo menos dois jogadores irão marcar o principal WR em uma combinação de marcação individual e zona half, semelhante à cobertura cover 2-man, porém acontecendo em apenas um lado do campo..

No momento em que a jogada se desenvolve, a secundária rotacional de um desenho de cover 2 para uma cover 1, com todas as rotas tendo pelo menos um jogador marcando individualmente. É como se New England tivesse uma superioridade numérica na cobertura, portanto, nenhuma rota dará uma janela de passe confiável para Mariota.

No front, temos os seguintes alinhamentos de techniques (9-0-3-8), enquanto o defensor na 3-tech (Rufus Johnson) ficará de QB-Spy em Mariota. Trey Flowers na 9 tech é o jogador que traz a pressão pelo speed rush, forçando Mariota a escalar o pocket. O espaço preenchido por Rufus Johnson tira a possibilidade do scramble de Mariota e ajuda a Deatrich Wise a fechar o sack.

Como mostramos no texto sobre a defesa do Jacksonville Jaguars, esse é um tipo de sack obtido graças à excelente cobertura, o chamado sack-coverage.

O cover 2-man aparece empregado em sua totalidade nessa jogada no terceiro quarto, o segundo sack em terceira descida conquistado pelo New England Patriots. Pela situação, consideremos que o alvo principal seja Delanie Walker no meio do campo, por ser o recebedor mais confiável e ter o melhor matchup em tese.

Walker é marcado de forma individual, enquanto no flat do lado esquerdo de campo, o esquema de cover 2 anula o checkdown de Marcus Mariota. Ele novamente está sem opções para passar a bola, enquanto enfrenta um 3-men rush com spy. Observemos o front de New England.

Dessa vez a linha varia o alinhamento das techs para 9-4-0-8, com o defensor na 4-tech em QB Spy. Com o objetivo de prender Mariota no pocket, o flat do lado esquerdo está coberto por uma marcação em zona, enquanto no lado com a marcação individual, está justamente posicionado o espião. Além disso, esse é o lado em que a pressão vem pelo speed rush.

Adam Butler (#70) ataca pelo A-gap do lado direito da linha enquanto Kyle Van Noy (#53) permanece em spy. Essa combinação é suficiente para gerar pânico em Mariota e fazer com que o mesmo tire o olho de suas progressões. Mais um sack em terceira descida.

Os ajustes contra o jogo corrido de Jacksonville

É de conhecimento geral que o ataque do Jacksonville Jaguars é uma unidade predicada ao jogo terrestre. Como mostrado anteriormente, foram 101 jardas em 32 tentativas, uma média 3.2 jardas por corrida, abaixo do ideal de 4 YPC (yards per carry). Considera-se tal valor para determinar que o jogo terrestre de uma unidade foi bem aplicado durante a partida.

Essa jogada no segundo quarto mostra como o Jacksonville Jaguars estava utilizando conceitos de misdirection para utilizar o jogo corrido de Leonard Fournette. O misdirection aplicado ao jogo terrestre tem o objetivo de tirar alguns jogadores da defesa da direção da jogada.

Aqui, os jogadores alinhados em trips-bunch se deslocarão para a direita, atraindo os defensores marcando em zona para aquele lado. O movimento de Blake Bortles vendendo o draw ajuda a dar veracidade a essa tentativa.

A corrida se desenvolve como uma outside zone para o lado direito, com Fournette atacando o espaço entre o left guard e o center (A-Gap). Observe que ficam apenas 5 jogadores do lado em que se desenvolve a jogada, e apenas o safety Patrick Chung não está bloqueado, podendo reagir ao tackle. Fournette consegue ganhar 13 jardas na jogada, em drive que terminaria em touchdown para os Jaguars.

Observemos agora os Jaguars realizando uma inside zone no início do último quarto da partida, quando os Patriots buscavam a virada no placar. Conter Leonard Fournette e Corey Grant foi um dos pontos chave para que o Patriots tivesse tempo de relógio, considerando o jogo quase limpo em termos de turnovers (apenas Myles Jack forçou um fumble em drives anteriores).

O leitor já deve estar familiarizado com o sistema de zone blocking, o jogador bloqueará o adversário à sua frente ou ajudará o bloqueio ao seu lado na direção em que a jogada se desenvolve, de olho na possibilidade de atacar o segundo nível da defesa.

Observe pelo alinhamento dos recebedores, que os Jaguars tentarão repetir o misdirection. Mas provavelmente pela análise de tendências e situação da partida, os Patriots basicamente sabem que será uma corrida. Bill Belichick se sobressai como técnico exatamente nesse ponto, New England quase sempre faz os ajustes corretos no segundo tempo de jogos importantes, mesmo nas derrotas.

Malcom Brown consegue fechar o tackle a partir da 0-tech, após receber apenas o bloqueio do center de Jacksonville. Com os linebackers fechando as opções no mesh point de Fournette, o mesmo não consegue ganhar mais que duas jardas.

Uma unidade que mesmo sem jogadores de elite é capaz de ajustar tão bem graças à competência de seu coaching staff. Essa capacidade foi importante para os Patriots diante dos Falcons no Super Bowl LI e deverá ser novamente fundamental em Minneapolis.

Dessa vez, Belichick e Matt Patricia deverão estar atento a uma arma que já os derrotou na temporada, a Run-Pass-Option, dessa vez empregada pelos Eagles.

Análise Tática #24 – Rodada Divisional: A defesa do Jacksonville Jaguars

Chegamos à rodada divisional dos playoffs da temporada de 2017 da NFL, também conhecida como semifinais de conferência. No último domingo, o Jacksonville Jaguars avançou ao AFC Championship Game após uma vitória contra o Pittsburgh Steelers por 45 a 42.

