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Troféu Alternativo Pick Six #2: premiando aquilo que realmente importa

O ser humano é fascinado por premiações, não importa o quão relevantes elas sejam. Do Miss Universo ao vencedor do Prêmio Puskas, da final do BBB a eleição para síndico do condomínio, invariavelmente queremos contemplar alguém com um troféu, mesmo que imaginário.

Na NFL não seria diferente e passamos horas e horas discutindo ou mesmo procurando uma hipotética justiça em premiações definidas de maneira arbitrária – e diversas vezes um tanto quanto óbvias. Pensando nisso e inspirados na já tradicional premiação que os colegas do Bola Presa fazem para as bizarrices da NBA, a Pick Six Enterprises traz a segunda edição de sua premiação alternativa. Antes de conhece os vencedores, relembre as categorias.

TROFÉU WES WELKER: com ele premiamos o “melhor” drop da temporada e homenageamos o WR (indiretamente?) responsável por um dos melhores momentos de Gisele Bundchen na NFL. Além, claro, de estar no hall dos grandes drops que o SB já nos proporcionou.

TROFÉU SKIP BAYLESS: uma homenagem a uma das maiores metralhadoras de bosta que a imprensa norte-americana já produziu. Dá nome a este glorioso prêmio o cidadão que já afirmou que Manti Te’o seria o próximo Ray Lewis, que preferia RGIII a Andrew Luck, Josh Freeman a Cam Newton e, bem, vamos parar por aqui. Então o vencedor desta honraria é o integrante da dita “imprensa especializada” responsável por proferir mais asneiras ao longo da temporada.

Metralhadora de bosta.

TROFÉU MICHAEL FABIANO: ele é o guru do fantasy da NFL.com. Mas também já destruiu muitos sonhos dourados com suas dicas imbecis, então nada mais justo que o atleta que foi uma decepção na temporada de Fantasy Football levar para casa uma estatueta com o nome do mito Michael Fabiano.

TROFÉU SEXY REX(y) GROSSMAN: Rex Grossman deve ser o garoto propaganda do que é ser um quarterback medíocre: com menos de 50 partidas iniciadas, ele tem mais derrotas do que vitórias – e mais interceptações do que touchdowns. Mesmo assim, escorado por uma forte defesa, ele chegou ao Super Bowl XLI, quando silenciou os críticos com vitórias contra Seahawks e Saints nos playoffs – para logo depois voltar a realidade e ser destruído por Peyton Manning e companhia na grande decisão. Por isso o prêmio para melhor atuação de jogador irrelevante homenageia o ex-QB do Chicago Bears (e de mais uma dúzia de outros times).

TROFÉU BLAKE BORTLES: Blake é um dos reis da irrelevância, o cara mais clutch quando nada importa, possivelmente o único capaz de fazer três touchdowns nos seis minutos finais, quando seu time precisaria de meia dúzia, mas isso pouco interessa. Por isso o troféu que leva seu nome premia o verdadeiro MVP: o MVP DO GARBAGE TIME.

TROFÉU JIM KELLY: Kelly levou o Buffallo Bills a quatro Super Bowls seguidos. E perdeu todos. Nada mais justo que dar nome ao prêmio que agraciará o melhor jogador de time que só perde.

TROFÉU NOT COMEBACK PLAYER OF THE YEAR: sejamos honestos: o prêmio original, Comeback Player of The Year, é um dos mais sem sentido já criados pela NFL – não pela mensagem, claro, mas pelo simples fato de que todo ano três ou quatro jogadores merecem ganhar essa desgraça e raramente temos uma unanimidade. Então criamos o NCPOY, para premiar aquele ser que teoricamente teria um grande retorno, mas na verdade era melhor nem ter voltado dos mortos.

TROFÉU CRAQUE NETO: “Acabei de saber que o Ronaldo está trazendo o Seedorf para o Corinthians”. Mais não precisamos falar. E com esta honraria premiamos a maior besteira escrita ou falada por um integrante do Pick Six – acreditem: falamos muita besteira.

TROFÉU DAVE SHULA: Dave Shula nunca fez muita coisa para justificar um cargo como HC na NFL. Exceto, claro, ser filho de Don e irmão de Mike Shula. Tanto que quando chegou ao cargo e lá ficou por cinco longos anos alcançou uma gloriosa carreira em Cincinnati, com 19 vitórias e 52 derrotas. Por isso o troféu que premia o conjunto da obra de piores e mais bizarras decisões de um HC na temporada leva seu nome!

TROFÉU JAMARCUS RUSSELL: JaMarcus talvez seja o maior bust da história da NFL. Primeira escolha geral do draft de 2007 pelo Oakland Raiders, em três temporadas Russell deixou a liga com um recorde de 7-18, 18 TDs e 23 INT. Ah, a escolha seguinte a ele foi um tal de Calvin Johnson, mas não vamos falar sobre isso. De qualquer forma, a honraria que leva seu nome premia a escolha de primeiro round que em sua temporada de estreia provou ter potencial para se tornar um tremendo bust.

TROFÉU TRENT RICHARDSON: Trent chegou a NFL como terceira escolha de primeira rodada do draft e, sendo gentil, sua carreira se resume a corridas de três jardas seguidas por um tombo com a cara no chão. Além de um especialista na arte dos bloqueios, já que sendo o próprio bloqueio, ele era poupado do trabalho de bloquear. Para homenageá-lo, este troféu premia a decepção do ano – e, algumas vezes, da vida.

TROFÉU CHUCK PAGANO: Chuck Pagano foi um dos responsáveis por uma das jogadas mais ridículas da história da NFL (relembre este momento mágico). Por isso o troféu que premia a jogada mais imbecil da temporada leva seu nome!

