A distância entre céu e inferno é de uma jarda

20/ago/17


Discursos motivacionais são comuns nos esportes e, claro, no futebol americano isso não é exceção. Nas peças que retratam o jogo – sejam as reais, como documentários, ou as fictícias, como filmes -, isso fica bem claro, já que o discurso motivacional é sempre mostrado como uma parte emocionante que pode decidir o futuro de um time.

Se você assistiu a série Last Chance U, você sabe do que estou falando. A forma como o técnico fala com o elenco após (SPOILERS) a briga ao final da primeira temporada fez com que seus jogadores (e boa parte dos telespectadores) perdessem o respeito por ele. Em contrapartida, no filme Any Given Sunday, Al Pacino fez um discurso motivacional memorável: ele diz que o football é um jogo de centímetros, e esses centímetros fazem a diferença entre a derrota e a vitória. Ao final, a constatação, em tradução livre: “Ou nós nos recuperamos, como um time; ou morremos, como indivíduos.”

E por que estamos falando disso? Bem, você já sabe que trata-se de um preview para a temporada dos Seahawks. E, se você leu a matéria da ESPN, sabe que, em Seattle, o que vem pela frente, está baseado em uma jogada. A interceptação de Malcom Butler, que selou a vitória dos Patriots no Super Bowl, ainda não foi digerida. A incapacidade de alcançar a única jarda que faltava para a consagração acabou por ruir a união e a estabilidade de um elenco que parecia destinado a ainda mais glórias. Hoje os Seahawks já não são mais uma equipe 100% unida. A comissão técnica, que é uma das melhores da NFL, já não tem mais o mesmo respeito de seus jogadores. Tudo isso por conta de uma jogada que, apesar das tentativas dos técnicos e da franquia de dizer o contrário, ainda afeta a equipe de Seattle.

O torcedor dos Seahawks, claro, pode discordar da existência dessa “racha” no elenco, e ele tem o direito de fazê-lo. Mas acreditamos que é um problema real, e temos alguns sinais disso. O ponto central da discussão em Seattle é a insatisfação da defesa – em especial Richard Sherman – com o ataque. Podemos elencar diversos momentos que mostram como os Seahawks vencem o jogo por causa da defesa, mas, quando ela falha, o resultado é negativo.

E, em algumas oportunidades, mesmo com brilhantes atuações da defesa, o ataque não consegue chegar a vitória (todos lembramos do memorável duelo contra os Cardinals no ano passado: 6×6). Russell Wilson é um ótimo quarterback, mas a visão que seus colegas de time na defesa têm sobre ele é essa. E, por causa de uma jogada que deu errado e que levantou questionamentos, os Seahawks entram em 2017 com um grande desafio pela frente: se consagrar, como um time. Se não fossem por aqueles 91 centímetros, a narrativa para esse ano seria outra.

Tentando consertar as coisas.

Amigos do Wilson

No ataque de Seattle, há um grande problema: a linha ofensiva. Durante a carreira de Russell Wilson a unidade foi se desmontando aos poucos, sem reposições à altura. Quando perceberam que a situação estava insustentável, já era tarde demais e o setor já havia se tornado uma porcaria.

Para ajudar a resolver o problema, Germain Ifedi foi escolhido na primeira rodada do draft no ano passado, mas não ajudou muito, embora pelo menos seja alguém com potencial – e não um jogador não-draftado que ninguém nunca ouviu falar. O time também foi atrás de Luke Joeckel, que em Jacksonville foi um bust, mas agora há a expectativa de jogar pelo menos um pouco melhor com Tom Cable como seu técnico.

Já no draft desse ano foi escolhido Ethan Pocic, de origem, mas que pode jogar em diversas posições da linha. Center, aliás, que é a posição mais sólida do conjunto, já que Justin Britt, agora de contrato novo, foi o melhor jogador da OL no último ano. O resto dos jogadores ninguém sabe quem são, tirando a comissão técnica, que vive os trocando de posição esperando que produzam algo que não sacks.

No jogo corrido, Thomas Rawls, que quando esteve em campo – seu maior desafio – foi produtivo, disputa posição com Eddie Lacy, que quando esteve no peso ideal – seu maior desafio – foi produtivo. A dúvida fica por conta de qual dos dois jogadores conseguirá superar seus problemas para produzir no sistema, que depende muito das corridas para funcionar. O grupo conta ainda com o versátil CJ Prosise, que mostrou potencial ano passado até, adivinhem, se machucar.

Russell Wilson não verá nenhuma novidade no corpo de recebedores, sendo os três principais o veterano Doug Baldwin, melhor amigo de Russell desde sua entrada na liga; Paul Richardson, que após começo difícil na carreira parece finalmente ter acordado pra vida; e Tyler Lockett, extremamente veloz mas que perdeu parte da última temporada por lesão. Amara Darboh, escolhido na terceira rodada deste Draft, fecha o grupo. Se quisermos também podemos falar de Jimmy Graham por aqui, tendo em vista que TIGHT END QUE NÃO BLOQUEIA É SÓ UM WIDE RECEIVER QUE COMEU ESPINAFRE.

Amigos do Sherman

A defesa de Seattle dispensa apresentações. Já fazem quatro anos que o grupo é o primeiro da liga em pontos permitidos por jogo, algo que não é alcançado desde os anos 50. O feito é ainda maior se considerarmos que Earl Thomas se machucou na semana 13 da última temporada. Mesmo não sendo evidente nas estatísticas finais, a lesão de Earl foi um golpe duro para o time, que sentiu multa falta do seu melhor jogador nos playoffs, quando Matt Ryan e cia. não tomaram conhecimento da defesa que enfrentaram.

Em nenhum dos três níveis vemos uma grande deficiência e, mesmo assim, os Seahawks ainda reforçaram a defesa com algumas peças no draft. Malik McDowell e Nazair Jones para a linha defensiva; e ainda toda uma nova secundária, com dois Cornerbacks, Mike Tyson e Shaquill Griffin; e dois Safeties, Delano Hill e Tedric Thompson. Esses jogadores devem ver uma quantidade limitada de snaps, já que, com exceção da posição de CB 2, os titulares já estão bem definidos.

Lendo ataques e o Código de Defesa do Consumidor.

Na primeira linha, Ahtyba Rubin e Jarran Reed atuam pelo meio, enquanto Cliff Avril e Michael Benett formam talvez a dupla de pass rushers mais underrated da NFL (não que para eles não haja reconhecimento, mas a verdade é que ambos não são muito lembrados quando discutimos os melhores pass rushers).

Pelo meio, jogam KJ Writght e Bobby Wagner, uma dupla extremamente veloz. Quando um deles não está em campo, a defesa perde consideravelmente. O recém-chegado Michael Wilhoite fecha o corpo de LBs.

Por fim, temos a secundária. A Legion of Boom tem em Richard Sherman, Kam Chancellor e Earl Thomas uma força absurda. É um grupo que rivaliza com unidades como a OL do Dallas Cowboys como o melhor da liga. Aqui, Jeremy Lane deve ser o CB 2, mas não seria surpresa se ele perdesse a posição ao longo do ano.

Palpite: Não sabemos até que ponto os problemas dos Seahawks continuarão, mas, eles certamente não impedirão o time de vencer a fraca divisão. Resta saber se nos playoffs a equipe conseguirá chegar longe, já que nos dois últimos anos Seattle não passou do Divisional. Força para competir com o resto da NFC o elenco com certeza tem e já mostrou isso.

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