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Patriots, Tom Brady e Bill Belichick: quando tudo e nada fazem sentido

Tom Brady tem a equipe ao seu redor, instantes antes de ir para o snap. Ele dá um leve sinal com a mão para Julian Edelman. New England estava oito pontos atrás no marcador, em uma 1&10 na linha de 36 jardas de seu próprio campo. O passe é desviado e paira no ar por segundos que, na verdade, soaram como uma eternidade. Quando três defensores de Atlanta convergiram em direção a bola, Edelman passou entre as pernas de um deles. Ele segura a bola, mas dessa vez por um milésimo de segundo, também quase eternos, ela escapa. Mero capricho antes de Julian agarrá-la definitivamente, sem que ela tocasse a grama.

Dessa vez foi preciso respirar por alguns segundos, quando agora eram necessários minutos, para perceber que estávamos diante do instante definitivo que escancarava a inevitabilidade da vitória de New England – e o consequente fracasso de Atlanta. E mesmo que possam ser apontados outros momentos tão densamente significativos quanto aquela recepção, como o fumble forçado por Hightower ou o sack de Trey Flowers empurrando Matt Ryan em um abismo particular, o lance protagonizado por Edelman flertou com o surreal.

Ali, naquela fração de tempo, se encontravam diversos instantes que definiram a história do esporte, como a recepção de David Tyree anos antes diante do mesmo New England, o arremesso de Ray Allen contra o Spurs no Jogo 6 ou mesmo os minutos derradeiros de Cleveland e Warriors na última decisão da NBA. Havia um pouco também do Chicago Cubs quebrando sua maldição particular e de Patrick Kane com seu Phantom Goal.

Aconteceu ou não aconteceu?

O caminho até aqui

Tudo o que aconteceu no último domingo só foi possível porque Brady e Belichick colocaram o Patriots em condições de vencer, na maior atuação que um quarto período de um Super Bowl já viu. Claro, eles contaram com um auxílio fundamental do sistema defensivo, que após ir para os vestiários retornou avassalador e talvez tenha sido o maior responsável pela vitória. De qualquer forma, não foi uma sensação estranha, após tudo que já vimos esta dupla fazer. Mas há um quê de ironia, quando voltamos duas temporadas no tempo: na week #4 da temporada 2014-2015, contra Kansas City, Tom Brady e o New England Patriots como conhecemos pareciam finalmente ter chegado ao fim.

O destino daquela temporada, porém, terminou com a conquista de mais um Vince Lombardi. E cada vez que alguém credita o sucesso de New England a sorte por Brady ter parado em Foxborough ou a Belichick e seu sistema perfeito, esquece a melhor parte da história: qualquer destes elementos poderiam ter ido para qualquer outro lado.

Além de tudo isto há diversos fatores quase intangíveis que ajudaram a moldar Belichick, New England e, sobretudo, o próprio Brady: quando Adam Vinatieri acertou aquele field goal em meio a uma nevasca, Brady se tornou um pouco do que é hoje. Dois anos depois o mesmo Adam ajudou o Patriots a vencer um jogo de playoff contra o Titans com outra bomba de mais de 45 jardas com termômetros congelados. Se essas bolas não tivessem entrado, talvez não estivéssemos tendo esta conversa.

Talvez isso ajude você a argumentar que a sorte sempre esteve ao lado de Brady e Belichick. Há uma dose de verdade, claro: no segundo Super Bowl da dupla, contra o Panthers em 2004, Carolina havia empatado a partida com menos de dois minutos para o fim. Mas John Kasay inexplicavelmente chutou o kickoff pela lateral, dando a chance para o Patriots começar sua caminhada já na linha de 40 jardas de seu campo; para azar de Kasay (ou sorte de New England), Brady e seu jogo aéreo estavam próximos da perfeição naquele dia, então eles só precisaram fazer seu trabalho. Na história há ainda a interceptação de Malcolm Butler na linha de uma jarda, quando tudo já parecia perdido diante do Seattle Seahawks em 2014 e diversos outros momentos favoráveis a New England.

Mas também se há uma dose de sorte ao lado de New England, o que dizer da já citada recepção de David Tyree em um Super Bowl que provavelmente o Patriots merecia vencer – o mesmo jogo, aliás,  reservou um drop em uma interceptação quase certa de Asante Samuel, quase tão sofrível como o drop de Wes Welker quatro anos depois. E se no passe para Tyree há a inegável carga de “sorte”, a conexão de Eli Manning para Mario Manningham provavelmente foi o mais próximo que o Giants já chegou da perfeição – ou o mais próximo do azar com que New England flertara.

A história do New England, de Brady e Belichick é marcada por toda a casualidade possível a qualquer narrativa, em que de forma quase poética “sorte” e “azar” se relacionam: se o Patriots já viveu a melhor sorte com que você pode sonhar, ele também já conheceu o pior lado do infortúnio que você pode imaginar.

Filme repetido.

As pedras na estrada

Vamos falar a verdade: a NFL é uma liga paranoica e para todos os lados sempre há alguém pensando que Belichick e companhia estão fazendo algo fora das regras. E talvez para a liga o grande legado do Super Bowl LI seja a oportunidade perfeita para enterrar definitivamente o Deflategate.

O fato é que a coisa toda já soa como ridícula, uma histeria não compensada entre evidências e ingenuidade. Desde então várias teorias surgiram com a mesma velocidade em que foram descartadas. Não que seja possível desconsiderar que Brady sabia o que estava fazendo, longe disso; é ingênuo crer que, coincidentemente, Tom passou a ter contato regular com John Jastremski, responsável pelos equipamentos de jogo, logo após aquela partida em que amassou Indianapolis.

Ao mesmo tempo, talvez finalmente nada disso importe, já que no auge da discussão gente como Boomer Esiason e Rich Gannon sugeriram que em tudo isto não há nenhum impacto real sobre desempenho e que equipes manipulam bolas de football por anosAaron Rodgers, aliás, declarou diversas vezes que se sente mais confortável com bolas mais cheias e eu não passo minhas tardes imaginando que Rodgers está sentando em seu sofá criando estratégias não convencionais para inflá-las.

De qualquer forma, se você crê que Brady e Belichick fizeram e fazem algo contra as regras, talvez você consiga provar. Mas se você parte da premissa que Tom faz algo que lhe permita ter uma grande vantagem em relação as outras franquias, você estará apenas alimentando a narrativa de “todos estamos contra o Patriots”, tão entediante quanto aquela que vem do próprio New England: “todos estão contra nós”.