Agora vamos aos vencedores da temporada 2018-2019

TROFÉU WES WELKER: Alshon Jeffery vs Saints – Divisional Round

O New Orleans Saints vencia por 20 a 14 já dentro do two-minute warning. E quando todos pensávamos que BIG DICK NICK iria cometer o crime mais uma vez, Alshon Jeffery, alvo em tese confiável do ataque dos Eagles, deixou a bola pipocar em suas mãos e cair no peito de Marshon Lattimore quase como quem passa o filho recém-nascido para um amigo ninar. Suficiente para sacramentar a eliminação e a presença nesta categoria do Troféu Pick Six.

Troféu Skip Bayless: Stephen A. Smith analisando o Los Angeles Chargers

Nada mais POÉTICO que o premiado do troféu Skip Bayless desta edição ser seu antigo “parceiro” de ESPN First Take, Stephen A. Smith. Claro que fizemos isso de propósito, pois valorizamos acima de tudo a NARRATIVA, e não  os FATOS. Embora os fatos também apontem para Smith analisando jogadores que não estavam mais no Chargers.

Troféu Michael Fabiano: Leonard Fournette

Fournette foi uma escolha top 5 overall em toda e qualquer liga de fantasy com o mínimo de bom senso. O que ninguém esperava era sua temporada absolutamente nula em um Jaguars em completa implosão. Leonard passou boa parte da temporada lesionado com direito a um retorno quando não valia mais nada, apenas para alimentar o ódio de quem o escolheu.

Troféu Sexy Rex(y) Grossman: Nick Mullens em como ganhar uma conta verificada

Antes da semana 9 contra os Raiders, ninguém conhecia Nick Mullens (e quem disser que sim, estará mentindo). Uma atuação com os seguintes números – 16/22, 3 TDs, 262 jardas – serviu para colocar o jogador de Southern Mississippi no radar da vida e do Twitter também.

Troféu Blake Bortles: Lamar Jackson no Wild Card

Em sua estreia nos playoffs, Lamar Jackson, nosso RB que sonha em ser QB emulou os melhores momentos de Blake Bortles. O Baltimore Ravens iniciou o quarto período perdendo por 23 a 3, após aproximadamente 16 FGs. Foi quando Lamar acordou e explodiu em busca da redenção: foram dois TDs no último quarto e o placar findou em (falsos) honrosos 23 a 17, sugerindo uma partida extremamente disputada.

O duelo, hoje conhecido como “Lamar Jackson no multiverso“, teve pedidos para que Joe Flacco assumisse o posto após o intervalo (quem viveu sabe). Gritos de desespero justificados, afinal, pressupõe-se que um QB saiba passar. Ou ao menos tente.

Troféu Jim Kelly: George Kittle em “quebrando recordes em jogos que não servem para nada”

Depois que Jimmy Garoppolo deixou este mundo e o experimento C.J Beathard (mano, esse cidadão nem nome de QB tem) não durou muito tempo, restou a George Kittle carregar o piano em San Francisco. 1336 jardas recebidas, recorde histórico para a posição, mas que ninguém viu acontecer. Apenas acreditamos que aconteceu por que está nos registros oficiais.

Troféu Not Comeback Player of The Year: David Johnson em “Esqueceram de mim”

Uma temporada como primeira escolha geral de fantasy football desperdiçada por conta de um PULSO QUEBRADO. Passada a decepção Michaelfabianesca, aparentemente Mike McCoy resolveu SE VINGAR simplesmente ignorando a existência de David Johnson enquanto seu QB novato Josh Rosen sofria com um time nojento, para a tristeza dos nossos alunos da quarta série. 

Troféu Craque Neto: 40% do site em “A neve é boa para o Colts”

Completamente empolgados e cegos pelo clubismo após uma vitória no Wild Card contra os Texans, nossa dupla de sofredores Diego Vieira & Rafael Baltazar já CANTAVAM VITÓRIA CERTA quando as notícias de que o jogo da rodada divisional contra o Kansas City Chiefs seria debaixo de neve. Não somente o ataque de Patrick Mahomes passou o carro por cima da defesa dos Colts, o ataque terrestre comandado por Marlon Mack aparentemente não embarcou para o Missouri, e jogo no Arrowhead Stadium ainda ficou marcado como o CANTO DO CISNE da carreira de Andrew Luck. Ainda dói. E vai doer por bastante tempo.

Troféu Dave Shula: Hue Jackson em “Hard Knocks”

Já diria o sábio: respeito se conquista. Hue Jackson decidiu ir por caminhos contrários quando resolveu ignorar todas as sugestões de seu staff durante o training camp simplesmente para mostrar QUEM É QUE MANDA. Não continuou mandando muito tempo, mas deixou memórias que jamais iremos esquecer.

Troféu Jamarcus Russell: Hayden Hurst

Não conseguimos justificar, afinal Hayden Hurst sequer existe. E assim nasceu a justificativa perfeita para o vencedor deste ano.

Troféu Trent Richardson: Kirk Cousins em “errado é quem esperava diferente”

3 ANOS 84 MILHÕES. 2 anos restantes, 56 milhões ainda por pagar. Depois de mandar uma previsão de 13-3 sem medo de ser feliz, o torcedor do Vikings e ex-membro da diretoria do site não vê a hora de que o contrato de Kirk Cousins acabe para que possa seguir sua vida fingindo que isso nunca aconteceu.

O QB com o primeiro contrato totalmente garantido da história da NFL, apesar disso, justificou a quantia no aspecto entretenimento: desde as atuações contra times de campanha positiva, as derrotas em primetime, até as discussões com colegas de equipe (Adam Thielen). Sabem os deuses da bola oval como, mesmo assim os Vikings ainda tinham chances de playoffs até o jogo em casa contra os Bears na semana 17, bastava vencer, mas quem depende de Kirk Cousins sabe o que acontece. E errado é esperar diferente.