Mesmo cedendo 42 pontos, a defesa de Jacksonville fez jus a reputação de melhor da NFL, principalmente contra um ataque poderoso como dos Steelers (falamos sobre o mesmo aqui). Utilizamos esse texto como referência, e agora vamos entender como a defesa comandada por Doug Marrone dificultou a vida de um ataque lotado de skill players como Pittsburgh.

O Depth Chart

A defesa majoritariamente montada por Gus Bradley atingiu seu potencial na gestão de Doug Marrone e Tom Coughlin, e coordenada por Todd Wash.

Fonte: ESPN

As adições de Marcell Dareus, Barry Church, AJ Bouye e Calais Campbell, possível jogador defensivo do ano, tornaram assustadora uma defesa que já tinha potencial para ser uma das melhores da liga. Foram 21 interceptações, 2 delas retornadas para touchdown, 17 fumbles forçados, 5 deles retornados para touchdown, e 55 sacks.

Em termos de estatísticas avançadas, a defesa dos Jaguars foi a primeira em DVOA (-16,1%), a quarta em Defesa Ponderada (-13,0%), essa estatística considera a importância maior dos últimos jogos da temporada. Ainda falando em DVOA, temos os Jaguars como primeiros em defesa contra o passe (-27.5%) e vigésimo-sextos contra a corrida (-2,8%).

Agora, uma estatística fornecida pelo Football Outsiders que eu gosto muito e ajuda a contextualizar as mencionadas no parágrafo anterior: a defesa dos Jaguars foi a vigésima-nona em variância (7,6%). Essa estatística mede a consistência do time, e combinada com o DVOA, podemos determinar que a defesa teve vários jogos excepcionais e outros na média.

DEF. DVOA

DEFESA PONDERADA RANK DEFESA PASSE RANK PASSE DEFESA CORRIDA

RANK CORRIDA

-16,1% -13,0% 400,0% -27,5% 1,0% -2,8% 26,0%

Não-Ajustado

VAR RANK FORÇA DE TABELA (DVOA) RANK
TOTAL PASSE

CORRIDA

-19,0% -32,5% -3,4% 7,6% 29,0% -5,1% 31

Individualmente, o destaque vai para Calais Campbell, com 14,5 sacks e Jalen Ramsey, com 4 interceptações e 7 passes desviados. Ambos foram selecionados para o 1st team All-Pro. Além deles, Malik Jackson e AJ Bouye foram selecionados ao Pro Bowl.

Estatísticas da partida

Contra os Steelers, a defesa dos Jaguars permaneceu em campo por 31 minutos e 10 segundos 78 jogadas ao todo, forçou 2 turnovers e cedeu 28 first downs. Foram 462 jardas de passe em 37 passes completos de 58 tentados e 83 jardas em 18 corridas. Dados obtidos pelo game chart da ESPN.

O Steelers sempre esteve atrás do placar, o que explica o desequilíbrio na proporção passe-corrida. Ben Roethlisberger teve 8,61 ANY/A (Adjusted Net Yards per Attempt), valor acima da média cedida pelos Jaguars durante toda a temporada.

Estatisticamente, pode parece não ter sido a melhor partida pela defesa dos Jaguars, em que pese o valor da variância apresentada pelo time ao longo da temporada. Entretanto, essa unidade apareceu em momentos-chave, forçando sacks e turnovers em drives que ajudaram o time a manter sempre a vantagem no placar.

Sacksonville

Os sacks conseguidos pela defesa de Jacksonville contra os Steelers reforçam bem a relação de mutualismo entre front e secundária. O conceito de sack-coverage se estabelece quando a cobertura atua tão bem ao não deixar espaços livres no fundo de campo que a linha ofensiva adversária não consegue segurar o pass rush. O quarterback não tem opções para se livrar da bola e sofre o sack.

Observe o que a defesa causa com as rotas internas, ambas são direcionadas ao mesmo ponto, tirando de questão duas opções. Myles Jack em zona acompanha LeVeon Bell, anulando o checkdown. Roethlisberger faz um 3-step dropback, tenta navegar pelo pocket até o momento em que é sackado por Yannick Ngakoue. A bola escapa e Telvin Smith a retorna para touchdown.

Pela visão do front, observa-se que temos dois defensores alinhados em 9-tech (Campbell e Ngakoue) contra o empty backfield dos Steelers.

Ngakoue vende o speed rush para Villanueva, quebra para dentro e consegue arrancar a bola de Roethlisberger pelas costas.

O segundo sack da partida, acontecido quando o placar estaca 28 a 7 para Jacksonville, desenha-se da seguinte forma:

Novamente um conjunto de rotas longas tentando atacar o meio do campo, que os Jaguars marcam rotacionando um conceito de cover 2 a partir de uma cover 1. Roethlisberger se concentra no lado esquerdo do campo e perde o TE Vance McDonald aberto no flat. Observe como os Jaguars não têm medo de deixar alguns pontos do campo abertos em prol de conter os skill players de Pittsburgh.

O front novamente está alinhado em wide 9 technique (Dante Fowler Jr. e Yannick Ngakoue). Fechando a linha defensiva, temos Calais Campbell em 4-tech e Marcell Dareus em 3-tech.

Calais recebe um double team do center e do left guard, abrindo espaço para Dareus invadir o backfield com um corte para dentro. Big Ben não consegue se livrar da bola e aceita o sack.

Interceptação

Agora vamos analisar a jogada da interceptação de Myles Jack sobre Bem Roethlisberger quando o placar ainda marcava 7 a 0 para Jacksonville.

O ataque dos Steelers se alinha em seu tradicional 11 personnel, tendo LeVeon Bell alinhado do lado forte e um set de recebedores em 2×1. A leitura aqui se dá entre o TE Jesse James e o WR Juju Smith-Schuster. Rotas out e dig, respectivamente, que se cruzam e se quebram em amplitudes diferentes do campo.

