Despontando para o anonimato: ascensão e queda de Chip Kelly

26/ago/16


Charles Edward “Chip” Kelly chegou à NFL com status de gênio revolucionário. Contratado em janeiro de 2013 para ser o 21º head coach do Philadelphia Eagles, exibia um currículo recheado de vitórias e recordes pela Universidade de Oregon. De 2010 a 2013, quando ocupou o mesmo cargo na Universidade, Kelly chegou a três BCS Bowls e a um BCS National Championship Game, a final do torneio universitário; ganhou dois Bowls e perdeu o BCS National Championship Game para a Universidade de Auburn, do então ganhador do prêmio Heisman, Cam Newton. Mais do que vitórias, títulos e estatísticas inflamadas, adquiriu a fama de guru ofensivo, comandando um dos ataques mais rápidos, explosivos e inovadores que a NCAA já viu.

Ao ser contratado pelo Philadelphia Eagles, Kelly trouxe as mesmas filosofias que usava na NCAA para a NFL. Como era algo que até então não havia sido tentado, pelo menos não com a mesma convicção, muitos dos analistas que acompanharam sua transição acreditavam que poderia haver uma revolução na forma como o football era jogado. Lá no fundo, todos os amantes de ataques alucinantes e pontuações altas esperavam a chegada do messias que revolucionaria o jogo. Havia uma torcida para que ele fosse bem sucedido. E, ao menos no início, ele foi.

Amigo é coisa pra se guardar...

Amigo é coisa pra se guardar…

Primeiros passos

Em seus dois primeiros anos no comando do Philadelphia Eagles, Chip Kelly parecia o mesmo guru ofensivo que fez o Oregon Ducks ter médias sempre superiores a 45 pontos por jogo. Na temporada 2013, o Eagles terminou com 10 vitórias e 6 derrotas e foi campeão da NFC East. Perdeu em casa para o New Orleans Saints no Wild Card Round, com um field goal nos últimos segundos. Mesmo com a derrota em sua primeira (e única) partida de playoffs, Chip conduziu o Eagles a uma clara evolução em relação à temporada de 2012, quando a equipe terminou com 4 vitórias e 12 derrotas e culminou na demissão do lendário técnico Andy Reid.

A evolução era percebida em campo e também nos números. Logo em seu primeiro jogo, o ataque de Kelly já deu sinais de que seria explosivo. Apenas no primeiro tempo da vitória por 33 a 27 contra o Washington Redskins, o Eagles conseguiu 322 jardas, contra apenas 75 de Washington. Na temporada 2013, o Eagles terminaria como segundo ataque mais prolífico da liga, com 6676 jardas totais, ficando atrás apenas da temporada histórica de Peyton Manning pelo Denver Broncos.

O running back LeSean McCoy liderou a NFL em jardas corridas, com 1607 e média de 100 por jogo. McCoy estabeleceu o novo recorde da franquia para jardas corridas em uma partida: 217, no meio de uma tempestade de neve, contra o Detroit Lions.

Nick Foles, quarterback muito abaixo da média que substituiu o contundido Michael Vick após a semana 5, completou a boa marca de 64% de acerto nos passes, lançando para 27 touchdowns e apenas 2 interceptações. Foles chegou a empatar o recorde da NFL de 7 passes para TDs no mesmo jogo, na vitória por 49 a 20 contra o Oakland Raiders.

Os números eram espetaculares, especialmente por se tratar da primeira temporada na NFL de um sistema inovador que rompia com muitas das crenças mais básicas sobre como operar um ataque na NFL. O sentimento em Philly era de crença, no sentido mais devoto da palavra, e de completo entusiasmo.

Um dia também escreveremos sobre ascensão e queda de Nick Foles.

Um dia também escreveremos sobre ascensão e queda de Nick Foles.

O início do fim

Antes do início da temporada 2014, o wide receiver DeSean Jackson, que havia terminado no top 10 da liga em jardas recebidas na temporada anterior, foi dispensado e assinou com o Washington Redskins. Foi a primeira das estrelas que construíram a excelente temporada de 2013 a deixar o Eagles.