Troféu Chuck Pagano: Bill Belichick colocando Gronk (in memoriam) como Safety na Hail Mary

Rob Gronkowski no fundo do campo para defender uma possível Hail Mary partindo da linha de 31 jardas do campo de defesa. Foi isso mesmo que Bill Belichick fez. O vídeo do lance fala por si.

Antes de sair relembre os vencedores da primeira edição!

Análise Tática #26 – As jogadas-chave do Super Bowl LII

O Super Bowl LII talvez tenha sido a final da NFL mais prolífica da história em termos de ataque. Foram 1152 jardas totais somando os dois times, recorde da liga seja para jogos de temporada regular ou playoffs.

Como ninguém esperava, inclusive nós do site, como vocês podem conferir no preview tático, o Eagles se saiu melhor que o New England Patriots em um festival ofensivo. Podem conferir em qualquer analista brasileiro ou de fora, seja texto, vídeos ou podcast, absolutamente ninguém esperava isso.

Apontamos no preview tático que a chave para a vitória dos Eagles seria a atuação da defesa, mas esse ponto não envelheceu bem. Como apontou nosso amigo Vitor Camargo do Two-Minute Warning, a responsabilidade da vitória é em boa parte no ataque e na capacidade que Nick Foles teve de causar estragos com passes a partir da média distância. Parafraseando o que nosso colega escreveu (leia o texto completo), Philly venceu apesar da atuação defensiva e não por causa da mesma.

Comparando, foi algo assim que Blake Bortles não conseguiu. O QB dos Jaguars executou muito bem o plano de jogo, mas para vencer os Patriots é preciso mais que isso, e o ataque de Jacksonville não tinha teto suficiente para se sobressair.

As estatísticas

Total de 143 jogadas a partir da linha de scrimmage, apenas um punt entre os dois times (chutado pelo Philadelphia Eagles), um sack (que definiu o confronto), uma interceptação e um turnover on downs. Para completar o festival, houve também extra points perdidos e chutados na trave.

O Philadelphia Eagles executou 71 jogadas ofensivas, converteu 25 first downs em 34min04s de posse de bola. Teve ganho de 538 jardas em 10 drives, 374 jardas pelo ar e 164 jardas terrestres. Nick Foles completou 27 de 43 passes e o time correu com a bola 27 vezes.

O New England Patriots, por sua vez, executou 72 jogadas ofensivas em 25min56s de posse de bola, converteu 29 first downs. Teve ganho de 613 jardas em 11 drives, 500 jardas pelo ar e 113 terrestres. Tom Brady completou 28 de 48 passes e o time correu com a bola 22 vezes.

A bola longa dos Eagles

Jogadas de passe de mais de 20 jardas tiveram um fator importante em relação ao plano de jogo dos Eagles. Esticar o campo é um mantra repetido por técnicos de futebol americano e funciona como uma das premissas do jogo, deixando a defesa sempre em dúvida sobre o que virá a seguir.

Como o Eagles correu bem com a bola, média de 6,1 jardas por tentativa, o Patriots foi obrigado a aproximar os jogadores da linha de scrimmage como compensação. E essa dúvida é suficiente para armar o playaction fake. Foi exatamente isso o que vimos no primeiro touchdown da partida, passe de Nick Foles para Alshon Jeffery.

Observe na imagem, um conceito de rotas cruzadas perto do segundo “I” no logo do Super Bowl, com Alshon Jeffery atacando a endzone e Nick Foles a partir do playaction. Os jogadores de linha ofensiva estão em posição de três apoios e encaram 4-men-rush. A linha contém muito facilmente o rush dos Patriots, permitindo que Nick Foles fique confortável para escalar o pocket.

Olhando a defesa dos Patriots, eles estão marcando de forma individual todas as rotas, e as do meio disfarçando a posição dos marcadores como se estivessem em zona. Apenas um safety está em profundidade (cover 1 man). Esse cenário é ideal para Nick Foles atirar no fundo do campo, e o safety ficando preso nas rotas do meio ajudou. Passe perfeito e Alshon Jeffery ainda fez uma recepção física.

O interessante dessa jogada é sobre os seguintes pontos: esse cenário construído é o que não seria ideal para os Eagles ganharem dos Patriots. Foi repetido intensamente de que o ataque coordenado por Doug Pederson não poderia cair em situações que eles precisassem confiar no braço de Nick Foles, o que exatamente aconteceu. Os Eagles mostraram para Bill Belichick e Matt Patricia que eles podiam explorar a bola longa a partir do playaction, e isso aconteceu repetidas vezes, já que o jogo corrido se desenvolveu.

As Trick Plays

Como em uma tarde de College Football qualquer, além do tiroteio, o Super Bowl apresentou as trick plays. Duas jogadas de reverse-pass para o quarterback, cada uma executada por um dos times.

Aos 12:04 restantes do Q2, os Patriots estão na linha de 35. James White parte do outside para o lado de Brady, e este entrega a bola para o corredor. A linha bloqueia para a esquerda dando a entender de se trata de uma inside zone. Entretanto, White entrega a bola para Danny Amendola, configurando o reverse. Brady parte em uma rota wheel e Danny Amendola arrisca o passe na linha de 25 (10 jardas a partir da linha de scrimmage). Tom Brady derruba a bola, colocada à frente de seu corpo.

O interessante dessa jogada, é que por todo o processo do Super Bowl houve a dúvida sobre a lesão reportada na mão de Brady. Segundo informações, o jogador se machucou em um treinamento e precisou sofrer quatro suturas na mão direita (a de lançamento). Apesar de toda essa novela, a verdade é que pela forma como o passe foi colocado, Brady, um QB de 40 anos, não tinha atleticismo suficiente para buscar essa bola, o que nos rendeu essa belíssima imagem.

