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Podcast #2 – uma coleção de asneiras II

Olá amigos do Pick Six! Um dia histórico: o nosso podcast volta ao ar!

Trazemos as principais notícias das últimas semanas (sobre incríveis jogadores, como Jacoby Brissett, TJ Clemmings e Andy Lee) e, como é habitual no começo da temporada, mandamos aquele tradicional SPOILER. Se você quer evitá-los, não ouça; mas lembre-se: só quem ouvir poderá rir da nossa cara e apontar que erramos ao final da temporada.

Edit 1: precisamos de menos de 10 horas para apontarem nossos erros

Agradecemos a atenção e desde já nos desculpamos por pequenas falhas no áudio – somos amadores e estamos em processo de aprendizagem. Prometemos que, se existir um próximo, será melhor. E, dessa vez, estamos mais confiantes que existirá!

Sobre estar de joelhos, Ruby Bridges, Beyoncé e racismo

Há mais de cinco décadas, uma criança de seis anos de idade chamada Ruby Bridges desfilou em meio a uma multidão enfurecida, composta em sua maioria por segregacionistas, para se tornar a primeira criança negra na William Frantz Elementary School, em New Orleans. E o que deveria ser apenas uma cena rotineira, extrapola toda e qualquer noção de poder imagético: Ruby, com toda sua imponência física, é escoltada por policiais no caminho até a sala de aula.

Para além da história, mais de cinquenta anos depois, permanece uma das pinturas mais significativas na luta contra o racismo, que hoje está no lado externo do escritório do presidente Barack Obama, além de diversos estudos sobre moralidade, liderados pelo psiquiatra Robert Coles.

The Problem We All Live With, pintura de Norman Rockwell, hoje na parte externa do escritório do presidente Barack Obama.

The Problem We All Live With, pintura de Norman Rockwell, hoje na parte externa do escritório do presidente Barack Obama.

O contexto histórico, porém, nos ajuda a compreender um pouco o absurdo: em 1954, ano em que Ruby nasceu, a Suprema Corte dos EUA ordenou o fim da separação racial nas escolas – instituições do sul do país, no entanto, ignoraram a decisão.

O estado da Lousiana, por exemplo, teve até o final de setembro de 1960 para colocar em prática a nova política educacional e o objetivo era integrar gradativamente: ano a ano, o processo começaria pelo que aqui conhecemos como jardim de infância e seguiria pelas séries seguintes.

Ruby foi uma das cinco crianças afrodescendentes que passaram no teste que determinava quais crianças seriam enviadas às escolas “brancas”. O teste, claro, já havia sido concebido de uma maneira que, digamos, tornasse mais difícil o ingresso de afro-americanos. Mesmo assim, os pais de Ruby decidiram lutar pela inclusão e, em seu primeiro dia de aula, a garota chegou à escola escoltada pelos já citados quatro agentes federais.

Durante todo o período letivo, a turma de Ruby teve apenas cinco alunos: ela e quatro colegas brancos. Pais optaram por manter filhos em casa, afinal, para eles era algo melhor do que partilhar a escola com uma criança negra. Dessa forma, ela passou boa parte do ano ali, sentada, sozinha, aprendendo matemática com um professor que visualizava como seu melhor amigo.

Moralidade e o ser humano

Robert Coles, um dos psiquiatras infantis mais renomados da atualidade, queria compreender o que aquela menina, imersa em fúria e intolerância, pensava e sentia. Por vários meses, ele e a pequena Ruby conversaram, até o dia em que Coles foi surpreendido: Ruby disse a ele que sentia pena daquelas pessoas. E o rebateu, questionando-o se não achava que aquelas pessoas eram passíveis do mesmo sentimento.

Coles então foi desarmado por uma menina de apenas seis anos enquanto tentava aplicar psicologia padrão, tentava ajudá-la a perceber que, por algum motivo obscuro, ela havia irritado a ordem social vigente e que seria completamente normal ela estar amargurada ou ansiosa. Mas Ruby, ao seis anos de idade, respondeu que orava por eles; no fundo ela era inteligente o suficiente para compreender o que ocorre com o ser humano.

Mas quando Coles fala sobre aquilo que ocorre com o ser humano, ele se refere ao que ocorre com seu senso de moralidade. Para ele a moralidade não está apenas nas sutilezas, não é algo teórico: é, sim, uma questão de lado, de escolha, e também o ponto central da existência humana, o fator que norteia nossas vidas.