Enfim, nenhum problema, você só está escolhendo o caminho mais cômodo. De qualquer forma, os odeie pelo motivo que quiser, por qualquer outra razão. Os odeie até mesmo sem motivo algum – apenas deixe de lado esta muleta.

A chave do sucesso

Todo o êxito de New England, porém, não pode ser resumido a dupla construída entre seu quarterback e seu head coach; não são apelas eles que permaneceram os mesmos ao longo dos últimos 15 anos: o núcleo e a essência do sistema ofensivo do Patriots se aperfeiçoou neste período, estabilizando as transições necessárias e, sobretudo, permitindo a próxima evolução, afinal sua concepção e organização são as mais adequadas para se adaptar a uma NFL em que mudar de pessoas e tendências é a única certeza.

Tudo isto se torna mais absurdo quando consideramos que a liga é construída e planejada para ser homogênea: há o draft que prioriza o equilíbrio e cada franquia, a grosso modo, tem os mesmos recursos e as mesmas instalações. É um cenário em que a homogeneidade faz todo sentido.

Mas por algum motivo que nunca conseguiremos mensurar, no mesmo sexto round em 2000, 16 escolhas antes, o Browns selecionou Spergon Wynn. No primeiro round daquele mesmo ano, o Jets escolheu Chad Pennington. Já na terceira rodada, o 49ers, time da infância de Tom, escolheu Giovanni Carmazzi. E, claro, citamos tudo isso sabendo que o draft está longe de ser uma ciência exata; relembramos apenas para termos a real dimensão do que talvez a humanidade um dia tenha convencionado como “destino”.

Browns, Jets, 49ers e tantos outros o deixaram escapar para que Brady acabasse ao lado do treinador mais brilhante que a NFL já viu. Para que Tom, por muito tempo, estivesse ao lado de uma grande defesa e, ao menos nos primeiros de sua carreira, protegido por uma das melhores linhas ofensivas do football, que o manteve saudável em seus melhores anos enquanto, por exemplo, Andrew Luck é violentado jogo após jogo.

Bem louco.

Sorte por estar ao lado de um grande head coach? Por estar em uma franquia que soube compreender suas necessidades para potencializar suas qualidades? Reduzir a trajetória de Brady a estes elementos seria ignorar todo o caminho que ele percorreu, ignorar o que faz sua carreira cada vez mais incrível. Michael Jordan, por exemplo, teve a “sorte” de passar a maior parte de sua carreira ao lado de Scottie Pippen, alguém que o completava em todos os sentidos possíveis dentro de uma quadra de basquete. Jordan também esteve sob a tutela de Phil Jackson, um dos melhores treinadores que a NBA já viu. Tim Duncan teve a sorte de estar ao lado de Gregg Popovich ou talvez Popovich teve a sorte de estar ao lado de Duncan por duas décadas. Magic Johnson teve Kareem Abdul-Jabbar e depois teve James Worthy. Joe Montava teve Bill Walsh e Jerry Rice.

E se Bill Belichick não tivesse tropeçado com aquela escolha de sexto round há quase 20 anos, não estaria hoje comemorando seu quinto Super Bowl. É assim que a vida funciona e o esporte é o melhor reflexo dela: às vezes é sobre estar no lugar certo na hora certa e todas as peças naturalmente vão convergir, então você só precisará fazer seu trabalho. O ser humano ama a grandeza, se fascina pela glória, mas esquece quão arbitrária ela pode ser. É como nossa própria vida: pensemos o quão aleatórios são os momentos e interseções que definiram exatamente onde estamos hoje?

Nunca torci para o New England Patriots, mas sempre vou admirar a maneira como Brady e Belichick construíram a história da franquia. Sempre olharei para a carreira de Tom Brady com um misto de admiração e inveja saudável por tudo isto não ter ocorrido no meu time, mesmo que a história de cada franquia seja repleta de grandes momentos particulares, que não as fazem maiores ou menores que a história construída por New England.

Hoje, Brady tem cinco Super Bowls, foi quatro vezes MVP da decisão e duas vezes MVP da liga. Teve também uma temporada regular sem derrotas, tem mais títulos da AFC East do que cabem em meus dedos e foi responsável pelos melhores 20 minutos finais que uma partida de football já viveu. Trabalho e talentos são tão cruciais para o sucesso quanto qualidades intangíveis como paixão e a sinergia necessária para que todos estes elementos estejam em sincronia.

Ah, claro, a sorte também precisa estar ali e, com altas doses dela, você pode até chegar ao topo, mas nunca conseguirá se manter nele por tanto tempo – e ninguém que está no topo chegou lá sem alguns acidentes no meio caminho.

Na hora e lugar certos: Lady Gaga, a NFL e o Super Bowl LI

Um dos maiores desafios daqueles que se aventuram na cultura pop talvez não seja atingir o topo, mas sim se manter nele: no caso da música, em linhas gerais, uma carreira é construída ao redor de sucessos e, conforme eles param de nascer, seu público também irá parar de crescer. Já um esporte, no instante em que se torna global, precisa acompanhar a evolução social, ou rapidamente se tornará obsoleto. É neste momento que você procura alternativas ou invariavelmente acabará se restringindo a nichos cada vez mais específicos.

Primeiro falando especificamente sobre a música, Lady Gaga, que se apresenta no Halftime Show do Super Bowl LI, é um desses casos que conseguiu transcender os limites da cultura pop justamente após se tornar extremamente popular. O curioso é que ela não foi moldada para um evento das proporções do SB, longe disso: Lady Gaga estar lá era algo impensável quando “The Fame” foi lançado em agosto de 2008.

E quase que como uma resposta ao título de seu álbum de estreia, na primavera de 2009, ela já era um fenômeno cultural, falando sobre fama, fortuna e “loiras quentes em posições estranhas”: era alguém chegando com os dois pés na porta, marcando seu território. Mas também era bizarro e estranho, não era fácil compreender que, na verdade, tudo sempre se tratou dela provando que Lady Gaga é sua arte pura e não uma máscara. Que aquela Lady Gaga, ao mesmo tempo bizarra e cada vez mais popular, no fundo era a vida de Stefani Germanotta.