Jesse James reconhece Myles Jack como seu marcador e tenta fazer o bump-and-run no momento da quebra de rota, porém o linebacker conta com seu atleticismo e se recupera na marcação, tendo tempo de saltar em direção à bola no momento em que o passe chega.

Para deixar a jogada ainda melhor, Myles Jack ainda mostra seu controle de corpo e concentração para pegar a bola desviada por si mesmo e pisar com os dois pés dentro de campo.

Análise Tática #23 – Wild Card: os pontos chaves para a virada do Tennessee Titans

Finalmente chegamos aos playoffs. No último sábado, o Kansas City Chiefs foi eliminado mais uma vez no Arrowhead Stadium após uma boa temporada, assumindo o papel de seleção mexicana da NFL, em seu mote “jogamos como nunca, perdemos como sempre”.

E dessa vez, foi com requintes de crueldade. 21 a 3 no primeiro tempo, grande exibição, ataque produzindo bastante jardas e jogo corrido engrenado. A defesa dos Titans comandada por Dick LeBeau não conseguia respostas, enquanto o ataque comandado por Marcus Mariota parecia mal preparada e desenhada.

No segundo tempo, tudo mudou: os Titans anotaram 19 pontos seguidos, enquanto a defesa não cedeu nada aos Chiefs, 22 a 21 na primeira vitória de pós-temporada de Marcus Mariota. O técnico Mike Mularkey inclusive pensou que seria demitido, enquanto o time ganhou uma sobrevida para enfrentar o New England Patriots na rodada divisional.

Domínio dos Chiefs

O primeiro tempo foi marcado pelo ataque dos Chiefs dominando a defesa dos Titans em todos os pontos do jogo, principalmente com o TE Travis Kelce. O ataque coordenado por Matt Nagy partiu principalmente do 11 personnel. Nagy costuma posicionar Kelce em diferentes pontos do ataque, como X, Y e Z, geralmente utilizando motion para fornecer leituras defensivas ao QB Alex Smith. Esse comportamento é comum em times com TEs dominantes.

Na imagem acima mostra-se a primeira conversão de terceira descida do jogo. Jogada desenhada para Travis Kelce sair do motion e ajudar Alex Smith detectar a marcação. Junto com a posição do quadril dos CBs e o acompanhamento de um jogador, Smith sabe que encara uma cobertura mano-a-mano.

O desdobramento dessa leitura pré-snap é que Kelce provavelmente terá vantagem em relação a seu marcador devido ao atleticismo. O TE executa uma rota de double move que eu chamo de slant-corner (na realidade esse nome é um conceito, como o curl flats do Madden), provavelmente o corte para fora é devido à sua leitura de opção. Smith coloca a bola no ombro de fora, ponto que apenas Kelce consiga alcançar. Novo set de downs.

Aqui, cabe-se o fato de que devido ao cushion dado pelos safeties na marcação em zona, Kelce fica em marcação individual. Adoree’ Jackson percebe e larga Tyrek Hill para fechar o tackle e evitar um ganho maior que 14 jardas.

A defesa dos Chiefs segurou o ataque dos Titans. Novamente em uma terceira descida, o Chiefs apresenta um shotgun em 11 personnel.

O interessante dessa jogada, que dependendo da progressão que Alex Smith faça na jogada, ela pode ser um conceito smash, levels ou mesh. Aqui, pela situação descida/distância, Smith enfrenta um 3-men rush e se concentra nas rotas internas, definindo o conceito mesh.

Mariota a ponto de ter o passe desviado.

Tyreek Hill quebra os tackles, conta com o bloqueio de Kareem Hunt na rota wheel e consegue um ganho de 45 jardas. Big play responsável por ditar o ritmo do drive que terminou com o primeiro touchdown da partida.

A defesa dos Chiefs forçou mais um 3-and-out, e o ataque novamente capitalizou. Após um drive de 6 jogadas, 3 delas com ganho maior que 15 jardas. A pontuação veio com um ganho de 13 jardas em uma 1st & 10 na redzone, ainda no primeiro quarto.

Travis Kelce parte da posição de 3 apoios na rota seam, a preferida dos TEs dominantes, pois é impossível defender contra um lob-pass. Contra um LB e um safety, Alex Smith coloca o passe acima da cabeça de Kelce, que faz a recepção. As rotas espalhadas para as laterais criam esse mismatch, deixando o meio do campo livre.

O domínio defensivo dos Chiefs

Como mencionado repetidas vezes, a defesa dos Chiefs forçou 3 punts, conquistou uma interceptação e cedeu apenas um field goal. Vamos observar a jogada em que Marcus Peters intercepta Marcus Mariota quando o placar estava 14 a 0 para o time de Kansas City.

Os Titans tentam aplicar um tipo de Strong flood em que três rotas out e uma rota dig quebram em regiões diferentes do campo, criando camadas de leitura (tal como o conceito levels) para o QB. Aqui, a progressão provavelmente é entre as rotas dos recebedores no lado forte da linha (direito).

O recebedor mais aberto tentará atrair Marcus Peters até o fundo da endzone enquanto Delanie Walker quebrará a rota na altura da linha de 5 jardas. A jogada dá errado por que Peters (marcando em zona, repare como os quadris estão voltados para o meio do campo) reconhece o padrão e percebe que o passe vai na direção de Walker, pula na rota e faz a interceptação.

Um ball placement abaixo do desejável por Mariota permite que Marcus Peters alcance a bola.