Ele realmente não pode passar e receber passes ao mesmo tempo.

Agora observemos a chamada conhecida como Philly Special. Opção de Nick Foles para converter uma quarta descida para o touchdown restando 34 segundos antes do intervalo, quando os Eagles venciam por 15 a 12. Segundo relatos, essa jogada foi colocada no plano de jogo contra o Minnesota Vikings, mas não se fez necessária. Assim como a trick play dos Patriots, trata-se de um reverse pass para o quarterback, com alguns diferenciais.

Os Eagles se alinham em singleback com stack do lado direito. Nick Foles sai da posição de shotgun disfarçando que vai passar instruções de bloqueio à linha ofensiva, a estilo Peyton Manning. O QB toca as costas do right tackle, o snap sai diretamente para o RB em wildcat, esse se desloca para a esquerda em uma outside zone, faz o handoff para Trey Burton.

Nesse instante, Nick Foles parte da posição de linha ofensiva em direção à endzone. Touchdown. Aqui, cabe salientar que a questão da trick play, como o próprio nome sugere, é surpreender completamente a defesa adversária. Geralmente, isso começa snaps antes armando uma possível leitura de tendência a partir de determinado personnel.

No caso dos Eagles, o personnel com Corey Clement em campo indica uma jogada de corrida em zona ou passe, pela versatilidade do atleta em executar ambos os tipos de conceito – simplificando ao máximo a leitura, evidentemente, as possibilidades são maiores que isso. Como podemos ver nas primeiras amostras do NFL Turning Point pela NFL Films, Doug Pederson decidiu pela conversão da quarta descida e em discussão com Nick Foles, o quarterback chamou a jogada.

Como podemos conferir, jogadas antes, Nick Foles converteu uma terceira descida com ganho de 55 jardas a partir de um passe para Clement em uma rota wheel. Esse lance e mais outros com o camisa 30 em campo semearam a dúvida suficiente para fazer a trick play funcionar. Como disse Matt Patricia na coletiva pós-jogo a única forma de parar esse tipo de jogada é a defesa estar completamente ciente do que está acontecendo em campo, pois o reverse anula qualquer ajuste tático que poderia ser desenhado na cobertura.

Linha desbalanceada

Doug Pederson apresentou em seu plano de jogo uma variedade de conceitos que colocaram em cheque a capacidade de ajuste pelo New England Patriots. Um desses é a linha desbalanceada.

Acrescenta-se um jogador a mais de OL, geralmente um tackle e não um tight end, e este jogador se declara elegível a receber o passe para a arbitragem, mas sequer correrá uma rota. Sabemos que a linha ofensiva convencional se posiciona de forma simétrica em relação ao center. A OL desbalanceada posiciona um jogador a mais em um dos lados.

Na imagem acima, vemos o touchdown corrido de LeGarrete Blount partindo de uma inside zone com linha desbalanceada. O jogador extra é o camisa 73 Isaac Seumalo, marcado no retângulo vermelho. Ele alinha como um TE bloqueador, mas com melhor capacidade de realizar a função que um jogador com esse rótulo.

Acrescentar um jogador de linha na inside zone permitiu que o LT Halapoulivaati Vaitai bloqueasse em segundo nível, e esse foi o fator diferencial para que Blount chegasse a endzone.

A capacidade de ajustes de New England

Se tem alguma coisa que eu tive capacidade acertar nos previews sobre os Patriots é a capacidade de ajustes de Bill Belichick e o uso de Rob Gronkowski como ponto focal do ataque (“mas aí até eu”, deve estar pensando o caro leitor). Após um primeiro tempo ruim na conexão Brady-Gronk, a dupla começou a clicar as jogadas no início de terceiro quarto, resultando em um drive para touchdown apenas com recepções do Tight End.

Comparando com o que foi feito no primeiro tempo, a defesa dos Eagles não travou apenas um jogador na marcação individual de Gronkowski, confiando na capacidade de execução do defensor que estivesse no matchup.

A jogada apresentada acima ocorreu no jogo contra os Titans e uma vez anterior no primeiro tempo do Super Bowl, e ilustra exatamente o que o New England Patriots tem de melhor: a capacidade de ajustes táticos do staff de Bill Belichick e passar isso aos jogadores. Temos os Patriots alinhando em 11 personnel com set 2×2 e stack no lado esquerdo. A linha está em posição de 2 apoios e a situação de placar e relógio (PHI 32-26 NE Q4 9:22) indica o passe.

Amendola sai em motion da posição de Split-end para o lado do right tackle. Nesse momento, podemos ver os jogadores dos Eagles apontando entre si, o que significa que eles estão reajustando as marcações individuais na jogada. O Safety ataca o ponto em que as rotas dos três recebedores se cruzando no lado direito e deixa Gronkowski no mano a mano. Matchup que beira o injusto e touchdown para os Patriots, que naquele momento empataria o jogo em 32 pontos.

A pressão dos Eagles

O número de sacks leva a crer que Tom Brady jogou com pocket limpo a maioria das vezes. Mas esse tipo de análise preguiçosa focando apenas em drives brutos sempre leva a tirar conclusões erradas de qualquer situação estatística. Por vezes o front dos Eagles foi capaz de apressar passes ou acertar Brady com hits. Levar pancada de jogadores de mais de 140 kg afeta um QB de 40 anos de idade, por melhor que ele seja, simplesmente por questões físicas.

