Por que não aguentamos mais o New England Patriots?

26/set/16


Confesso que não me sinto tão hater do New England, mesmo que, provavelmente, tenhamos que assumir que eles são a maior franquia do século XXI. De qualquer forma, meu time não é sequer da AFC para tomar pau deles com frequência. Mesmo assim estamos aqui para tentar entender por que diabos o massacre do Texans ocorreu e os motivos que fazem esse time parecer, cada vez mais, imparável.

Obviamente esperávamos algo parecido com isso quando Brady foi suspenso (vide o preview que escrevemos, onde falávamos sobre um 2-2 no início da temporada, com Tom Brady voltando para destruir). Esperávamos, enfim, porque Belichik é foda e já tinha feito essa graça uma vez, não é?

Essa doeu.

Essa doeu.

Relembrando Matt Cassel

As chances são altas de que você conheça Matt Cassel. Provavelmente o odeie porque ele jogou no seu time, ou talvez lhe ache um palhaço porque jogou contra – de uma maneira ou de outra, você não o admira nem contaria com ele para ganhar jogos pela sua equipe do coração se ele iniciasse um jogo por ela.

OBS I: não é mesmo, Jerry Jones?

OBS II: ATENÇÃO TITANS CUIDEM DE MARIOTA!

Inclusive, a falta de crédito a Cassel é bem mais antiga que isso. Ele esteve na Universidade do Sul da Califórnia (a sempre potente USC) entre 2001-2004 e nunca iniciou uma partida como quarterback (33 passes e 11 corridas em quatro anos para um total de 224 jardas), estando na famosa melhor posição do mundo: esquentando o banco para Carson Palmer e Matt Leinart (inclusive, ambos ganharam o Heisman) tomarem porrada em campo, enquanto aproveitava a fama de ser QB do time da universidade. Bom, ao menos gostamos de imaginar que ele tenha aproveitado, mesmo que não mereça.

De qualquer forma, veio o draft e na sétima rodada ele acabou sendo escolhido por Belichik, em uma de suas tradicionais escolhas (no momento) incompreensíveis: já que ele queria um QB reserva para o estabelecido tricampeão Tom Brady, que escolhesse algum jogador que havia mostrado potencial no college (como o vencedor do Heisman, Jason White). De qualquer forma, mais três anos tranquilo se somaram à vida de Cassel.

Até que, na primeira rodada da temporada de 2008, em um lance complicado de definir, para não ser injusto com o Safety (não sabemos se Pollard realmente foi maldoso, ou se apenas Brady teve azar de estar com a perna no lugar errado na hora errada), o então MVP da liga explodiu o joelho e foi decretado fora da temporada, dando passagem ao até então pouco testado e quase desconhecido Matt Cassel (alguns repórteres previam que ele sequer seria o reserva de Tom no ano); era a fórmula ideal para o fracasso, perfeitamente aceitável nessas circunstâncias.

E essa íngua (se hoje ele já é ruim, imagina quando ele não tinha começado um jogo sequer por oito anos) produziu 3693 jardas (oitavo na liga), 21-11 em TD-INT, 410 pontos totais (sétimo na liga, segundo na AFC) e 11 vitórias, que só não levaram o time aos playoffs (e sério, essa porra ia acabar ganhando o Super Bowl) por uma combinação bizarra de resultados. E foi a segunda e última vez que os Patriots não ganharam a AFC East desde o início da era Brady-Belichik (a primeira foi em 2002, entre os três Super Bowls).

Obviamente, é válido lembrar que o time veio de uma campanha invicta em 2007, o que mostra que a decadência sem Brady realmente aconteceu (ou seja, não, Brady não é só um QB simplesmente produzido pelo sistema em que está) – mas decair para 11 vitórias talvez seja a decadência ideal.

E se Cassel talvez não merece tantos méritos, com certeza o New England Patriots (liderados por Belichik e seus moletons) merece: construir uma defesa, jogo corrido e alvos tão eficientes a ponto de funcionarem com qualquer QB é uma tarefa difícil.

Brady jogará até os 45 anos

Quando esperamos ansiosamente que Brady anuncie que irá se aposentar logo e aproveitar a vida com Gisele (essa, sim, já aposentada), esquecemos que ele talvez só não ganhou mais prêmios de “jogador mais valioso” por causa de Belichik, que insiste em montar uma defesa para apoiá-lo e ajudá-lo a ganhar jogos (inclusive ressuscitando jogadores que não conseguem jogar bem em nenhum outro time, como Patrick Chung ou Jabaal Sheard, que produziu oito sacks sendo titular em apenas um jogo em 2015 e já tem dois nessa temporada).