Se tornando Lady Gaga

Dizem que Lady Gaga surgiu quando ela e seu ex-produtor Rob Fusari inventaram o apelido inspirados pela canção “Radio Gaga”, do Queen. Mas obviamente tudo sempre tem alguma conexão com corações partidos: seja na relação conturbada com seu pai após Stefani abandonar a faculdade ou no rompimento com a gravadora Island / Def Jam logo após a assinatura de seu primeiro contrato. Ou ainda fruto de um relacionamento “complexo” pouco tempo antes de ficar famosa – o único namorado que ela afirma ter amado, para então prometer nunca mais se envolver emocionalmente com o mesmo nível de intensidade e, claro, fazer com que ele se arrependesse do dia em que duvidou dela; aqui provavelmente a data em que ela deixou de ser Stefani para se tornar Lady Gaga.

Hoje, um show de Lady Gaga, antes de um espetáculo pop, é uma performance densamente pessoal: um convite a deixar de lado pressões para se adaptar, um convite à fuga daqueles que tentam controlá-lo ou defini-lo. Ali você deve agir como ela e, ao menos durante a apresentação, o sucesso de Gaga é a melhor vingança para aqueles que um dia foram rejeitados.

Adaptação

Se a Lady Gaga de “The Fame” abalou a cultura pop, ao longo de sua carreira, ela precisou reconhecer que estava mais exposta à fama e assim encontrar novas perspectivas para seu trabalho. Um momento dessa nova Lady Gaga, já saturada pelos holofotes mesmo em com um curto período de carreira, logo provou sua capacidade de adaptação: em um versão de “Paparazzi” durante o VMA de 2009, ela entregou uma apresentação inspirada na morte da Princesa Diana e, repleta de sangue, abordou todos os aspectos negativos da fama – incluindo, talvez, o próprio medo que tinha da fama que conseguira.

Can’t read my poker face.

Evolução

Seja o Ano Novo, Ação de Graças ou mesmo o 4 de Julho, não há evento norte-americano mais midiático que o Super Bowl que, mesmo sem ser um feriado oficial, revisita tradições (bandeiras, reuniões familiares ou entre amigos e altas doses de bebidas e comidas gordurosas) e reivindica as maiores audiências televisivas.

Tornar-se um marco da cultura pop dos EUA, claro, não foi obra do acaso: aliar estratégias de marketing para ampliar o público, sobretudo o feminino, em uma relação que ainda engatinha enquanto a NFL tenta compreender a real dimensão da figura feminina para o esporte a medida em que erra diariamente na forma como gere  cada caso de violência contra a mulher que estoura na liga; são esforços genéricos e ainda pequenos quando comparados, por exemplo, ao trabalho realizado ao longo das décadas para estabelecer uma ligação direta entre football e patriotismo (em uma das nações mais patrióticas do globo). De qualquer forma, todos estes fatores ajudaram a potencializar a expansão da NFL, algo impensável para um esporte que em seus primórdios não passava de um passatempo para indivíduos que não tinham nada para fazer após a faculdade em uma situação que permaneceu até início dos anos 70.

Richard Crepeau, professor de história na Universidade de Central Flórida, aponta em seu livro “NFL Football: A History of America’s New National Pastime (Sport and Society)”, alguns momentos definitivos para a NFL se tornar pop. Um deles foi a presença do quarteback Joe Namath no New York Jets – Namath venceria o Super Bowl III e seria também o MVP da partida.

Crepeau explica que quase imediatamente as pessoas passaram a conhecê-lo como “Broadway Joe”. O motivo era claro: Namath era presença frequente na mídia e sempre esteve conectado a última moda. Ele também frequentava os mais importantes bares e casas noturnas de uma Nova York em ebulição cultural, se tornando a imagem perfeita para atrair um público jovem para a National Football League; foi Joe que disse à América que a NFL era cool.

Outro ponto desta curva crescente de popularidade foi mérito do então comissário Pete Rozelle. Em 1970 ele ofereceu o Monday Night Football à ABC e, com Howard Cosell e Don Meredith comandando as transmissões, quase que instantaneamente o MNF se consolidou como um acontecimento semanal vital para a sociedade norte-americana, se tornando maior que a própria partida em si.

Além disso, a década de 70, também remete a um dos períodos mais significativos da Guerra Fria: em sua essência, football é sobre proteger seu território do oponente, enquanto se espera a oportunidade certa para explodir uma bomba de 80 jardas em seu adversário e apreciar o dano causado. Era um exercício de “civilidade” e um espelho de um período social – e, claro, a liga aproveitou a oportunidade para vendê-lo.

Um cara massa.

Ponto de encontro

De maneira simplória, uma perspectiva sociológica de como algo se torna tão significativo para a cultura pop concebe a fama como fruto da interação entre aquilo a quem ela é atribuída e o público que participa desta atribuição; quase toda a sociedade é marcada por essa estrutura, é uma característica da modernidade essa integração.

E é aqui que as histórias da NFL e de Lady Gaga se cruzam e encontramos uma grande história por trás do próximo Halftime Show; quando notamos que para chegar ali, ela e a NFL trilharam o mesmo caminho. Guardadas as devidas proporções temporais, tanto Gaga como a NFL precisaram se adequar às constantes mudanças sociais a que estiveram expostos, para então atingir a real dimensão que cada um possui atualmente.

Durante anos a liga buscou mais fãs para participarem da contagem regressiva pelo Super Bowl. E ela encontrou isso, voluntaria ou involuntariamente, no público feminino. Agora, nos EUA, domingo não é mais o dia da mulher sair de casa enquanto uma figura masculina se senta em frente à televisão com um pack de cerveja, como mostra o crescimento de cerca de 25% na última década da audiência feminina na NFL . Mesmo no Brasil o crescente interesse do público feminino pelo esporte é notável.

Foi uma simples questão de enxergar a oportunidade e então se adaptar a um novo jogo e novas regras. O mesmo aconteceu com Gaga ao longo de sua carreira. Se no já citado “The Fame” e posteriormente em “Born This Way”, ambos extremamente populares, ainda havia resquícios de aversão ao seu trabalho por parte de alguns setores da sociedade, quando Gaga se juntou a Tony Bennett em “Cheek to Cheek”, não foi mais possível negar que nela havia muito mais do que “Poker Face” e “Bad Romance”.

