Quem quer ter um quarterback?

24/ago/17


É difícil dizer o que será mais difícil: a temporada dos Jets, ou escrever este texto, que deve conter pelo menos mil palavras. Se você leu algum dos outros previews (Colts, Chiefs, Rams, Seahawks, Dolphins – sim, estou citando-os para preencher espaço) deste autor, já percebeu que esse começou de uma forma diferente. Além de ser escrito na primeira pessoa do singular (um abraço para o editor, que pede o contrário), ele começa justamente falando de si mesmo, e não do time em questão. Essa escrita diferente é um reflexo da temporada do time verde de Nova York: diferente. Afinal, ninguém entra em uma temporada com o objetivo de perder.

Para começar, sempre que vou escrever um preview penso na visão que gostaria de passar: nos Colts, as mudanças; nos Chiefs, a probabilidade do plano não dar certo; nos Rams, o legado de Jeff Fisher; nos Seahawks, os problemas decorrentes da interceptação de Malcom Butler; nos Dolphins, o futuro promissor, mas com alguns obstáculos. No caso dos Jets, a ideia será a seguinte: por que o time está tão desesperado para conseguir seu franchise QB?

SAU-DA-DES.

A resposta é muito simples e pode ser encontrada na lista de QBs titulares do New York Jets. Não é preciso nem analisá-la com calma para perceber que os nomes mudam bastante. Existem alguns intervalos de quatro ou cinco anos em que alguém assume a posição, mas, como Mark Sanchez demonstra, isso não significa nada. Nenhum dos jogadores conseguiu estabelecer um legado em Nova York – a exceção sendo, claro, Joe Namath, que levou o time ao seu único Super Bowl.

Cavando o buraco

Para deixar ainda mais claro o que a ausência de um QB confiável pode fazer com uma franquia, vamos voltar para o ano de 2015, mais especificamente o final dele. Ryan Fitzpatrick teve uma temporada razoável, e os Jets quase chegaram aos playoffs com um time que era bom. Não chegaria muito longe (talvez até em função de seu quarterback), mas era bom.

Avancemos então para 2016. Após uma entediante disputa na offseason, Fitzpatrick teve o seu contrato renovado. O resultado nós já conhecemos: ele voltou a ser quem ele é – medíocre -, o time ao redor parou de produzir e o record final foi um dos piores da liga. Para piorar, nenhuma perspectiva interessante para o futuro na posição que Ryan ocupou apenas por dois anos.

Alguém pode argumentar que os Jets até tentaram se preparar para o amanhã, escolhendo Bryce Petty em 2015 e Christian Hackenberg em 2016. Isso é ser benevolente demais com a franquia, já que Petty foi escolhido na quarta rodada; e Hackenberg pareceu mais uma escolha de pânico do que qualquer outra coisa.

De saída.

Plano é o que os Chiefs estão fazendo com Patrick Mahomes; ou o que os Patriots tem feito já algum tempo: mesmo tendo Tom Brady, New England gastou picks de segunda (Jimmy Garoppolo) e terceira (Jacoby Brissett) rodadas em QBs nos últimos anos. Além de serem escolhas pensadas, são também jogadores que foram draftados com um plano para eles. Hackenberg e Petty, por sua vez, foram tiros no escuro, que os Jets esperavam que dessem certo – como se um franchise QB caísse do céu quando você precisasse de um.

Já estamos no buraco. Por que não tentar subir? (ou cavar mais)

Aparentemente essa falta de perspectiva na posição mais importante do jogo incomodou alguém em Nova York. Os tempos de confiar em Mark Sanchez para levar um elenco com potencial de Super Bowl para o Super Bowl acabaram. É preciso mudar. É preciso Sam Darnold – ou Josh Allen, ou Josh Rosen, ou alguém com coordenação motora acima da média.

Os Jets decidiram que a melhor forma de acabar com o problema, intrínseco à franquia, era escolhendo um QB na suposta recheada classe de 2018. Mas, para isso, o time deve primeiro vencer (ou derrotar) a si mesmo. Não dá mais para ter uma campanha medíocre (6-10; 7-9), que te coloca no ínicio, mas não no topo do draft.

Para evitar que a equipe vença mais jogos que o necessário, foi feita uma limpa no elenco. Veteranos não tiverem seus contratos renovados ou foram simplesmente dispensados. Aqui vai a lista de jogadores relevantes que não estão mais no elenco, por ordem de quando deixaram o time (sim, já disse que estou tentado preencher espaço):

QB Ryan Fitzpatrick; OT Breno Giacomini; K Nick Folk; C Nick Mangold; CB Darrelle Revis; WR Brandon Marshall; S Marcus Gilchrist; LB David Harris; WR Eric Decker.

Se em outros momentos alguns desses nomes foram pilares do elenco, hoje eles são veteranos com pouco combustível no tanque, capazes apenas de avacalhar o plano da franquia. Além das dispensas, a pouca movimentação contratando na free agency indica que Nova York não tem grandes planos para a temporada. A principal contratação foi feita justamente para alcançar o objetivo principal de obter a primeira escolha do draft: a contratação de Josh McCown. McCown era o QB de duas das três últimas franquias a conseguir a pick mais alta, e chega para ajudar aos Jets a alcançar o feito.

O time – se é que ele existe

A falta de talento é tamanha que nem vou dividir o elenco em subtópicos ataque e defesa, como tem sido feito no site. Além disso, não vale nem a pena esmiuçar cada grupo de cada lado da bola.

No ataque, Robbie Anderson deve ser o principal recebedor (eu só sei esse nome porque escuto podcasts em excesso sobre a NFL – isso não é saudável e não recomendo para ninguém) e Bilal Powell o principal corredor. Deixarei os nomes falarem por si só.

A única parte do time que não dá vontade de morrer.

Já na defesa, existem jogadores de alto-calibre. Principalmente na linha defensiva, que conta com o excelente Leonard Williams; e com Muhhamad Wilkerson e Sheldon Richardson, que já estão de saco cheio de jogar nos Jets. A secundária terá dois safeties calouros, Marcus Maye e Jamal Adams, que poderão jogar com tranquilidade em seu primeiro ano na liga, já que a pressão por vencer é mínima.

Palpite: Os Jets vão dar um jeito de estragar tudo. Eles não desmontaram a defesa o suficiente, e ela vai acabar dando quatro vitórias para o time. A oportunidade de escolher um QB em 2018 virá, mas talvez não seja o nome que a diretoria estava imaginando.

Nota: é importante ressaltar que a ciência do draft é inexata, ainda mais com um ano de antecedência. Exemplo: ano passado, antes da temporada começar, Brad Kaaya era apontado como melhor QB da classe. Hoje ele é o terceiro reserva dos Lions. Então é melhor ter calma ao apontar a próxima classe como “algo de outro mundo”. Além disso, mesmo que o plano de Nova York dê certo, o jogador que o time escolher pode ser um bust. Então será melhor fechar a franquia mesmo.

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