Além disso, é fácil ignorar que, ao contrário de Peyton Manning, ele é apenas um jogador de sexta rodada que não tinha grandes atributos físicos quando chegou à liga – e obviamente não evoluirá eles com a idade. O segredo está todo em sua capacidade mental de trabalhar defesas e em como o ataque dos Patriots foi evoluindo (os seus passes longos mágicos são muito mais técnica do que um braço parecido com Joe Flacco ou Matt Stafford) – desde os tempos em que só se corria e evitava vacilos, passando por Randy Moss e Aaron Hernandez, até chegar no que é hoje.

Originalmente, o sistema Erhardt-Perkins tem como lema “passes para marcar pontos, corrida para vencer jogos”, ou seja, precisa que seu quarterback realize grandes lançamentos para vencer partidas (coisa que Brady sempre se mostrou capaz de fazer), mas lhe retira muita pressão com um jogo corrido insuportável, trabalhando o famoso ground and pound para cansar a defesa e manter o ataque adversário fora de campo o maior tempo possível.

Obviamente, a partir disso se foi evoluindo, junto com Brady, já tricampeão do Super Bowl, enquanto chegavam melhores armas para o jogo aéreo e as mudanças de regras da liga o beneficiavam – que aumentou bastante a proporção de passes nesse ataque, como lembramos do ano mágico de 2007 (sabotado pelos Giants). Além disso, Brady também é muito bom em “vender” o play-action, mantendo sempre a defesa em dúvida e atacando-a nas suas costas.

Entretanto, não por isso o espírito do ataque mudou. Com a formação da dupla Gronkowski-Hernandez (agora tentando reeditar-se com Martellus Bennett ao invés de Hernandez, preso por assassinato – desde que Gronkowski consiga manter-se saudável) e Wes Welker (depois substituído por Julian Edelman), o sistema de passes curtos e rápidos, que diminuem as pancadas sofridas por Brady e se aproveitam de sua capacidade única de enxergar o recebedor certo na hora certa, junto com o no-huddle (em que o ataque não forma aquela rodinha no campo para repassar a jogada seguinte, mas vai diretamente para a linha de scrimmage) inferniza a defesa e a esgota, especialmente para os finais da partida.

Muso.

Muso.

Construindo Jimmy Garoppolo (ou Matt Cassel versão atualizada)

Quem viu a decadência súbita de Peyton Manning, de gênio MVP para meramente eficiente (por ser um gênio) e posteriormente para “é melhor que Brock Osweiler seja titular”, em duas temporadas sabe: todos estão sujeitos à idade. Pensando nisso, mesmo sendo uma equipe que está sempre em busca do Super Bowl – e, portanto, toda escolha, especialmente as iniciais, deve ter seu valor maximizado – quando teve a oportunidade de draftar Jimmy Garoppolo, de Eastern Illinois (mais conhecida como “universidade do Tony Romo”), no final da segunda rodada, Belichik puxou o gatilho.

O quarterback teve um período pre-draft incrível, sendo inclusive apontado como possibilidade para a primeira rodada, além de ser descrito como ideal para esse ataque: tomava boas decisões, de maneira rápida e com passes certeiros.

Dessa forma, Bill sabia que estaria protegido para o inevitável declínio de Tom Brady, caso ele acontecesse. Se não, ele esperava conseguir trocá-lo por uma escolha mais alta quando seu contrato de rookie chegasse próximo do fim. No final das contas, Garoppolo aproveitou, como Cassel, dois aninhos tranquilos segurando a prancheta e aprendendo cada elemento desse ataque.

Ao contrário de Cassel, para sua sorte, Jimmy descobriu que teria a oportunidade de ser titular bem mais cedo, com toda uma pré-temporada para preparar-se, já que sua oportunidade veio não por decadência ou acidente de Brady, mas sim por suas já conhecidas “maracutaias” – ou o que quer que queiram chamar o Deflategate.

Muito também foi feito para facilitar as coisas para o basicamente rookie (pelo menos no que consta em seus 31 passes lançados antes de 2016), o time voltou às origens de Erhardt-Perkins: basta olhar para LeGarrette Blount, líder em jardas corridas na NFL até o momento, em grande parte por suas absurdas 75 carries em 3 partidas (que seriam 400 em 16 jogos) para um corredor sem grande potencial para grandes jogadas.

