“Gente como a gente”: Kaepernick e o dilema do desemprego

19/abr/17


Pelo segundo ano consecutivo, Colin Kaepernick é tema importante da offseason da nossa amada NFL; dessa vez, até mais cedo do que foi em 2016. Isso porque, após uma temporada atribulada em que Chip Kelly o fez iniciar segurando prancheta para o lendário Blaine Gabbert, no dia 3 de março de 2017 ele resolveu ativar uma cláusula e anular seu contrato – que ele tinha reestruturado na semana 6 da temporada anterior justamente para ter essa opção. Desde então, estamos esperando.

Esperando e assistindo, uns mais revoltados do que outros, como Kaepernick está sendo ignorado por toda a liga. Obviamente, sempre devemos considerar que ele ainda não foi contratado porque, como veterano que não está entre os mais cobiçados da liga (deveria, mas com todas os problemas que discutiremos a frente, é compreensível que nenhum time esteja achando que ele é o novo Peyton Manning na free agency), Kaep está esperando o draft e as primeiras lesões da pré-temporada acontecerem para escolher bem o lugar onde terá as devidas oportunidades. Entretanto: algum time ligou para ele falar sobre? Seu nome foi seriamente considerado em alguma reunião entre HC e GM desde fevereiro? As especulações indicam que, até o momento, não.

Mas, observe o listado seguinte: T.J. Yates, Brock Osweiler, Case Keenum e Brian Hoyer, para ater-se somente aos que tiveram passagem e fracassaram no Houston Texans, não só tiveram seus nomes considerados, foram chamados para uma conversa e estão empregados. Osweiler e Brian Hoyer, ao menos pelo o que se diz à imprensa, terão até mesmo chances de começar a temporada como titulares. E ninguém está aqui para discutir se estas ínguas são melhores do que Colin Kaepernick – atem os cintos, iremos mais longe que isso.

“Ai, mas o Kaepernick é polêmico”

Ele foi. E certamente incomodou muita gente (incluso o presidente Trump, que vibra em seu Twitter com o fato de que Kaep ainda esteja sem ser contratado por ninguém). Já exploramos suas motivações em outro texto e por isso não gastaremos tempo nela. Além disso, Colin mesmo já disse que voltará a ficar de pé durante o hino americano porque ele quer ser conhecido como um bom jogador, e não somente como “aquele cara que fica de joelhos durante o hino”. Obviamente, ele acabou novamente criticado com argumentos imbecis como “AI AGORA QUE NÃO TEM MAIS CONTRATO ELE LARGA A IDEOLOGIA”.

Mas esqueçamos isso e vamos nos ater ao football, sabendo que Kaepernick é, sim, bom o suficiente para não ser apenas um jogador facilmente substituível porque a polêmica ao redor do seu nome se tornou maior do que ele próprio (a exemplo do que aconteceu com Chris Kluwe, ex-punter dos Vikings ou nosso amado Tim Tebow, hoje outfielder do Columbia Fireflies).

Melhor do que você pensa.

Dinheiro não deve ser problema

Chase Daniel recebeu, no ano passado, um contrato de 3 anos e 21 milhões de dólares para ser absolutamente backup, considerando que os Eagles já tinham Sam Bradford e pouco tempo depois trocaram um caminhão de escolhas por Carson Wentz (ele já seguiu em frente e voltou para New Orleans, mas porque ele pediu para ser dispensado. Curiosidade: ficou apenas 15 dias desempregado).

Já Mike Glennon, Tyrod Taylor e Alex Smith, que devem ter sua titularidade questionada durante 2017, receberão por volta dos 16 milhões esse ano. O contrato de Kaepernick valeu, em média, 13 milhões anuais nos três anos desde sua renovação com os 49ers – o que o coloca exatamente no meio desse grupo.

Considerando que a época de grandes contratos já passou, é improvável imaginar que Kaepernick venha a pedir mais que algo em torno de 10 milhões, naquele tipo de contrato para “provar o seu valor” e ter a chance de um mega-contrato em 2018. Parece um valor bastante razoável para um QB que deve acabar a temporada como titular e, caso estejamos errados e ele falhe, não será algo que acabará com uma franquia.

