De York a Shanahan: o que o futuro reserva para o 49ers

26/mar/17


“A coisa mais engraçada sobre ser um torcedor do San Francisco 49ers em 2017 é a reação das pessoas quando você conta esse fato”.

A reação inicial (e natural) é uma risada – afinal de contas você acaba de admitir que sua vida de torcedor é baseada em uma franquia que se tornou a piada da NFL nos últimos anos. Mas logo depois, a reação muda: a hilaridade inicial acaba sendo substituída por um sentimento de pena, como se você tivesse acabado de admitir ter alguma doença grave. Quase dá para ver a pessoa pensando “coitado, ele já sofre o suficiente com essa desgraça de time, é maldade tripudiar ainda mais”. Existe quase uma solidariedade com o torcedor do Niners nesse sentido, que faz você acabar levando um tapinha nas costas e ouvindo um “as coisas vão melhorar”. Com o Browns mudando sua diretoria e tomando decisões inteligentes, parece questão de tempo até San Francisco herdar o posto de pior franquia da NFL na atualidade. Ser ruim acontece, faz parte do ciclo, mas para chegar nesse nível você precisa de uma incompetência realmente especial.

Mas o pior é que, muito embora os últimos dois anos de San Francisco tenham de fato sido uma piada e justificado todos esses sentimentos, isso não é uma novidade para a franquia. É fácil esquecer isso, mas ser uma piada em meio a péssimas direções e maus cuidados dos seus donos foi a identidade do 49ers durante a maior parte do século XXI.

Depois de sua aparição nos playoffs em 2002 (derrota para os eventuais campeões Buccaneers na segunda rodada), San Francisco teve problemas em 2003 em meio a lesões de seu quarterback Jeff Garcia, e acabou o ano 7-9. E foi aí que tudo explodiu: Garcia foi para Cleveland, o combo de Tim Rattay e Ken Dorsey assumiu a posição, e o time terminou com a pior campanha da NFL com 2-14. Essa campanha rendeu a escolha #1 do Draft naquele ano… Alex Smith, que apesar de talentoso teve que lidar com SEIS técnicos diferentes (e seis coordenadores ofensivos) em seis anos e só foi se encontrar em 2011. Foi o começo de uma das piores sequências da história da NFL: entre 2003 e 2010, por oito longos e intermináveis anos, o time não teve UMA única temporada acima de 50%: campanha combinada de 46-82 (36%) e, bem, demissões quase anuais de HCs. Então acreditem quando digo que ser ruim não é uma novidade para o fã do Niners.

Uma nova (e breve) esperança

O problema é que nos ofereceram, no meio do caminho, a esperança. Nos foi mostrado um mundo onde o Niners não precisava ser uma piada, onde eles poderiam ser um time competente, admirado ao redor da NFL, uma referência de sucesso que disputava títulos. E uma vez que você chega nesse nível, ter que voltar atrás é muito mais difícil. Especialmente pela forma como foi feito.

Em 2011, no lugar do então recém-demitido Mike Singletary (talvez o pior técnico de NFL do século XXI), o 49ers anunciou a contratação de Jim Harbaugh, então técnico de Stanford. A chegada de Harbaugh – junto a um elenco promissor e bem montado por Scott McCloughan (que também foi mandado embora naquele verão e substituído por Trent Balkee) – foi o sinal da mudança para a franquia: logo no seu primeiro ano, San Francisco ganhou 13 jogos e a NFC West, Harbaugh foi eleito técnico do ano, o antigo bust Alex Smith se desenvolveu em um jogador competente e a defesa se tornou a melhor da NFL.

Saudades desse homem!

Assim, o time iniciou uma sequência de três anos em que foi um perene candidato ao título, chegando a três finais de conferência consecutivas (e muito perto de chegar também a três Super Bowls), ficando a cinco jardas de um título em 2012. Mesmo em 2014, quando o time foi apenas 8-8 em meio a múltiplas lesões e ficou de fora dos playoffs, a temporada foi melhor do que qualquer uma que o time teve nos anos anteriores à chegada de Harbaugh.

Para alguém que não pegou o auge de Montana e Young, essa foi sem dúvida a melhor época da franquia: o time era bom, a cobertura na mídia era abundante e ser torcedor do San Francisco 49ers era fonte de orgulho. Estávamos felizes por simplesmente ter um time funcional novamente.

Mas, como todo mundo sabe, não durou. O presidente do time (sobrinho da atual dona) Jed York, alguém que já admitiu publicamente não entender quase nada sobre futebol americano, mas que gosta de estar no centro das atenções, e seu GM de estimação Trent Baalke, não estavam satisfeitos com a atenção e os créditos que Jim Harbaugh recebia como salvador do 49ers. Repetiram publicamente que não era o técnico, mas sim o time que eles tinham montado. Por fim, Harbaugh perdeu a briga de força nos bastidores e, com a (ridícula, se você acompanhou os fatos) desculpa de que o HC tinha perdido o vestiário, colocaram o técnico para correr e promoveram alguém que simplesmente obedecesse às ordens vindo de cima, Jim Tomsula. Sem nenhum currículo que justificasse o cargo, a lógica era simples: se o time tivesse sucesso com Tomsula, ficaria claro que era o time, e não Harbaugh, a causa do sucesso.