Essa pressão constante, principalmente em speed rush permitiu que Brady escapasse do sack algumas vezes escalando o pocket, mas quando ela vinha pelos A e B gaps, deixava o QB dos Patriots com a movimentação limitada, tendo que arriscar passes antes da hora. Isso explica principalmente a taxa de 56,25% passes completos (28/48), um pouco abaixo do que Brady normalmente produz.

Na jogada que praticamente selou o Super Bowl em favor dos Eagles, vemos Derek Barnett e Chris Long alinhados em wide-9-technique, enquanto Fletcher Cox (5-tech) e Brandon Graham (4-tech) estão na parte interna da linha. No resto do front, quando a jogada se desenvolver, percebemos que a defesa dos Eagles rotaciona para a direita, apesar de não ser uma fire zone blitz, e o mais importante, Malcolm Jenkins defende o flat, rota de James White, único jogador no lance livre para a recepção.

Chris Long é o jogador que consegue a melhor pressão em Brady com o speed rush, impulsionando o QB à direção de Brandon Graham, que consegue o strip-sack. A bola cai no chão e é recuperada por Derek Barnett. Os Eagles aproveitam o turnover na redzone e fecham o placar em 41 a 33.

O plano de jogo dos Eagles

Percebemos que o Eagles conseguiu a vitória no Super Bowl LII em uma situação de jogo que por muitas vezes pareceu desfavorável em determinados momentos. O maior tempo de posse de bola, o sucesso na conversão de terceiras descidas e a capitalização de pontos após drives em que parecia que o ataque dos Patriots havia entrado na partida foi essencial para que o time saísse com a vitória.

Doug Pederson explicou a ousadia na chamada das jogadas como “ser conservador é uma ótima maneira de terminar a temporada 8-8”, e o time, além de ser agressivo nas chamadas, conseguiu as converter, o que é mais importante.

Os Eagles jogaram com um quarterback reserva e conseguiram vencer os Patriots em um tiroteio. A secundária não conseguiu conter os recebedores dos Patriots (as 505 jardas aéreas não deixam mentir) e mesmo assim o time conseguiu responder em todas as instâncias do jogo.

O Super Bowl LII mostra ainda mais a importância de um coaching staff competente na construção de um plano de jogo. Pederson e sua equipe usaram a melhor arma dos Patriots contra eles, e surpreenderam mostrando leituras diferentes ao que havia passado na temporada regular. Por exemplo: no touchdown que deu a vantagem aos Eagles no final do último quarto, Zach Ertz correu uma rota slant em marcação individual, movimento que ele só tinha repetido no ano de calouro (2013).

Além do mais, tendo que responder drives de touchdowns para manter a vantagem no placar, Doug Pederson manteve a compostura e continuou apostando no plano de jogo montado, em vez de se afobar e tentar buscar Money plays que talvez estivessem marcadas do outro lado do jogo estratégico. Isso ajudou, sobretudo, a manter Nick Foles confiante e confortável a executar a melhor atuação de sua carreira.

Em busca da direção certa

O desempenho do QB Carson Wentz em sua temporada de rookie está longe de ser um primor. Foram 3782 jardas aéreas conquistadas, apenas 16 TDs e 14 INTs, números que são suficientes para colocá-lo, no máximo, próximo da linha da mediocridade. A NFL, felizmente, não é feita apenas de estatísticas. Assistir um QB em ação muitas vezes nos diz muito mais do que analisar friamente os números que ele produziu.

Desde que pisou no gramado para enfrentar o Cleveland Browns, na primeira semana da temporada de 2016, Wentz aparenta ser o que uma franquia espera de um Quarterback. Os erros, é claro, estão lá, como estão para todos os rookie QBs, mas aparentam ter origem mais na inexperiência do que em uma eventual deficiência o que, claro, seria mais difícil de ser corrigido.

Wentz errou bastante em 2016, mas também acertou. O controle e a liderança que ele tinha no ataque do Philadelphia Eagles são raros para um calouro. Sua capacidade de leitura das defesas, antes mesmo do snap, também chama a atenção. O que mostrou em campo comprova o que muitos especialistas diziam antes mesmo do draft: Wentz é um grande amante e estudioso do football, algo semelhante a Peyton Manning, guardadas as devidas proporções.

Matou no peito.

As armas

Não é à toa que o Eagles decidiu que Carson Wentz é o franchise QB que o time aguardava desde a saída de Donavan McNabb e decidiu construir o futuro ao redor dele. O primeiro passo foi reformular o grupo de recebedores, que em 2016 foi um grande problema para o ataque. O time mandou o inconstante Jordan Matthews para o Buffalo Bills em uma troca e contratou os veteranos Alshon Jeffery e Torrey Smith.

Jeffery tem o talento necessário para ser um dos melhores WRs da liga, sem dúvidas, mas precisa permanecer saudável, o que não era rotina em seus tempos de Chicago Bears. Em cinco anos em Chicago, foram apenas duas temporadas sem perder jogos por contusão. Nos dois anos em que ficou saudável, Jeffery recebeu mais de 1000 jardas aéreas e, em 2013, anotou 10 TDs. Seu talento nunca foi questionado e, se conseguir ficar longe das contusões, Alshon deve ser o principal jogador do ataque do Eagles em 2017.

Torrey Smith, outro contratado na free agency, ficou escondido por dois anos no horroroso San Francisco 49ers, mas em seus três anos de Baltimore Ravens mostrou que pode ser um jogador bastante útil e que adiciona o elemento do passe em profundidade ao ataque. Jeffery e Smith são uma versão um pouco mais pobre do que o Tampa Bay Buccaneers tem em Mike Evans e DeSean Jackson, por exemplo, mas têm a capacidade de complementar um ao outro e oferecer opções que Carson Wentz simplesmente não tinha em 2016.