Assim, obviamente, ele correspondeu às expectativas e acertou 70% dos seus passes para quase 500 jardas e 4 TDs em um jogo e meio mesmo sem poder contar com o seu suposto principal alvo, antes de também se machucar.

Making a Jacoby Brissett

Vá a qualquer empresa dos Estados Unidos e eles devem ter pelo menos um funcionário de capacidade parecida. Até agora não sabemos exatamente de onde surgiu Brissett (selecionado antes de jogadores muito mais conhecidos e teoricamente mais capazes, como Connor Cook, Dak Prescott e Cardale Jones) – mas é assim que o homem trabalha; a big board do draft de Bill Belichik é dita ser seguida à risca, além de conter pouquíssimos jogadores (100-150), o que às vezes leva a escolhas “diferentes”, sobre as quais todos já aprendemos a calar a boca e não duvidar que funcionarão.

Tudo dá errado; começamos com três vitórias

É possível viver sem Brady. Isso todos imaginávamos, porque esse ataque está bem montado. Obviamente se produziria menos e não se pode esperar milagres típicos de quarterbacks de elite, mas com bons alvos como Dion Lewis e Rob Gronkowski, além de uma proteção sólida começando por um grande LT Nate Solder, não era difícil imaginar um início de temporada consistente.

Exceto que todos eles se machucaram. Gronk está voltando lentamente, mas obviamente não é aquele, MELHOR TE DA LIGA, que estamos acostumados a ver. Até o próprio Garoppolo se machucou (depois de 4 TDs e duas vitórias) e Jacoby Brissett, apenas um rookie de qualidade duvidosa, teve a chance de ser titular. E jogou (razoavelmente) bem! Ou pelo menos não acabou com o time.

E agora Brissett também sofreu uma lesão e é dúvida junto com Garoppolo para o jogo contra o Bills. A melhor opção seria fazer que Tebow deixasse de brincar de beisebol e voltasse por pelo menos um jogo SÓ PELA ZOEIRA (e para dar alguma emoção). Mas Belichik vai acabar escalando Julian Edelman – e quando lembramos do seu passe para Amendola nos playoffs de 2014, alguém apostará em Rex Ryan nesse matchup?

Se Brady jogará mais uns 10 anos, Bill treinará eternamente

Válido lembrar que para a rodada 5, Brady volta, lindo e 100% saudável, como se estivesse começando a temporada (porque, atenção, ele está), o que pode acabar fazendo com que a suspensão acabe até sendo benéfica para ele (!) – afinal, do alto dos seus 39 anos, mesmo que sua intenção seja jogar até os 45 anos (e nesse estilo de jogo, não duvidamos), melhor fazer cada snap valer o máximo.

Junto com ele, Rob Gronkowski deverá estar saudável. E mesmo que não esteja 100%, não é como se isso lhe fizesse falta para ser o melhor TE da liga e ainda acabar sendo o que recebe mais TDs no final da temporada. Além disso, esperamos ansiosamente que Dion Lewis (outro que nunca havia conseguido produzir antes de Bill Belichik) possa voltar saudável e jogar o final da temporada em um nível próximo ao eletrizante início que teve em 2015 (622 jardas e 4 TDs em 85 toques e 6 jogos como titular), sendo mais uma arma para esse jogo de passes curtos [chato] dos Patriots.

Por último, também não podemos esquecer da importância dessa defesa, que é a quinta em pontos sofridos e a sétima que menos fica em campo, que simplesmente acabou com Houston na última rodada e parece melhor mesmo após “perder” Chandler Jones (trocado para os Cardinals). Lembrando que, apesar de todo o brilhantismo do ataque, a grande especialidade de Belichik é a defesa – e onde ele parece sempre capaz de tirar o máximo de todo jogador medíocre.

A última esperança.

A última esperança.

E se Dick LeBeau, coordenador defensivo, ainda tem seu cargo do alto de seus 79 anos, Bill, com 64, deve ter pelo menos mais 15 para aterrorizar a liga. De qualquer forma, é melhor que os Bills apareçam bem esse domingo e mostrem que Belichik é humano. Do contrário nos restará rezar para que Eli Manning, Jason Pierre-Paul e cia ajeitem suas vidinhas na NFC e reapareçam para salvar o dia e evitar o pentacampeonato desses malditos gênios.

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