“A moral caracteriza nossa própria natureza. Ela tem a ver com conexão humana, com o tipo de conexão que responde a terceiros. Se somos privados de nossa moralidade, estamos privados de uma parte essencial de nós mesmos”, afirma.

É fato que o racismo é um problema histórico e enraizado na cultura norte-americana. Você pode argumentar que cinco décadas se passaram desde o caso de Ruby, mas a verdade é que, mesmo assim, ele ainda está ali, latente, em uma sociedade que não soube exorcizar seus fantasmas.

E aqui não cabe a nós criticar como lidamos com um passado que insistimos em negar, afinal qual sociedade está em paz com os períodos mais sombrios de sua história? Difícil encontrar aquelas que superaram seus erros sem cicatrizes. E, enfim, por que esta história está em um site sobre NFL? Chegaremos lá, mas para isso voltemos ao último Super Bowl.

Racismo enraizado

Um dia antes de se apresentar no Halftime Show, ao lado de Coldplay e Bruno Mars, Beyoncé lançou o clipe de “Formation”. Potencializado pela genialidade da sacada de marketing (timing é tudo, amigos), o vídeo revoltou diversos setores sociais dos EUA. Já na apresentação, Beyoncé trouxe ainda um figurino que homenageava os Panteras Negras: era um mix iconográfico de referências à cultura afro-americana que, claro, mobilizou tanto simpatizantes quanto detratores.

“Formation”, aliás, é gravado na mesma New Orleans que há 60 anos proibiu Ruby Bridges de frequentar a mesma escola que colegas brancos. A mesma cidade, símbolo da força criativa afro-americana e, na mesma medida, palco de históricas repressões policiais. A mesma cidade, berço da Ku Klux Klan. E ali Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina, como milhares de negros submergiram após a tragédia em 2005 – e provavelmente por isso policiais foram orientados a desligar seus televisores no intervalo do SB.

Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina.

Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina.

A primeira frase dita no videoclipe é “What happened after New Orleans?” (“O que houve depois de New Orleans”, em tradução livre). A voz é de Messya Maye, famoso vlogger da mesma cidade, morto em 2010 quando saía de um evento com sua namorada. Já em outra parte do vídeo vemos um cordão de policiais com as mãos para o alto, seguido por um muro em que está pichada a frase “parem de atirar em nós”, semelhante aos gritos ecoados pela população negra durante as manifestações de 2014.

Beyoncé, porém, não está atacando apenas a polícia norte-americana, como sugeririam conservadores na época. Não foi ela quem recolocou a questão racial no centro do debate alguns meses atrás, assim como não foi Colin Kaepernick quem a recolocou na pauta atual. Quem trouxe novamente a questão à tona foi, na verdade, Maryland e Ferguson. Foram Alton Sterling em Baton Rouge e Philando Castile nas ruas de Falcon Heights. Foi Messya Maye, em 2010. Foram tantos outros que não sabemos o nome.

Sentindo na (cor da) pele

Não tenho propriedade alguma para falar sobre o racismo cotidiano nos EUA (na verdade, tampouco sobre racismo no Brasil; sou daqueles que acredita que só quem já sentiu na pele estas situações pode dar a real dimensão do problema), mas é sabido que até hoje uma das estrofes não cantadas no hino norte-americano “supostamente” enaltece a caçada de escravos.

Por outro lado, dados tornam impossível negar a realidade: de acordo levantamento do Mapping Police Violence, em 2015 um negro tinha três vezes mais chances de ser morto por um policial que um branco. Segundo o mesmo mapa, apenas 30% dos 346 negros mortos por policiais estavam armados (contra 19% de vítimas brancas). Já pesquisas recentes conduzidas pelo Black Youth Project da Universidade de Chicago e pelo Centro Associated Press-NORC de Pesquisa de Questões Públicas, indicam que mais de 60% dos jovens negros (e 40% dos jovens hispânicos) dos Estados Unidos afirmam que eles ou alguém que conhecem já sofreram alguma forma de violência policial. Paradoxalmente, eles também pedem uma presença maior da polícia em suas comunidades.

De joelhos

Era 26 de agosto quando Colin Kaepernick se ajoelhou pela primeira vez durante a execução do hino norte-americano. Um ato que por si só pode não significar tanto para nós, brasileiros – estamos longe de ser um país patriota, mal sabemos cantar o hino –, quanto para norte-americanos, mas de qualquer forma, o cerne aqui é a motivação de Colin.

"“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor", declarou Kaepernick.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor”, declarou Kaepernick.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que football e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos”, disse o quarterback em entrevista à NFL após o primeiro ato.

