Os Jovens Titãs e seu novo líder

16/ago/18


Vale recapitular a bela história de impossibilidade do ano passado. Semana 13, o time de Mike Mularkey chegava a um 8-4, empatado com os Jaguars, que chamavam muito mais atenção – sem muito alarde e brilho, parecia claro que Mariota e seus amigos chegariam pela primeira vez aos playoffs.

Entretanto, três derrotas seguidas (em que sequer conseguiu interceptar Gabbert, e depois se mostrou muito menor que Garoppolo e Goff) deixaram Jacksonville fora de alcance e a batata do treinador claramente assando – então todos já relembravam que Mularkey nunca foi tão bom assim.

Os Titans chegaram na última rodada com boas chances de se classificar: bastava vencer o Jaguars, carregados pela defesa e buscando embalar para a pós-temporada (já classificados) eliminando um rival de divisão (não que as rivalidades da AFC South, entre times que mal chegaram à maioridade, seja grande coisa): parecia a receita perfeita para derrubar um treinador na corda bamba.

Mas eles voltaram aos playoffs pela primeira vez desde 2008. Mesmo assim, todos sabiam que Mularkey era fraco e apenas chegar em janeiro não mudaria essa impressão. Além disso, os Titans enfrentariam uma equipe muito superior, os Chiefs, favoritos por 9 pontos e que abriram 18 ainda no primeiro tempo.

Parecia, óbvia e finalmente, o fim de Mularkey (sério: esse texto foi lançado no meio do jogo). Com direito a TD recebido de Marcus Mariota (antes de Nick Foles) lançado por ele mesmo, os Titans viraram e venceram a primeira partida na pós-temporada desde 2003.

No momento em que Mularkey parecia garantido por ao menos mais um ano – afinal, fora muito mais longe do que se esperava no início de 2017 e até ali nós, pessoas de bem, não podíamos resistir a sonhar com uma vitória sobre o Patriots.

Um 35-14 simples, entretanto, foi o suficiente para provar que a diretoria em Tennessee estava apenas esperando que o time entrasse de férias para se livrar de um Mike. Para seu lugar, trouxeram outro Mike, o Vrabel.

Fé no pai que agora vai.

Uma defesa de talento

Algo que sempre será questionado, até que um deles quebre a maldição, é se os treinadores da “árvore” de Bill Belichick são realmente bons, ou apenas tiveram a sorte de parecer úteis à sombra do mestre.

Com Mike Vrabel, o questionamento não será diferente: apesar de ter sido comprovadamente um grande líder nos tempos de jogador, com 14 temporadas e três Super Bowls conquistados, amado e elogiado por muitos, seus resultados como treinador se limitam a ter lidado com grandes LBs nos Texans (que já eram talentosos, como Clowney, Cushing ou Mercilus) e, em seguida, ter liderado a pior defesa (em número de pontos cedidos) em Houston em 2017.

A sorte de Vrabel é que ele continuará trabalhando com jogadores talentosos do lado defensivo. Os craques são o All-Pro Safety Kevin Byard, que produziu incríveis oito interceptações em 2017, e o Pro Bowler DL Jurrell Casey, ambos jogadores que não tem na mídia espaço equivalente ao seu talento.

E Kevin Byard não está sozinho na secundária, que mesmo assim esteve na parte de baixo das jardas aéreas cedidas: o CB recém-contratado Malcolm Butler e o já estabelecido Logan Ryan, bicampeões do Super Bowl por New England, devem ser titulares, enquanto os jovens LeShaun Sims e Adoree Jackson brigam pela terceira posição enquanto não desbancam Ryan (vai acontecer).

O time ainda terá uma disputa interessante entre Kendrick Lewis e Kenny Vaccaro para complementar a dupla de Safeties, jogadores que já mostraram talento, mas ainda não conseguiram se firmar.

O front seven também apresenta novidades. Rashaan Evans tem tudo para seguir uma longa tradição de grandes ILBs de Alabama na NFL, desde que a lesão misteriosa (Mike Vrabel não discute lesões na pré-temporada) sofrida no training camp seja apenas algo leve.

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Por outro lado, Harold Landry foi selecionado para colaborar com a rotação e melhorar os números dos pass rushers com Brian Orakpo e Derrick Morgan, que produziram apenas 14.5 sacks em 2017 – número insuficiente, que reflete diretamente na secundária. Por último, a linha adicionou 143kg de puro Bennie Logan para substituir o decepcionante Sylvester Williams, que durou apenas um de seus três anos de contrato.

