Qualquer perspectiva de futuro é mais bela sem Brock Osweiler

01/ago/17


A temporada 2017 da NFL começou de uma maneira inusitada para o Houston Texans. Ainda em março, em um momento de clara admissão de culpa, raro na liga, o time concordou com uma troca com o Cleveland Browns que enviou o QB Brock Osweiler, contratado há apenas um ano, a escolha de segundo round do draft de 2018 e a escolha de sexto round de 2017. Em troca, Houston recebeu uma mísera escolha de quarto round de 2017. O objetivo era consertar um erro muito óbvio: a ruindade de Osweiler era tão grande quanto o salário que recebia e que causava um rombo no salary cap do time. Osweiler era, talvez, o pior custo-benefício da história da NFL.

Mandá-lo embora e ainda pagar por isso pode parecer uma atitude extrema, em que uma escolha de draft bastante relevante está sendo jogada no lixo, mas não é. Ao invés de continuar insistindo no erro, como muitos times fazem, o Texans preferiu seguir em frente na busca pelo seu franchise QB. Não é à toa que a reação às performances pífias de Osweiler veio tão rápido. Desde 2013, Houston teve nove QBs diferentes que iniciaram partidas como titulares, número igual ao de um time notadamente inapto a encontrar QBs capazes: o mesmo Cleveland Browns que recebeu Brock e hoje até cogita colocá-lo como titular no início da temporada.

Mandar Osweiler para bem longe de Houston foi o primeiro e necessário passo para um time que, há anos, parece estar a um QB de distância de ser um sério candidato a disputar um Super Bowl. O segundo passo foi pular da 25ª escolha do primeiro round do draft para a 12ª,  também em uma troca com o Cleveland Browns, para justamente escolher um QB. Mesmo com declarações de que o time estaria totalmente confortável com o fraco Tom Savage como QB titular para 2017, Houston enviou sua escolha de primeiro round de 2018 para Cleveland e escolheu Deshaun Watson, da Universidade de Clemson. De forma resumida, Houston enviou escolhas de primeiro e de segundo round para Cleveland para se livrar de Osweiler e draftar Watson.

Uma nova perspectiva

O investimento foi muito alto e deve se refletir em campo. Watson é um QB muito mais talentoso que Savage e, mesmo que não inicie a temporada como titular, o que é bastante difícil de compreender, não deve esquentar o banco por muito tempo. É, no mínimo, interessante imaginar o que um QB que teve muito sucesso no college e que é uma ameaça tanto aérea quanto terrestre pode fazer em um time que viu QBs pouco dinâmicos iniciarem jogos nos últimos anos, como Brian Hoyer, Ryan Mallet e o próprio Brock Osweiler. Quando se tornar titular, Watson não deve ter suas fraquezas muito expostas, já que o Houston Texans tem uma defesa forte que não toma muitos pontos e não precisa de um QB fazendo milagres para ganhar jogos.

Em 2017, a proteção que o resto do time proporciona deve ser um dos motivos que trará relativo sucesso a Watson na NFL. É difícil imaginar que o ex-QB de Clemson tenha números astronômicos em sua primeira temporada, mas é fato que ele não deve comprometer. Também é importante lembrar que, desde que assumiu o Texans, em 2014, o técnico Bill O’Brien teve à disposição apenas QBs abaixo da linha da mediocridade. Mesmo assim, conseguiu temporadas com mais vitórias do que derrotas em todos os anos, com duas aparições em playoffs, o que torna bastante possível acreditar que O’Brien saberá aproveitar o potencial de Watson e minimizar suas fraquezas.

Trazendo o famoso “espírito de campeão”.

Talento ao redor

Além de não precisar carregar o time nos braços, Watson tem muito talento ao seu redor. Seu WR principal é DeAndre Hopkins, que em 2015 se tornou o único recebedor da história da NFL a conseguir jogos de pelo menos 100 jardas com quatro QBs diferentes em uma temporada. É um número bastante significativo, que evidencia o talento de Hopkins e mostra que ele pode e deve ser a principal válvula de escape para um QB calouro. Hopkins não teve uma boa temporada em 2016 e não se pode absolvê-lo totalmente da culpa, mas é importante lembrar que a performance de Brock Osweiler foi muito ruim e tudo que DeAndre podia fazer era tentar receber passes que chegavam a aproximadamente 20 metros de onde estava. A temporada mágica de 2015 não deve se repetir para Hopkins, mas as boas performances devem voltar a acontecer a partir do momento em que a química com Watson (ou mesmo Savage) se desenvolver.