OBS: Riley Reiff, Russell Okung, Andrew Witworth e Matt Kalil são todos jogadores de OL com asteriscos ao lado de seus nomes por várias razões e irão ganhar mais dinheiro do que isso.

Kaepernick é melhor do que qualquer reserva que você pode encontrar

Chegaremos bem mais longe do que isso, mas seria mais fácil empregar Kaepernick se ele aceitasse segurar a prancheta e ser uma excelente opção caso o pior aconteça. O primeiro argumento, fácil, é que ele não se “encaixaria em qualquer sistema”, afinal, ele sabe correr. Entretanto, Matt Cassel e Derek Anderson (e sua interceptação premiada) são considerados “opções seguras” a Mariota e Newton, respectivamente. Além disso, Trevone Boykin, Brett Hundley, Cardale Jones e Scott Tolzien, também em sistemas “com mobilidade” (FICA O DESAFIO: TENTE LEMBRAR EM QUAIS TIMES ELES ESTÃO1), provavelmente não são confiáveis sequer para dar aquela ajoelhada e fechar o jogo.

Se a questão é o desemprego, já são 32 vagas que Kaepernick poderia ocupar – mesmo que fosse para substituir o estilo de jogo de Sam Bradford ou Carson Palmer, há a impressão que ele ainda seria bem mais produtivo que Case Keenum e Drew Stanton, ainda que com uma redução mais drástica no salário.

Kaepernick é melhor que uma dúzia de QBs empregos

Façamos o desafio inverso ao do tópico anterior (sem roubar!), quais times têm os seguintes QBs com chances de ser titulares em 2017: Josh McCown, Paxton Lynch, Brian Hoyer, Bryce Petty, Brandon Weeden e Matt Barkley?2 A resposta está no final deste texto, mas espere chegar lá. De qualquer forma, não é com esse fim de feira ainda que devemos comparar Kaepernick.

Pouco tempo antes de iniciar a temporada de 2016, fizemos um ranking de QBs e, como Chip Kelly é um lunático, Colin não aparece nele. Hoje, observando-o passados os “indubitáveis” 7 primeiros e os 4 veteranos seguintes (dois dos quais, Palmer e Romo, estão em vias de ou aposentados), existe algum QB que se possa afirmar inegavelmente superior a Kaepernick?

Mariota e Winston são excelentes jovens que provavelmente chegarão ao nível do top7, serão melhores que Kaep, sem dúvidas, mas ainda precisam dar o salto. Dalton, Taylor e Stafford parecem destinados a esse mesmo nível intermediário ao lado de Kaepernick – e os resultados que estes QBs conseguem são os que devemos esperar dele.

Não obstante, o ex-QB do San Francisco 49ers tem um currículo que estes anteriores não têm. O Super Bowl perdido (por um holding não marcado, importante frisar) lhe iguala a Ryan (e, curiosidade: dos QBs que chegaram ao SB deste século, somente Jake Delhomme e Rex Grossman acabaram as carreiras como meros backups). Já as duas presenças em NFC Championship Games não são igualadas por nenhum dos citados.

Além disso, ao contrário de Mark Sanchez (que também chegou a duas finais da AFC), não é possível dizer que Kaepernick foi totalmente carregado por uma grande defesa ou pelo jogo corrido. Lógico que a defesa estava ali e em grande fase, mas os seus melhores recebedores eram Vernon Davis e Michael Crabtree e, se aquele jogo contra os Packers nos playoffs, por exemplo, é indicação de algo, ele era metade do jogo corrido – não à toa produziu uma média aproximada de 3700 jardas (e 23 TDs para 13 turnovers) nas temporadas em que esteve saudável.

Isso, obviamente, nos tempos felizes com Jim Harbaugh, que no mês passado afirmou que “[Kaepernick] terá uma boa carreira e será um grande quarterback, ganhará títulos” e ainda, de quebra, disse que o jogador “é uma pessoa especial e um herói”.

