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Análise Tática #23 – Wild Card: os pontos chaves para a virada do Tennessee Titans

Finalmente chegamos aos playoffs. No último sábado, o Kansas City Chiefs foi eliminado mais uma vez no Arrowhead Stadium após uma boa temporada, assumindo o papel de seleção mexicana da NFL, em seu mote “jogamos como nunca, perdemos como sempre”.

E dessa vez, foi com requintes de crueldade. 21 a 3 no primeiro tempo, grande exibição, ataque produzindo bastante jardas e jogo corrido engrenado. A defesa dos Titans comandada por Dick LeBeau não conseguia respostas, enquanto o ataque comandado por Marcus Mariota parecia mal preparada e desenhada.

No segundo tempo, tudo mudou: os Titans anotaram 19 pontos seguidos, enquanto a defesa não cedeu nada aos Chiefs, 22 a 21 na primeira vitória de pós-temporada de Marcus Mariota. O técnico Mike Mularkey inclusive pensou que seria demitido, enquanto o time ganhou uma sobrevida para enfrentar o New England Patriots na rodada divisional.

Domínio dos Chiefs

O primeiro tempo foi marcado pelo ataque dos Chiefs dominando a defesa dos Titans em todos os pontos do jogo, principalmente com o TE Travis Kelce. O ataque coordenado por Matt Nagy partiu principalmente do 11 personnel. Nagy costuma posicionar Kelce em diferentes pontos do ataque, como X, Y e Z, geralmente utilizando motion para fornecer leituras defensivas ao QB Alex Smith. Esse comportamento é comum em times com TEs dominantes.

Na imagem acima mostra-se a primeira conversão de terceira descida do jogo. Jogada desenhada para Travis Kelce sair do motion e ajudar Alex Smith detectar a marcação. Junto com a posição do quadril dos CBs e o acompanhamento de um jogador, Smith sabe que encara uma cobertura mano-a-mano.

O desdobramento dessa leitura pré-snap é que Kelce provavelmente terá vantagem em relação a seu marcador devido ao atleticismo. O TE executa uma rota de double move que eu chamo de slant-corner (na realidade esse nome é um conceito, como o curl flats do Madden), provavelmente o corte para fora é devido à sua leitura de opção. Smith coloca a bola no ombro de fora, ponto que apenas Kelce consiga alcançar. Novo set de downs.

Aqui, cabe-se o fato de que devido ao cushion dado pelos safeties na marcação em zona, Kelce fica em marcação individual. Adoree’ Jackson percebe e larga Tyrek Hill para fechar o tackle e evitar um ganho maior que 14 jardas.

A defesa dos Chiefs segurou o ataque dos Titans. Novamente em uma terceira descida, o Chiefs apresenta um shotgun em 11 personnel.

O interessante dessa jogada, que dependendo da progressão que Alex Smith faça na jogada, ela pode ser um conceito smash, levels ou mesh. Aqui, pela situação descida/distância, Smith enfrenta um 3-men rush e se concentra nas rotas internas, definindo o conceito mesh.

Mariota a ponto de ter o passe desviado.

Tyreek Hill quebra os tackles, conta com o bloqueio de Kareem Hunt na rota wheel e consegue um ganho de 45 jardas. Big play responsável por ditar o ritmo do drive que terminou com o primeiro touchdown da partida.

A defesa dos Chiefs forçou mais um 3-and-out, e o ataque novamente capitalizou. Após um drive de 6 jogadas, 3 delas com ganho maior que 15 jardas. A pontuação veio com um ganho de 13 jardas em uma 1st & 10 na redzone, ainda no primeiro quarto.

Travis Kelce parte da posição de 3 apoios na rota seam, a preferida dos TEs dominantes, pois é impossível defender contra um lob-pass. Contra um LB e um safety, Alex Smith coloca o passe acima da cabeça de Kelce, que faz a recepção. As rotas espalhadas para as laterais criam esse mismatch, deixando o meio do campo livre.

O domínio defensivo dos Chiefs

Como mencionado repetidas vezes, a defesa dos Chiefs forçou 3 punts, conquistou uma interceptação e cedeu apenas um field goal. Vamos observar a jogada em que Marcus Peters intercepta Marcus Mariota quando o placar estava 14 a 0 para o time de Kansas City.

Os Titans tentam aplicar um tipo de Strong flood em que três rotas out e uma rota dig quebram em regiões diferentes do campo, criando camadas de leitura (tal como o conceito levels) para o QB. Aqui, a progressão provavelmente é entre as rotas dos recebedores no lado forte da linha (direito).

O recebedor mais aberto tentará atrair Marcus Peters até o fundo da endzone enquanto Delanie Walker quebrará a rota na altura da linha de 5 jardas. A jogada dá errado por que Peters (marcando em zona, repare como os quadris estão voltados para o meio do campo) reconhece o padrão e percebe que o passe vai na direção de Walker, pula na rota e faz a interceptação.

Um ball placement abaixo do desejável por Mariota permite que Marcus Peters alcance a bola.

Os ajustes ofensivos de Tennessee

No segundo tempo o jogo mudou. Em parte, devido à concussão de Travis Kelce, o Kansas City Chiefs não conseguiu manter o poderio ofensivo mostrado na primeira etapa, além do fato de que o coordenador ofensivo Matt Nagy ter limitado Kareem Hunt a cinco carregadas. Não se tira a bola do seu melhor jogador quando se está ganhando o jogo, ainda mais quando o mesmo é um running back.

Na parte defensiva, Dick LeBeau ajustou seus esquemas de pressão a Alex Smith, ao contrário do que estava tentando na primeira etapa. Smith não é exatamente o QB mais prolífico da liga, então algumas blitzes pontuais eram necessárias para dar uma nova leitura ao QB, tentar deixá-lo desconfortável no pocket. No primeiro tempo de jogo, Tennessee tentava pressionar Smith na maioria das vezes com 3-men-rush, e o QB encontrava jogadores livres devido ao tempo disponível no pocket.

No ataque, Marcus Mariota finalmente apareceu para jogar. O QB vindo de Oregon fez exatamente o que se espera de um líder de um time no momento de maior necessidade. Criou jogadas com as pernas, conectou bons passes e mesmo bloqueou na jogada que selou a vitória.

Tennessee virou a relação de posse de bola, passando a comandar campanhas ofensivas mais longas, da mesma forma em que a defesa conseguia tirar Kansas City de campo mais rapidamente. Os Titans abriram o terceiro quarto com uma campanha de 15 jardas e quase 10 minutos que acabou em touchdown, o cenário dos sonhos para qualquer bom ataque.

Os Titans executam o conceito levels, porém a defesa de Kansas City marca todas as rotas individualmente e obriga Marcus Mariota a ir para o checkdown. Contra um 4-men-rush, o QB consegue permanecer no ponto ótimo de proteção e conecta o passe.

Pela “teoria do cobertor curto”, como as rotas principais estavam bem marcadas, isso logicamente abriu um espaço para que Derrick Henry conquistasse muitas jardas com as pernas, 29 ao todo. O drive terminou no touchdown de Mariota em que ele recepcionou o próprio passe defletido pela defesa de Kansas City e se atirou no pylon.

Em seguida, os Titans tiveram sorte ao Harrison Butker perder um field goal em um drive vindo de um turnover de special teams. Os Titans capitalizaram com touchdown, reduzindo a vantagem para 5 pontos.

Pelo texto em que demonstramos o plano de jogo dos Steelers, o leitor já deve conhecer o conceito trap. Um jogador de linha ofensiva, geralmente o guard bloqueia no lado oposto ao seu em relação ao center, na direção em que se desenvolve a jogada. Aqui, vemos Josh Kline realizar esse papel.

 

Observando a jogada de frente, observamos que Kline engaja seu bloqueio no camisa 21, enquanto a linha se desloca para a direita. O gap criado ocorre bem na direção da hashmark esquerda. Alcançando o mesh point em velocidade, Henry toma a leitura bang. Nenhum defensor é capaz de alcançá-lo e o touchdown acontece.

Na jogada que resultou a virada no placar, observamos que Terry Robiskie –coordenador ofensivo – desenha duas rotas para a mesma direção, com Eric Decker e Delanie Walker. Em quesito estratégico, isso dificulta o trabalho de Mariota, pois concentra os dois safeties para a direção da bola, em vez de abrir o espaço no meio do campo.

Aqui, Mariota conta com o excelente trabalho da linha contra um 4-men-rush e coloca o passe em uma ótima posição, resultando em touchdown. 22 a 21, a virada aconteceu.

Ajustes defensivos de Tennessee

Para exemplificar como Dick LeBeau trabalhou a defesa no segundo tempo, vamos observar uma jogada chave de passe incompleto, stop que antecedeu o drive do touchdown da virada pelos Titans.