Os ajustes ofensivos de Tennessee

No segundo tempo o jogo mudou. Em parte, devido à concussão de Travis Kelce, o Kansas City Chiefs não conseguiu manter o poderio ofensivo mostrado na primeira etapa, além do fato de que o coordenador ofensivo Matt Nagy ter limitado Kareem Hunt a cinco carregadas. Não se tira a bola do seu melhor jogador quando se está ganhando o jogo, ainda mais quando o mesmo é um running back.

Na parte defensiva, Dick LeBeau ajustou seus esquemas de pressão a Alex Smith, ao contrário do que estava tentando na primeira etapa. Smith não é exatamente o QB mais prolífico da liga, então algumas blitzes pontuais eram necessárias para dar uma nova leitura ao QB, tentar deixá-lo desconfortável no pocket. No primeiro tempo de jogo, Tennessee tentava pressionar Smith na maioria das vezes com 3-men-rush, e o QB encontrava jogadores livres devido ao tempo disponível no pocket.

No ataque, Marcus Mariota finalmente apareceu para jogar. O QB vindo de Oregon fez exatamente o que se espera de um líder de um time no momento de maior necessidade. Criou jogadas com as pernas, conectou bons passes e mesmo bloqueou na jogada que selou a vitória.

Tennessee virou a relação de posse de bola, passando a comandar campanhas ofensivas mais longas, da mesma forma em que a defesa conseguia tirar Kansas City de campo mais rapidamente. Os Titans abriram o terceiro quarto com uma campanha de 15 jardas e quase 10 minutos que acabou em touchdown, o cenário dos sonhos para qualquer bom ataque.

Os Titans executam o conceito levels, porém a defesa de Kansas City marca todas as rotas individualmente e obriga Marcus Mariota a ir para o checkdown. Contra um 4-men-rush, o QB consegue permanecer no ponto ótimo de proteção e conecta o passe.

Pela “teoria do cobertor curto”, como as rotas principais estavam bem marcadas, isso logicamente abriu um espaço para que Derrick Henry conquistasse muitas jardas com as pernas, 29 ao todo. O drive terminou no touchdown de Mariota em que ele recepcionou o próprio passe defletido pela defesa de Kansas City e se atirou no pylon.

Em seguida, os Titans tiveram sorte ao Harrison Butker perder um field goal em um drive vindo de um turnover de special teams. Os Titans capitalizaram com touchdown, reduzindo a vantagem para 5 pontos.

Pelo texto em que demonstramos o plano de jogo dos Steelers, o leitor já deve conhecer o conceito trap. Um jogador de linha ofensiva, geralmente o guard bloqueia no lado oposto ao seu em relação ao center, na direção em que se desenvolve a jogada. Aqui, vemos Josh Kline realizar esse papel.

 

Observando a jogada de frente, observamos que Kline engaja seu bloqueio no camisa 21, enquanto a linha se desloca para a direita. O gap criado ocorre bem na direção da hashmark esquerda. Alcançando o mesh point em velocidade, Henry toma a leitura bang. Nenhum defensor é capaz de alcançá-lo e o touchdown acontece.

Na jogada que resultou a virada no placar, observamos que Terry Robiskie –coordenador ofensivo – desenha duas rotas para a mesma direção, com Eric Decker e Delanie Walker. Em quesito estratégico, isso dificulta o trabalho de Mariota, pois concentra os dois safeties para a direção da bola, em vez de abrir o espaço no meio do campo.

Aqui, Mariota conta com o excelente trabalho da linha contra um 4-men-rush e coloca o passe em uma ótima posição, resultando em touchdown. 22 a 21, a virada aconteceu.

Ajustes defensivos de Tennessee

Para exemplificar como Dick LeBeau trabalhou a defesa no segundo tempo, vamos observar uma jogada chave de passe incompleto, stop que antecedeu o drive do touchdown da virada pelos Titans.

Os Chiefs tentam realizar uma conversão rápida de um 3rd & 2 com uma slant simples. Por causa do press coverage, a rota fica fora de timing com Alex Smith, enquanto o recebedor tenta improvisar indo um pouco mais fundo no campo. O single-high safety reage bem na jogada e fecha a linha de passe.

Após uma virada improvável, Tennessee tem mais uma dura tarefa ao enfrentar os Patriots em Foxborough, onde não perdem em um jogo de playoffs desde o AFC Championship Game da temporada de 2012.

  • Diego Vieira será Titans desde criancinha no próximo sábado.

Análise Tática #22 – Os seis anos de Chuck Pagano – Parte 2

A estadia de Chuck Pagano em Indianapolis foi tão absurda que precisamos dividir essa análise em duas partes. Segue a primeira.

A temporada de 2014

Andrew Luck e o Indianapolis Colts como um todo tiveram seus melhores desempenhos em 2014. Atingindo 40 TDs e mais de 4000 jardas, Luck jogou como MVP em seu terceiro ano, e sequer entrou na conversa por causa de um Aaron Rodgers espetacular, principalmente no baixo número de turnovers.

A partir de então tornou-se mais claro que o Colts era um time atrapalhado por sua comissão técnica. Pep Hamilton era criticado pelo baixo desempenho do time na redzone e Greg Manusky principalmente nas derrotas produzidas em shootouts: 42-20 contra os Patriots em Indianapolis, 34-51 contra os Steelers em Pittsburgh, 07-42 contra os Cowboys em Dallas. Além disso, o Colts perdeu as duas primeiras partidas da temporada contra os Broncos (24-31 após sair perdendo por 24-0) e Eagles (30-27 após sair vencendo por 6-20), o que viria a ser cotidiano desde então.

Apesar da grande temporada no geral, os pontos negativos foram bem agravantes: várias partidas com inícios lentos (3-and-out nos primeiros drives), defesa mal preparada contra bons QBs, péssima execução na redzone, além da recorrente instabilidade da linha ofensiva. O placar não mostra, mas o time sofreu em algumas vitórias que deveriam ser fáceis, como os Browns e o segundo jogo contra os Texans.