Sua ausência não foi sentida, pelo menos no início. Jeremy Maclin, WR que havia ficado fora da temporada 2013 com os ligamentos do joelho rompidos, conseguiu números semelhantes aos de DJax, também terminando no top 10 da liga em jardas recebidas. O ataque continuava funcionando: o combo Nick Foles e Mark Sanchez foi responsável por 4356 jardas aéreas, 27 TDs e 21 INT. LeSean McCoy foi o terceiro RB da liga em jardas terrestres, com 1319. O bom desempenho ofensivo rendeu o mesmo número de vitórias da temporada de 2013, 10, porém o Eagles não conseguiu a classificação aos playoffs, já que ficou atrás do Dallas Cowboys na NFC East e não teve vitórias suficientes para conseguir uma vaga de Wild Card.

Se o resultado não podia ser comemorado, era difícil também que fosse lamentado. O desempenho em campo ainda era bom e acreditava-se que, com algumas contratações pontuais, especialmente de jogadores de defesa, somadas a um bom draft, o Eagles poderia ser um dos melhores times da NFL. O que aconteceu, porém, foi exatamente o oposto.

No início de 2015, Howie Roseman deixou o cargo de general manager do Eagles para assumir funções de menor importância na organização. Na reestruturação do time, Chip Kelly recebeu o pomposo título de “head of football operations”. Junto com o cargo, adquiriu o poder de ter a palavra final em todas as transações que envolviam jogadores. Poderia contratar, trocar e dispensar sem ter que responder a ninguém. E foi aí que tudo começou a dar errado.

Dois meses após receber o poder absoluto, em um período de 10 dias, Kelly fez transações que selariam o seu destino. Pelo segundo ano seguido, permitiu que seu principal WR deixasse o time sem nenhuma dificuldade. Jeremy Maclin assinou com o Kansas City Chiefs de Andy Reid e deixou um vazio que não conseguiu ser ocupado por nenhum dos WRs que restaram no elenco. Em uma troca que chocou a NFL, enviou LeSean McCoy, um dos RBs mais talentosos de sua geração, para o Buffalo Bills em troca do linebacker Kiko Alonso, que teve momentos promissores em Buffalo, mas sempre foi propenso a contusões. Para suprir a ausência de McCoy, contratou os RBs DeMarco Murray e Ryan Matthews, que junto com Darren Sproles formavam um dos grupos de RBs mais completos da liga. Em outro movimento surpreendente, trocou o QB Nick Foles e uma escolha de segundo round do draft pelo também frequentemente contundido QB Sam Bradford, primeira escolha do Saint Louis Rams no draft de 2010. As escolhas eram duvidosas, mas Chip recebeu o benefício da dúvida, ainda aproveitando a aura de gênio adquirida em seus dois primeiros anos.

Assim como em sua chegada à NFL, o desejo geral era de que tudo desse certo, de que o espetáculo exibido nas primeiras temporadas permanecesse em pleno funcionamento.

Ensinando a fazer a escolha errada

O problema é que nada deu certo. Sam Bradford mostrou continuar sendo o QB inseguro e inconsistente que não fez sucesso no Saint Louis Rams. Os recebedores mostraram estar à altura da mediocridade do quarterback: enquanto Jordan Matthews dropava passes, Nelson Agholor, rookie selecionado por Chip no primeiro round do draft, mostrava que estava longe de estar pronto para vestir o uniforme de um time profissional.

Talvez o caso mais bizarro do Eagles de 2015 seja DeMarco Murray. Em 2014, ainda pelo Dallas Cowboys, Murray foi o melhor RB da liga e correu para quase 2000 jardas. Não se sabe, porém, se os números em Dallas aconteceram devido ao talento de Murray ou pela ajuda da excelente linha ofensiva do Cowboys. O que se sabe é que o RB estava longe de ser o protótipo de jogador que faria sucesso no sistema de Kelly: RBs velozes que aproveitam o espaço para conseguir ganhos expressivos de jardas. DeMarco Murray é um jogador de força, que corre pelo meio da linha ofensiva e que precisa de bons bloqueios para ter sucesso. Isso era provado jogo a jogo quando Chip continuava chamando o mesmo estilo de jogada: corridas para o lado do campo para as quais Murray mostrava seguidamente não possuir aptidão. Ryan Mathews, RB mais veloz e ágil, conseguiu muito mais sucesso que Murray, mesmo com uma quantidade muito menor de carregadas.

