Como ser um time melhor sem um dos melhores jogadores da sua história

23/dez/16


Durante o duelo contra o Jacksonville Jaguars na semana 11, em um dos milhares de intervalos comerciais proporcionados pela NFL, Calvin Johnson apareceu no telão do Ford Field. Era na verdade uma pequena peça promocional desejando boa sorte a um dos maiores ídolos da franquia em seu novo projeto pós-aposentadoria: Dancing With Stars. Vários aplausos, mas lá no fundo, tudo soava como falso apoio de amantes recém rejeitados – semanas depois, como um bom Lions, ele terminaria a disputa na terceira colocação. Mas essa é outra história.

A dor é compreensível, afinal, a perda de um grande amor nunca é facilmente superada. E Calvin Johnson sempre esteve naquele rol de jogadores que, mesmo que você odiasse os Lions, era impossível não adorar vê-lo em campo em uma tarde de domingo. E, claro, Calvin tinha um dos apelidos mais legais de todos os esportes: Megatron. Enfim, impossível não gostar de Calvin Johnson.

De qualquer forma, Calvin já era excelente quando estava no college. Quando chegou à NFL, seu sucesso era certo. Joe Anoi, seu companheiro de equipe na faculdade, certa vez chegou a declarar. “Para ser tão talentoso como ele é, para ser tão fisicamente dominante como ele é… Calvin é uma obra-prima que só Deus pode construir. E o que ele faz em campo sequer se compara com o tipo de pessoa que ele é”. Opinião semelhante tem Chan Gailey, seu treinador na universidade de Georgia Tech. “Nunca tive outro como ele, seja na faculdade ou na NFL. Nunca tive outro WR tão grande e rápido e com esta coordenação olho-mão”.

Mas, claro, sempre há que se considerar os argumentos dos detratores: Calvin jogou no período certo para um WR. Hoje, você não pode mais parti-los ao meio, não pode exercer pressão após míseras cinco jardas, não pode marretar seus crânios, você não pode sequer trombá-los quando estão correndo. Caras como Jerry Rice ou Lance Alworth devem ver as partidas atuais e imaginar seguidas temporadas com 2000 jardas e 20 touchdowns – e eles não estariam exagerando. Mas abrir esta margem para a discussão apenas evidencia o quão efetivamente é impossível comparar atletas de eras diferentes; são novas regras, períodos opostos no tempo e situações distintas.

Ao mesmo tempo, se torna impossível desconsiderar suas sete (em nove) temporadas com mais de 1100 jardas recebidas. Ou o absurdo que foi seu ano de 2012, beirando as 2000 jardas – ao todo, foram 1964 – com, fato curioso, apenas 5 TDs. Em nove temporadas, Calvin atingiu 11619 jardas, com uma média de 15,9 jardas por recepção e 83 touchdowns. E tudo isso com um quarterback como Matthew Stafford.

Fazendo coisas impossíveis.

Presente e futuro

E aqui já podemos começar a falar sobre Stafford e o presente do Detroit Lions. Com a aposentadoria repentina de Calvin, a principal dúvida que pairava sobre os fãs do Lions residia também sobre seu QB. Stafford é realmente bom? Matthew tem potencial para ser realmente grande? Ou é apenas mais um quarterback superestimado? Talvez ele apenas tivesse ganhado na loteria ao ter Megatron ao seu lado, não? Quais seriam seus números reais se retirássemos as 20 ou 30 recepções absurdas, toda temporada, que nenhum outro mortal seria capaz de fazer?

As respostas começaram a vir em 2016, com uma versão Lions-sem-Megatron que não faz nada que seja digno de nota: até a semana 15, Detroit tinha uma média de 21.5 pontos por jogo, a 20ª da NFL; eram também 253,6 jardas aéreas (12ª), 81.7 jardas corridas (30ª) para uma média final de 335.3 jardas totais (30ª). A defesa também esteve longe de encher os olhos, sendo uma das poucas a permitirem a Case Keenum (que Deus o tenha!) um jogo de 300 jardas na carreira – algumas semanas depois, ele seria relegado ao banco em Los Angeles.

A sensação é que sem o talento de Calvin Johnson o Lions é chato, pragmático, quase tedioso e incapaz de impor seu jogo sobre qualquer adversário. E mesmo assim, eles estão 9-5. Mas por que uma equipe destinada a perder insiste em vencer?

Bem, enquanto o Lions não se destaca em nenhum aspecto do campo, ao menos eles têm sido minimamente sólidos em cada setor. “Creio que conseguimos construir uma equipe com muita profundidade”, disse o WR Golden Tate durante uma entrevista coletiva. “E quando isso ocorre, você começa a perceber que cada um fazer seu trabalho individual trará bons resultados, e pode ser o suficiente para vencer”, completou.

Senso de equipe

Mesmo que nada salte aos olhos, o Lions tem hoje safeties e cornerbacks seguros, um quarterback, sem seu principal alvo, talvez mais ciente de suas limitações e, consequentemente, mais disposto a jogar a bola para fora ou aceitar o sack, no lugar de lança-la desesperadamente para frente e rezar para que Megatron esteja lá. O Lions tem reduzido riscos inerentes a individualidade, Stafford completa mais de 66% dos passes, segunda melhor média de sua carreira, com 22 touchdowns e apenas 8 interceptações até a week #15. E, bem, ao menos até o duelo contra o Giants na semana #14, nenhum RB havia atrapalhado Detroit.