Claro, foi um movimento estratégico, assim como foi a capacidade da NFL tornar o esporte mais palatável a um novo público e uma nova sociedade, seja através do Halftime Show ou das medidas para tornar o que acontece dentro de campo menos “violento”. Tudo isso considerando a real dificuldade que é fazer uma “reforma pública”, que requer um choque direto com uma base de fãs já consolidada que precisa desapegar do passado e aceitar esta nova roupagem.

Por tudo isso, estamos diante a junção ideal entre momento e personagens para o recorte de tempo e significado que ambos possuem atualmente: hoje Gaga é perfeita para o Halftime Show e o Halftime Show é perfeito para Lady Gaga, afinal, uma das histórias que a NFL oferece é o próprio EUA, repleto de nacionalismo, 22 homens em uma mesma faixa de campo, imersos em tensões étnicas, cada equipe trazendo consigo características únicas da comunidade em que está inserida que, somente se unidos, conseguirão chegar ao objetivo. Já uma das histórias que Gaga conta é que aqueles que são colocados de lado não precisam ceder às pressões e podem sim se adaptar e se reconstruir à sua maneira. Também como o próprio EUA.

Ryan Grigson estrelando “Como vencer na vida mesmo sendo um imbecil”

Que Ryan Grigson é um imbecil não é novidade alguma. A única forma de não saber que ele é um completo imbecil, é se você não o conhece – mas como estamos em um site sobre NFL, provavelmente você sabe que nos referimos ao homem responsável por comandar as operações do Indianapolis Colts entre 2012 e o início de 2017.

De qualquer forma, por algum motivo obscuro que vai além da compreensão humana, seu contrato foi renovado. Mas como já dizia o famoso ditado, “Deus marca touchdowns com passes de merda”, Ryan recentemente foi demitido, naquele que também ficou conhecido como “o primeiro dia do resto de nossas vidas”.

Você pode pensar que estamos exagerando, mas antes de afirmar que fomos tomados pelo clubismo doentio, procure a reação de atletas que trabalharam com Grigson ao logo da carreira. O punter Pat McAfee, aliás, foi um show à parte nas redes sociais.

É difícil encontrar casos tão explícitos de difamação pública de um ex-colega de equipe como os que ocorreram envolvendo Ryan. Além disso, antes mesmo de ser chutado de Indianapolis, já se questionava como diabos Grigson era um General Manager na NFL.

Então para lhe convencer que Ryan Grigson é o que é afirmamos (um completo idiota), elaboramos uma lista com seus “feitos” em Indianapolis. Cuide para não vomitar:

O Draft de 2013

Naquele já distante ano, Grigson escolheu: Bjorn Werner no primeiro round (24ª escolha); Hugh Thornton no terceiro round (86ª escolha); Khaled Holmes no quarto round (121ª escolha); Montori Hughes no quinto round (139ª escolha); John Boyett no sexto round (192ª escolha) e Kerwynn Williams (230ª escolha) e Justice Cunningham no sétimo round (254ª escolha). A escolha de segunda rodada, ele havia trocado por Vontae Davis. O engraçado, porém, é que dois anos após a absurda seleção de Khaled, Grigson deu uma explicação complexa sobre os motivos da escolha, que poderia ser resumida em “fizemos nosso dever de casa”.

Em um pequeno exercício mental, lembraremos que pouco após a seleção de Werner, o Vikings selecionou Xavier Rhodes, CB que já frequentou o Pro Bowl. E Bjorn? Não fazemos ideia de onde está, só sabemos que não é na NFL.

O mais triste é que três anos se passaram desde daquela “aula” sobre construção de elenco ministrada por Grigson e das oito escolhas daquele mesmo draft, nenhum jogador, exceto Thornton que frequentou mais o IR do que um campo de football e não deve voltar para o time em 2017, está hoje no elenco do Colts.

Construindo uma peneira defensiva

Entre 2012 e 2015, Ryan Grigson, o mago do gerenciamento, escolheu um total de 12 jogadores de defesa. Vamos listá-los:

– Josh Chapman no quinto round de 2012 (136ª escolha);

– Tim Fugger no sétimo round de 2012 (214ª escolha;

– Bjorn Werner no primeiro round de 2013 (24ª escolha);

– Montori Hughes no quinto round de 2013 (139ª escolha);

– John Boyett no sexto round de 2013 (192ª escolha);

– Jonathan Newsome no quinto round de 2014 (155ª escolha);

– Andrew Jackson no sexto round de 2014 (203ª escolha);

– D’Joun Smith no terceiro round de 2015 (65ª escolha);

– Henry Anderson no terceiro round de 2015 (93ª escolha);

– Clayton Geathers no quarto round de 2015 (109ª escolha);

– David Parry no quinto round de 2015 (151ª escolha);

– Amarlo Herrera no sexto round de 2015 (207ª escolha);

Para facilitar a visualização destacamos os jogadores que ainda continuam no roster em vermelho sangue – uma clara alusão ao nosso sofrimento diário. Enfim, Grigson conseguiu jogar no lixo todas as escolhas de draft defensivas entre 2012 e 2014 e ainda teve a pachorra de colocar a culpa do fraco desempenho do setor no contrato de Andrew Luck. “Quando você paga a Andrew Luck o que pagamos, vai levar tempo para construir algo no outro lado da bola (defesa)”, disse este jumento ao Indianapolis Star.

Se um torcedor começa a espumar de raiva quando ouve falar em Ryan Grigson, tenha certeza: ele está certo.

Ryan Grigson negociando em busca de mais um WR.

Contratando os caras “certos”

A temporada de 2014 foi um bom ano para os torcedores do Colts. Foi tão boa que provavelmente a alegria invadiu o cérebro de Grigson, afetando ainda mais sua (falta de) inteligência. Então em 2015 ele decidiu utilizar o bom espaço disponível no Salary Cap para investir em veteranos, trazendo nomes como o WR Andre Johnson (três anos / US$ 21 milhões), que passou apenas uma temporada em Indianapolis e hoje curte sua aposentadoria; o OLB Trent Cole (dois anos / US$ 14 milhões), que jogou tão mal em sua primeira temporada que logo em seguida precisou aceitar reduzir seu salário para não estar hoje na fila do INSS; além dos restos mortais do RB Frank Gore e do DE Kendall Langford que, bem, ao menos não têm nos envergonhado.