O ataque veloz, sem huddle, que estrangulava as defesas adversárias, não funcionava mais. O que antes era um trunfo se tornou uma desvantagem. Foram vários os reports de reclamação dos jogadores de defesa do Eagles, já que eles eram obrigados a retornar a campo apenas com o mínimo descanso proporcionado pelo rápido three and outconseguido” pelo ataque. O resultado dessa falta de balanço foram duas partidas consecutivas em que o Eagles tomou 45 pontos, contra Tampa Bay e Detroit.

Se antes o Philadelphia Eagles tinha números coletivos e individuais que ocupavam os primeiros lugares da liga, em 2015 tudo falhou. O time foi o ataque número 12 da liga, com muitos dos números conquistados quando a defesa já tinha tomado muitos pontos e o jogo já tinha se tornado irrelevante. Não houve nenhum destaque individual. Com o sistema defensivo sendo o trigésimo melhor da NFL, superior apenas as horrorosas defesas de New Orleans Saints e New York Giants, o Eagles terminou com sete vitórias e nove derrotas, em um retumbante fracasso que levaria à demissão de Chip Kelly antes mesmo do fim da temporada regular.

Além das decisões questionáveis envolvendo as contratações de jogadores e do fraco desempenho em campo, outros aspectos colaboraram diretamente para a demissão de Chip antes mesmo do fim da temporada 2015. De acordo com um artigo de Jason La Canfora, com o Eagles fora da briga pelos playoffs e com o ambiente cada vez mais pesado, o dono Jeffrey Lurie decidiu buscar informações com os funcionários do time sobre o modo de agir de Kelly. E o que descobriu foi, no mínimo, alarmante: além de um retorno negativo quase unânime, Lurie percebeu que Chip era incapaz de estabelecer o mais básico relacionamento humano com seus companheiros de trabalho. Tudo se limitava a football.

De acordo com La Canfora, o que parece ter sido um dos motivadores da demissão de Kelly foi um episódio envolvendo uma tradicional festa de fim de ano promovida pelo Eagles para seus funcionários. Motivo de muito orgulho para Jeffrey Lurie, a festa tradicionalmente acontecia em uma noite de segunda feira próxima ao Natal. Chip Kelly, que mantinha as rédeas da franquia em suas mãos, se recusou a participar, alegando que a preparação dos técnicos para o próximo jogo seria prejudicada. Era apenas uma festa, que acabou transferida para uma sexta feira, mas exemplifica a indiferença de Kelly com aspectos culturais da organização e o abismo que existia entre o que ele estava construindo e o que Lurie gostaria para seu time.

Fica claro é que a demissão de Chip Kelly não aconteceu porque ele falhou como head coach. Apenas uma temporada negativa, após vários recordes quebrados e estatísticas que lideraram a liga, não é suficiente para derrubar um técnico. Jeff Fisher, técnico do Los Angeles Rams, vem colecionando resultados medíocres e times totalmente sem inspiração desde os tempos de Tennessee Titans e ainda está empregado. Kelly falhou como líder. Falhou como gestor de pessoas. Falhou ao colocar seu ego acima da cultura da organização. Falhou em ser minimamente político. Falhou ao considerar que seu sistema poderia superar a completa ausência de talentos individuais.

Um dia antes de sua demissão, pressionado pelos repórteres de Philadelphia, Chip Kelly disse, ironicamente, que não era o general manager do time. Você não era mesmo, Chip.

Recomeço?

Se a filosofia é colocar seu sistema acima dos talentos individuais, Kelly não poderia ter escolhido time melhor para continuar sua carreira na NFL. É possível que ao fim da temporada que se aproxima o San Francisco 49ers possua a primeira escolha do draft de 2017. O tão aclamado sistema de Chip será posto à prova em um dos piores rosters da NFL no momento, já que jogadores como Torrey Smith, Carlos Hyde, Colin Kaepernick e Blaine Gabbert estão longe de serem unanimidades quando o assunto é talento individual.

Como gestor de pessoas, Kelly ainda terá que lidar com a vaidade de Kaepernick, que tem se mostrado sem vontade de continuar no 49ers. Se for bem sucedido, pode ser o recomeço da saga do gênio revolucionário. Já o contrário provavelmente decretará como único caminho restante um retorno ao college. Por aqui, apostaremos na segunda opção.

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