Patriots, Tom Brady e Bill Belichick: quando tudo e nada fazem sentido

06/fev/17


Tom Brady tem a equipe ao seu redor, instantes antes de ir para o snap. Ele dá um leve sinal com a mão para Julian Edelman. New England estava oito pontos atrás no marcador, em uma 1&10 na linha de 36 jardas de seu próprio campo. O passe é desviado e paira no ar por segundos que, na verdade, soaram como uma eternidade. Quando três defensores de Atlanta convergiram em direção a bola, Edelman passou entre as pernas de um deles. Ele segura a bola, mas dessa vez por um milésimo de segundo, também quase eternos, ela escapa. Mero capricho antes de Julian agarrá-la definitivamente, sem que ela tocasse a grama.

Dessa vez foi preciso respirar por alguns segundos, quando agora eram necessários minutos, para perceber que estávamos diante do instante definitivo que escancarava a inevitabilidade da vitória de New England – e o consequente fracasso de Atlanta. E mesmo que possam ser apontados outros momentos tão densamente significativos quanto aquela recepção, como o fumble forçado por Hightower ou o sack de Trey Flowers empurrando Matt Ryan em um abismo particular, o lance protagonizado por Edelman flertou com o surreal.

Ali, naquela fração de tempo, se encontravam diversos instantes que definiram a história do esporte, como a recepção de David Tyree anos antes diante do mesmo New England, o arremesso de Ray Allen contra o Spurs no Jogo 6 ou mesmo os minutos derradeiros de Cleveland e Warriors na última decisão da NBA. Havia um pouco também do Chicago Cubs quebrando sua maldição particular e de Patrick Kane com seu Phantom Goal.

Aconteceu ou não aconteceu?

O caminho até aqui

Tudo o que aconteceu no último domingo só foi possível porque Brady e Belichick colocaram o Patriots em condições de vencer, na maior atuação que um quarto período de um Super Bowl já viu. Claro, eles contaram com um auxílio fundamental do sistema defensivo, que após ir para os vestiários retornou avassalador e talvez tenha sido o maior responsável pela vitória. De qualquer forma, não foi uma sensação estranha, após tudo que já vimos esta dupla fazer. Mas há um quê de ironia, quando voltamos duas temporadas no tempo: na week #4 da temporada 2014-2015, contra Kansas City, Tom Brady e o New England Patriots como conhecemos pareciam finalmente ter chegado ao fim.

O destino daquela temporada, porém, terminou com a conquista de mais um Vince Lombardi. E cada vez que alguém credita o sucesso de New England a sorte por Brady ter parado em Foxborough ou a Belichick e seu sistema perfeito, esquece a melhor parte da história: qualquer destes elementos poderiam ter ido para qualquer outro lado.

Além de tudo isto há diversos fatores quase intangíveis que ajudaram a moldar Belichick, New England e, sobretudo, o próprio Brady: quando Adam Vinatieri acertou aquele field goal em meio a uma nevasca, Brady se tornou um pouco do que é hoje. Dois anos depois o mesmo Adam ajudou o Patriots a vencer um jogo de playoff contra o Titans com outra bomba de mais de 45 jardas com termômetros congelados. Se essas bolas não tivessem entrado, talvez não estivéssemos tendo esta conversa.

Talvez isso ajude você a argumentar que a sorte sempre esteve ao lado de Brady e Belichick. Há uma dose de verdade, claro: no segundo Super Bowl da dupla, contra o Panthers em 2004, Carolina havia empatado a partida com menos de dois minutos para o fim. Mas John Kasay inexplicavelmente chutou o kickoff pela lateral, dando a chance para o Patriots começar sua caminhada já na linha de 40 jardas de seu campo; para azar de Kasay (ou sorte de New England), Brady e seu jogo aéreo estavam próximos da perfeição naquele dia, então eles só precisaram fazer seu trabalho. Na história há ainda a interceptação de Malcolm Butler na linha de uma jarda, quando tudo já parecia perdido diante do Seattle Seahawks em 2014 e diversos outros momentos favoráveis a New England.

Mas também se há uma dose de sorte ao lado de New England, o que dizer da já citada recepção de David Tyree em um Super Bowl que provavelmente o Patriots merecia vencer – o mesmo jogo, aliás,  reservou um drop em uma interceptação quase certa de Asante Samuel, quase tão sofrível como o drop de Wes Welker quatro anos depois. E se no passe para Tyree há a inegável carga de “sorte”, a conexão de Eli Manning para Mario Manningham provavelmente foi o mais próximo que o Giants já chegou da perfeição – ou o mais próximo do azar com que New England flertara.

A história do New England, de Brady e Belichick é marcada por toda a casualidade possível a qualquer narrativa, em que de forma quase poética “sorte” e “azar” se relacionam: se o Patriots já viveu a melhor sorte com que você pode sonhar, ele também já conheceu o pior lado do infortúnio que você pode imaginar.

Filme repetido.

As pedras na estrada

Vamos falar a verdade: a NFL é uma liga paranoica e para todos os lados sempre há alguém pensando que Belichick e companhia estão fazendo algo fora das regras. E talvez para a liga o grande legado do Super Bowl LI seja a oportunidade perfeita para enterrar definitivamente o Deflategate.

O fato é que a coisa toda já soa como ridícula, uma histeria não compensada entre evidências e ingenuidade. Desde então várias teorias surgiram com a mesma velocidade em que foram descartadas. Não que seja possível desconsiderar que Brady sabia o que estava fazendo, longe disso; é ingênuo crer que, coincidentemente, Tom passou a ter contato regular com John Jastremski, responsável pelos equipamentos de jogo, logo após aquela partida em que amassou Indianapolis.