Em nenhum dos 16 jogos da temporada regular de 2014 o Colts teve seu drive inicial da partida terminando em touchdown. Em cinco partidas foram field goals, e no restante muitos punts e turnovers. Basicamente, o time precisou correr atrás do placar na maioria dos jogos, o que diminui o balanço de snaps com jogo corrido, e restringe as possibilidades do plano de jogo.

Como Pep Hamilton é da escola West Coast, provavelmente as jogadas de Indianapolis no início da partida eram previamente designadas, desconsiderando o que o adversário colocava em campo. Outro ponto que prejudicou o desenvolvimento dos drives iniciais foram os erros mentais: muitas faltas de false start holding prejudicavam o andamento.

O problema de ritmo no ataque

Para exemplificar, observe o three-and-out dos Colts contra os Patriots na semana 11 de 2014:

O Colts utiliza um set de 3 WRs, um TE (Coby Fleener) e RB (Trent Richardson), todos alinhados em um conjunto que seria 5 WR. O objetivo é atacar o fundo do campo. Com o lado direito mais carregado, o Colts tenta induzir a defesa dos Patriots àquele lado. O erro aqui é que nenhuma rota ataca o lado esquerdo, abrindo a defesa. O Patriots responde em um conjunto de zonas e anula todas as rotas.

Enquanto isso, o defensive tackle vence seu duelo contra o center e desmonta o pocket, obrigando Luck a ir para o scramble, ganho de 4 jardas.

Na jogada seguinte, uma formação big com twin-TEs, terminando em ganho de 1 jarda de Trent Richardson.

Na terceira jogada, Pep Hamilton mais uma vez tentou atacar a defesa dos Patriots com um conceito de rotas verticais, que responde anulando TY Hilton com a combinação de press coverage e uma marcação em zona no fundo do campo.

Luck realiza sua progressão em leitura hi-lo e termina fazendo o checkdown.

Pep Hamilton tinha problemas para estabelecer um ritmo no ataque dos Colts com suas chamadas, o time era muito dependente de big plays para progredir em campo, e, quando chegava à redzone, estancava exatamente pelo curto espaço de campo. A falta de um jogo terrestre mínimo tornava as coisas ainda mais unidimensionais.

Essas situações criaram um cenário de risco para o jogo de Andrew Luck: sendo obrigado a atacar o campo, o QB conseguiu sua melhor temporada em jardas e TDs, ao mesmo tempo que voltou a crescer em número de turnovers.

Os problemas contra o jogo terrestre

Como mostramos com exemplos de 2012, a defesa dos Colts ainda era muito soft contra a corrida, e Bill Belichick aproveitou-se disso nas duas situações que enfrentou Indianapolis. Na temporada regular, o desconhecido Jonas Gray anotou 4 TDs corridos em pleno Lucas Oil Stadium.

No AFC Championship Game em Foxborough, LeGarrette Blount teve 30 carregadas para 148 jardas e 3 TDs. Comecemos a observar os problemas defensivos do Colts analisando a corrida mais longa de Blount no jogo, para 22 jardas.

O Patriots executa uma outside zone partindo do 22 personnel, indicando uma formação clara de corrida, que mesmo assim o Colts não conseguiu parar. Há pelo menos dois momentos em que a jogada poderia ser encerrada antes de se tornar uma big play. Mesmo preenchendo os gaps de forma correta, nenhum dos jogadores consegue fechar o tackle.

Retira-se essa jogada das estatísticas e ainda temos 29 carregadas para 126 jardas, resultando em 4,34 jardas por tentativa. Mais de um first down a cada 3 jogadas.

A temporada de 2015

O quarto ano do regime Pagano começou com a ilusão de que o Colts seria Super Bowl contender, mesmo o vídeo do jogo contra os Patriots na final de conferência mostrando o contrário.

O pior é que Jim Irsay acreditou e contratou vários veteranos para legitimar esse processo: WR Andre Johnson, RB Frank Gore, G Todd Herremans e OLB Trent Cole chegaram por contratos elevados, embalados pelo win-now. No Draft, Ryan Grigson pensou que nomes como Malcom Brown, Landon Collins, Erick Kendricks não eram bons o suficiente e escolheu Phillip Dorsett, WR de Miami.

Um time com problemas de trincheiras resolveu que a melhor solução era lotar o elenco de skill players, e a realidade de setembro provou que isso foi uma estratégia equivocada. Nos dois primeiros jogos da temporada, Rex Ryan (Bills) e Todd Bowles (Jets) não se intimidaram em atacar Luck com blitzes e capitalizar com erros.

Foram cinco interceptações e três touchdowns em dois jogos. Para exemplificar, vamos observar como as blitzes de Todd Bowles fizeram Luck cometer erros de leitura e como Pep Hamilton não ajustava o esquema para se aproveitar disso.

Hamilton mais uma vez desenha um conceito de rotas longas para iniciar o jogo, enquanto o RB não percebe a blitz chegando pelo lado esquerdo, deixando Luck em apuros.

Andre Johnson não consegue se livrar do press coverage e o timing com Luck é prejudicado. Ele toca a bola e a deixa no ar, interceptada por Buster Skrine.

Problemas de constante pressão contra blitz e rotas longas resultaram na lesão de Luck na semana 3 contra os Titans, que o tirou dos jogos contra Jacksonville e Houston. Luck voltou contra Patriots (o clássico jogo do fake punt), Saints, Panthers e Broncos, quando sofreu a lasceração de rim que o tirou do restante da temporada.