Os Chiefs tentam realizar uma conversão rápida de um 3rd & 2 com uma slant simples. Por causa do press coverage, a rota fica fora de timing com Alex Smith, enquanto o recebedor tenta improvisar indo um pouco mais fundo no campo. O single-high safety reage bem na jogada e fecha a linha de passe.

Após uma virada improvável, Tennessee tem mais uma dura tarefa ao enfrentar os Patriots em Foxborough, onde não perdem em um jogo de playoffs desde o AFC Championship Game da temporada de 2012.

  • Diego Vieira será Titans desde criancinha no próximo sábado.

Podcast #6 – uma coleção de asneiras VI

Trazemos as análises mais acertadas do mundo sobre o último dia de trocas na NFL. E, de brinde, apresentamos algumas trocas que não aconteceram, mas gostaríamos de ter visto.

Em seguida, voltamos com o #spoiler: dessa vez, quais jogadores vencerão os prêmios de MVP, Defensive Player of the Year Offensive Rookie of the Year. Já pode fazer suas apostas que o dinheiro é garantido.

Depois abrimos espaço para cada um destacar uma pauta que chamou a atenção nessa temporada – inclusive uma tentativa medonha de defender o Cleveland Browns (!!!). Por fim, damos as tradicionais dicas de jogos para o amigo ouvinte ficar de olho nas próximas semanas. Só jogão.

Agradecemos a atenção e desde já nos desculpamos por pequenas falhas no áudio – somos eternos amadores em processo de aprendizagem. Prometemos que, se existir um próximo, será melhor (dessa vez acreditamos que foi bom, é um milagre).

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Semana #6: os melhores piores momentos

Semanalmente, grandes jogadas são feitas. Mas também, semanalmente, péssimas jogadas são feitas. Esta coluna está interessada apenas no segundo grupo: porque os highlights você pode assistir em qualquer lugar, o que houve de ruim, só aqui, no Pick Six.

1 – Sequências assustadoras

Não tão boas quanto a franquia Sharknado, mas mostrando que tudo que está ruim, pode piorar.

1.1 – O Detroit Lions 

Em um primeiro momento, o jovem Jamal Agnew (já retornou algumas bolas para a endzone, mas tem o azar de jogar em Detroit, logo você não o conhece) conseguiu sofrer um fumble medonho ao tentar retornar um punt: ele jogou a bola pra trás, e escapou de um Safety por pouco.

Um passe incompleto depois, Matthew Stafford conseguiu a lendária Pick Six na Endzone. Diz a lenda que ver muitas dessas na vida é um sinal de sorte.

1.2 – Kansas City Chiefs e Pittsburgh Steelers 

Não é porque são bons times que eles estão imunes as cãibras mentais. Acompanhe aqui como Alex Smith está inspirado na sua campanha de MVP: está jogando como Peyton Manning.

O Steelers queria jogo e, em um belo momento de fair play, decidiu que os dois pontos já eram suficientes e o Chiefs poderia reaver a bola. Antonio Brown e cia. ainda fizeram um belo teatro para disfarçar. Parabéns pela atitude!

2 – Decisões assustadoras 

Não tanto quanto aquela sua ideia de apostar no Tennessee Titans como o time a ser batido na AFC em 2017.

2.1 – Denver Broncos

Brock Osweiler teve sua oportunidade de ouro ao ser contratado pelo Denver Broncos. E então a sorte sorriu novamente para Brock: Trevor “is he good enough?” Siemian se machucou e ele pôde comandar o ataque de Denver por algumas jogadas. Mas os Broncos sabiam que era melhor não se arriscar e, mesmo depois que Osweiler fez um spike para parar o relógio, o time decidiu que era melhor acabar com a brincadeira ali mesmo.

Poesia.

2.2 – Jacksonville Jaguars

Os Jaguars descobriram da pior maneira que, perdendo por 10 pontos, chutar um Field Goal de 54 (!) jardas na segunda (!!) descida (!!!) não era uma boa ideia.

Pra enquadrar.

3 – Punts: uma ciência muito mais complexa que você imaginava.

Depois de Jay Cutler, definitivamente a jogada que mais traz alegria para a nossa coluna. Já apareceu duas vezes hoje, e ainda há espaço pra mais.

3.1 – “A bola tá vindo, o que é que eu faço?”

Porque o Thursday Night Football NUNCA falha.

3.2 – O momento que você conheceu a posição de Long Snapper 

Com todo respeito, mas essa é a única posição do esporte que até cegos podem jogar. Você não pode ser pago pra isso e ser ruim. Nunca.

3.3 – Os times especial do Los Angeles Rams

Uma presença constante por aqui. Algumas vezes de forma positiva, outras de forma negativa. Dessa vez, foi lindo.

4 – Joe Flacco

Um ótimo lance para você usar de exemplo quando estiver explicando o esporte pra @: não pode lançar a bola pra frente depois que você passou da linha de scrimmage. Apesar de ter gente que joga o jogo (e ganha muito dinheiro para isso) que não sabe da regra, ela ainda é muito importante.

Caso você não tenha percebido, a linha de scrimmage é ali na linha de 10.

5 – Pessoas entrando de bunda na endzone

A tendência mais forte do inverno americano.

5.1 – Golden Tate III

O homem que imortalizou essa arte. Nós amamos Golden Tate. (Veja o touchdown, também vale a pena.)

5.2 – Braxton Miller

Nada como enfrentar o Browns. Você talvez nem conhecia esse homem. Nós o conhecemos deste lance.

5.3 – O guerreiro #13 de Kansas City 

6 – Imagens que trazem PAZ.

6.1 – Kevin Hogan 

Tem que ser muito gênio pra lançar um Intentional Grounding em que a bola sequer sai da endzone.

6.2 – Adrian Peterson quebrando tornozelos

Diretamente do túnel do tempo, mais precisamente do ano 2009.

6.3 – “Os Intocáveis”

A série que conquista fãs a cada semana.

6.4 – Kiko Alonso

Porque não apenas crianças gostam de voltar pra casa com souvenirs.

6.5 – Frank Gore

Assassinando o Edge, Gore entra aqui na cota do clubismo.

7 – Prêmio Dez Bryant da Semana

Não tem Prêmio Dez Bryant nessa semana. Quando a coluna for paga, você poderá reclamar.*

*Nenhuma atuação medonha chamou muito a atenção, e já tínhamos conteúdo suficiente dessa vez.

8 – Artie Burns

No touchdown que o guerreiro #13 dos Chiefs entra na endzone com a bunda, Burns protagonizou um momento, no mínimo, curioso. Ele para na jogada pra reclamar. E ainda perde o tackle na sequência. Burns é o camisa 25.

 

Podcast #5 – uma coleção de asneiras V

Voltamos com o tradicional #spoiler: equipes relevantes (e o Tennessee Titans) que não vão para os playoffs em 2017.

Depois discutimos qual equipe assistiríamos se só pudéssemos acompanhar um time até o final da temporada – graças a Deus não acontecerá.

Em seguida, trazemos algumas proposições que sequer acreditamos, mas nos obrigamos a explicar porque é verdade – não sabemos porque fizemos isso.

E, no final, como já é comum, damos dicas de jogos para o amigo ouvinte ficar de olho nas próximas duas semanas!

Agradecemos a atenção e desde já nos desculpamos por pequenas falhas no áudio – somos eternos amadores em processo de aprendizagem. Prometemos que, se existir um próximo, será melhor.

Jared Goff estrelando “O verdadeiro bust era Jeff Fisher”

O que faz um bom jogador? Talvez essa seja a pergunta mais difícil de se responder no futebol americano – e se soubéssemos a resposta já estaríamos ricos. Anualmente, milhares de jovens deixam suas faculdades para entrar na NFL, onde as franquias procuram filtrar esses atletas para selecionar os melhores. Mas como isso é feito? Algumas equipes apostam no atleticismo, outras apostam no conhecimento de jogo, outras no potencial e algumas tentam aliar as três características.

E, anualmente, percebemos que não sabemos qual desses atributos é o mais importante ao avaliar quem será a próxima estrela da liga. Tom Brady teve testes ridículos no Combine e seu talento não era visto por ninguém como algo transcendental. Mas o que permitiu a Brady atingir o (enorme) sucesso que ele alcançou?

Primeiramente, seu próprio mérito, principalmente o comprometimento com o jogo e como ele se prepara para ele. Além, claro do seu talento, temos que avaliar o contexto: quando estreou na liga, Tom não precisou carregar um bando de imbecis – o bando de imbecis não era um bando de imbecis, mas jogadores que ajudaram a tirar a pressão e o peso de seus ombros. Além disso, Brady contou uma comissão técnica extremamente eficiente e que permitiu a ele jogar de acordo com suas capacidades.

Nosso último texto também discutiu essa questão, ao abordar o caso de Alex Smith: até que ponto o ambiente em torno de um jovem prospecto influencia seu jogo? Mais uma vez, não sabemos a resposta exata para essa pergunta, mas uma coisa podemos ter certeza: é melhor ser treinado por Andy Reid e Jim Harbaugh do que por seja lá quem treinou Alex no início de sua carreira. Ou por Jeff Fisher.