Ataque também conta com nova liderança

Talvez a contratação mais interessante do time de treinadores dos Titans não seja Mike Vrabel. Como o head coach vem de uma carreira inteira dedicada à defesa, é natural que ele tenha mais conhecimento e uma vontade maior de lidar com esse setor do time – o que abre espaço para um líder do ataque (pense em Kyle Shanahan/Dan Quinn e Pat Shurmur/Mike Zimmer).

O nome desse cidadão é Matt LaFleur, que sai da sombra de Sean McVay em Los Angeles, tendo trabalhado também nos Redskins de RG3 e Cousins e com Kyle Shanahan nos Falcons.

Seu desafio é fazer com Mariota o que fez com Jared Goff – podendo trabalhar as devidas proporções, claro. Por um lado, os Rams contavam com WRs de verdade e Sean McVay para dar apoio; por outro, Mariota tem alguma experiência e já fez boas apresentações, demonstrando mais talento do que Goff havia demonstrado antes de LaFleur.

Além disso, Jared nunca lançou um passe para ele mesmo nos playoffs (na realidade, Mariota é o único a realizar o feito). De qualquer forma, se o efeito LaFleur for qualquer coisa próxima da evolução de 6 TDs em 7 jogos para 28 TDs em 15 pela qual passou Goff, Mariota (que produziu 28 TDs e apenas 9 turnovers em 2016) deverá ser brilhante em 2018.

É válido relembrar a temporada de 2016 porque lá Mariota também não tinha grande alvos: pelo terceiro ano consecutivo, Delanie Walker e Rishard Matthews (quase 200 bolas lançadas na direção de cada um nos últimos dois anos, enquanto Demarco Murray, já fora do time, vem em um distante terceiro lugar com 114) são as opções mais sólidas.

A grande expectativa para melhorar as opções do jovem QB fica por um grande ano de Corey Davis, 5ª escolha do draft de 2017 que teve problemas com lesões durante a temporada passada, mas recebeu seus dois primeiros TDs na NFL no último jogo da temporada, contra os Patriots. Corey tem a obrigação de se colocar como WR1 de Mariota para não ser considerado um bust.

Se os recebedores não empolgam, a dupla de backfield, porém, conseguiu ficar ainda mais interessante. Derrick Henry recebe finalmente o título de carregador de piano e segundo jogador mais importante desse ataque com a saída já mencionada do (surpreendentemente) velho Demarco – menos de 300 tentativas e 10 TDs para ele, aproveitando um novo estilo de chamadas de ataque, buscando abrir espaços para Mariota brincar.

Para complementá-lo, os Titans trouxeram o baixinho Dion Lewis, que esteve presente nos 16 jogos da temporada pela primeira vez em 2018 e, mesmo entre os 15 RBs que os Patriots costumam utilizar, produziu incríveis 896 jardas. Uma excelente dupla para fazer companhia ao quarterback atrás da linha.

Nunca falamos o suficiente da linha ofensiva

Aqui importante dar destaque para o trabalho que Tennessee está fazendo: o LT Taylor Lewan, que foi ao Pro Bowl nas últimas duas temporadas, recebeu um novo contrato valendo 80M durante a pré-temporada. O RG Josh Kline foi outro que renovou com a equipe (26M, 4 anos) e o C Ben Jones é uma âncora sólida.

O RT Jack Conklin (All-Pro em 2016, quando rookie) infelizmente sofreu uma lesão no joelho contra os Patriots nos playoffs, mas o time se preparou bem ao proporcionar tempo para ele se recuperar e, de quebra, encontrar um LG no processo, competindo com os já presentes Quinton Spain e Dennis Kelly.

O Titans ainda trouxe Xavier Su’a-Filo (LG titular dos Texans e 33ª escolha do draft de 2013) e Kevin Pamphile (LG titular nos Buccaneers). Quando essas disputas se definirem, será fácil cravar que Mariota e Henry terão uma bela proteção.

Palpite

Talvez Tennessee seja o time mais equilibrado de uma divisão que poderia ter qualquer uma das quatro franquias brigando forte nos playoffs, caso tudo encaixasse da maneira esperada. Como a equipe nunca venceu Andrew Luck e tomou incríveis 57 (!!!) pontos de um Deshaun Watson saudável, fica claro o que poderá segurá-los mais longe do céu. Ambos fatores serão decisivos para uma arrancada inicial: 6 ou 7 vitórias até o primeiro jogo contra Luck, que pode já ter voltado dos mortos até lá, não são inimagináveis caso tudo se encaixasse, levando os Titans ao primeiro título de AFC South desde 2008 – a última campanha vitoriosa da carreira de Jeff Fisher.

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