Robert Griffin III: do céu ao inferno, com escala em Cleveland

15/ago/16


No dia 5 de Fevereiro de 2013, logo depois de uma das mais eletrizantes temporadas de um quarterback estreante na história da NFL, que inclusive lhe rendeu o prêmio de Offensive Rookie Of The Year, Robert Lee Griffin III convocou os técnicos do Washington Redskins para uma reunião. Griffin disse que era importante, mas se recusou a revelar o assunto. Compareceram à reunião o então head coach do Redskins, Mike Shanaham, seu filho e coordenador ofensivo, Kyle Shanahan, e o técnico de quarterbacks, Matt LaFleur. Com os técnicos na sala de reuniões do ataque, na sede do time, em Ashburn, Virginia, RGIII se dirigiu a um quadro negro e pediu que não fosse interrompido enquanto falava. No quadro, escreveu quatro tópicos:

“1 – Mudanças

2 – Mudanças na proteção (da linha ofensiva)

3 – Inaceitável

4 – Conclusão”

Griffin então passou a fazer diversas reclamações, apontando mudanças que considerava necessárias desde no esquema de proteção da linha ofensiva a jogadas que, de acordo com ele, deveriam ser excluídas do playbook, tudo com o apoio de vídeos que ilustravam seu ponto de vista. Quando chegou ao último tópico do quadro negro, RGIII disse que a conclusão era que ele era um pocket passer e não um quarterback corredor.

You like that, Robert?

You like that, Robert?

A cena, que foi relatada por Mike Shanahan e publicada em um artigo de Jason Reid, para o site The Undefeated, é tão surreal que é difícil acreditar que realmente aconteceu, principalmente por se tratar de um QB que tinha acabado de terminar sua primeira temporada.

Shanahan acreditava que a petulância de Griffin tinha apoio do dono do Washington Redskins, Dan Snyder, já que palavras usadas por Griffin na reunião, como “inaceitável”, eram usadas frequentemente por Snyder, que investiu muito alto em Griffin e pode ter se rendido aos seus caprichos. O possível apoio do dono não limita a incapacidade de Griffin de lidar com hierarquia e, muito menos, diminui a petulância do episódio. É importante lembrar que se trata da versão contada por Shanahan, que saiu de Washington depois do fracasso da segunda temporada de Griffin e pode ter manipulado os fatos para aliviar para o seu lado. De qualquer forma, aumentada ou não, a história revela o princípio do fim de um conto de fadas que durou pouco ou quase nada.

O início

Draftado na segunda posição geral do draft de 2012, através de escolha adquirida do Saint Louis Rams, Robert Griffin III teve números maravilhosos logo em sua primeira temporada na NFL; da mesma classe de Andrew Luck e Russel Wilson, Griffin foi o melhor dos três. Passou para 3200 jardas, 20 TDs e apenas 5 INTs, estatísticas de passe apenas medianas e que lhe renderam apenas a posição número 22 da liga em jardas passadas. Se os passes não saltavam aos olhos, as corridas traziam outra dimensão ao ataque do Redskins — e à NFL. Em 2012, RGIII correu para 815 jardas e anotou 7 TDs, números que foram suficientes para colocá-lo na posição 20 em jardas corridas, apenas 25 jardas atrás do RB LeSean McCoy, por exemplo. Tudo deu tão certo que o Washington Redskins conseguiu um recorde de 10-6, venceu a NFC East e foi aos playoffs, quando foi derrotado em casa, logo partida de Wild Card, para o Seattle Seahawks, do também rookie QB Russel Wilson.

Então por que algo que estava dando tão certo afundou de maneira catastrófica a partir da fatídica reunião, em 2013? Um dos aspectos que deve ser considerado foi a contusão que Griffin sofreu no jogo contra o próprio Seahawks — rompimento dos ligamentos do joelho, ao que muitos creditam a dificuldade que RGIII teve para correr desde então. Seu sucesso dependia muito de sua mobilidade, mesmo que ele não quisesse acreditar nisso e quisesse se tornar um pocket passer. Não se sabe, até hoje, se o sucesso do Washington Redskins de 2012 aconteceu pelas qualidades de Griffin ou por um sistema de jogo inovador para os padrões da NFL. Baseado na read option (em que o QB faz a leitura do movimento do linebacker e decide se mantém a bola ou se a entrega para o RB), o sistema ofensivo limitava os defeitos de RGIII como pocket passer, potencializava suas qualidades de corredor e era muito difícil de ser defendido. O que antes era uma novidade complexa para os adversários lidarem se tornou obsoleta com a falta de mobilidade do RGIII pós-contusão e com a natural adaptação das defesas.