Hopkins falou à NFL Network sobre ter DeShaun Watson e Tom Savage como QBs em 2017 e disse estar ansioso: “Você sabe, durante toda a minha carreira eu acho que já joguei com mais QBs do que qualquer WR já jogou nos seus primeiros quatro anos. Nunca tive estabilidade na posição para conseguir estabelecer um entrosamento. Então, é um sentimento muito bom ter dois jogadores que podem ser franchise QBs”.

Ameaça terreste

Além de Hopkins, o ataque do Houston Texans terá a segunda temporada do bom RB Lamar Miller. Assim como Hopkins, em 2016, Miller foi prejudicado pelo ataque anêmico comandado por Osweiler e teve a pior média de jardas por carregada de sua carreira: quatro. Mesmo com as defesas adversárias não respeitando Osweiler e focando em parar o jogo corrido, Miller ultrapassou as 1000 jardas corridas nos 14 jogos que disputou. É difícil acreditar que não haverá uma melhora nos números de Miller se Watson mostrar o mínimo de competência para colocar medo nas defesas adversárias e facilitar a vida do jogo corrido.

Prejudicado por Osweiler ou só mais um produto da defesa dos Colts?

De qualquer forma, em 2017, a engrenagem do ataque do Houston Texans não terá mais uma peça defeituosa na posição de QB e o sucesso individual de cada jogador deve significar o sucesso dos demais. O Texans não terá um dos melhores ataques da NFL, mas também não será um dos piores. Para conseguir um bom desempenho na temporada regular, o ataque será mais do que suficiente, mas é provável que o drama de não ir longe nos playoffs ainda persista por mais um ou dois anos.

Watt & amigos

Os elogios para o ataque do Texans foram razoavelmente generosos, mas não se enganem: a principal força do time sempre foi e ainda é a defesa. Mesmo sem o monstro chamado J.J. Watt por um caminhão de jogos em 2016, a defesa do Texans conseguiu terminar a temporada em primeiro em jardas cedidas por jogo e em décimo primeiro em pontos permitidos. Isso prova que, mesmo sem o seu principal destaque individual, a defesa tem um dos grupos mais consistentes da liga.

Talvez seja otimismo exagerado esperar o mesmo desempenho da secundária, que perdeu na free agency o CB A.J. Bouye, um dos melhores jogadores do time na temporada passada, mas a pressão que a melhor linha defensiva da liga deve colocar nos QBs adversários deve ser suficiente para compensar.

Mesmo assim, J.J. Watt é um monstro e coleciona 70,5 sacks desde 2012, o melhor da NFL. Se estiver saudável, Watt é capaz de carregar a defesa literalmente nos próprios braços. Ao seu lado estará Jadeveon Clowney, que tem sofrido muito com contusões e ainda não justificou a primeira escolha geral do draft que o time gastou nele em 2014, mas já mostrou flashes do que é capaz.

A chave para o sucesso da defesa do Texans está na saúde de Watt e Clowney. É assustador pensar o que os dois podem fazer juntos em uma temporada completa. Se permanecerem saudáveis, não é exagero nenhum dizer que Houston brigará com o Denver Broncos e com o Seattle Seahawks pelo posto de melhor defesa da NFL.

Palpite: Em uma conferência sem grandes times (tirando o New England Patriots) e, principalmente, em uma divisão imprevisível, o Houston Texans deverá chegar aos playoffs novamente com nove ou dez vitórias. Mas as perspectivas de Super Bowl devem esperar um pouco mais, já que o time será eliminado no divisional round dos playoffs por um time mais experiente, como o Pittsburgh Steelers ou qualquer coisa que o valha.

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