Como tentar estragar a carreira de um jovem e ainda gastar múltiplas escolhas do draft no processo

Quando foi selecionado com a primeira escolha geral do draft em 2016, Jared Goff se encaixava na categoria do “jogador com potencial”. Sabia-se que ele era “cru”, muito em função do esquema em que estava inserido na faculdade. Jared talvez precisasse até mesmo não jogar em sua temporada de calouro, primeiro porque ele não tinha a capacidade de fazê-lo, segundo porque um ano ruim pode desgraçar a cabeça de alguém para sempre – e aí já era.

Os Rams sabiam de tudo isso quando escolheram Goff, mas o que talvez a franquia não sabia (nós sabíamos, você sabia, o mundo sabia) era que Jeff Fisher é um péssimo técnico. Além disso, na comissão comandada por Fisher, não havia nenhuma mente ofensiva brilhante capaz de ajudar a desenvolver o talento de seu quarterback: Rob Boras, o coordenador ofensivo, é hoje técnico de Tight Ends no Buffalo Bills. Chris Weinke, o técnico de QBs, é hoje “analista ofensivo” em Alabama (seja lá o que isso queira dizer).

Los Angeles até começou fiel ao plano de manter Jared no banco ao início da temporada, mas as atuações errantes de Case Keenum (mais um nome que compõe a lista de pessoas-que-você-não-quer-ensinando-o-seu-franchise QB) fizeram com que Goff assumisse a posição de titular. Vamos poupar sua visão dos números, mas acredite, eles são horríveis – coloque no Google estando ciente dos riscos.

Novos amigos

O tempo passou, Jeff Fisher (sdds) foi demitido e os Rams iniciaram o processo de consertar as merdas feitas. Abordamos elas aqui (spoiler: são muitas). A franquia sabia que poderia resolver todos seus problemas, mas de nada adiantaria se Jared Goff continuasse sendo um QB abaixo da linha da crítica (em linguagem popular: ruim para caralho). Para isso, o foco na contratação do novo treinador era apenas um: encontrar alguém que fosse capaz de fazer Jared jogar bola como gente.

Sean McVay foi o escolhido e teve a liberdade de remontar o ataque da forma como entendia (e ele entende para caralho). No draft (nós criticamos, é verdade) as escolhas de Cooper Kupp e Gerald Everett deram a Goff duas armas confiáveis: um TE  atlético e um slot receiver confiável (até certo ponto). Na free agency, o LT Andrew Whitworth foi contratado para melhorar uma linha ofensiva que era qualquer coisa, menos confiável.

“Aquilo ali é um hater?”

Esses movimentos têm se mostrado acertados: Kupp tem 19 recepções, 265 jardas e 2 TDs; Everett não tem números brilhantes, mas já foram três jogadas para mais de 20 e uma para mais de 40 jardas – em 2016 os Rams simplesmente não tinham peças explosivas como ele na posição. Já Whitworth tem sido sólido como era esperado, e se não sabemos como ele estará nos próximos anos em função da sua idade, pelo menos agora ele tem proporcionado mais segurança do que alguém como Greg Robinson (hahahahaha) um dia proporcionou.

Adicione a isso duas novas dimensões: Todd Gurley voltou a correr como gente e Sammy Watkins é uma ameaça perigosa. Gurley deixou o péssimo ano de 2016 para trás, e tem sido uma arma confiável tanto recebendo passes como correndo com a bola. Assim, o ataque fica mais balanceado e a ameaça de um jogo terrestre eficiente abre espaços para os Rams lançarem passes. Sammy Watkins ainda não teve uma atuação astronômica, mas seu talento e ameaça em profundidade abrem novas dimensões para o jogo de Los Angeles. Além disso, quantos jogadores na liga fazem jogadas como essa?

Os tempos de “dar um jeito de colocar a bola nas mãos de Tavon Austin” ser a principal jogada da equipe acabaram. Hoje, Austin é só mais um role player que, devido ao seu salário, mais um grande legado de Jeff Fisher, não deve durar muito tempo em Los Angeles.

Você é com quem você anda

Criada toda uma estrutura em seu entorno, Goff finalmente recebeu a oportunidade de brilhar: sua primeira partida no ano, um duelo contra os Colts de Scott Tolzien, serviu para dar confiança na temporada que começava; sua defesa jogou bem, marcou pontos e, contra a fragilizada secundária de Indianapolis, Jared lançou mais de trezentas jardas pela primeira vez na carreira.

Na semana seguinte, vimos que ainda havia muito a ser feito: os números pioraram, e uma interceptação no final do jogo custou aos Rams a chance de vencer o jogo. Repare como a jogada foi juvenil: Goff olha para o seu recebedor desde o momento que recebe o snap. O LB, percebendo isso, consegue interceptar o passe.

Em seguida, duas vitórias maiúsculas: contra os 49ers, em que Goff lançou 3 TDs e completou mais de 78% de seus passes naquele que foi o primeiro jogo de horário nobre da sua carreira: o país todo viu que ele não era mais a desgraça em forma de QB. A segunda vitória, em Dallas, mostrou para todos que Goff, mesmo com números razoáveis, não ia estragar tudo: os Rams merecem ser levados a sério.

O duelo contra Seattle foi duro. Jared completou menos da metade de seus passes e lançou duas interceptações, mas, incrivelmente, o saldo final foi positivo. Contra uma das melhores defesas da liga, Goff levou seu time até o campo de ataque no final do jogo e, se não fosse pelo drop de Cooper Kupp, os Rams teriam vencido a partida. Repare uma evolução em relação ao último drive que Goff teve para tentar vencer o jogo. Veja esse belo passe:


Agora, com o auxílio do All 22, perceba que Goff olhou para o outro lado o tempo todo e assim conseguiu tirar Earl Thomas da jogada.

O mesmo aconteceu no já citado drop de Kupp, e o próprio Thomas reconheceu isso.

Somos amadores e mesmo assim temos uma chance 74% maior de perceber esses detalhes do jogo que Jeff Fisher.

Afinal, quem é Jared Goff?

Goff não é o bust que seu primeiro ano indicava, disso podemos ter certeza: afinal, ser ruim daquele jeito constantemente talvez seja humanamente impossível (até Blake Bortles já conseguiu enganar). Mesmo assim, ainda não sabemos quem ele será. Talvez não se torne um Aaron Rodgers – aquele tipo de QB que transforma qualquer grupo de palermas ao seu redor em bons jogadores; mas o início da atual temporada indica que Jared pode ser capaz de levar longe um grupo bem treinado e recheado de boas peças – veja o quanto vale um Kirk Cousins, por exemplo.

É apenas sua segunda temporada, que poderíamos estar chamando de primeira. Jared ainda tem muito que jogar, evoluir e aprender. Afinal, agora, como você definiria o estilo de jogo dele? Ainda é cedo pra dizer. O que sabemos é que hoje Goff está em posição de mostrar suas habilidades: não precisando mais se preocupar com seu entorno, ele depende só de si para ser a cara do Los Angeles Rams por muitos anos.

Mais do que tudo, o exemplo de Goff nos mostra como é difícil avaliar um jogador em um esporte tão coletivo como a NFL. Se mesmo com carreiras longas não sabemos o que pensar de alguns jogadores (oi de novo, Alex Smith!), tirar uma conclusão sobre alguém em 13 jogos é mais que precipitado: é burrice.

Um final feliz.

OBS: Acontece que ser burro é muito mais fácil que esperar para tirar conclusões. É o que fazemos aqui no Pick Six e por isso falamos tanta bobagem.

Alex Smith como você nunca viu

Um dos maiores erros cometidos quando falamos de draft – e dos jogadores nele selecionados – é acreditar que se trata de uma ciência linear. Nós achamos que os resultados são sempre constantes em função do jogador selecionado, e tudo que muda é o time que escolheu uma pessoa ao invés da outra.

O melhor exemplo recente disso é Dak Prescott, selecionado pelo Cowboys na quarta rodada e que se tornou um dos melhores jovens QBs da NFL. Muitos analistas começaram a apontar o grande erro de estratégia dos outros times da NFL em não selecionar um jovem franchise QB em Prescott quando tiveram a chance, esquecendo que o próprio Cowboys passou Dak três vezes e só selecionou o camisa 4 depois de não conseguir DUAS opções que preferiam a ele, Paxton Lynch e Connor Cook (cuzão).

Mas o mais importante as pessoas estão esquecendo: caso Dak Prescott não fosse para Dallas, existe uma chance bastante considerável de que ele nunca teria tido o 2017 que teve, e não teria se tornado o QB que aparenta ser hoje. Ambiente, complementos e desenvolvimento contam muito para a evolução de qualquer jogador, e Dak pode passar seu ano de calouro jogando atrás da melhor linha ofensiva da NFL, complementado por um devastador ataque terrestre que tirava a atenção da defesa de suas costas.

