Seja o que Deus quiser

23/ago/18


Todos já passamos por isso: aquela prova complicada chegando, você não sabe nada, tampouco começou a estudar. Os dias se passam e, para não se desesperar, você simplesmente desiste: “na hora dou um jeito. Ninguém nunca tira 0, não vai acontecer comigo né?”. O resultado chega e, bem, digamos que agora você se planejará melhor para a prova (ou para o ano que vem, já que o semestre já era).

Essa estratégia, apesar de burra, é vista não apenas no seu mundinho particular. É algo que vemos no universo dos esportes o tempo todo, e o mais recente exemplo disso é o Miami Football Dolphins (sim, aquele). Não, não estamos comparando o Dolphins com um estudante incompetente. Estamos comparando com você. Se achou que a primeira frase estava errada, bem, aí é porque a carapuça serviu. Não podemos fazer nada.

Chegando aqui

Precisamos fazer um mea culpa. Se você leu o preview de Miami no ano passado sabe do que estamos falando. O panorama que traçamos apontava uma equipe em crescimento, e nem a ideia de Jay Cutler nos fez colocar a mão na consciência: “os Dolphins possuem boas chances de retornar aos playoffs.” Você já sabe que não rolou. Erramos feio, erramos rude.

Além de não chegar a pós-temporada, o time não jogou bem – por mais paradoxal que possa parecer. Não é só o record 6-10 que mostra isso. Nos rankings de DVOA (a única estatística possível), os Dolphins tiveram seu ataque ranqueado na 27a posição, e a defesa foi ainda pior, uma colocação abaixo.

Assim, em apenas um ano, a lua de mel com Adam Gase acabou. Se antes o técnico era apontado como uma das mentes mais promissoras da liga, agora sua situação é o inverso disso: caso sua equipe repita a temporada medíocre, é provável que Gase esteja sacando o FGTS em 2019.

O processo de (des)construção

Ainda em 2017 Miami trocou o RB Jay Ajayi para Philadelphia por quatro barrinhas de proteína. Na época, foi dito que a comissão técnica queria “punir” o jogador pela sua indisciplina. Provavelmente alguém viu os Patriots enviando Jamie Collins para os Browns e quis replicar o conceito, mas talvez esse alguém não tenha capturado a essência da questão.

A situação de Jarvis Landry, como era previsto, foi se arrastando até que o jogador recebeu a franchise tag apenas para ser trocado para Cleveland (ei! Talvez alguém tenha entendido) por não apenas outras quatro barrinhas, mas uma caixa delas.

Além deles, o Dolphins ainda cortou o DT Ndamukong Suh e o C Mike Pouncey. O primeiro de forma questionável, já que era o melhor jogador da equipe e um dos melhores defensores da liga. O segundo, apesar de ter sido um dos pilares da linha ofensiva no passado, sofria com lesões há algum tempo.

As reposições foram questionáveis. Para o lugar de Landry, chegaram Danny Amendola e Albert Wilson que, somados, totalizam 73% de um Wide Receiver. Robert Quinn, já bem longe do auge, e Josh Sitton, também velho mas ainda bom, chegaram em Miami.

Junta tudo e vê no que dá

No draft, Miami buscou o S Minkah Fitzpatrick, que pode vir a formar uma dupla interessante com Reshad Jones, talvez o melhor jogador da equipe hoje. Além dele, foi escolhido o TE Mike Gesicki, com o objetivo de substituir Julius Thomas, que conseguiu enganar na NFL por três temporadas após se divorciar Peyton Manning.

Como você já sabe, não fingimos entender sobre o processo de recrutamento da NFL, então as escolhas mais baixas não costumam ser comentadas – mas, nesse caso, vale citar o RB Kalen Ballage. Alguns relatos davam conta que o time esperava muito do jogador, mas recentemente ele ganhou as manchetes por ser xingado por Ryan Tannehill após fazer alguma merda. Irrelevante? Talvez. Divertido? Com certeza.

Falando em Ryan Tannehill, vale mencionar a situação do QB. Após sofrer nova lesão no joelho, ele teve que assistir a inaptidão de Jay Cutler comandando seu ataque em 2017. Para esse ano, imaginava-se até que ele não seria opção, já que o Dolphins estava em posição de ir atrás de um substituto no draft. Não aconteceu, e como o roster tem apenas David Fales, Brock Osweiler e Bryce Petty (somados, não dão 0,73% de um quarterback), Tannehill será o signal caller sem controvérsia.

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O ataque comandado por Ryan terá uma linha interessante. Laremy Tunsil, Josh Sitton e Daniel Killgore não estão entre os melhores de suas posições, mas o primeiro um dia pode chegar lá, o segundo já esteve lá e o terceiro flutua na linha da mediocridade – o que, para um OL, é melhor do que muito do que vemos pela liga. O lado direito ainda é incerto, já que Ja’Wuan James tem oscilado e o segundo-anista Isaac Asiata não conseguiu se firmar.

Dentre os WRs, preocupa a falta de um grande nome. Kenny Stills e DeVante Parker não conseguem nada acima da média, sendo que esse último não consegue desenvolver o seu jogo, mesmo entrando no quarto ano na NFL. Albert Wilson e Danny Amendola não são o complemento necessário, apenas mais do mesmo.

O corpo de running backs conta com o promissor Kenyan Drake, que já mostrou flashes quando ganhou a titularidade ano passado. Além dele, temos o calouro já citado Ballage e os restos do que um dia acredita-se ter sido Frank Gore.

A defesa ainda depende de Cameron Wake gerando pressão na linha defensiva, já que Charles Harris ainda precisa se provar e não esperamos muita coisa de Robert Quinn. Sem Suh, a DL não tem nenhum nome de impacto, apenas veteranos de calibre médio para baixo. Vale mencionar a adição de William Hayes, faamoso por não acreditar em dinossauros, mas acreditar em sereias.

O miolo do sistema defensivo não conta mais com Lawrence Timmons se arrastando em campo, mas mesmo assim Kiko Alonso ainda precisa se provar em Miami. Se eles jogarem tudo que já foi dito sobre eles, pode ser uma dupla interessante, entretanto esse cenário é pouco provável.

Por fim, a secundária conta com uma dupla de Safeties interessante e alguns CBs de potencial, como Xavien Howard e Cordrea Tankersley. Se eles continuarem a trajetória de crescimento, talvez esse seja o ponto mais forte não apenas da defesa, mas de toda a equipe – o que, bem, diz muito sobre aquilo que o futuro reserva.

Palpite:

Miami montou um time de forma esquisita. As movimentações na offseason, principalmente o mercado, não apontaram para nenhuma estratégia bem definida na construção da equipe. Porém, o Dolphins ainda tem bons jogadores e conta com a sorte de jogar em uma das piores divisões da NFL. Sendo razoável, é possível crer que cenário não seja tão catastrófico como alguns apontam (1st pick), e um record 6-10 ou até mesmo 8-8 não seria surpresa.

 

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