Fu-deu.

Fu-deu.

Na temporada 2013, RGIII disputou apenas 13 partidas, dois jogos a menos que na sua temporada de estreia. Mesmo assim, seus números como passador se mantiveram constantes: 3203 jardas, 16 TDs e 12 INTs. O que despencou profundamente foram seus números como corredor: foram apenas 489 jardas corridas e nenhum TD.

Duas explicações podem ser encontradas para os números: Shanahan, pressionado por sua jovem estrela, permitiu que Griffin passasse mais e corresse menos; ao mesmo tempo, Griffin, com a mobilidade reduzida, não conseguia correr mais. De qualquer forma, o Washington Redskins terminou a temporada com apenas três vitórias e Shanahan foi demitido.

Recomeço?

O que poderia ser um recomeço para Griffin, pelo menos na relação com seu head coach, acabou sendo um pesadelo. Jay Gruden assumiu o comando no início de 2014. Logo percebeu que RGIII tinha muitas falhas e parecia acreditar ainda menos na sua capacidade de ser um QB na NFL. Foram apenas nove jogos disputados e números ridículos: 1694 jardas, 4 TDs , 6 INTs. Robert Griffin acabaria a temporada esquentando o banco para Kirk Cousins e nunca mais pisaria no campo com a camisa do Washington Redskins. Resignado, assistiu Cousins levar o time aos playoffs na temporada 2015 sem sequer vestir os pads.  

RGIII talvez apenas não seja um bom QB. Citado no artigo de Reid, um jogador da defesa do Washington Redskins, que preferiu permanecer anônimo, disse que Griffin tinha dificuldades inclusive nos treinos. “Ele não é muito bom no pocket. Quando você pede que ele leia defesas, dava pra perceber que era difícil pra ele. Nos treinos, quando ele era o quarterback contra a defesa titular, dava pra perceber que as jogadas ainda pareciam rápidas demais pra ele. Ele não sabia de onde o pass rush vinha, ele não tinha certeza de onde estavam os safeties. Era difícil pra ele”, afirmou o defensor.

Reid também menciona que, dentro do vestiário, a preferência dos jogadores era por Kirk Cousins, QB surpreendentemente draftado no mesmo ano que Griffin. Os jogadores acreditavam que Cousins era, simplesmente, melhor.

O comportamento de RGIII fora dos campos também parecia não ajudar. Além de não conseguir estabelecer um bom relacionamento com os técnicos, recusava a ajuda de qualquer um que tentasse se aproximar. Donavan McNabb e Doug Williams, vencedor do Super Bowl pelo Redskins, foram alguns dos que tentaram aconselhar RGIII, que nem sequer se deu ao trabalho de ouvi-los.

Vou voar é só eu querer

Vou voar é só eu querer.

Griffin parecia refém do próprio ego e preocupava-se mais em fazer publicidade para diversas marcas. Nas entrevistas coletivas, sempre falava demais. Era comum, nas derrotas, que não assumisse seus erros, colocando a culpa em seus colegas de time. Juntando todos os aspectos, Griffin era uma tragédia anunciada que foi mascarada por um primeiro ano maravilhoso. Nós só não conseguíamos enxergar.

Em 2016, Robert Griffin será o 25º QB do Cleveland Browns desde 1999. Cleveland é um ambiente tóxico para o desenvolvimento de QBs e é um time que está em estado de reconstrução permanente. Se Griffin aceitar que também está em estado de reconstrução, talvez consiga dar a volta por cima em sua carreira. Para isso, terá que ter a humildade de ouvir seus técnicos, melhorar como QB e perceber que o mundo não gira ao seu redor.

Em sua primeira coletiva como um Brown, Griffin disse: “Você ama muito fazer uma coisa. E quando ela é tirada de você, duas coisas podem acontecer: você pode afundar e permitir que te destrua ou pode deixar que te construa”. Veremos, Robert.

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