Kyle Shanahan e Matt Ryan (ou porque devemos levar o Falcons a sério)

18/jan/17


Do quarteto que chega às finais de conferência de 2017, você certamente já ouviu falar muito sobre Tom Brady, seu retorno após suspensão e como ele fica melhor com o passar do tempo; do assustador trio BBB do ataque de Pittsburgh e dos milagres de Aaron Rodgers. Já a opinião sobre o quarto time deste seleto grupo, antes da temporada iniciar, estava restrita a um “vai cumprir tabela e ser interessante para o fantasy”, afinal o potencial desse ataque para produzir era claro – mas obviamente não esperávamos nada além disso, especialmente porque se acreditava que a mediocridade tomaria conta de Matt Ryan: hoje, um QB que passa para 4000 jardas e 25 TDs em 16 partidas é considerado normal? Sam Bradford conseguiu praticamente a mesma coisa! E, bem, também se esperava que a defesa de Atlanta fosse perder muitos jogos.

Tínhamos em Atlanta os Bengals da NFC (perdão, amigos!); era o time menos atrativo da sua divisão, já que o Saints e Brees PRECISAM ALGUM DIA conseguir não perder para a própria defesa; o Panthers vinha de um Super Bowl com o atual MVP da liga e Tampa Bay era uma equipe em franco crescimento e que deve incomodar mais ainda nos próximos anos.

Mas obviamente nos enganamos. Nada fora do padrão Pick Six – e aqui já adiantamos que ninguém será demitido por isso.

A defesa de Dan Quinn

Há muitos anos o elo fraco da equipe é seu sistema defensivo, tanto que, em 2015, a equipe contratou o DC da mítica defesa de Seattle para tentar consertar seu caos particular. O 8-8 da temporada passada mesmo com Devonta Freeman e Julio Jones inspiradíssimos rodada após rodada, contando também com o líder de sacks do time, Vic Beasley, conseguindo quatro na temporada toda, mostra que o processo não ocorreu tão rapidamente quanto se gostaria. E logo no primeiro jogo de 2016 o time sofreu 31 pontos dos Buccaneers, então a certeza era de que a sina continuaria.

Já quando o time chegou à semana 11 cedendo menos de 20 pontos somente uma vez (para Trevor Siemian!) e mais de 30 em metade dos jogos, parecia questão de tempo até que os velhos hábitos voltassem e o Falcons acabasse inevitavelmente fora dos playoffs com um ataque espetacular. Mas os ajustes aconteceram. Os turnovers (por exemplo, Beasley e o rookie S Keanu Neal são números 1 e 2 em fumbles forçados com 6 e 5 respectivamente) só aumentavam as chances de um ataque que marca pontos em mais da metade das suas posses de bola (obviamente líder da NFL no quesito). O sinal da evolução, porém, só ficou claro logo após a bye week: nas 7 vitórias que teve desde o descanso, o Falcons cedeu mais de 20 pontos somente uma vez. Contra New Orleans, claro, em nome da tradição.

E se Matt Ryan é o MVP da NFL e quem está carregando esse time nas costas, lembre-se que Atlanta também tem seu próprio projeto de Von Miller: o já citado Vic Beasley, aquele que liderou o time em 2015 com quatro sacks, repetindo o feito esse ano com incríveis 15.5, dessa vez liderando também a NFL, deixando para trás outros nomes muito mais famosos.

Foto artística.

Válido também acentuar outro grande responsável por essa ascensão, o veterano dos spin moves que chegou esse ano para provavelmente encerrar a carreira em Atlanta: Dwight Freeney tomou o jovem para ensiná-lo de perto desde a pré-temporada e demonstrou orgulho do seu pupilo, o considerando defensor do ano: “Agora mesmo, acho que nossa defesa está jogando melhor que a dos Broncos. Acho que isso diz muito sobre o que Vic tem feito. E acho que seria incrível que seu nome fosse mencionado”, disse Dwight.

Um trio ou quarteto ou quinteto ou… um conjunto!

Todos esperavam uma temporada decente de Ryan, do nível que ele é acostumado a proporcionar ano após ano – em comparação a negações que temos por aí, Ryan sempre mostrou “bons” resultados, mas nunca suficientes para enfrentar a elite de QBs da liga e carregar uma defesa sofrível.