Após todos estes investimentos certeiros, o Colts terminou 8-8 e não foi aos playoffs. No mesmo ano, Andrew Luck conseguiu machucar o ombro, as costelas e dilacerar um rim. Como prêmio, Ryan Grigson teve seu contrato renovado.

Uma dupla da pesada: LaRon Landry & Greg Toler (ou Greg Toler & LaRon Landry)

Três anos de contrato e 15 milhões de dólares para Greg Toler; quatro anos de contrato e 24 milhões de dólares para LaRon Landry. Se você não sabe quem são esses caras, saiba que os Colts deram 39 milhões de dólares para eles. Se você sabe quem são esses caras, saiba que os Colts deram 39 milhões de dólares para eles.

Hoje Greg Toler é reserva nos Redskins, enquanto LaRon Landry não fazemos questão nenhuma de saber onde diabos está.

Este idiota está milionário enquanto reclamamos dele estar milionário.

Saudades, Jerrel Freeman!

O contrato do LB Jerrell Freeman terminou em 2015. A ideia do jogador era continuar em Indianapolis e, quando ele disse para a diretoria que tinha uma proposta de três anos e 12 milhões de dólares dos Bears, disseram pra ele aceitá-la. Freeman teve a melhor nota de LBs de acordo com o Pro Football Focus, enquanto os Colts tiveram cinco LBs titulares diferentes durante a última temporada.

A inexplicável escolha de Philip Dorsett

Esta talvez nem o próprio Grigson consiga explicar. No mesmo ano em que contratou o já citado ex-WR em atividade Andre Johnson por US$21 milhões, Ryan gastou sua escolha de primeira rodada com sim, isso mesmo, outro WR. Naqueles dias, Indianapolis estava desesperado por um Safety, mas por algum motivo desconhecido para qualquer pessoa que tenha no mínimo três neurônios, o Colts deixou Landon Collins para trás e selecionou Phillip Dorsett.

O fim desta história só seria possível em Indianapolis: Dorsset, uma máquina de drops, têm 51 recepções para 753 jardas e incríveis dois TDs desde aquele dia. Já Landon Collins flerta com o Defensive Player of the Year, foi para o Pro Bowl e também selecionado como 1st Team All Pro.

O curioso caso de Trent Richardson

Richardson tem uma média de 3,3 jardas por carregada. Mas isso até seria razoável, não é mesmo? Seria, se você desconsiderar o fato de que Trent não é um jogador de football, então vamos deixar as imagens falarem por si: digite “Trent Richardson Holes” no Google e se divirta com a desgraça alheia.

Sendo gentil, podemos dizer que a carreira de Trent na NFL se resume em corridas de três jardas seguidas por um tombo com a cara no chão. Além de um especialista na arte dos bloqueios, já que sendo o próprio bloqueio, ele é poupado do trabalho de bloquear.

Não bastasse tudo isso, sua primeira corrida nos playoffs foi um fumble! E pouco mais de um ano após ser contratado, Richardson nem viajou com o time para a final da AFC em 2014. Sim, Ryan Grigson deu uma escolha de primeira rodada por esta desgraça.

O futuro é logo ali

Considerando aqueles jogos sem graça, a demissão de Ryan Grigson foi o que de melhor aconteceu no fim de semana das finais de conferência. Apesar de Chuck Pagano ainda estar entre nós, o futuro para os torcedores de Indianapolis já não é tão nebuloso. Já é hora de seguirmos em frente, mas sem nunca esquecer o glorioso legado do maior imbecil que já pisou na face da terra: Ryan Grigson.

*Rafael é administrador do @ColtsNationBr e acredita que Ryan Grigson é o culpado de todos os seus problemas.

Sobre arte, Bauman, football, MMA e Meryl Streep

Enquanto recebia o Cecil B. DeMille, prêmio pelo trabalho desenvolvido ao longo de sua carreira, durante o Globo de Ouro no último domingo (8), Meryl Streep sorria. Seu discurso, logo em seguida, foi direcionado quase em sua totalidade ao presidente eleito dos EUA, Donald Trump.

Vocês e todos nós nessa sala pertencemos aos segmentos mais vilanizados na sociedade americana atual. Pensem nisso: Hollywood, estrangeiros e imprensa. Mas quem somos nós? E o que é Hollywood?”, questionou. “Só um bando de pessoas de outros lugares. Eu nasci, fui criada e educada nas escolas públicas de Nova Jersey; Viola nasceu em uma cabana em uma plantação na Carolina do Sul; Sarah Paulson nasceu na Flórida e foi criada por uma mãe solteira no Brooklyn“, lembrou ela antes de citar outros artistas que vieram de partes diferentes do mundo, como Natalie Portman, de Israel, e Ryan Gosling, do vizinho Canadá.

Hollywood está cheia de forasteiros e estrangeiros e, se expulsarmos todos eles, vocês não vão ter nada para assistir além de football e MMA, que, aliás, não são arte“, completou. Como temos aqui a premissa de não entrar em discussões políticas e pretendemos mantê-la, nossa conversa começa exatamente neste ponto.

Critico, mas faço igual.

Universalidade

O esporte, assim como o cinema, é um fenômeno social universal, capaz de superar barreiras de gêneros, crenças religiosas, linguagem e, até mesmo, etnias. É tão dinâmico que é criado, recriado, transmitido e transformado pelo homem ao longo da história; hoje é impossível compreendê-lo de maneira uniforme ou linear. Há tantas significações intrínsecas que seu caráter polissêmico é inegável.

A própria definição de “arte” traz consigo discursos distintos, que organizam campos do conhecimento também diferentes entre si. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês que faleceu no início deste ano e uma das maiores referências em estudos culturais, em “Ensaios Sobre o Conceito de Cultura”, define “Cultura” como algo ambíguo, sobretudo pela incompatibilidade entre as inúmeras linhas de pensamento que buscam compreendê-la.

Claro, Bauman não se refere à cultura como “arte”, é algo infinitamente mais complexo, mas com um pouco de esforço podemos transpor seus conceitos para ela: é impossível mensurar a evolução da humanidade, sobretudo sua evolução cultural, desde que o homem começou a produzi-la.

Por tudo isso deveria soar óbvio que o próprio conceito de “arte” já se viu esgotado em sua própria definição. E hoje tanto o cinema quanto o esporte influenciam nossa compreensão do mundo: ambos são propriedades adquiridas, que podem ser transformadas e moldadas e fazem parte de um conjunto de práticas que dão forma a padrões culturais; para qualquer sociedade, esporte não é apenas “esporte”, assim como cinema está longe de ser apenas “cinema”. Restringi-los é reduzir a discussão exatamente como Streep fez ao afirmar football e MMA não são formas de arte.