Pense nisso: se Prescott tivesse acabado em um time como o Browns, passado o ano todo tendo que se preocupar em fugir da pressão atrás de uma linha ofensiva ruim, precisando lançar bolas demais por jogar atrás no placar, e sem um jogo terrestre dominante, podem ter certeza que Prescott não teria se desenvolvido tão bem e hoje não seria visto como metade do jogador que é em Dallas. Contexto importa, desenvolvimento importa ainda mais, e esquecemos disso com uma frequência impressionante.

Comparação

Na história recente da NFL talvez não exista um melhor exemplo disso do que Alex Smith. Primeira escolha no draft de 2005 – 23 escolhas antes de Aaron Rodgers – Smith durante muito tempo foi considerado um dos grandes busts da história da NFL.

As estatísticas ajudavam a ratificar essa impressão; entre 2005 e 2010, Alex Smith jogou 54 jogos e completou apenas 57.1% dos seus passes, com 51 TDs, 53 INT, 6.2 Y/A, 5,3 AY/A e um rating de 72.1. Com Aaron Rodgers assumindo a titularidade e se tornando uma superestrela em Green Bay, a narrativa cada vez mais forte era de que o 49ers tinha feito a escolha errada.

Mas embora seja muito provável que San Francisco realmente tenha feito a escolha errada, assumir que o resultado teria sido o mesmo (mas trocado) para os jogadores e times envolvidos é ignorar os trajetos totalmente opostos que Smith e Rodgers enfrentaram na NFL. Smith, quando chegou a San Francisco como escolha #1, enfrentou a pior situação possível para o desenvolvimento de um jovem QB: colocado logo de cara no fogo, atrás de uma horrível linha ofensiva e sem alvos para ajudá-lo, Alex passou seus primeiros anos correndo pela vida, incapaz de desenvolver as habilidades certas por estar sempre precisando jogar atrás no placar e fugir da defesa adversária.

Além disso, em seus primeiros sete anos de NFL, Alex Smith teve seis técnicos e sete coordenadores ofensivos diferentes, um constante fluxo de mudanças que impediam que o jovem QB aprendesse e desenvolvesse um playbook consistente, e cada troca vinha com novas adaptações, novas mudanças, e novas jogadas. Adicione a isso lesões no ombro – geradas e agravadas pelas repetidas pancadas sofridas atrás dessa fraca linha ofensiva – e a verdade é que Alex Smith nunca recebeu em seus anos formadores a condição de se desenvolver e ter sucesso como QB titular de NFL.

Do outro lado, Rodgers teve a melhor situação possível. Ficou três anos aprendendo com a tutela de um QB Hall of Famer (Brett Favre), sem nenhuma pressão ou desespero. Seu técnico, seu playbook, seu estilo de jogo – tudo permaneceu constante desde que chegou à NFL, o que ajudou demais seu desenvolvimento. Quando Rodgers enfim se tornou titular em 2008, estava muito mais maduro e pronto, conhecedor de um playbook estável, em um bom time. A chance de alguém se desenvolver assim era muito maior.

Então sim, é possível que Rodgers desde o começo simplesmente fosse melhor que Smith e merecedor da escolha #1. Mas a verdade é que, se você trocasse Smith e Rodgers na noite do draft, a carreira de ambos teria sido totalmente diferente. Smith nunca teria lidado com tantos problemas e teria se desenvolvido melhor, e Rodgers nunca – repetindo: NUNCA – teria se tornado o QB que é hoje se tivesse começado sua carreira na horrível situação que lhe seria proporcionada pelo 49ers, desenvolvendo maus hábitos e com aprendizado interrompido por constantes mudanças e uma péssima infraestrutura.

A sorte bate a porta

A sorte – e a narrativa sobre a carreira – de Smith mudou em 2011, com a chegada de Jim Harbaugh. Pela primeira vez Smith tinha não apenas um bom técnico e ótimo mentor de QBs para guiá-lo, como também não precisava ser ou se desenvolver em alguém que não era. Harbaugh desenhou todo o playbook do 49ers não em torno de algo que Smith deveria ser, mas do que ele tinha de melhor: a inteligência, paciência, precisão nos passes e boa leitura de jogo.

Agora, atrás de uma boa linha ofensiva e um poderoso jogo terrestre, e complementado pela melhor defesa da NFL, Smith não precisava fazer passes difíceis ou soltar grandes bombas para vencer. O 49ers precisava que ele tomasse conta da bola, trabalhasse o play action, tomasse boas decisões e fosse um complemento, uma peça a mais em um time completo e muito bem montado.

Em 2011, Smith teve seu melhor ano na carreira até então, completando 61.7% dos passe para 17 TDs e 5 INTs, 7.1 jardas por passe (Y/A) e 7.3 jardas ajustadas por passe (AY/A). Com Smith no comando, o 49ers chegou até as Finais da NFC e só não foi ao Super Bowl por conta de dois fumbles em retornos de punt (a atuação de Smith contra o Saints nos playoffs ainda é uma das mais impressionantes da história recente da NFL).

No ano seguinte, porém, Smith acabou indo para o banco depois de uma lesão em favor do maior potencial de Colin Kaepernick, mas novamente vinha tendo um grande ano: 70.2%, 13 TDs, 5 INTs, 8,0 Y/A, 8.1 AY/A. Ao todo, Alex Smith jogou 26 jogos completos sob Jim Harbaugh, e o 49ers venceu 20 deles.

Mas apesar do sucesso individual e coletivo sob Harbaugh, Smith ainda continuava preso aos rótulos. Se agora não era mais o rótulo de bust, o fracasso no draft, agora era um novo: “Game manager”. A ideia era de que Smith tinha sucesso por ser alguém que apenas “gerenciava” o jogo, alguém que só era capaz de evitar erros, dar a bola para o running back, e confiar na defesa – ele não perdia jogos, mas não ganhava, então só teria sucesso em um time que pudesse ganhar jogos por ele. E, apesar de performances como seu lendário jogo contra o Saints em 2011, por exemplo, começou a se espalhar a ideia de que ser um QB sólido, consistente, que fazia as coisas para ajudar seu time a ganhar, mas não lançava para 300 jardas e 3 TDs, não era uma coisa BOA – o que é bastante idiota.

Talvez fosse verdade de que Alex Smith não seria capaz de carregar nas costas rumo ao sucesso um elenco medíocre como, por exemplo, o do Colts, mas até quantos QBs na NFL seriam? Cinco? Ser um QB capaz de levar um bom time longe era bastante valioso por si só, mas a narrativa fez parecer uma coisa ruim, com se Alex fosse incapaz de fazer mais.

Nas seis temporadas desde a chegada de Harbaugh (duas em SF e quatro em Kansas City), Smith jogou 85 jogos na temporada regular como titular, seu time venceu 60 delas e foi cinco vezes aos playoffs (incluindo 2012). E, de alguma forma, a narrativa fazia crer que Smith ainda não era um QB bom o suficiente para ser um titular de um time que aspirasse a mais na NFL.

Trabalhando dentro do limites

As críticas a Smith se baseavam no seu estilo de jogo. Suas forças indiscutivelmente estavam nos passes curtos, na precisão, no controle de jogo e na inteligência, e muito de seus playbooks foram montados em torno dessas características, de forma a minimizar as jogadas de alto risco e focar em eficiência e ganhos curtos. Dadas as forças e fraquezas de Smith, era uma forma inteligente de montar seu ataque, mas não significava que o camisa 11 não era capaz de fazer nada mais.

E, no entanto, foi assim que a narrativa se desenvolveu, ao ponto de que seu próprio time – que foi aos playoffs três vezes na divisão mais competitiva da NFL com Smith – foi atrás de um substituto no draft, trocando múltiplas escolhas para selecionar Pat Mahomes, um quarterback bastante cru, mas com um braço extremamente forte. Ou seja, exatamente o oposto de Smith. O tempo de Alex Smith em Kansas City parecia contado, e os pedidos para que Mahomes fosse titular aumentavam a cada dia, dizendo que era a única chance do Chiefs de subir de patamar ofensivamente.

O verdadeiro MVP

Tudo que Smith fez desde então foi devorar planetas e chutar bundas. Em cinco semanas de NFL, Alex Smith tem sido talvez o melhor jogador da liga. Seus números parecem coisa de videogame: 76.6% de aproveitamento, 11 touchdowns, 0 interceptações, 8.8 jardas por passe, 10.2 jardas ajustadas por passe, 125.8 de rating, 68.1 QBR – tirando touchdowns (onde Smith era #3 depois da Semana 5) e QBR (#4), todas essas marcas lideram a NFL com MUITA folga.