Ao mesmo tempo, talvez finalmente nada disso importe, já que no auge da discussão gente como Boomer Esiason e Rich Gannon sugeriram que em tudo isto não há nenhum impacto real sobre desempenho e que equipes manipulam bolas de football por anosAaron Rodgers, aliás, declarou diversas vezes que se sente mais confortável com bolas mais cheias e eu não passo minhas tardes imaginando que Rodgers está sentando em seu sofá criando estratégias não convencionais para inflá-las.

De qualquer forma, se você crê que Brady e Belichick fizeram e fazem algo contra as regras, talvez você consiga provar. Mas se você parte da premissa que Tom faz algo que lhe permita ter uma grande vantagem em relação as outras franquias, você estará apenas alimentando a narrativa de “todos estamos contra o Patriots”, tão entediante quanto aquela que vem do próprio New England: “todos estão contra nós”.

Enfim, nenhum problema, você só está escolhendo o caminho mais cômodo. De qualquer forma, os odeie pelo motivo que quiser, por qualquer outra razão. Os odeie até mesmo sem motivo algum – apenas deixe de lado esta muleta.

A chave do sucesso

Todo o êxito de New England, porém, não pode ser resumido a dupla construída entre seu quarterback e seu head coach; não são apelas eles que permaneceram os mesmos ao longo dos últimos 15 anos: o núcleo e a essência do sistema ofensivo do Patriots se aperfeiçoou neste período, estabilizando as transições necessárias e, sobretudo, permitindo a próxima evolução, afinal sua concepção e organização são as mais adequadas para se adaptar a uma NFL em que mudar de pessoas e tendências é a única certeza.

Tudo isto se torna mais absurdo quando consideramos que a liga é construída e planejada para ser homogênea: há o draft que prioriza o equilíbrio e cada franquia, a grosso modo, tem os mesmos recursos e as mesmas instalações. É um cenário em que a homogeneidade faz todo sentido.

Mas por algum motivo que nunca conseguiremos mensurar, no mesmo sexto round em 2000, 16 escolhas antes, o Browns selecionou Spergon Wynn. No primeiro round daquele mesmo ano, o Jets escolheu Chad Pennington. Já na terceira rodada, o 49ers, time da infância de Tom, escolheu Giovanni Carmazzi. E, claro, citamos tudo isso sabendo que o draft está longe de ser uma ciência exata; relembramos apenas para termos a real dimensão do que talvez a humanidade um dia tenha convencionado como “destino”.

Browns, Jets, 49ers e tantos outros o deixaram escapar para que Brady acabasse ao lado do treinador mais brilhante que a NFL já viu. Para que Tom, por muito tempo, estivesse ao lado de uma grande defesa e, ao menos nos primeiros de sua carreira, protegido por uma das melhores linhas ofensivas do football, que o manteve saudável em seus melhores anos enquanto, por exemplo, Andrew Luck é violentado jogo após jogo.

Bem louco.

Sorte por estar ao lado de um grande head coach? Por estar em uma franquia que soube compreender suas necessidades para potencializar suas qualidades? Reduzir a trajetória de Brady a estes elementos seria ignorar todo o caminho que ele percorreu, ignorar o que faz sua carreira cada vez mais incrível. Michael Jordan, por exemplo, teve a “sorte” de passar a maior parte de sua carreira ao lado de Scottie Pippen, alguém que o completava em todos os sentidos possíveis dentro de uma quadra de basquete. Jordan também esteve sob a tutela de Phil Jackson, um dos melhores treinadores que a NBA já viu. Tim Duncan teve a sorte de estar ao lado de Gregg Popovich ou talvez Popovich teve a sorte de estar ao lado de Duncan por duas décadas. Magic Johnson teve Kareem Abdul-Jabbar e depois teve James Worthy. Joe Montava teve Bill Walsh e Jerry Rice.

E se Bill Belichick não tivesse tropeçado com aquela escolha de sexto round há quase 20 anos, não estaria hoje comemorando seu quinto Super Bowl. É assim que a vida funciona e o esporte é o melhor reflexo dela: às vezes é sobre estar no lugar certo na hora certa e todas as peças naturalmente vão convergir, então você só precisará fazer seu trabalho. O ser humano ama a grandeza, se fascina pela glória, mas esquece quão arbitrária ela pode ser. É como nossa própria vida: pensemos o quão aleatórios são os momentos e interseções que definiram exatamente onde estamos hoje?

Nunca torci para o New England Patriots, mas sempre vou admirar a maneira como Brady e Belichick construíram a história da franquia. Sempre olharei para a carreira de Tom Brady com um misto de admiração e inveja saudável por tudo isto não ter ocorrido no meu time, mesmo que a história de cada franquia seja repleta de grandes momentos particulares, que não as fazem maiores ou menores que a história construída por New England.

Hoje, Brady tem cinco Super Bowls, foi quatro vezes MVP da decisão e duas vezes MVP da liga. Teve também uma temporada regular sem derrotas, tem mais títulos da AFC East do que cabem em meus dedos e foi responsável pelos melhores 20 minutos finais que uma partida de football já viveu. Trabalho e talentos são tão cruciais para o sucesso quanto qualidades intangíveis como paixão e a sinergia necessária para que todos estes elementos estejam em sincronia.

Ah, claro, a sorte também precisa estar ali e, com altas doses dela, você pode até chegar ao topo, mas nunca conseguirá se manter nele por tanto tempo – e ninguém que está no topo chegou lá sem alguns acidentes no meio caminho.

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