A arte está em constante evolução devido ao encontro de diversas culturas; ela é feita pelo homem ao mesmo tempo em que faz parte do processo de construção da sua identidade. Arte, ou seja, esporte e cinema e o que mais coloquemos nesta categoria, não se trata exclusivamente de elementos tangíveis; ela não pode estar restrita a elementos totalmente conscientes – sempre existirá nela mais do que temos consciência.

Arte, cinema e esporte estão ali, diretamente relacionados à capacidade humana de pensar, produzir e reproduzir símbolos. É perfeitamente possível relacioná-los a partir do momento em que os entendemos de maneira ampla e diversificada: são meios que encontramos para expressar sentimentos e emoções, meios que representam medos, angústias e anseios. Esporte e cinema são, em sua essência, cultura humana estruturada em uma forma de linguagem que permite representar o homem simbolicamente. E isso é arte: não apenas carga emocional, mas também intertextualidade, crítica social e, sobretudo, identidade.

Ignorância gera ignorância

No mesmo discurso, em determinado momento, Meryl afirmou que “desrespeito convida ao desrespeito, a violência incita a violência”. Partindo deste princípio, também parece claro que, para ela, ignorância gera ignorância. Meryl, claro, não ficou sem resposta – e não me refiro à metralhadora verborrágica de Donald Trump direcionada à atriz, o que aqui pouco ou nada nos importa, mas sim às duas comunidades indiretamente atingidas por ela.

Scott Coker, presidente do Bellator, logo escreveu uma carta a convidando para assistir uma luta. Já Kerry Howley, professora da Universidade de Iowa e autora de “Throw”, obra baseada em sua experiência de três anos convivendo com lutadores de MMA disse o óbvio em seu Twitter: o MMA é mais internacional que Hollywood. Além da internacionalidade, é também mais, digamos, ‘democrático’, quando comparado a uma indústria cinematográfica predominantemente branca.

Os lutadores que conheço se identificam como artistas. São pessoas que procuram um estilo de vida que provavelmente não irá torná-los ricos, que é muito difícil e que são estigmatizados, como acabamos de ver”, afirmou Kerry em entrevista à The Atlantic.

E eles fazem isso porque há algo belo e estranho nesta experiência de se abrir a este tipo de violência. Claro, se você não está imerso neste mundo, você só vê Ronda Rousey e pode dizer: ‘oh, ela está atrás de fama e filmes B’. Mas a maioria dos lutadores nunca será Ronda e tem consciência disso. São pessoas que amam o que estão fazendo e buscam aperfeiçoar uma série de artes distintas que foram trazidas aqui a partir de outras culturas”, completou.

Miočić: vencedor do Oscar de melhor atuação inusitada de 2016.

Reflexo social

Passados alguns dias das declarações de Meryl Streep ainda é difícil encontrar um consenso sobre como football ou MMA se misturaram às suas palavras. A aversão de uma parcela da sociedade americana a eles talvez esteja no fato de que ambos são expressões que melhor retratam o que os EUA é hoje. Sim, e aqui não há margem para discussão: atualmente, tanto o MMA como o football são um retrato mais fiel da América contemporânea do que o cinema.

Eles são um microcosmo do que o mesmo EUA que elegeram Donald Trump, a quem Meryl tanto tem aversão, é atualmente. Football é 22 pessoas na mesma faixa de espaço, se debatendo e impulsionando seus pares em frente; nesta mesma faixa há um claro abismo econômico, entre posições “desimportantes” e aquele que rege a orquestra – ou você é capaz de mensurar o tempo necessário para um punter ter o mesmo sucesso financeiro que um quarterback?

Há ainda, naquela mesma faixa de campo, tensões étnicas, cada equipe trazendo consigo características únicas de sua comunidade e, apesar das adversidades, precisando se unir para chegar ao objetivo. MMA, bem, MMA é duas pessoas confinados em uma jaula, cada um por si, a essência do egoísmo humano, lutando por aquilo que acreditam. Quer algo mais norte-americano do que egoísmo e violência?

E se como dissemos no início, a cultura muda ao longo do tempo, algo que não mudou na cultura americana é o amor pelo football – Peter Morris, certa vez, chegou a afirmar: “Se o Beisebol é o passatempo dos EUA, o football é sua paixão”.

Não é só um jogo

Agora voltando ao discurso de Streep, em determinado momento ela afirma que “esse instinto de humilhar, quando é exibido por alguém em uma plataforma pública, por alguém poderoso, é filtrado na vida de todo mundo, porque meio que dá permissão para outras pessoas fazerem o mesmo.  Quando os poderosos usam sua posição para impor, todos perdemos”. Bem, ela tem empatia o suficiente para perceber o que significa alguém ali, com sua representatividade, rebaixar as preferências daqueles que não tem o mesmo poder? Reduzir aquelas pessoas que valorizam o esporte como expressão artística? Guardadas as devidas proporções, é usar o mesmo expediente em que se baseou para criticar Trump.

Já em outra parte de sua fala, ela afirma:O único trabalho do ator é entrar na vida de pessoas diferentes de nós e fazer você sentir como é. Houve muitas, muitas, muitas  atuações poderosas este ano que fizeram exatamente isso”. Ironicamente, Aaron Rodgers havia feito algo semelhante horas antes de Meryl subir ao palco – e no instante em que a bola chegou às mãos de Randal Cobb, alguém pulava no chão da sala enquanto um amigo torcedor do New York Giants socava o sofá. É a essência da construção de uma narrativa particular, não importa a dimensão de seu alcance.

Candidato ao Globo de Ouro de Melhor Milagre de 2017.

Paradoxalmente, um dos lances mais marcantes de Pelé, um dos maiores jogadores de futebol da história, é um gol perdido. E, claro, há inúmeros outros exemplos de instantes em que o esporte flerta diretamente com a arte. Mas ninguém respondeu Streep melhor que Deshaun Watson e Clemson, na final do college football, um dia depois. Com apenas dois minutos no relógio, o peso da derrota no ano anterior em suas costas, eles venceram uma partida carregada de emoção no último segundo. O que aconteceu naquele último segundo foi arte em seu mais puro estado.