Além de Jeffery e Simith, Wentz terá à disposição o bom TE Zack Ertz, que merece ser mais acionado, e o WR Nelson Agholor que, segundo os repórteres que acompanham o time, é um dos jogadores que mais evoluiu nessa offseason depois de um turbulento 2016.

Com esse grupo de recebedores e com uma linha ofensiva que tem Jason Peters, Jason Kelce e Lane Johnson, considerada a melhor da NFL pelo site Pro Football Focus, o Philadelphia Eagles pode ter um ataque bem interessante em 2017.

O ponto de interrogação

A dúvida fica para o grupo de RBs: Ryan Mathews, principal corredor do time em 2016, foi dispensado. Para o seu lugar, o Eagles contratou LeGarrette Blount, que deve ser responsável pelo trabalho sujo entre os tackles. As informações sobre Blount, porém, não têm sido boas durante o training camp e chegou, inclusive, a surgir a especulação de que ele poderia ser dispensado.

Além de Blount, o Eagles tem o segundo anista Wendell Smallwood, que teve oportunidades no ano passado e não mostrou muito serviço, e o especialista em receber passes e já idoso Darren Sproles. Em teoria, é um grupo que traz habilidades diversas e que pode se complementar bem, mas algo parece que vai dar errado.

As contratações ofensivas feitas pelo Eagles criaram um ataque com mais talento e mais alternativas, portanto é justo esperar uma performance melhor de Wentz e seus alvos em 2017.

O dono da bola.

O copo meio cheio

A defesa do Philadelphia Eagles em 2016 não teve uma performance horrível. A unidade terminou a temporada em 12º em pontos cedidos e 13º em jardas permitidas, por exemplo. Mas as deficiências de defesa são óbvias e talvez a principal delas seja na posição de cornerback.

Na temporada passada, os defensores do Eagles permitiram que os QBs adversários completassem 60% dos passes. Nolan Carroll e Leodis McKelvin deixaram o time, para a felicidade dos torcedores de Philly. O problema é que quem ficou não inspira confiança e talvez isso tenha motivado a troca com o Buffalo Bills, em que o Eagles enviou Jordan Matthews e recebeu o CB Ronald Darby, que chega e automaticamente entra no time titular. O grupo de linebackers também é uma preocupação. Além do dinâmico Jordan Hicks, não há muita certeza.

A força da defesa talvez esteja na linha defensiva. Fletcher Cox é um dos melhores DTs da NFL e vence constantemente as coberturas duplas que recebe. Além de Cox, o Eagles conta com jogadores de pedigree que ainda não conseguiram atingir todo o potencial que têm, como Brandon Graham, escolha de primeiro round do draft de 2010, e Vinny Curry, que assinou uma extensão contratual de 47,5 milhões de dólares que alguns classificam como o pior contrato de um DL da NFL.

Já Chris Long e Timmy Jernigan chegam via free agency com a expectativa de adicionar elementos a mais no pass rush, que será fundamental para o sucesso da defesa.

Palpite: A evolução, principalmente ofensiva, acontecerá, mas é difícil enxergar esse time ganhando mais do que oito jogos. Um recorde de 8-8 não seria surpreendente. Um 9-7 seria um sucesso absoluto. Mas, como mencionado no início do texto, a NFL não é feita apenas de números. O que o Philadelphia Eagles precisa em 2017-2018 é ter a certeza que encontrou seu QB e que a franquia está no caminho certo.

Tempo perdido: Jay Christopher Cutler, você não sabe jogar!

2009 já parece um tanto distante, mas a lista de qualidades que apontavam Jay Cutler como o salvador do Chicago Bears era relativamente palpável: Chicago era uma franquia historicamente sedenta por quarterbacks e Jay era um jovem de 25 anos que vinha de uma temporada de 4500 jardas e 25 touchdowns – poderia não ser perfeito, mas era, ao menos, uma esperança concreta, mesmo que fosse preciso relevar a petulância de seus últimos dias em Denver.

Agora já se vão oito anos desde aquela noite de abril. E do instante em que Cutler posou com Lovie Smith e Jerry Angelo no Hallas Hall, já passaram por Chicago outros dois head coaches e dois GMs, além de meia dúzia de coordenadores ofensivos. E com Cutler, Chicago foi aos playoffs apenas uma vez, o mesmo número de presenças na pós-temporada entregue por quarterbacks como Rex Grossman e Kyle Orton.

Hoje, a história entre Cutler e sua equipe, está naquele ponto em que uma decisão precisa ser tomada. E sabemos que desistir é, no fundo, uma grande merda. Desde o início de nossas vidas, somos ensinados a nunca desistir. É o que também esperamos daqueles que estão dentro de um campo de football; ele é um reflexo bem próximo da vida.

Mas em alguns casos você irá perceber que na verdade não está desistindo de nada: você só está preso a um jogador horrível e precisa admitir que após anos e anos de tentativas frustradas, é hora de seguir em frente.

O caminho até a NFL

Criticar o destino final conhecendo o caminho percorrido é extramente confortável, então vamos olhar em retrospecto. A classe de 2006 do draft não foi lá muito prolífica em QBs, mas mesmo assim nomes como Mike Mayock e Steve Young saíram em defesa de Cutler – deixando atrás Matt Leinart, vencedor do Heisman em 2004 (15 TDs e 21 INT em sua carreira na NFL) e Vince Young, este com 45 TDs e 51 INT em seis anos de liga.

Paradoxalmente, enquanto Leinart e Young protagonizaram um dos maiores jogos da história do college football, a carreira universitária de Cutler em Vanderbilt terminava com uma derrota para Kentucky – e tanto Leinart quanto Young venceram mais jogos em 2005 do que Cutler em todo seu período na universidade. Mas conforme o draft se aproximava, a narrativa sobre Jay tomava um novo rumo: tudo que ele havia conquistado em Vanderbilt (basicamente um First Team All-SEC em 2005), ele fizera sem muito auxílio; Cutler não tinha os holofotes que Leinart e Young tinham, mas contava com um braço assustadoramente forte e, sobretudo, vontade de usá-lo.