A temporada de 2015 foi atípica, record de 2-5 com Luck em campo e 5-3 com Matt Hasselbeck. Ao todo 10 QBs estiveram no roster de Indianapolis, sendo que além dos dois, Charlie Whitehurst, Josh Freeman e Ryan Lindley também tiveram snaps.

A ineficiência ofensiva dos Colts resultou na demissão de Pep Hamilton após a semana 6 contra os Panthers, e o cargo de coordenador ofensivo dos Colts foi assumido por Rob Chudzinski.

A temporada de 2016

Finalmente chegamos ao ponto em que a habilidade de Andrew Luck não foi mais suficiente para esconder a deficiência técnica dentro de campo e de planejamento dos Colts.

Apesar do segundo melhor ano estatisticamente do quarterback, foram oito derrotas, algumas delas com o que o time podia fazer de pior, como ceder 54 jardas em 35 segundo contra os Lions, ceder 14 pontos seguidos contra Brock Osweiler após estar vencendo por 23-9.

Além disso, o Colts perdeu jogos importantes contra Houston em Indianapolis e Oakland, quando possuía chances de tomar a liderança da AFC South, mesmo com campanha medíocre. Por toda a temporada, Luck teve sessões de treino limitadas devido ao que depois descobrimos ser sua lesão no ombro que o segura até hoje, além de perder o jogo de Thanksgiving na semana 12 por concussão.

Mesmo draftando Ryan Kelly na primeira rodada e ter contratado Joe Philbin para técnico de OL, Luck sofreu 15 sacks nos quatro primeiros jogos, 5 contra Denver e 6 contra Jacksonville. Em contrapartida, a OL melhorou bastante nos bloqueios de jogo terrestre e Frank Gore conquistou 100 jardas em um jogo algumas vezes, fato que não ocorria desde 2012 com Vick Ballard na semana 17.

Após Irsay renovar os contratos de Pagano e Ryan Grigson por 4 anos em janeiro de 2016, a temporada acabou com a demissão do GM. Chris Ballard foi contratado e mesmo assim obrigado a manter Chuck Pagano em 2017.

A temporada de 2017

A offseason de 2017 foi preenchida pela dúvida quanto à saúde de Andrew Luck. Irsay por vezes garantiu que o jogador estaria pronto para a semana 1, enquanto Chris Ballard não prometia nada. A verdade é que o quarterback foi colocado no IR após voltar a sentir dores no mês de outubro, e seguiu para tratamentos alternativos na Holanda.

Com isso, os Colts tiveram que se virar com Scott Tolzien e Jacoby Brissett, obtido por troca com o New England Patriots. O principal fator problemático em 2017 foi a quantidade de viradas que o time sofreu pela falta de ajustes no intervalo, destacando-se jogos contra Seattle, Tennessee, Houston, Pittsburgh, Denver e Baltimore.

A defesa adquiriu boas peças pela estratégia de Ballard em contratar jogadores que brigam por posição. Nomes como Jabaal Sheard, John Simon, Henry Anderson, Quincy Wilson, Malik Hooker, Nate Hairston, Rashaan Melvin e Johnathan Hankins desempenharam bons papéis enquanto estiveram em campo.

No ataque, Chudzinski tentou montar um ataque simplificado em run-pass-option, para facilitar a vida de Brissett, mesmo não sendo sua escola. O QB desempenhou um bom trabalho em algumas partidas, mas erros de leitura e falta de senso de urgência em algumas progressões se tornaram comuns. O ataque não conseguia se manter em campo e ajudar a defesa a descansar, além de não existirem ajustes da comissão técnica como um todo.

O Colts de 2017 é um time com bons valores individuais e sem o plano de jogo ideal, o que recai nos técnicos. Brissett sofreu 51 sacks em 2017, segunda maior marca da história da franquia, somando sua baixa capacidade técnica de se livrar da bola nos momentos certos e a regressão da linha ofensiva após pequena melhora no final de 2016.

Após a demissão de Pagano, o cenário para o Colts em 2018 é de uma reconstrução que na verdade nunca houve. Seis anos de um bom quarterback foram desperdiçados por decisões ruins dentro e fora de campo em todos os escalões do front office, e agora não sabemos em que condições Luck retornará a campo (ou se voltará).

Há diversas opções de jogadores que podem mudar de patamar tanto a defesa quanto o ataque no Draft de 2018. Jim Irsay não pode mais ignorar o fato de que a carreira de seu franchise QB está passando e precisa considerar bons nomes para sua nova comissão técnica para ajudá-lo, e não torcer para que o mesmo resolva tudo, como é padrão em Indianapolis desde os tempos de Jeff George.

  • Diego torce para os Colts e já está pedindo a demissão do próximo técnico.

Análise Tática #22 – Os seis anos de Chuck Pagano – Parte 1

O Pick Six traz para você leitor um trabalho mostrando como o Indianapolis Colts, que teve a sorte grande de draftar dois hall of famers seguidamente, conseguiu não traduzir tal feito em múltiplos Super Bowls. Iremos revisitar em duas partes todos os seis anos de Charles David Pagano como head coach dos Indianapolis Colts. Para você que é um leitor neutro, segue a oportunidade de uma ótima forma de entretenimento.

Chuck Pagano foi contratado pelo Indianapolis Colts em 2012, após a franquia ter demitido o mestre do controle de relógio Jim Caldwell e todas as sus expressões faciais. Em 2011, o torcedor dos Colts que ainda não tinha percebido descobriu que na verdade era Peyton Manning quem carregava o piano, e mesmo com jogadores históricos como Reggie Wayne, Robert Mathis e Dwight Freeney, sem seu QB o time não valia mais que aquele dinheirinho que vem em pipoca doce.

