O quarterback certo no lugar errado (e sem um estádio que preste)

25/ago/16


Philip Rivers é um grande azarado. Tão durão quanto Roethlisberger (sempre legal lembrar: ele jogou com os ligamentos estourados a final da AFC de 2007) e tão bom quanto Eli Manning, será eternamente lembrado como o terceiro melhor da incrível classe de QBs de 2004. E tudo isso por causa da porcaria de time em que está, que desde 2013 não vai aos playoffs e que não parece que vai mudar essa condição tão cedo – pelo menos não antes de ir para Los Angeles para viver de favor no novo estádio de Stan Kroenke e ser o segundo time da cidade.

E pode ser teoria da conspiração, mas uma grande razão para não acreditar nesse time é a iminente mudança de cidade, já que times vitoriosos não largam suas casas. Não que seja injusta, já que as pessoas de San Diego estão mais interessadas em praia do que em football (com certa razão) e o Qualcomm Stadium é realmente um dos piores estádios da NFL. Em uma liga em que todas as equipes têm estádios de ponta, a falta de apoio de San Diego (prioridades sociais, por favor) é realmente um motivo forte para abandonar a cidade se você é um dono tentando maximizar seus lucros – não nos deixemos enganar, no dia em que jogar em Londres ou na Rússia for lucrativo, lá estarão Goodell & amigos.

O caso Joey Bosa

Deixemos de lado os donos, sigamos com coisas inexplicáveis: a primeira escolha do draft de 2016. Mais do que Titans e Browns que coletaram vários picks, ou ainda que Eagles e Rams que (tecnicamente) encontraram seus quarterbacks do futuro, os Chargers deveriam ser os grandes vitoriosos do draft de 2016, especialmente porque poderiam escolher, na prática, o melhor jogador da sua board (já que, com alguns bons anos restantes a Philip Rivers, não é hora de escolher um QB). E as opções estavam ali: Jalen Ramsey para substituir Eric Weddle, um LT finalmente indiscutível para proteger Rivers (Ronnie Stanley ou o maconheiro Laremy Tunsil) ou ainda a opção que parece mais óbvia, DeForest Buckner (um gigante 5-technique legítimo, explicado a seguir).

Mais óbvia porque, aparentemente, os Chargers julgaram DE como a maior necessidade do time. Entretanto, Joey Bosa jogou como DE em uma defesa 4-3 em Ohio St (e foi parte importante do título de 2014), diferente da defesa 3-4 que o irmão de Chuck Pagano, John, tem nos Chargers desde 2012. Explicando rapidamente, Bosa fez sua carreira universitária acostumado a enfrentar tackles mano a mano, talvez com algum apoio do guard cobrindo o corredor por dentro (exemplo: Jared Allen).

Em um 3-4, ele terá duas posições possíveis, nenhuma das duas totalmente adequadas para ele ou em que tenha atuado: como 5-technique, enfrentando um guard na força e um tackle cobrindo o corredor por fora (exemplo: JJ Watt) ou então como linebacker, em que necessitará de muita velocidade no pass rush e também terá atribuições como cobertura ou spy do QB (exemplo: Clay Matthews), que ele também não teve o costume de fazer.

Para ajudar, o sem posição tem problemas com a assinatura do seu contrato (o último rookie de 2016 sem assinar ainda, mesmo já passada metade da pré-temporada) e anunciou que não participaria do training camp do time, um período essencial para todos os jogadores, mas especialmente para ele que estará se adaptando a uma nova opção. De qualquer maneira essa escolha tem bust escrito desde o momento em que foi anunciada, e os Chargers terão sorte se conseguirem uma escolha de quinta rodada em 2018 para permitir que Bosa siga sua carreira em uma defesa adequada para ele.

1JoeyBosa

“Você achou mesmo que eu ia jogar no San Diego/Los Angeles/Las Vegas/San Antonio/Oklahoma Chargers?”

O retorno de Ken Wisenhunt

Mas apesar da mediocridade anunciada, nem tudo é sofrimento (ou erros) para os chefões de San Diego. Uma das razões para otimismo na equipe da fronteira mexicana é a volta do coordenador ofensivo, que foi demitido dos Titans, mas que estava presente na última vez em que o time foi aos playoffs e na melhor temporada de Philip Rivers (rating de 105.5, igual ao de 2008 com maior número de passes), em 2013.