“Creio que ele tem um release mais rápido que qualquer um dos dois. É um cara duro e acho que ele jogou atrás de uma linha ofensiva muito pobre”, era o que diziam analistas na época.

Na semana do draft, especulava-se que ao menos seis equipes estariam interessadas em Jay Cutler: Floyd Reese, GM do Titans, o encontrou várias vezes. O New York Jets também estava bem posicionado para selecioná-lo, mas foi Denver quem agiu, e o escolheu na 11ª posição.

Primeiras impressões

Já nos cinco jogos finais de sua primeira temporada, Cutler colocou Jake Plummer no banco; Jake ostentava 39 vitórias e 15 derrotas em temporada regular com os Broncos, mas vinha de sua pior fase e, enfim, as perspectivas futuras com Cutler pareciam muito mais promissoras do que manter Plummer.

E assim foram os dois anos seguintes de Jay Cutler na NFL; um misto entre indícios de um futuro possível e um presente irrelevante. Em 2008, porém, forçado por um defesa ridícula, Jay precisou lançar 616 passes, que resultaram em 4526 jardas, 25 touchdowns e 18 INT. Ao final daquela temporada, Mike Shanahan perdeu o emprego e os Broncos buscaram o OC Josh McDaniels em New England. E foi quando tudo começou a ruir.

Aquela carinha de “foda-se”.

O Jay Cutler que conhecemos e a oportunidade única

Bus Cook, agente de Cutler, disse à AP que Denver, junto com McDaniels, iria trazer Matt Cassel, que acabara de substituir Tom Brady por um ano e tivera 10 vitórias. O que sabemos nunca aconteceu. E Cutler reagiu da maneira que Jay Cutler reagiria: recusou-se a falar tanto com McDaniels como com Pat Bowlen, proprietário do Broncos.

E apesar de mais tarde Cutler ter negado que teria pedido uma troca, suas declarações iam na direção contrária das de seu agente. “Não me importa se você fala em trocá-lo por Matt Cassel, Matt Ryan ou Tom Brady, você não está dando um voto de confiança para ele. É assim que Jay vê, e eu faria da mesma forma”, afirmou Bus. Já McDaniels declarava que não queria trocar Cutler, que ele era o quarterback do Broncos. Então, 40 dias depois, Cutler desembarcava no Soldier Field.

Jerry Angelo, GM de Chicago por mais de uma década, definiu a chegada de Cutler como “uma oportunidade única”. Para ele, franchise quarterbacks de 26 anos não se tornavam disponíveis e era preciso agarrá-los, mesmo que o preço fosse salgado – e Jay (mais uma escolha de quinto round) custou para os Bears duas escolhas de primeira rodada, uma de terceira, além de Kyle Orton. Mas, como Angelo insistia em frisar, era uma oportunidade única, um mergulho na loucura para que os Bears deixassem uma mediocridade já latente.

Início de um longo pesadelo

A primeira temporada de Cutler em Chicago foi uma grande tragédia. Logo em sua estreia, ele lançou quatro interceptações – em uma partida que o Bears perdeu por apenas seis pontos. Naquele mesmo dia, o LB Brian Urlacher, que passaria seus 13 anos de carreira em Chicago, fraturou o pulso e ficou fora do restante da temporada. Foi a gota d’água para o sistema defensivo do Bears, então um dos mais confiáveis da NFL, implodir.

Lançando passes freneticamente, Cutler terminaria o ano com 26 INT, sendo que em sete das 16 partidas ele foi interceptado mais de uma vez. Ao final daquela temporada também teríamos o início de um filme reprisado intensamente na era Cutler em Chicago: o OC Ron Turner, incapaz de extrair o melhor de seu novo QB, jovem e brilhante, foi demitido; começava a relação cíclica dos Bears com seus OCs, tão estável quanto relacionamentos adolescentes.

Já o segundo ano de Jay em Chicago, 2010, traz um paradoxo: o Bears venceu muito naquela temporada; foram 11 vitórias e o título da NFC North. Mas isso pouco tem a ver com seu ataque; na offseason Chicago assinou com um Julius Peppers em sua melhor forma o que, junto ao retorno de Urlacher, reacendeu o sistema defensivo – que saltaria da 21ª em 2009 para a 4ª posição em 2010, claramente entre as melhores da NFL. Já o ataque, bem, Cutler foi sackado incríveis 52 vezes naquela temporada, que resultaram em mais de 350 jardas perdidas; foram ainda 23 TDs e 16 INT, para um rating de 86.3.

Tudo isso culminou no NFC Championship, que deve assombrar os torcedores de Chicago e Jay Cutler até hoje: logo no início da partida, Cutler torceu o joelho e os Bears precisaram contar com um inútil Todd Collins (que durou menos que Cutler em campo) e, logo depois, Caleb Haine, que praticamente estreava na NFL em um Championship Game. Mesmo com a defesa segurando Aaron Rodgers e o Packers em 21 pontos, era um ataque inexistente e tudo foi em vão.

Com o ataque paralisado e Cutler na sideline, as críticas eram inevitáveis. Darnell Dockett, DE do Cardinals, esculachou. Mike Ditka, um dos técnicos mais vitoriosos da história do Bears, também não deixou barato. Cutler era, pela primeira vez, o alvo real da ira de toda comunidade de Chicago.

“Neva até soterrar esse demente”, teria pedido um torcedor do Bears.

Recomeço?