Após cinco rodadas, Smith e o Chiefs tem a melhor campanha da NFL a 5-0, e tem o melhor time, melhor ataque, e o melhor ataque aéreo da NFL (em DVOA), tendo vencido no processo os times #2 (Washington), #5 (Eagles) e #6 (Houston) da NFL em DVOA (além de New England, atualmente #22). Sob qualquer medida possível, é um dos inícios individuais e coletivos mais dominantes da história da NFL, e embora seja precoce falar isso, Smith parece hoje um dos favoritos ao prêmio de MVP da liga, enquanto Kansas City vai se consolidando como o time a ser batido de 2017. Os pedidos por Pat Mahomes parecem a cada dia mais distantes.

Como diabos isso está acontecendo

Mas o mais interessante não é só que Smith tem jogado em nível MVP, mas sim como isso está acontecendo. Durante anos, a história contada sobre Alex Smith era de que seu braço era fraco demais para a NFL, um QB incapaz de fazer passes longos e que só conseguia ser eficiente, o que era de certa maneira um reflexo de seu estilo de jogo; de acordo com o site especializado Football Outsiders, até o começo da temporada 2016 Alex Smith era o quarterback cujos passes viajavam a menor distância em toda a NFL, com seus passes viajando 6.81, 5.97 e 6.87 jardas além da linha de scrimmage em média durante suas três primeiras temporadas no Chiefs (2013-2015). Em 2016, apenas 9,4% de seus passes (46) viajaram mais de 20 jardas no ar, segunda pior marca da NFL entre QBs qualificados, e completou apenas 32.6% deles para 521 jardas e 2 TDs contra 2 interceptações, um rating medíocre de 72.8.

Elite?

Em 2017, no entanto, a história tem sido outra. Nessas cinco rodadas, 12% (19) dos passes do camisa 11 tem sido de mais de 20 jardas, uma marca que teria sido #11 em 2016. Sua média de distância no ar por passe também subiu consideravelmente, para 7.7 em 2017, 18ª melhor marca da NFL (entre 33 QBs qualificados). Smith está lançando bolas longas e passes mais distantes com frequência maior do que em qualquer momento na carreira desde sua volta por cima em 2011, e seus resultados também tem sido melhores do que nunca: nesses passes Smith tem aproveitamento de 57.9% (#1 na NFL), com 440 jardas (#2 na NFL) e 3 TDs (#2 na NFL) contra 0 interceptações, que garantem um rating de 142.0 – a melhor marca de toda a liga.

Alguns desses passes foram jogadas fáceis, como o TD de Tyreek Hill contra o Patriots em uma falha de marcação, mas outros tem sido passes difíceis absolutamente perfeitos, como esse passe maravilhoso para Travis Kelce em rede nacional contra o Redskins, o TD de Hill contra o Chargers e a perfeita bomba para Hill na lateral contra o Texans – jogadas que mostram bastante habilidade e toque nos passes em profundidade.

Essa nova faceta do seu jogo tem um efeito bem maior do que somente as jogadas longas em si. Antes, era muito mais fácil para as defesas se aproximarem da linha de scrimmage – até como precaução contra o forte jogo terrestre do Chiefs – de forma a evitar os passes curtos, e desafiando Smith a vencer com passes longos que castigassem essa formação. Agora que as defesas precisam se preocupar com os passes longos, forçando os safeties a jogarem mais atrás e a defesa a respeitar a zona intermediária, abre-se demais o campo para o jogo terrestre e os passes curtos (ainda a especialidade de Smith), ainda mais em um time com muitas ameaças para conseguir jardas depois da recepção.

E me chamem de cínico, mas pessoalmente não acredito que um QB de 33 anos que até 8 meses atrás não tinha capacidade de lançar bolas longas de repente aprendeu a fazer isso da noite para o dia. Ainda que seja nítido que Smith melhorou o seu jogo em 2017, não é o tipo da coisa que você simplesmente absorve nessa altura da vida. O mais provável é algo que muitos defendiam faz algum tempo: ainda que não seja sua especialidade, Smith tem total capacidade de executar lançamentos mais longos e difíceis, e que se a falta dessa dinâmica no jogo do Chiefs estava limitando a franquia, a solução não era buscar um substituto, e sim dar mais condições e liberdade para Smith explorar essa parte do seu jogo.

E foi o que aconteceu em 2017: em parte porque o elenco de apoio (em especial o veloz Tyreek Hill e a ascensão contínua de Travis Kelce) agora está mais capacitado para esse tipo de jogada, talvez até mesmo pelo esquema tático já ter sido um pouco modificado pensando em Mahomes, mas o Chiefs finalmente começou a colocar Smith em situações favoráveis para esses passes, e com o sucesso e aumento de confiança do seu QB, começou até a usá-lo em situações não tão óbvias ou favoráveis, e em geral com bons resultados.

Até onde se pode chegar

Smith não se tornou Brett Favre da noite para o dia – sua principal força ainda é a inteligência e os passes curtos, e seus números de uso de bolas longas ainda é apenas médio da NFL. Nunca será sua maior força ou o foco do ataque de Kansas City. Mas Smith finalmente ganhou a oportunidade de explorar a totalidade das suas habilidades, e os resultados tem sido melhores do que até o mais otimista defensor de Smith (que devo ser o autor deste texto) se atrevia a sonhar, para ele e para o time.

A pergunta que fica então é o quanto esse nível de performance é sustentável. Smith não passará o ano todo sem interceptações – mesmo em seu melhor ano no quesito (2011) o camisa 11 ainda foi interceptado em 1.1% de seus passes, e isso fazendo passes muito menos complexos e arriscados do que os desse ano.

Me engulam.

Também é difícil acreditar que Smith manterá seus números em aproveitamento, jardas por passe e jardas por passe ajustadas, que atualmente se encontram em níveis que superam os que Tom Brady jamais conseguiu em qualquer ano da carreira. Times agora terão mais vídeos para estudar desse novo Alex Smith, e a novidade que são seus passes longos tende a perder alguma da efetividade com o tempo. Algumas big plays não conseguirão ser repetidas com tanta frequência, e seus números mais absurdos tendem a regredir para a média com o tempo.

Mas a questão mais importante é que sua performance não precisa se manter nesse nível. Claro, seria ótimo para o Chiefs que seu QB repentinamente se tornasse uma mistura de Tom Brady e John Elway, mas ninguém espera que isso aconteça. Mas se Smith já era um QB bom o bastante para levar o Chiefs aos playoffs ano após ano e seu maior problema era a falta de potencial do ataque devido ao seu estilo conservador, a verdade é que esse problema provavelmente não existe mais.

Smith não vai ser tão eficiente assim o ano todo nos passes longos, mas só dessa dimensão existir e estar sendo explorada – e Alex e o Chiefs estarem confortáveis com ela – já muda totalmente o quão bom Alex Smith é, e o quão bom ele e o ataque de Kansas City podem ser com ele no comando.

As estatísticas avançadas dizem que o Chiefs é com folga o melhor time da NFL (em DVOA, o time #2 da NFL – Washington – está mais perto do #10 – Bills – do que do #1 Chiefs), as estatísticas mais básicas (inclusive número de vitórias) concordam, e o teste visual corrobora essa informação. O teto desse time está mais alto do que jamais foi: ninguém está jogando melhor, e o Chiefs parece ter se estabelecido como um dos grandes favoritos ao título da temporada. Tudo graças a Alex Smith, uma frase que pareceria impossível sete anos atrás, mas que pode ser a consagração de uma das histórias de superação mais divertidas que a NFL viu em anos.

Análise Tática #11 – Semana #1: O ataque dos Chiefs salvou a nossa vida

O jogo de abertura da temporada 2017 da NFL não poderia ter sido mais surpreendente. Alex Smith e Kareem Hunt comandaram a vitória da zebra Kansas City Chiefs sobre o atual campeão do Super Bowl New England Patriots por 42×27.

A vitória do Chiefs por si só já seria algo bem longe do esperado, mas as estatísticas produzidas por Smith e Hunt adicionam um elemento a mais à derrocada do Patriots. Smith, QB conhecido pela mediocridade de seus números,  lançou para 368 jardas e 4 TDs, completando 80% de seus passes, no provável melhor jogo de sua carreira. O rookie RB Kareem Hunt sofreu um fumble em sua primeira corrida como profissional, mas se recuperou com louvor: além de anotar 3 TDs, suas 239 jardas totais foram suficientes para bater o recorde de mais jardas conquistadas por um calouro em seu primeiro jogo.

A jogada a seguir mostra como Alex Smith e Kareem Hunt destruíram o todo poderoso Patriots. No shotgun, Smith tinha Hunt ao seu lado e três recebedores em marcação individual. O Patriots trouxe sete jogadores próximos à linha de scrimmage e deixou apenas um safety em profundidade.

Tyreek Hill, que estava posicionado no slot, na parte de baixo da tela, se deslocou para o outro lado do campo, alterando a marcação do Patriots.