E 2012 começou assim, como reconstrução. Embalado pelo #SuckForLuck, Jim Irsay demitiu Caldwell, Bill e Chris Polian, HC, VP e GM do time, respectivamente, além de ter permitido com que Peyton Manning procurasse outro time para ser feliz. O processo de reconstrução começou com a contratação da dupla Ryan Grigson e Charles Pagano. Grigson tinha histórico do setor de scout no Philadelphia Eagles (apesar de seus colegas de trabalho não entenderem por que ele conseguiu tal emprego). Já Pagano veio tratado como mente defensiva, o guru de DBs que iria revolucionar a defesa dos Colts com coberturas homem-a-homem e single high, após anos executando a defasada Tampa 2 na gestão Dungy-Caldwell.

O draft de 2012 aconteceu e Jim Irsay chamou a responsabilidade garantindo a escolha de Andrew Luck sem mistério nenhum, semanas antes do Colts sequer entrar no relógio. Indianapolis garantiria mais 15 anos de franchise QB ao mesmo tempo em que Grigson garantiu armas para Luck draftando Coby Fleener, Dwayne Allen e T.Y. Hilton.

A temporada de 2012

O coaching staff dos Colts em 2012 era Charles Pagano como HC, Bruce Arians como OC e Greg Manusky como DC. Clyde Christensen permaneceu da gestão anterior para ser o técnico de QBs e desenvolver o talento de Andrew Luck. A primeira partida foi uma derrota por 41-21 contra os Bears de Jay Cutler no Soldier Field, e seria apenas a primeira de onze derrotas (e contando) em seis anos cedendo mais que 40 pontos ao adversário, pior marca da NFL.

Na segunda rodada, Andrew Luck liderou os Colts à sua primeira vitória na liga, em um 23-20 contra o Minnesota Vikings. Após liderar por 20-6 em três quartos, o Colts cedeu o empate tomando 14 pontos seguidos (familiar, caro leitor?). Luck botou o time no braço e colocou Adam Vinatieri em condição de chutar o field goal da vitória.

Bruce Arians enquanto coordenador ofensivo foi responsável por fazer Luck “perder o medo” de arriscar em profundidade, excelente trabalho inclusive que o rendeu o emprego que possui hoje no Arizona Cardinals.

Luck veio do College Football como o prospecto mais completo da história, basicamente o trabalho dos Colts era plugar e jogar, tendo que corrigir alguns erros pequenos como a tendência a arriscar demais. Entretanto, como sabemos, Luck tomava riscos por que sabia que era capaz de converter jogadas, o famoso “só bate quem erra”. Arians então aproveitou-se da capacidade de seu QB para desenvolver um ataque vertical, diferente do que Luck executava em Stanford, um híbrido de West Coast Offense clássica e Spread.

Nessa formação observamos um esquema que foi bastante utilizado no ano de calouro de Luck, e também foi uma das razões o qual era exposto a bastante sacks. Dois TEs em campo, singleback e dois receivers em lados opostos do campo. Reggie Wayne atrai a marcação no meio de campo e Donnie Avery encara seu marcador na rota fly. Luck aproveita o playaction fake e junto com um 5-step dropback, manda um passe perfeito, nada mal para um calouro em seu primeiro jogo em casa.

Normalmente, QBs calouros necessitam de um esquema que mascare suas deficiências para render, isso não aconteceu com Andrew Luck. Pagano e Arians não tiveram medo de expor seu signal-caller a leituras totais de campo, jogadas verticais, ajustes de proteção e option-routes, situações que geralmente apenas QBs com tempo de experiência profissional precisam enfrentar.

Durante o game-winning drive da partida entre Vikings e Colts, o ataque executou o conceito dagger, em que o alvo da jogada foi Reggie Wayne. Inclusive, o camisa 87 foi o principal alvo de Luck durante o ano de calouro e também um dos responsáveis por moldar o jogo de TY Hilton à sua imagem e semelhança. Repare nas rotas profundas e no 5-step drop, constante durante todo regime de Pagano.

Outra característica no jogo de Luck evidente desde suas primeiras atuações é a precisão de passe em janelas curtas. Na jogada abaixo, observe o QB anotando um TD ainda no jogo contra os Vikings em 2012. Esquema desenhado para aproveitar-se do release e do tamanho de Dwayne Allen como alvo na redzone. Luck coloca a bola na altura do peito de Allen com três defensores chegando na jogada, um passe fora de posição provavelmente seria defendido ou interceptado.

A defesa prevent

Uma característica dos Colts sob o comando de Chuck Pagano é diminuir a agressividade em situações de vantagem no placar ou campanhas de dois minutos. Basicamente, esse setor do time não encontrava respostas para os ataques adversários no momento em que era necessário dar um passo a frente, situação que custou derrotas ou precisou de que Andrew Luck resgatasse o time em desvantagem.

Esse tipo de coisa (contra Ponder ou não) foi comum.

Por muitas vezes, a defesa dos Colts parece uma unidade despreparada em campo, como se não houvesse nenhuma detecção dos padrões do adversário, além da baixa ou nula capacidade de ajustes de Chuck Pagano. Em 2012, isso ficou evidente na partida contra os Jaguars, encabeçado na época por Blaine Gabbert e Maurice Jones-Drew. Após abrir 14-3 antes do intervalo, os Colts cederam 19 pontos no segundo tempo para a derrota.

A defesa dos Colts tinha propensão a ceder big plays no jogo terrestre, mesmo contra times que o tinham como ponto primordial do ataque, como os Jaguars anteriormente mencionados. Alternaram-se os problemas de profundidade de elenco na defesa ao longo desses seis anos: quando havia bons LBs (Jerell Freeman), não havia DLs. Quando o front seven foi estabilizado com Cory Redding, houve o experimento LaRon Landry. Observe abaixo a ausência de atleticismo da linha defensiva em 2012 de proteger os gaps contra uma trap.