Com um novo ano, há sempre novos planos e após perder a chance de chegar ao Super Bowl, Chicago começou a temporada com uma campanha 7-3, com Cutler com os melhores números de sua carreira, e a defesa novamente no topo da NFL. Próximos da sétima vitória, porém, Jay Cutler lançou uma interceptação, recebeu um bloqueio e aquela que provavelmente foi sua última real chance de redenção se despedaçou com seu polegar direito – o Bears foi forçado a seguir com Caleb Haine, que teve uma vitória nas seis partidas seguintes.

Ao final daquela temporada, muito mudou em Chicago. Jerry Angelo foi o primeiro a deixar Illinois. Phil Emery assumiu o cargo de GM e passaria os próximos quase dois anos tentando construir um ambiente favorável para Jay; todos os movimentos foram pensados para ajudá-lo a prosperar: Emery conseguiu uma troca que trouxe o WR Brandon Marshall, com quem Cutler tivera relativo êxito no Broncos, além de buscar Alshon Jeffery no draft. Mesmo vencendo 10 partidas em 2012, o Bears não chegou aos playoffs, então Emery julgou o momento como certo para demitir o HC Lovie Smith, que foi substituído por Marc Trestman, reconhecido em toda NFL por seu trabalho com quarterbacks. Já da free agency chegaram o TE Martellus Bennet e o LT Jermon Bushrod, enquanto o G Kyle Long foi selecionado na primeira rodada do draft para tornar o OL ainda mais consistente: em 18 meses Emery tinha mudado toda a estrutura do Bears, moldando o ataque do time às características de seu QB.

O objetivo, de certa forma, foi atingido: Brandon Marshall era um dos melhores WRs da NFL, Jeffery uma estrela em ascensão e Cutler atingia seu melhor rating desde que deixara Denver. Mas estamos falando de Jay Cutler e com ele não há um ano sem que haja uma turbulência: passada metade da temporada, Jay lesionou a virilha, dando lugar a Josh McCown, que postou um rating de 109, lançou 13 TDs e apenas 1 INT durante o período em que comandou o ataque do Bears. Quando Cutler foi liberado pelo departamento médico para retornar, claro, não houve unanimidade. Mas Trestman optou por Jay, e na semana 17 um tropeço contra Green Bay lhes custou a vaga nos playoffs.

Tudo isto culminou em… um novo e gigantesco contrato para Cutler. Tudo bem, era preciso considerar o ano anterior e o fato de que tanto Marshall como Jeffery tinham sinergia com Jay, então suas deficiências passadas pareciam contornadas. Além de Emery ter montado uma equipe para Cutler: ele finalmente seria o jogador que o Bears esperava, então Phil lhe entregou um contrato de sete anos no valor de US$ 126 milhões, sendo US$54 milhões garantidos.

Na época, o novo acordo foi considerado um preço a ser pago na NFL e moldou os contratos seguintes de quarterbacks. Mesmo assim, muitos o apontaram como o tipo de contrato que só é estabelecido com um QB que você tem plena certeza que o levará ao SB.

De qualquer forma, para Chicago, não era algo normal, mas talvez também estivesse longe de ser algo absurdo, afinal ainda havia um resquício de chance de Jay se tornar o franchise QB que o Bears buscara em abril de 2009. Era preciso acreditar nisso, era preciso ter fé. E foi o que Emery e Trestman fizeram; eles tiveram fé em Jay Cutler, apenas para ela se provar errada e ambos terminarem o ano desempregados.

Presos no tempo

Tudo isto nos mostra que a relação entre Cutler e Chicago não é apenas um recorte interno da história do próprio Bears, não é apenas sobre Jay Cutler, ano após ano, se afogando em um mar de desculpas esfarrapadas. O que aconteceu com Chicago e Jay ao longo destes oito anos é um reflexo real da nossa forma de arrumar desculpas diariamente: quando caras como Lovie Smith, Marc Trestman ou mesmo Mike Shanahan se tornam bodes expiatórios, quando tantos outros são culpados por um problema, substituídos, mas o problema persiste, talvez você não esteja identificando o real problema.

“Foi culpa da defesa”, “No final das contas, foi uma boa temporada”, “Precisamos ser mais compreensivos”, “Há alguns jovens que precisam de mais tempo para se desenvolver”…

Foram vários os discursos recorrentes que acabaram soando como as mesmas velhas desculpas. E enquanto elas eram repetidas, Cutler seguia ali: ele já não era mais tão jovem, mas a decepção continuava.

Talvez não exista em nenhum esporte coletivo uma posição com a carga de representatividade que um quarterback traz consigo. Nos atendo apenas a NFL, você pode ter o melhor RB disponível, dois WRs incríveis ou mesmo uma defesa espetacular: no fim do dia, é naquele cara que está logo atrás do center que você deposita suas esperanças; é ele quem precisa liderar, é ele quem deve fazer tudo funcionar.

Lógico, uma equipe pode vencer sem um bom QB, mas se ele não vai bem, sempre haverá essa preocupação recorrente; maus quarterbacks podem despedaçar qualquer sonho de um fã de football. E nos últimos oito anos não existiu alguém que destruísse sonhos com tanta eficiência como Jay Christopher Cutler. E Cutler sempre teve tudo o que precisou para ser um franchise quarterback, mas ele não é confiável, ele não pode liderar a equipe.

Síndrome de Estocolmo é o nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter algum tipo de simpatia por quem a tortura. Se ela pode ser transposta à NFL, não há um exemplo melhor que a relação entre Cutler e o Bears: enquanto Chicago sempre procurou alguém para culpar, proprietários, treinadores, linha ofensiva ou qualquer outro elemento, talvez finalmente estejamos chegando no momento em que só reste admitir que Jay Cutler simplesmente não sabe jogar. Que Jay Cutler simplesmente não se importa.