Logo após o snap, o TE Travis Kelce, em uma rota cruzando o campo, atraiu dois marcadores, enquanto Hunt iniciava sua rota em profundidade.

Com Kelce recebendo a atenção de dois marcadores e com os WRs em marcação individual nas extremidades do campo, Hunt acabou marcado por dois LBs, naturalmente mais lentos que ele.

Smith soube aproveitar a vantagem do confronto contra os LBs e, com um passe perfeito, colocou Hunt em posição de anotar um lindo TD de 78 jardas.

O TD de Kareem Hunt foi muito bonito, mas a primeira semana da NFL também trouxe muitas performances horrorosas. Carson Palmer implodiu no jogo contra o Detroit Lions, lançando três INTs sofríveis. Em uma delas, Palmer tinha à disposição três recebedores em rotas em profundidade e o RB David Johnson em um rota curta, em direção à lateral do campo.

O problema é que o QB do Cardinals decidiu lançar exatamente onde havia apenas um defensor do Lions, que sem dificuldades fez a interceptação. Talvez algum dos recebedores tenha errado a rota, mas mesmo assim é um erro inaceitável, já que pelo menos três jogadores estavam em condições de receber o passe.

Outro time que fez nossos olhos sangrarem na semana 1 foi o Cincinnati Bengals. Além das quatro interceptações lançadas por Andy Dalton, a defesa também não fez grandes favores ao time, que acabou derrotado por 20×0 para o Baltimore Ravens. Na jogada a seguir, Jeremy Maclin talvez tenha anotado o TD mais fácil do ano. O Bengals colocou todos os jogadores na linha de scrimmage, sem nenhum safety em profundidade.

Maclin, na posição de slot, tinha uma rota slant, em diagonal em direção ao meio do campo. Seu marcador tentou acompanhá-lo, mas outro recebedor do Ravens, indo na direção contrária, o atrapalhou.

Com o congestionamento prendendo seu marcador, Maclin só teve o trabalho de receber o passe e anotar um TD completamente ridículo de fácil.

Entre o presente e o futuro

Ao contrário da visão que muitos veículos da mídia especializada brasileira passam, o Kansas City Chiefs é muito mais que apenas o seu kicker tupiniquim Cairo Santos. Claro, Cairo tem um importante papel como embaixador do esporte no país e é uma atração à parte para nós brasileiros. Mas os Chiefs não são só Santos, muito pelo contrário: o time tem sido um dos mais interessantes de se assistir na NFL – ao menos durante a temporada regular. E a própria NFL concorda: KC jogará seis jogos de horário nobre em 2017 – mais que qualquer outro time da liga.

O hype em torno dos Chiefs pode ser atribuído ao desempenho nas últimas duas temporadas: em 2015 a equipe emplacou uma sequência de 10 vitórias consecutivas nos últimos 10 jogos, saindo de uma campanha 1-5 para 11-5 e chegando até o Divisional Round dos playoffs, onde foi derrotada pelo New England Patriots. Já em 2016, a segunda posição na classificação da AFC garantiu acesso direto à mesma rodada do Divisional, dessa vez em casa. A vantagem de jogar diante da torcida mais barulhenta do mundo não se fez valer, e os Chiefs acabaram apanhando do Pittsburgh Steelers, em derrota muito doída pela torcida.

Confie seu futuro nas mãos deste ser.

Recomeço

E é dessa derrota que partimos para explicar o ano de 2017 em Kansas City. Após mais uma eliminação nos playoffs, a percepção ao redor da liga – e dentro da franquia – era de que o time comandado por Alex Smith dava conta da temporada regular, mas não tinha forças para vencer em janeiro. Pensando nisso, os Chiefs subiram no último Draft para escolher o QB Patrick Mahomes.

Mahomes é um prospecto notadamente cru, que ainda não tem todos os conhecimentos para jogar na NFL devido ao sistema de jogo em que estava inserido na faculdade. Porém, o talento, o braço e a promessa estão lá, e acredita-se que em pelo menos um ano ele estará pronto para ser titular; de qualquer forma Alex Smith ainda está lá para segurar a posição enquanto Patrick não está pronto.

No papel, a ideia é excelente – concordamos que Alex Smith não vai te levar muito longe nem que ele compre uma companhia aérea chinesa -, mas talvez o elenco dos Chiefs não consiga esperar o desenvolvimento de Mahomes para atuar com ele. Especialmente na defesa, alguns veteranos (óbvio) estão cada vez mais velhos, e não podemos cravar que manterão o desempenho de outros tempos.

O lado bom

Derrick Johnson e Tamba Hali já estão organizando os papéis da aposentadoria; e Justin Houston, que após anos estelares, não foi o mesmo depois da lesão que sofreu em 2015. Recuperado, Houston talvez retome o auge da sua forma, mas não seria surpresa se, após mais uma temporada decepcionante, ele sequer esteja no roster em 2018. A ascensão de Dee Ford pode ajudar nessas posições, mas, se você fez a matemática, ela não bate: são três jogadores em baixa contra um em alta.

Além disso, Dontari Poe, que era uma força no meio da linha defensiva, já não está mais na cidade. Para o seu lugar chega Bennie Logan, e podemos acreditar que não haverá uma perda de qualidade, pois Chris Jones, que se destacou como calouro, está mais experiente em seu segundo ano na liga. E, para piorar, caso o front 7 mostre uma notável regressão, é importante lembrar que KC não tem a escolha de primeira rodada do ano que vem, visto que ela foi utilizada em troca para selecionar Patrick Mahomes.

A secundária, por sua vez, será o ponto forte do grupo: Eric Berry é capaz de ganhar jogos que já estejam perdidos, e Marcus Peters já se consolidou como um dos principais Cornerbacks da NFL. Fecham o grupo o Safety Ron Parker e o CB Steven Nelson.

A verdadeira esperança.

Um grande tristeza

No ataque, pouca coisa muda. O esquema do bom técnico Andy Reid será mantido, assim como o péssimo trabalho controlando o relógio ao final das partidas. Já Alex Smith será aquele QB que não estraga tudo, mas é incapaz de lançar a bola por mais de 15 jardas – mesmo que ele tenha um recebedor livre na 3rd and 17.

A linha ofensiva, que em 2016 não comprometeu, mas também não encheu os olhos, será a mesma (lesões à parte, como sempre): os Chiefs não perderão nenhum jogo porque a OL não conseguiu jogar, e isso já pode ser considerada um vitória em uma liga onde jogam Indianapolis Colts, Minnesota Vikings e Seattle Seahawks.

Já na posição de RB, Jamaal Charles deixa o departamento médico da equipe, mas Charcandrick West e Spencer Ware, que já se mostraram confiáveis, seguem no elenco. Além deles, Kareem Hunt, que chegou no draft com expectativas em torno de seu nome, e CJ Spiller, completam o versátil grupo, que ainda deve contar com algumas jogadas de Tyreek Hill.

Hill, por sua vez, adquire a posição de WR1, que ficou vaga após a saída de Jeremy Maclin pela porta dos fundos. Os outros WRs dos Chiefs são desconhecidos pelo fã-médio do esporte, então não vale nem a pena citá-los. Travis Kelce, por outro lado, é bastante conhecido e, quando Rob Gronkowski não está em campo (aproximadamente 63% do tempo, de acordo com estatísticas oficiais), é considerado por muitos o melhor TE da NFL.

Normalmente não apontamos para os Special Teams das equipes ao fazer nossas previsões, mas em Kansas City a história é um pouco diferente. Tyreek Hill anotou dois TDs em retorno de Punts e um retornando Kickoffs. Cairo Santos, com exceção de um início de carreira errante, não decepciona quando é chamado. Logo, os ST dão aos Chiefs uma dimensão que muitas equipes da liga não sonham.

Palpite: Podemos ir junto com a corrente e falar que os Chiefs terão mais um bom ano, mas a verdade é que o cenário está desenhado para uma catástrofe. A torcida já não aguenta mais Alex Smith e, após uma atuação questionável em uma derrota no Primetime, sua cabeça estará em jogo. Ele sucumbirá a pressão e, eventualmente, perderá a posição para um Patrick Mahomes despreparado. Jogando em uma divisão complicada como a AFC West, o time ficará de fora dos playoffs e Alex Smith irá levar sua mediocridade para outra franquia em 2018. Vocês viram aqui primeiro.

Divagações de offseason: uma eterna luta contra o tédio

Ao traçar estas linhas, adianto: como é visível o grande interesse que a NBA parece ter tomado no Twitter (NBA!!! Estive até me preocupando com a saída de Ricky Rubio ou a chegada de Jimmy Butler em Minnesota), esse é provavelmente o mês mais tedioso de nossa amada liga.