É inegável que há uma falsa impressão de que o esporte é capaz de superar preconceitos, que é um elemento capaz de quebrar barreiras e promover o encontro entre o diferente. Bem, no fundo, é apenas mais uma balela que, após repetida a exaustão, sobretudo sob a chancela do famoso “espírito olímpico”, se tornou uma falsa verdade.

A prova disso é que atletas, brancos e negros, se dividiram após a o gesto de Colin – isto em um ambiente 67% negro, segundo levantamento do Instituto pela Diversidade e Ética no Esporte, o que só nos mostra que, mesmo em um cenário composto em sua maioria por afrodescendentes, a aceitação está longe de ser garantida.

E se uma semana depois do gesto de Colin, Marcus Peters, cornerback do Chiefs, foi além e cerrou o punho, Justin Pugh, branco e tackle do New York Giants, postou em seu Twitter: “Ficarei de pé durante a execução do hino nacional nesta noite. Obrigado a todos (gênero, raça, religião) por colocarem suas vidas em risco pela bandeira”.

Já Jim Harbaugh (branco), um dos grandes treinadores do esporte e que comandou o mesmo Colin Kaepernick em sua melhor fase afirmou não “respeitar a motivação, tampouco o ato” – para em seguida se desculpar, dizendo que apenas o ato o incomodava.

Tudo bem, aceitamos o fato de que é algo a se pensar quando atletas negros se opõem ao gesto. Jerry Rice, por exemplo, criticou Kaep. E depois mudou de ideia. Victor Cruz, wide receiver do Giants, também se opôs: “Você precisa respeitar a bandeira. Você precisa se levantar com seu time”, declarou. 

Já na NBA, Russel Westbrook, armador do Oklahoma City Thunder, postou em seu Instagram um desabafo na última terça-feira (20) contra a violênciaMas tudo isto ganha outro significado quando diferentes atletas e técnicos brancos se posicionam como árbitros para a injustiça racial. É o momento em que temos situações absurdas, como a de Alex Boone, branco, 29 anos, e guard do Minnesota Vikings, mesmo estado em que o já citado Philando Castile perdeu a vida; Alex classifica o ato como “vergonhoso” e exige que Colin mostre “algum respeito”.

Você ainda tem Sean Payton, branco e treinador do New Orleans Saints, que fica na mesma New Orleans de Ruby Bridges, na mesma New Orleans onde Beyoncé deu vida a “Formation”, declarando que há coisas mais importantes para serem trabalhadas.

Não importa se não há consenso de que sentar durante o hino é um ato extremamente desrespeitoso. Pouco importa se não sabemos ao certo o quanto cerrar os punhos é ofensivo à bandeira. Tampouco importa se na pior das hipóteses Colin Kaepernick esteja ao menos trazendo novamente à tona uma importante discussão.

Payton, Pugh, Harbaugh, Boone e tantos outros apenas escancaram aquilo que possivelmente foi a maior motivação de Kaepernick ao se ajoelhar pela primeira vez: lembrar toda a sociedade americana que o racismo ainda está ali, embora uma parcela dela insista em negá-lo e insista, sobretudo, em negar seu passado.

Ao se ajoelhar, Colin expôs a dificuldade que esta parte da sociedade tem em enxergar questões que estão a um palmo de distância, questões estão sob seus olhos. Tudo isto lançando mão de argumentos esdrúxulos como seu alto salário ou o fato de o presidente ser negro. Ou ainda questionar que ele está fazendo isso no momento mais conturbado de sua carreira. O próprio Colin, aliás, revelou em entrevista coletiva que recebeu diversas ameaças após sua atitude.

“Recebi algumas ameaças, mas não estou preocupado com isso. Para mim, se algo assim acontecer, você provou meu ponto e vai ser alto e claro para todos por que isso acontece. Há muito racismo disfarçado de patriotismo neste país e as pessoas não gostam de lidar com isso, eles não gostam de abordar qual é a origem deste protesto. Você tem jogadores em todo o país, não só na NFL, mas jogadores de futebol, da NBA e da universidade: eles não gostam de abordar esta questão de que as pessoas de cor são oprimidas e tratadas injustamente. Não sei por que é assim ou o que eles temer, mas isso precisa ser falado”, disse.

De joelhos perante um símbolo nacional, Colin Kaepernick mostrou que na verdade a sociedade norte-americana ainda é incapaz de ouvir. Mostrou que, infelizmente, quando se trata da existência do racismo, ela prefere se agarrar em seus próprios privilégios a lidar com o problema.