Como é sabido, entretanto, o problema dos Chargers não é a qualidade de Rivers e sim tudo o que está ao redor dele. Os principais jogadores do ataque não parecem conseguir se manter saudáveis: Keenan Allen começou destruindo defesas (67 recepções, 725 jardas em apenas 8 jogos), mas se machucou, e de brinde ganhou um contrato de 45 milhões em 4 anos – após admitir que estava gordo e confortável demais na campanha decepcionante de 2014, parece importante ter uma atenção maior nele; e o eterno Antonio Gates chega aos 36 anos tendo jogado apenas duas temporadas completas das últimas seis.

Pelo menos parece haver novas boas opções para adicionar profundidade real aos alvos, como o WR Travis Benjamin, que conseguiu receber quase 1000 jardas jogando em Cleveland, e Hunter Henry, provavelmente o melhor TE do draft de 2016, que terá a responsabilidade de substituir Ladarius Green como segunda opção e “futuro Gates”. Danny Woodhead deve seguir sendo uma opção de segurança e recebendo seus 150+ toques na bola (178 em 2015) e Melvin Gordon deve evoluir em sua segunda temporada, mesmo após não ter conseguido marcar nenhum touchdown como rookie.

A situação da linha ofensiva é mais dramática. Não que Dunlap-Franklin-Slauson-Fluker-Barksdale seja uma linha ruim, muito pelo contrário, mas em uma liga em que quase ninguém tem 5 jogadores bons para a compor, não surpreende que os reservas de San Diego não estejam à altura. E, apesar do desastre de 2015 ser impensável (os únicos a jogarem em todos os jogos foram Slauson e Barksdale), também esperar que toda a proteção do QB se mantenha intacta os 16 jogos parece bem improvável dadas as tendências de seus jogadores.

San Diego Chargers v Miami Dolphins

A nossa cara quando pensamo no futuro dos Chargers.

Mais buracos do outro lado

Sobre a mais nova e importante adição à defesa, Joey Bosa, já falamos muito. A previsão (e os anúncios), é de que ele jogue como 5-technique, completando a linha defensiva com Corey Liuget, que também sofreu com lesões em 2015, e o NT Brandon Mebane, que chega dos Seahawks (onde, a exemplo de Bosa, jogou a vida toda em um 4-3, ou seja, com um outro DT para abrir espaços por dentro ao seu lado).

Os principais responsáveis pelo pass rush deverão ser os LBs Melvin Ingram (que, em meio a tanta zica em San Diego, conseguiu sua primeira temporada completa desde 2012) e Jeremiah Attaochu, que deve tentar continuar a produzir após os seis sacks de 2015 (PERCEBA, LEITOR, QUE NÃO HÁ ESPAÇO PARA BOSA ONDE ELE É BOM). Por dentro, o grande furo da defesa: uma disputa entre os inside linebackers Te’o (o da “namorada”), Perryman e o rookie Joshua Perry (também de Ohio St) para tentar melhorar uma defesa contra o jogo corrido que cedeu quase 5 jardas/corrida em 2015.

A proteção contra o jogo aéreo promete ser melhor, pelo menos. Os Chargers têm um belo trio de cornerbacks em Jason Verrett (Pro Bowl em 2015), Brandon Flowers (que jogou 2015 gordo após ter recebido um novo contrato) e Casey Heyward, trazido de Green Bay. Restará apenas saber como a secundária reagirá à perda do veterano 5 vezes All-Pro safety Eric Weddle, que decidiu sair de San Diego após ter se sentido desrespeitado em um episódio em que acabou multado pela NFL por ter ficado em campo durante o intervalo para ver sua filha em uma apresentação e não ter sido defendido pela equipe.

Palpite: Cinco ou seis vitórias. Esse time parece destinado à mediocridade e torceremos contra eles por alguns anos até que alguém admita que fez cagada em relação a Joey Bosa (torcedor dos Chargers, assista Buckner nos 49ers e chore). Se tudo desse certo, o título da divisão não seria algo exatamente impossível (especialmente porque sempre um último colocado tem que ganhar uma divisão no ano seguinte), mas eles não merecem. Burros.

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