O começo do fim

Desnecessário entrar em detalhes do que aconteceu, mas em resumo, tudo deu errado. As peças fundamentais dos bons times de 2011-2013 foram deixando San Francisco, e os movimentos de Baalke para repô-las terminaram em fracasso atrás de fracasso. Na tentativa de continuar vencendo, o time focou demais em contratações de curto prazo e não soube construir um plano duradouro que fizesse sentido, deixando assim de buscar peças que poderiam compor algo maior. Em dois anos, San Francisco venceu 5 e 2 jogos, e demitiu dois outros técnicos (beijos, Chip Kelly!) no mesmo período.

E isso se torna evidente quando você ignora a narrativa que tentaram te empurrar goela abaixo sobre a demissão de Jim Harbaugh, optando por focar nas reações ao redor da NFL: as pessoas estavam chocadas sobre como alguém poderia ser tão burro e demitir um dos melhores técnicos da NFL, que não só tinha trazido sucesso a uma franquia há muito decadente, mas também se tornado a cara dela – o que, claro, foi o motivo da sua demissão.

Até mesmo os jogadores do Seattle Seahawks, então maior rival do Niners, abertamente defenderam Harbaugh e mostraram bastante incredulidade frente ao movimento. Não tinha ninguém que achasse uma boa ideia. Exceto, claro, Balkee e York. A franquia tinha algo bom, tinha algo em que se sustentar, e jogou tudo pelo ralo.

Duas antas.

Reconhecendo o erro?

Mas dois dos mais fracassados anos da franquia pelo menos acenderam na cabeça de algumas pessoas a necessidade de mudança. York e Baalke apostaram e perderam. Para o segundo, isso custou o emprego. Para o primeiro não, porque isso não acontece com o sobrinho milionário e herdeiro da família que claramente não liga para o patrimônio que tem. Esse, aliás, é o principal fator de ceticismo quanto ao futuro do 49ers: poucas coisas são mais prejudiciais para uma franquia do que um dono ruim. E San Francisco talvez tenha o pior de toda a NFL contemporânea.

Ainda assim, pelo menos York e o 49ers admitiram seu erro. Baalke está fora da cidade e a franquia enfim anunciou o que todo mundo com três neurônios funcionais já sabia: que ela precisa se reinventar e recomeçar um planejamento longo para voltar a ser competitiva não ano que vem, mas daqui três ou quatro anos. Você pode questionar que diabos um time está fazendo se coloca esse processo nas mãos de um GM que é um ex-safety que jamais teve uma posição executiva na NFL e, ao invés disso passou esse tempo todo como comentarista de TV? É um questionamento válido, mas pelo menos já mostra uma mudança de postura muito necessária.

Por outro lado, a contratação de Kyle Shanahan para técnico, ainda que seja uma aposta, foi um ponto de otimismo no meio deste processo. Uma das mentes jovens mais brilhantes da NFL, Kyle foi o responsável por montar o ataque do Atlanta Falcons de 2016 que tomou a liga de assalto e fez de Matt Ryan MVP. Shanahan tem apenas 37 anos e nunca esteve na função de técnico, que é bem mais complexa e exigente do que a de coordenador, mas é exatamente o tipo de aposta que um time na condição de San Francisco deve fazer: confiar no seu enorme potencial e aceitar o risco da adaptação como parte do preço a se pagar.

Talvez ele nos salve.

E o mais importante de tudo é que, por mais arriscado que seja começar sua reconstrução com um GM sem experiência na parte executiva do esporte e um HC tão jovem e inexperiente, ambos terão bastante liberdade e margem para trabalhar: a dupla recebeu contratos de seis anos, com muitas garantias. A mensagem é clara: esse não é um trabalho para pouco tempo e eles terão bastante estabilidade no cargo para poderem pensar a longo prazo e não apenas na segurança de seus empregos. Significa que ambos poderão errar e aprender com os próprios erros no cargo. É uma aposta de alto risco, alto potencial que pode dar uma cara nova a uma franquia que desesperadamente precisa de um novo rosto.

Perspectivas

Sempre irá doer para o torcedor do San Francisco 49ers ir dormir todas as noites sabendo que tinha um dos melhores técnicos e uma das melhores situações da NFL, só para jogar tudo isso fora em uma batalha de egos (e, nessa batalha, o time claramente escolheu o lado errado).

Mas pelo menos agora, pela primeira vez, o time se colocou em uma situação de nos dar esperanças. Bem ou mal, significa um avanço. É o ideal? Talvez não. York ainda é o presidente do time e a situação dos donos ainda muito desfavorável. Um GM com mais experiência e menor risco seria mais desejável. Mas quando se está no fundo do poço, a única direção possível é para cima e hoje, San Francisco, na pior das hipóteses, já tem uma perspectiva muito melhor do que aquela que estava no horizonte seis meses atrás.

*Vitor é responsável pelo @tmwarning e torcedor do San Francisco 49ers desde 1849.

Tags: , , , , , , , ,

COMPARTILHE