“Quando você tem 11 caras fazendo seu trabalho, você pode esperar que a outra equipe, em algum momento, force o jogo e cometa um erro. É assim que Caldwell trabalha e eles estão se certificando de que joguemos football de forma inteligente”, disse o linebacker Tahir Whitehead. “Estamos começando a confiar em nossa preparação e no que temos por aqui. Estamos nos provando o tempo todo”, explica Golden Tate.

É está abordagem de equipe, de coletividade, que tem feito Stafford ter o segundo melhor rating de sua carreira (95.8, contra 97 na temporada passada). Em meados de outubro, Jim Bob Cooter, coordenador ofensivo da equipe, já reconhecera que não ter um talento do nível de Calvin Johnson como alvo estava auxiliando Matthew a perceber melhor as nuances do campo: “Quando você tem Calvin Johnson à disposição, um dos melhores WRs de todo o tempo é óbvio que você tenderá a lançar a bola em profundidade, não faz muito sentido não priorizá-lo e, às vezes, você substitui a leitura para fazer isso”.

Em paz com o passado

Claro, tudo isso seria considerado heresia se dito há um ano: somos condicionados a crer que grandes WRs tiram a pressão de WRs secundários e running backs, permitindo que o jogo, tanto aéreo como corrido, flua com mais naturalidade. Quando isto não ocorre, tendemos a culpar os WRs de apoio e não o quarterback. Inegavelmente, esse foi o roteiro do Lions na última década, sempre retornando ao discurso de que Calvin não tinha a ajuda necessária e era sobrecarregado. O Lions até tentou auxiliá-lo e investiu pesado no draft, selecionando Titus Young na segunda rodada em 2011 e Ryan Broyles também na segunda rodada em 2012 – que teve uma carreira digna de nota: 420 jardas, 32 recepções e 2 TDs em três temporadas. Houve tempo ainda para selecionar o TE Eric Ebron na primeira rodada de 2014, mas nada mudou até a chegada de Golden Tate.

Com Tate a pressão sobre Megatron realmente pareceu diminuir – em 2014 foram 144 targets em direção ao ex-WR do Seahawks, o maior número de qualquer recebedor do Lions que não se chamasse Calvin Johnson desde 2001. Naquele ano, o Lions terminou 11-5, contando também com um ótimo e consistente sistema defensivo.

Amizade sincera e verdadeira.

Mas essa ascensão de Golden Tate escondeu outro problema, que só seria revelado na temporada seguinte, quando a defesa ruiu: quando tudo apertava ou parecia perdido, Stafford voltava a recorrer exclusivamente a Calvin.

Em linhas gerais, Golden Tate ainda teve bons números em 2015, com 90 recepções, para 813 jardas e seis TDs – Calvin, porém, foi alvo de 23% dos passes de Stafford, com 88 recepções para 1214 jardas. O problema residia, claro, em situações de two-minute warning, quando Matthew voltava a sua estratégia corriqueira: aqui Calvin foi alvo em mais de 40% das tentativas, ou seja, apesar da solidez de Golden Tate, Johnson ainda era o a fortaleza de Stafford quando realmente importava, limitando possibilidades e restringindo sua capacidade de leitura.

A aposentadoria repentina de Megatron obrigou o Lions a se transformar em momentos críticos – tanto que boa parte das vitórias nesta temporada vieram no último quarto e por uma diferença inferior a 7 pontos. Nestas situações, hoje, nenhum recebedor é alvo em mais de 25% das tentativas.

Como disse o S Glover Quinn: “quando você tem alguém tão talentoso como Calvin, às vezes você só quer forçar a bola para que ele lhe tire de determinadas situações. Isso não irá acontecer mais”. Já o próprio Calvin, quando questionado sobre o sucesso do Lions sem ele, refletiu. “Pensava que seria mais fácil, porque normalmente iriam com marcação dupla em mim, especialmente em certas situações”.

Obviamente, em vez de tornar Detroit completamente previsível, Stafford poderia ter balanceado o talento de Johnson, distribuindo melhor a bola em situações decisivas. É o que grandes quarterbacks fariam. Como Stafford iria procurá-lo em todas as oportunidades, logicamente o adversário iria sobrecarregar os setores do campo em que Calvin estivesse.

Nem tão bom quanto esperávamos, nem tão ruim quanto imaginávamos.

Mas hoje Matthew enfim assumiu uma nova identidade, que tantas equipes tem dificuldade de encontrar. A ausência de Megatron fez com que fosse possível, definitivamente, enxergar nele um bom quarterback – ainda distante dos melhores, claro, mas também bem distante da linha da mediocridade. E talvez o Lions novamente não chegue a pós-temporada em 2016, mas o legado deste ano não pode ser perdido e o futuro pode ser promissor.

“Quem quer que seja, em determinado dia, ele estará lá”, diz Quin, sobre aqueles que agora podem decidir jogos em favor do Lions. “Na semana seguinte, tudo bem, poderá ser outra pessoa: quando você pode confiar em cada atleta do grupo, todos os 53 rapazes podem contribuir e jogar bem, o football se torna mais divertido”.

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