Para nossa sorte, porém, dentro de poucas semanas devem começar os training camps e, com eles, o contrato de 7 bilhões ao longo de 18 anos de algum suposto astro do basquetebol (sério, os contratos da bola laranja são ridículos) será substituído na escala de relevância do noticiário esportivo pela lesão no dedão do pé do WR4 dos Jets – se Deus (Tebow) permitir.

E como tal, tentemos colocar nossas cabeças para trabalhar e comecemos com suposições. Nem que seja para aparecer logo no início da retrospectiva do ano que vem sobre “percebam como começamos o ano já falando merda”. Pensando nisso, apresentamos nove situações que deveriam acontecer em julho, mas provavelmente não passarão de mera ilusão até meados de setembro:

1 – Kyle Shanahan descolando uma troca por Kirk Cousins

Quem sabe se ele mandasse um 1st round top-10 protected para os Redskins, além de dois core players, Washington desistisse de tanta briga por um novo contrato que nunca acontecerá e aceitasse liberá-lo para o lugar em que Cousins finalmente será feliz. E, inevitavelmente, decepcionará devido à mediocridade que lhe cercará em San Francisco.

Na verdade, adoraríamos sugerir a troca de Philip Rivers ou Eli Manning – vem Davis Webb! – ou algum veteraníssimo, mas como esse é uma época de esperanças, não encontramos nenhuma situação em que poderíamos ser criativos o suficiente – mas imagina que doido Rivers no Broncos, hein?

2 – Alex Smith, Mike Glennon pro banco

Pensamos em adicionar Tom Savage à lista, mas até para essa dupla de medianos, comparar com Savage é muita humilhação – e talvez os Texans sejam sábios o suficiente para colocar o Tom ruim no banco em julho mesmo. Mas, sério: alguém tem alguma dúvida que, mais cedo ou mais tarde, Mahomes e Mitch serão os titulares de Chiefs e Bears?

Alex Smith teria que se transformar no Tom Brady do Oeste para evitar que o novo Brett Favre (a cada passe fué de Smith, Reid olhará para o banco e lembrará que Pat está ali, completamente cru, mas com o canhão que todos amam na liga) tome a sua posição mesmo com uma campanha vitoriosa.

“Alex Smith sentiu um desconforto na alma, precisa meditar e, portanto, vai ficar fora tempo suficiente para Mahomes assumir”, será a manchete que encontraremos.

O veterano tem ainda menos esperança no duelo Mike x Mitch. Entretanto, é válido lembrar: o último time que apostou pesado duplamente em QBs (os Redskins, em 2012, draftando Cousins no quarto round ao invés de apostar em alguma outra posição em que poderia encontrar um titular) acabou se dando bem justo com a opção “secundária”.

Passa credibilidade?

3 – Algum RB admitindo que não correrá para mais de mil jardas na temporada

“É, sabe como é, na verdade estaremos em um grande comitê, vou dividir carregadas com outros dois jogadores medianos como eu e, no final das contas, não vou produzir o suficiente para ser draftado com qualquer das suas três primeiras escolha no fantasy.”

Era só o que queríamos ouvir: um pouco de realidade para variar e poder, assim, evitar as dicas do Michael Fabiano. É claro que em uma época do ano em que todos os times esperam vencer todas as  partidas (menos os Jets, na AFC, e os Rams, na NFC), talvez esperar ouvir verdades de jogadores do grupo de Adrian Peterson e Marshawn Lynch seja excesso de esperança.

4 – Pete Carroll admitindo que tentará matar Russel Wilson

A ideia era começar o tópico listando os titulares possíveis. A verdade: é impossível adivinhar quem serão. Luke Joeckel (daquele maravilhoso draft de 2013) e Ethan Pocic (rookie) são nomes reconhecíveis, mas tampouco passam segurança.

Senhoras e senhores, a OL dos Seahawks. Além disso, Carroll se diz “animado com a evolução da linha”, que cedeu 42 sacks em um jogador liso como Russell Wilson, que também acabou sofrendo com lesões em 2016. Também, com o novo contrato do QB, a janela para a incrível Legion of Boom está se fechando: Kam Chancellor, por exemplo, tem seu contrato acabando esse ano e Michael Bennett e Cliff Avril não estão ficando mais novos.

Se o responsável por manter os bons resultados em Seattle será o marido da Ciara (e seus US$ 20 milhões anuais), é bom que seu head coach e o grande “especialista em linha ofensiva” Tom Cable parem de tentar assassiná-lo.

“Vou te matar”

5 – Jogador reconhecendo que não está totalmente saudável ou em plena forma física

Acontece todo ano. Todo mundo chega das férias voando, melhor forma da carreira e blablabla independente de raça, posição ou idade. Chega o final de setembro, o mesmo craque sente o quadril, o tornozelo, o joelho e admite que “não era bem assim”.

Um belo exemplo, como torcedor dos Vikings, será observar o retorno de Teddy Bridgewater. Por mais emocionante que seja, uma lesão que levaria dois anos para uma boa recuperação está se tornando uma lesão que permitirá que ele volte para competir diretamente pela titularidade com Bradford. Atenção às mentiras: não é bem assim.

6 – Os Chargers encontrarem um estádio de verdade

Ataque gratuito: mas, sério, com um esporte que tem de média 60-70 mil espectadores tanto a nível profissional como a nível universitário, jogar em um estádio que não poderia receber uma final de Libertadores, é uma piada.

7 – Josh Gordon liberado

Maconha: essa droga que destrói famílias na liga e faz as pessoas sofrerem ao redor do mundo. De qualquer forma, especialmente com o aumento de estados americanos que permitem o uso da erva, é uma questão de tempo até que a NFL inevitavelmente supere suas regras de Arábia Saudita e permita que, ao menos, se teste os benefícios que ela pode ter para seus funcionários.

Enquanto isso, já passou da hora de perdermos talentos do nível de Gordon (87 catches, 1646 jardas em 2013 com Brian Hoyer ou algo equivalente) simplesmente por serem maconheiros. Legaliza, Goodell.

8 – Parar de ler esse tipo de texto quando bate a saudades e damos aquela passadinha no site da NFL

Sério? Calma, caras! E, pior, até faria sentido trabalhar com nomes do nível de Odell Beckham, que tem destruído a liga já há algumas temporadas. Mas colocar Carson Wentz como HOFer em potencial é apostar muito, mas muito alto; inclusive, apostamos que Schein não botou nem 10zão em Vegas esperando que Wentz chegue em Canton lá por 2040.

E para não dizer que batemos só em casos fáceis, Jameis Winston e Amari Cooper? Eles têm potencial, lógico, mas tanto quanto, sei lá, Jarvis Landry. Sério, uma média de 1 INT/jogo e ser o WR1a do WR1b Michael Crabtree não são exatamente o que esperamos ver como Hall of Famer em 20 anos.

Mal dá para esperar que cheguem finalmente aqueles reports maravilhosos de Training Camp sobre lesões irrelevantes ou pequenas cenas lamentáveis rapidamente solucionadas.

9 – Um QB machucado sendo substituído por ELE: Colin Kaepernick

Vocês sabiam, quando começaram a ler esse texto, que chegaríamos inevitavelmente aqui. Os mais desiludidos já dizem que Kaep jamais voltará a liga; a regra geral diz que é questão de tempo. Por exemplo, sabemos que, no caso de lesão de Flacco ou Wilson, John Harbaugh e Pete Carroll sabem onde encontrar um quarterback titular.

No resto da liga, será ao menos curioso ver o que acontece quando o inevitável fantasma das lesões atacar e deixar algum time pronto refém de Case Keenum ou Matt Cassel para chegar aos playoffs.

Como dissemos lá no início: talvez não aconteça em julho, mas setembro. E com ele nossa liga favorita, (ansiosos esperamos) sempre chega.

De York a Shanahan: o que o futuro reserva para o 49ers

“A coisa mais engraçada sobre ser um torcedor do San Francisco 49ers em 2017 é a reação das pessoas quando você conta esse fato”.

A reação inicial (e natural) é uma risada – afinal de contas você acaba de admitir que sua vida de torcedor é baseada em uma franquia que se tornou a piada da NFL nos últimos anos. Mas logo depois, a reação muda: a hilaridade inicial acaba sendo substituída por um sentimento de pena, como se você tivesse acabado de admitir ter alguma doença grave. Quase dá para ver a pessoa pensando “coitado, ele já sofre o suficiente com essa desgraça de time, é maldade tripudiar ainda mais”. Existe quase uma solidariedade com o torcedor do Niners nesse sentido, que faz você acabar levando um tapinha nas costas e ouvindo um “as coisas vão melhorar”. Com o Browns mudando sua diretoria e tomando decisões inteligentes, parece questão de tempo até San Francisco herdar o posto de pior franquia da NFL na atualidade. Ser ruim acontece, faz parte do ciclo, mas para chegar nesse nível você precisa de uma incompetência realmente especial.