Por mais que Harbaugh e Kelly tenham esquemas que dão liberdade para o estilo único de Kaepernick, os grandes treinadores sempre adaptaram o seu esquema de jogo para que seus melhores jogadores produzam o seu melhor. Kyle Shanahan, que atualmente prefere contar com Brian Hoyer e Matt Barkley (que, ainda assim, são realmente melhores do que Kaepernick no “estilo tradicional”? Provavelmente não) em San Francisco, começou sua carreira com a ideia justamente diferente disso, ainda que refletida em toda a NFL: “[…] porque ainda que você esteja buscando o seu melhor jogador, tentando ser justo com estes quarterbacks [como Kaepernick], você também está sendo injusto com o time” – ou seja, ele pode até ser melhor, mas Kyle prefere ver Hoyer e Barkley porque eles podem competir na mesma mediocridade. Divirta-se, então.

Perdendo empregos por causa do visual.

Falemos de números

Com um grupo ridículo ao seu redor – Torrey Smith deve ter sido o seu melhor alvo, enquanto Carlos Hyde segue tendo dificuldades em manter-se saudável, o que deu passagem a jogadores como DuJuan Harris e Chris Harper (imagino que ele seja o terceiro irmão de Two and a Half Men), e depois de ter perdido a oportunidade de treinar como titular durante toda a preseason, já que a opção do treinador era Gabbert, Colin ainda assim conseguiu produzir um rating de 90.7, com 18 TDs e 9 turnovers em 11 jogos – o que ao longo de uma temporada completa lhe colocariam ali ao lado dos eternos Alex Smith e Andy Dalton.

Um antigo crítico do jogador, Cian Fahey, um irlandês que escreve um livro chamado “QB Catalogue” após assistir todos os snaps de todos os QBs da liga, aponta sua evolução como jogador dentro do pocket (atacando diretamente a história de que ele só assusta porque pode correr), também considerando a a debilidade da sua linha ofensiva, além de aportar outros dados interessantes: numa estatística chamada “sacks que o QB poderia evitar”, Colin tem 12,5%, enquanto Andy Dalton e Alex Smith poderiam ter evitado mais de 30%; ele ainda é segundo colocado na liga em “ratio de passes interceptáveis lançados”; e a precisão ajustada dos seus passes, também um ponto sempre muito criticado, foi de quase 75% (14º na liga).

Observando, os números indicam fortemente que Kaepernick está, ao menos, na média dos titulares. Ainda que, é de se imaginar, com um grupo um pouco melhor ao seu redor, suas estatísticas só podem melhorar. A última razão restante para não contratar o jogador é que ele seria uma distração no vestiário; fechemos com declarações de seus companheiros, que lhe deram o “The Len Eshmont Award”, um prêmio para o jogador que melhor mostra o espírito de coragem e inspirador do ex-DL dos 49ers:

“Eu vi alguns QBs contratados e Kap é muito melhor que eles. Mas eu não sou GM. Eu não sou head coach. Então isso não compete a mim.”, Carlos Hyde.

“Ele fez uma escolha e está sentindo as consequências disso. Mas acho que ele vai acabar bem. Alguém lhe vai dar um emprego.”, Navorro Bowman.

“Já é hora que Kaepernick assine com alguém. Ele é melhor que todos os QBs contratados até agora.”, Brandon Marshall.

Ao contrário do que estamos assistindo com Adrian Peterson, Kaepernick não é uma questão de “se” e sim de “quando”. O cenário mais bonito seria ele contratado por Cleveland após o time deixar passar os principais QBs do draft (já que eles provavelmente não prestam mesmo), para jogar com o homem-que-fez-Andy-Dalton, Hue Jackson.

Jackson, aliás, deu a seguinte declaração sobre Colin Kaepernick por quem ele e o mítico Al Davis estavam apaixonados na época do draft: “estudando ele, me apaixonei pelo garoto. […] forte, todas as ferramentas para vencer na NFL. Não tinha a menor dúvida de que ele seria bom”. O resto, bem, o resto seria história.

1Se você disse Seattle, Green Bay, Buffalo e Indianapolis, parabéns, você acertou!

2Jets, Broncos, 49ers, Jets de novo, Texans e 49ers de novo.

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