Quaisquer que sejam os méritos ou deméritos do football, MMA, basquete, beisebol ou qualquer outro esporte, críticas como a de alguém na posição de Meryl Streep fazem apenas com que determinados nichos se fechem e deixem de perceber semelhanças entre esportes e atividades como cinema, música ou teatro. Todos eles, à sua maneira, são extensões da vida cotidiana, recortes da sociedade e estão cheio de dramas particulares. Ou há algo mais dramático que aqueles segundos que separaram Deshaun Watson do maior momento de sua carreira? O mesmo jovem, que quatro anos antes, disse isto:

Football, MMA e cinema são o que são graças a seu talento para nos cativar, sua capacidade para fazer com que dediquemos tempo, dinheiro e, acima de tudo, nossas histórias para eles. É neles que montamos nossas narrativas, somos parte ou até mesmo autores de histórias. Não há nada mais humano que buscar extrair algum significado enquanto tentamos dar sentido às nossas emoções, seja na frente de uma tela enquanto comemos pipoca, observando as jardas que nos separam da endzone ou movendo aquele chute do atacante adversário em direção a trave no minuto final.

Um filme nunca foi e nunca será apenas um filme. E Meryl, goste ou não, esporte nunca foi e nunca será só um jogo.

Antonio Gates era San Diego. Mas já é tempo de Hunter Henry

Quando Philip Rivers completou um passe de 11 jardas para Antonio Gates, que acabou derrubado no meio do campo, na linha de 27 jardas, o San Diego Chargers se viu em uma dramática luta contra o tempo. O relógio rolava e só restavam 15 segundos no último quarto. Em uma quarta descida e sem tempo para pedir, o ataque tentava, desesperadamente, sair de campo para que o time de especialistas entrasse e tivesse tempo suficiente para a derradeira tentativa de Field Goal. Ao contrário do que pode parecer, a urgência do momento não era resultado da busca por uma vaga nos playoffs, uma folga na primeira rodada ou mesmo uma vitória heróica contra um rival de divisão. O San Diego Chargers lutava, apenas, para levar o jogo contra o Cleveland Browns, na melancólica semana 16, para a prorrogação. O snap até saiu um pouco antes de o cronômetro zerar, mas o chute de 45 jardas de Josh Lambo fez uma curva à direita e não chegou nem perto de alterar o placar. A comemoração eufórica dos torcedores de Cleveland decretava: San Diego entraria para a história como o único time a perder para o péssimo Cleveland Browns em 2016.

A derrota, com placar apertado, pode parecer apenas um lapso pontual, afinal temporadas sem vitórias são raras, mesmo para os piores times. Em algum momento o Cleveland Browns teria que arrumar um jeito de vencer e, consequentemente, haveria uma vítima. Essa, porém, é uma explicação rasa, quase supersticiosa. O recorde de 5-11 mostra que a derrota para o pior time da NFL desde o Detroit Lions de 2008 é apenas a cereja no bolo de uma temporada completamente frustrante, marcada por contusões, por derrotas inexplicáveis, pelo declínio de um dos melhores QBs da NFL, pela demissão do técnico Mike McCoy e pelas melancólicas notícias da provável mudança para Los Angeles.

O San Diego Chargers ensina: como entregar um jogo

O San Diego Chargers mostrou que a temporada 2016 seria um desastre completo logo na semana 1. Contra o Kansas City Chiefs, vencia por 21 pontos faltando 18 minutos para o fim do jogo. Conseguiu tomar o empate e perder na prorrogação. Além de sofrer a derrota, que se tornou a maior virada sofrida na história da franquia, o Chargers perdeu seu principal WR, Keenan Allen, com os ligamentos do joelho rompidos. Na semana quatro, tinha 13 pontos de vantagem contra o New Orleans Saints, em casa, no último quarto, mas sofreu dois fumbles que culminaram em TDs dos Saints, que acabaram virando o jogo. Philip Rivers ainda teve a chance de reverter o desastre, mas foi mais uma vez interceptado no drive que poderia ter recuperado a vitória.

O Chargers conseguia ser patético até nos momentos em que demonstrava brilho e proporcionava esperança. Na semana 5, por exemplo, em uma tentativa de virada contra o Oakland Raiders, que vencia por 10 pontos no último período, Philip Rivers liderou um drive para TD e em seguida levou o time a uma tentativa de FG de 36 jardas. Assim como nos momentos de desespero da derrota para o Browns, o kicker Josh Lambo errou, é claro. Nas semanas 6 e 7, o time viveu seu melhor momento, com vitórias expressivas contra Denver Broncos e Atlanta Falcons, o que fez com que desavisados ingênuos (nós) acreditassem mais do que deveriam e colocassem o Chargers demasiadamente alto nos Power Rankings. As quatro (quatro!) interceptações de Rivers apenas no quarto período determinaram a derrota por 31×24 para o Miami Dolphins, na semana 10, e o fim de qualquer esperança de recuperação. Mesmo em alguns momentos deixando a impressão de que era melhor do que o recorde de 5-11 mostrava, o San Diego Chargers não tinha mais nada a fazer em 2016.

Oooops.

Procura-se um culpado

Após a derrota para o Kansas City Chiefs, na última semana da temporada, os gritos revoltados do que ainda resta da torcida do Chargers tinham um alvo muito bem definido: o head coach Mike McCoy. Enquanto os atletas eram ovacionados na saída de campo, o técnico era energicamente vaiado. Não foi à toa que, momentos após o fim do jogo, McCoy foi demitido. Quando um time consegue perder pelas maneiras mais variadas e sofridas possíveis, como foi o caso do Chargers de 2016, é impossível dizer objetivamente que a culpa é apenas de um indivíduo, nesse caso McCoy, e que ele merece ser demitido. Mas, aproveitando toda a subjetividade que o esporte proporciona, é ao mesmo tempo impossível dizer que ele não merece pagar o pato. Em quatro anos como head coach do San Diego Chargers, McCoy conseguiu um aproveitamento de apenas 42% e apenas uma aparição em playoffs, em seu primeiro ano, 2013, quando conseguiu vencer o Cincinnati Bengals na semana de Wild Card (como qualquer outro time faria) e foi derrotado logo em seguida pelo Denver Broncos. Nas duas últimas temporadas, foram nove vitórias e 21 derrotas, com a impressão de que, com um comandante melhor, os resultados não teriam sido tão vexatórios.