A campanha “Chuck Strong”

É impossível falar sobre a temporada de 2012 do Indianapolis Colts sem mencionar a ausência de Chuck Pagano de 12 jogos por conta do tratamento de leucemia. Diagnosticado na semana 4, bye week dos Colts, o técnico ficou ausente até a semana 17, quando retornou contra o Houston Texans. O impacto desse fato em campo é notável, por que após uma campanha 1-2, o time venceu 10 dos últimos 13 jogos da temporada, garantindo vaga nos playoffs como wild card.

Esse contexto é importante por que na época não se imaginava que um QB calouro como Andrew Luck, por melhor que fosse, seria capaz de transformar o time imediatamente. Com Bruce Arians acumulando as funções de head coach e coordenador ofensivo, o ataque teve um salto de qualidade, somado aos intangíveis relacionados ao tratamento de Pagano.

Em termos de plano de jogo e auxílio técnico, os 12 jogos de Luck sob a tutela de Bruce Arians e Clyde Christensen foram os melhores em sua carreira. Nesse período, o QB estabeleceu sua química com o veterano Reggie Wayne, principalmente em conversões de terceira descida, ao mesmo tempo em que TY Hilton aumentava gradativamente sua carga de snaps.

O jogo da semana 5 de 2012 contra os Packers é memorável nesse aspecto. Após sofrer 21-0 no primeiro tempo, os Colts conseguiram a primeira grande virada da carreira de Andrew Luck, vencendo por 27-30. Outras vitórias importantes nessa fase foram contra os Lions na semana 13 e contra os Texans na semana 17. Ao mesmo tempo, duas das derrotas foram acachapantes: Contra os Jets (9-35) e Patriots (24-59).

O encerramento da temporada de 2012 veio pela eliminação no wild card contra o Baltimore Ravens (que viriam a ser campeões) por 9 a 24.

A temporada de 2013

Bruce Arians saiu de Indianapolis rumo ao cargo de head coach em Arizona, e para sua reposição, os Colts trouxeram de Stanford o coordenador Pep Hamilton, familiar a Andrew Luck. A intenção com esse movimento era clara: implantar conceitos semelhantes à West Coast Offense híbrida que Luck operou em seus anos de College Football, sob a tutela de Jim Harbaugh e David Shaw.

A temporada de 2013 também pode ser lembrada como aquela em que os Colts derrotaram os melhores times à época: vitórias contra 49ers, Seahawks, Broncos e Chiefs em contextos inexplicáveis. Mas também houve derrotas por mais de 20 pontos contra Rams, Cardinals e Bengals.

A instabilidade na posição de Center

Após anos com uma das melhores duplas QB-Center da história em Peyton Manning e Jeff Saturday, o Colts teve dificuldades ao encontrar estabilidade em um parceiro confiável para Andrew Luck. Nomes como AQ Shipley, Samson Satele, Khaled Holmes e Jonnothan Harrison (este ultimo mais recentemente) se revezaram na posição fundamental da linha ofensiva.

Apesar de o left tackle geralmente ser o jogador mais bem pago, por inúmeras vezes enfrentar o melhor pass rusher adversário, quase sempre individualmente, e proteger o lado cego do quarterback, considera-se o center como posição mais importante taticamente, pois este jogador é responsável por identificar o tipo de front utilizado pelo adversário, se há blitz, e orientar pré-snap os demais jogadores em suas tarefas.

Além disso, o ato do snap é uma tarefa subestimada. Uma boa dupla pode utilizar de hardcount e fazer com que defensores cometam offside, um bom snap também determina a velocidade com que a jogada se desenvolve, dando um segundo a mais para o QB no pocket, que pode ser precioso ao completar um passe.

Por vezes vimos em Samson Satele essas duas deficiências. Guard de origem, o jogador tinha dificuldade em realizar o snap e identificar seus bloqueios. Observe nessa outside zone¸ que Satele não consegue engajar em nenhuma de suas funções na jogada, primeiro e segundo nível. A jogada não é bem-sucedida por outros fatores além.

O experimento Trent Richardson

Para tratar de Trent Richardson nos Colts, é interessante retornarmos ao draft de 2009.

Fonte: Bleacher Report

Na primeira rodada daquele draft, Bill Polian selecionou Donald GODDAMIT Brown, o escolhido para ser o contrabalanço a Peyton Manning no crepúsculo de sua carreira. Obviamente, a escolha deu errado e Donald nunca foi um jogador de elite na NFL, enquanto Polian afirma que teria escolhido Clay Matthews se não fosse por um trade up dos Packers à escolha anterior à sua (você não engana ninguém, Bill) ou mesmo ter passado LeSean McCoy (escolhido na segunda rodada pelos Eagles naquela ocasião).

Mas o que isso tem a ver com Trent Richardson? Bem, após ter ficado óbvio que Donald Brown ter sido uma escolha ruim, Jim Irsay foi para o movimento arriscado. Ryan Grigson e ele concordaram que era uma boa ideia trocar uma escolha de primeira rodada por Trent Richardson. A ideia era acelerar o processo de transformação dos Colts a postulante ao Super Bowl rapidamente. Em campo, o que se viu foi um running back muitas vezes acima do peso que não conseguia realizar as leituras corretas.

Em amarelo, o caminho ideal, em vermelho o caminho que ele escolheu. Fonte: SB Nation

O desenvolvimento da jogada anterior:

Por fim, um lance que talvez estivesse nos melhores piores momentos da semana se a coluna existisse à época. Em um jogo de playoffs, Trent Richardson se atrapalha em trocar a bola de mãos enquanto tenta cortar pelo meio da defesa do Kansas City Chiefs.

 

  • Diego Vieira torce pelo Indianapolis Colts e não sabe como sobreviveu a esse sofrimento.