Mas o pior é que, muito embora os últimos dois anos de San Francisco tenham de fato sido uma piada e justificado todos esses sentimentos, isso não é uma novidade para a franquia. É fácil esquecer isso, mas ser uma piada em meio a péssimas direções e maus cuidados dos seus donos foi a identidade do 49ers durante a maior parte do século XXI.

Depois de sua aparição nos playoffs em 2002 (derrota para os eventuais campeões Buccaneers na segunda rodada), San Francisco teve problemas em 2003 em meio a lesões de seu quarterback Jeff Garcia, e acabou o ano 7-9. E foi aí que tudo explodiu: Garcia foi para Cleveland, o combo de Tim Rattay e Ken Dorsey assumiu a posição, e o time terminou com a pior campanha da NFL com 2-14. Essa campanha rendeu a escolha #1 do Draft naquele ano… Alex Smith, que apesar de talentoso teve que lidar com SEIS técnicos diferentes (e seis coordenadores ofensivos) em seis anos e só foi se encontrar em 2011. Foi o começo de uma das piores sequências da história da NFL: entre 2003 e 2010, por oito longos e intermináveis anos, o time não teve UMA única temporada acima de 50%: campanha combinada de 46-82 (36%) e, bem, demissões quase anuais de HCs. Então acreditem quando digo que ser ruim não é uma novidade para o fã do Niners.

Uma nova (e breve) esperança

O problema é que nos ofereceram, no meio do caminho, a esperança. Nos foi mostrado um mundo onde o Niners não precisava ser uma piada, onde eles poderiam ser um time competente, admirado ao redor da NFL, uma referência de sucesso que disputava títulos. E uma vez que você chega nesse nível, ter que voltar atrás é muito mais difícil. Especialmente pela forma como foi feito.

Em 2011, no lugar do então recém-demitido Mike Singletary (talvez o pior técnico de NFL do século XXI), o 49ers anunciou a contratação de Jim Harbaugh, então técnico de Stanford. A chegada de Harbaugh – junto a um elenco promissor e bem montado por Scott McCloughan (que também foi mandado embora naquele verão e substituído por Trent Balkee) – foi o sinal da mudança para a franquia: logo no seu primeiro ano, San Francisco ganhou 13 jogos e a NFC West, Harbaugh foi eleito técnico do ano, o antigo bust Alex Smith se desenvolveu em um jogador competente e a defesa se tornou a melhor da NFL.

Saudades desse homem!

Assim, o time iniciou uma sequência de três anos em que foi um perene candidato ao título, chegando a três finais de conferência consecutivas (e muito perto de chegar também a três Super Bowls), ficando a cinco jardas de um título em 2012. Mesmo em 2014, quando o time foi apenas 8-8 em meio a múltiplas lesões e ficou de fora dos playoffs, a temporada foi melhor do que qualquer uma que o time teve nos anos anteriores à chegada de Harbaugh.

Para alguém que não pegou o auge de Montana e Young, essa foi sem dúvida a melhor época da franquia: o time era bom, a cobertura na mídia era abundante e ser torcedor do San Francisco 49ers era fonte de orgulho. Estávamos felizes por simplesmente ter um time funcional novamente.

Mas, como todo mundo sabe, não durou. O presidente do time (sobrinho da atual dona) Jed York, alguém que já admitiu publicamente não entender quase nada sobre futebol americano, mas que gosta de estar no centro das atenções, e seu GM de estimação Trent Baalke, não estavam satisfeitos com a atenção e os créditos que Jim Harbaugh recebia como salvador do 49ers. Repetiram publicamente que não era o técnico, mas sim o time que eles tinham montado. Por fim, Harbaugh perdeu a briga de força nos bastidores e, com a (ridícula, se você acompanhou os fatos) desculpa de que o HC tinha perdido o vestiário, colocaram o técnico para correr e promoveram alguém que simplesmente obedecesse às ordens vindo de cima, Jim Tomsula. Sem nenhum currículo que justificasse o cargo, a lógica era simples: se o time tivesse sucesso com Tomsula, ficaria claro que era o time, e não Harbaugh, a causa do sucesso.

O começo do fim

Desnecessário entrar em detalhes do que aconteceu, mas em resumo, tudo deu errado. As peças fundamentais dos bons times de 2011-2013 foram deixando San Francisco, e os movimentos de Baalke para repô-las terminaram em fracasso atrás de fracasso. Na tentativa de continuar vencendo, o time focou demais em contratações de curto prazo e não soube construir um plano duradouro que fizesse sentido, deixando assim de buscar peças que poderiam compor algo maior. Em dois anos, San Francisco venceu 5 e 2 jogos, e demitiu dois outros técnicos (beijos, Chip Kelly!) no mesmo período.

E isso se torna evidente quando você ignora a narrativa que tentaram te empurrar goela abaixo sobre a demissão de Jim Harbaugh, optando por focar nas reações ao redor da NFL: as pessoas estavam chocadas sobre como alguém poderia ser tão burro e demitir um dos melhores técnicos da NFL, que não só tinha trazido sucesso a uma franquia há muito decadente, mas também se tornado a cara dela – o que, claro, foi o motivo da sua demissão.

Até mesmo os jogadores do Seattle Seahawks, então maior rival do Niners, abertamente defenderam Harbaugh e mostraram bastante incredulidade frente ao movimento. Não tinha ninguém que achasse uma boa ideia. Exceto, claro, Balkee e York. A franquia tinha algo bom, tinha algo em que se sustentar, e jogou tudo pelo ralo.

Duas antas.

Reconhecendo o erro?

Mas dois dos mais fracassados anos da franquia pelo menos acenderam na cabeça de algumas pessoas a necessidade de mudança. York e Baalke apostaram e perderam. Para o segundo, isso custou o emprego. Para o primeiro não, porque isso não acontece com o sobrinho milionário e herdeiro da família que claramente não liga para o patrimônio que tem. Esse, aliás, é o principal fator de ceticismo quanto ao futuro do 49ers: poucas coisas são mais prejudiciais para uma franquia do que um dono ruim. E San Francisco talvez tenha o pior de toda a NFL contemporânea.

Ainda assim, pelo menos York e o 49ers admitiram seu erro. Baalke está fora da cidade e a franquia enfim anunciou o que todo mundo com três neurônios funcionais já sabia: que ela precisa se reinventar e recomeçar um planejamento longo para voltar a ser competitiva não ano que vem, mas daqui três ou quatro anos. Você pode questionar que diabos um time está fazendo se coloca esse processo nas mãos de um GM que é um ex-safety que jamais teve uma posição executiva na NFL e, ao invés disso passou esse tempo todo como comentarista de TV? É um questionamento válido, mas pelo menos já mostra uma mudança de postura muito necessária.

Por outro lado, a contratação de Kyle Shanahan para técnico, ainda que seja uma aposta, foi um ponto de otimismo no meio deste processo. Uma das mentes jovens mais brilhantes da NFL, Kyle foi o responsável por montar o ataque do Atlanta Falcons de 2016 que tomou a liga de assalto e fez de Matt Ryan MVP. Shanahan tem apenas 37 anos e nunca esteve na função de técnico, que é bem mais complexa e exigente do que a de coordenador, mas é exatamente o tipo de aposta que um time na condição de San Francisco deve fazer: confiar no seu enorme potencial e aceitar o risco da adaptação como parte do preço a se pagar.

Talvez ele nos salve.

E o mais importante de tudo é que, por mais arriscado que seja começar sua reconstrução com um GM sem experiência na parte executiva do esporte e um HC tão jovem e inexperiente, ambos terão bastante liberdade e margem para trabalhar: a dupla recebeu contratos de seis anos, com muitas garantias. A mensagem é clara: esse não é um trabalho para pouco tempo e eles terão bastante estabilidade no cargo para poderem pensar a longo prazo e não apenas na segurança de seus empregos. Significa que ambos poderão errar e aprender com os próprios erros no cargo. É uma aposta de alto risco, alto potencial que pode dar uma cara nova a uma franquia que desesperadamente precisa de um novo rosto.

Perspectivas

Sempre irá doer para o torcedor do San Francisco 49ers ir dormir todas as noites sabendo que tinha um dos melhores técnicos e uma das melhores situações da NFL, só para jogar tudo isso fora em uma batalha de egos (e, nessa batalha, o time claramente escolheu o lado errado).

Mas pelo menos agora, pela primeira vez, o time se colocou em uma situação de nos dar esperanças. Bem ou mal, significa um avanço. É o ideal? Talvez não. York ainda é o presidente do time e a situação dos donos ainda muito desfavorável. Um GM com mais experiência e menor risco seria mais desejável. Mas quando se está no fundo do poço, a única direção possível é para cima e hoje, San Francisco, na pior das hipóteses, já tem uma perspectiva muito melhor do que aquela que estava no horizonte seis meses atrás.

*Vitor é responsável pelo @tmwarning e torcedor do San Francisco 49ers desde 1849.