Mas desta vez ele veio provar que estávamos enganados. Obviamente, como diria gente velha, “uma andorinha sozinha não faz verão” – e, curiosamente, o paralelo com Cincinnati, especialmente o do ano passado, na melhor temporada da vida de Dalton (atenção aos parênteses), fica assustadoramente claro; como ponto positivo, aqui se nota a diferença que Matt Ryan faz em relação a Andy Dalton, produzindo bem mais e não pipocando, contra um sempre bom time dos Seahawks.

Mas como elenco de apoio, para a sorte dos Falcons, há talentos genuínos, e não simplesmente fabricados por um QB mágico: Julio Jones (AJ Green) e suas 1409 jardas recebidas, independente de quanto marcado esteja; Devonta Freeman (Giovani Bernard) e sua capacidade de achar 1541 jardas totais, além de 13 TDs só no rebolado; Tevin Coleman (Jeremy Hill) atropelando defesas para complementar o jogo corrido; além de Mohamed Sanu e Taylor Gabriel, complementando o rolê fazendo os alvos de segurança. Somado a isso, todos estes jogadores conseguiram manter-se saudáveis: a linha ofensiva é uma das únicas que repetiu a mesma formação em todas as partidas da temporada, garantindo estabilidade e entrosamento.

E assim, graças a todo um grande conjunto, Matt Ryan produziu sua grande temporada – ainda que, por comparação, percebemos que ele poderia ter simplesmente atrapalhado. Mas assim como Dalton teve em seu tempo o auxílio de Hue Jackson, Matt Ryan também tem uma grande cabeça ao seu lado.

Sangue no zóio.

O verdadeiro MVP

Confesso que existia vontade de questionar seriamente o título que Ryan inevitavelmente ganhará no sábado de Super Bowl, falando em Tom Brady (que, de qualquer forma, já ganhou tantas vezes que é quase um hors concours) ou em como Derek Carr tinha um time inferior ao seu redor e mesmo assim foi mais divertido. Mas o grande mestre que poderia (deveria) tirar o título de Ryan não compete com ele; na verdade é talvez o grande responsável pela inevitável coroação de Matt: Kyle Shanahan – enquanto digitamos estas linhas, ainda OC dos Falcons, mas provavelmente em um futuro não muito distante HC dos 49ers.

Filho do lendário Mike Shanahan (head coach dos Broncos de John Elway bicampeões do Super Bowl), Kyle chegou à liga com aquela ajuda do papai, alguma indicação aqui e ali, tornou-se o coordenador ofensivo mais jovem da história da NFL, mas manteve-se nela porque realmente entende os “X’s and O’s” do esporte, como ele mesmo gosta de dizer.

Um nerd assumido, Kyle teve problemas até para fazer seus próprios jogadores compreenderem os conceitos de seu ataque. “No primeiro ano ele quis fazer tudo do jeito dele e tivemos problema em entender que tínhamos os mesmos objetivos”, comentou Julio Jones, que ainda assim recebeu para 1871 jardas em 2015. Entretanto, o time também foi o que mais cometeu turnovers na redzone na temporada passada, fazendo com que mesmo sendo o sétimo em número de jardas, algo habitual na carreira de Shanahan, que coordenou um ataque top10 em jardas sempre que teve um QB minimamente capaz, fosse apenas o 21º ataque em número de pontos.

Já em 2016 o time claramente entendeu a proposta de Shanahan, finalmente transformando jardas em pontos e vitórias. “Ele entende como colocar-nos em posições para fazer o que fazemos melhor. Ele entende o que todos fazem e o que ele quer que eles façam nesse ataque. E nós também”, disse o WR Aldrick Robinson.

O Ludacris torce para o Falcons?

E basta observar alguns lances de Ryan e compará-los com outros QBs para entender o poder que Shanahan tem nesse ataque. É tudo tão bem desenhado que, desde que todos executem suas funções estabelecidas e as leituras sejam bem-feitas (SEMPRE TEM ALGUÉM LIVRE), a defesa não terá opção senão tentar minimizar danos, seja no jogo aéreo das mãos de Ryan, seja no jogo corrido com a dupla Coleman-Freeman.

Sem mágicas, sem jogadas criadas no calor da partida; o verdadeiro MVP dos Falcons é um gênio que tem tudo desenhado antes da jogada acontecer. Mesmo que ele não esteja tão certo disso: “Minha esposa, Mandy, seria a primeira a dizer que eu não sou tão inteligente assim. Ela te contaria quantas vezes não consigo encontrar as chaves do carro. Ou seja, se eu não servisse para o football, estaria em grandes problemas”.

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