É claro que Mike McCoy não estava em campo quando Melvin Gordon e Travis Benjamin sofreram os fumbles que permitiram a virada do Saints. McCoy também não lançou quatro interceptações em apenas um período. Muito menos chutou os FGs que poderiam mudar a história de pelo menos dois jogos. Porém, desde o início da temporada de 2015, o San Diego Chargers perdeu dezoito jogos por oito pontos ou menos. Vale lembrar que foram 32 jogos disputados nesse período, ou seja, o Chargers perdeu mais da metade dos jogos que disputou nas duas últimas temporadas pela diferença de uma posse de bola ou menos. Isso evidencia que nessas partidas existiram grandes erros estratégicos, que só podem ser colocados na conta do head coach; ou alguém acredita que times comandados por Bill Bellichik ou Pete Carroll conseguiriam tais façanhas?

Além de errar como estrategista, Mike McCoy também não soube desempenhar o papel de líder. A apatia com que reagia aos desdobramentos do jogo era contagiante, no pior sentido possível. Em jogadas decisivas das partidas, era quase necessário checar a pulsação do técnico, que não demonstrava qualquer tipo de reação. McCoy era um morto-vivo na sideline e isso pode ter sido decisivo para os momentos em que o time precisava daquele esforço extra para vencer uma partida. Talvez com um pouco mais de energia vinda do banco não teríamos ficado apenas com a impressão de que o Chargers era melhor do que o número de vitórias que conseguiu.

Mesmo com todos os defeitos, Mike McCoy não foi o único culpado pelas tragédias propiciadas em 2016. As contusões não podem ser usadas como desculpa, já que todos os times, em maior ou menor grau, sofrem com elas, porém a perda de jogadores-chave, tanto do ataque quando da defesa, foi decisiva para que o time não atingisse seu potencial: atletas como Keenan Allen, Manti Te’o, Danny Woodhead, Brandon Mebane, Jason Verrett e Brandon Flowers, que seriam titulares em quase todos os times da NFL, foram colocados na injury reserve em algum momento da temporada e não voltaram mais em 2016. Além deles, Melvin Gordon e Antonio Gates, duas peças importantes do ataque, também não estiveram 100% durante o ano todo e perderam vários jogos.

Você sabia que Gates jogou basquete na faculdade?

Outro responsável pelo ano trágico dos Bolts foi o QB Philip Rivers, mas com ele as cobranças não podem ser exageradas. Se existiram alguns poucos momentos de brilho, eles passaram pelo braço do camisa 17. Vivendo nas sombras dos quatro títulos de Super Bowls conquistados por Ben Roethlisberger e Eli Manning, seus colegas do draft de 2004, um dos mais frutíferos da história, Rivers é um dos QBs mais subestimados da liga. 2016 foi um ano de altos e baixos para ele, que teve o segundo maior número de TDs desde que entrou na liga, com 33, mas bateu seu recorde pessoal de interceptações e liderou a NFL em 2016, com 21. O rating de 87,9 foi o segundo pior de sua carreira em temporadas completas e reflete o declínio apresentado em campo. Rivers parece não ter mais a força no braço que um dia já teve e tem visível dificuldade em posicionar adequadamente os passes longos. Além disso, as decisões equivocadas tem se tornado rotina e não é exagero dizer que o Chargers perdeu mais de um jogo devido a interceptações perfeitamente evitáveis no último quarto.

A avaliação da performance de Philip Rivers é mais complexa do que apenas dizer que ele está em declínio. É louvável que um QB consiga, repetidamente, superar contusões em seu corpo de recebedores e transformar jogadores médios, como Tyrell Williams e Dontrell Inman, e um TE já na fase final de sua carreira, em quase estrelas. Portanto, não se enganem: se existe a possibilidade de sucesso em um futuro próximo, ela passa pelas mãos de Philip Rivers.

Passa, também, por um grupo de jovens jogadores que, surpreendentemente, mostrou que pode ser o responsável pela transição da geração Rivers-Gates para a geração Gordon-Henry-Bosa.

Bosa: uma lenda. Nunca duvidamos.

A mudança

Se o passado ─ tanto o recente quanto o mais distante ─ não reserva uma quantidade significativa de boas lembranças para o torcedor do San Diego Chargers, o futuro também não traz muito alento, especialmente pela incerteza que ele reserva. A cidade que hoje chora e protesta pela perda do time é a mesma que vetou, através de um plebiscito, o uso de dinheiro público para a construção de um novo estádio, que certamente manteria o time na cidade. Com escritórios já alugados em Los Angeles, a mudança para a maior cidade da Califórnia parece inevitável e coloca um ponto final em 55 anos de história. Só o tempo dirá se a decisão foi a correta, mas o estádio vazio no último jogo do Rams, último time a se mudar para Los Angeles, mostra que a lógica de mercado que guia a busca por uma nova casa pode ser um tiro pela culatra. Por maior que seja, Los Angeles não parece ser o tipo de lugar que vai acolher um time ─ dois muito menos ─ e carregá-lo para as glórias.

Philip Rivers, católico fervoroso, republicano convicto e pai de oito filhos, já demonstrou que não considera a libertária Los Angeles uma cidade adequada para viver com seus rebentos. Quando as primeiras notícias sobre LA surgiram, Rivers comemorou publicamente que não estaria com contrato vigente quando a potencial mudança aconteceria. Desde então, renovou seu contrato por quatro anos e não tocou mais no assunto. Contratos, porém, podem ser rescindidos, especialmente por um QB de idade avançada que não está mais jogando por dinheiro. Se Rivers decidir não se mudar para Los Angeles, será mais um obstáculo ao estabelecimento do Chargers na nova cidade. Em uma liga em que verdadeiros franchise QBs são escassos, poucos pagam para ver um Jared Goff – quanto mais dois.

O adeus

Esse texto começou contando a história de uma recepção de Antonio Gates, um dos melhores TEs da história da liga e futuro membro do Hall of Fame da NFL. E vai terminar da mesma forma. No provável último jogo em San Diego, Gates, talvez o maior Charger da história, empatou o recorde de Tony Gonzalez para TDs recebidos por um TE, com 111, o que se transformou em um alento aos já saudosos fãs. Gates poderia ter superado o recorde se a comissão técnica do Chargers não fosse tão burocrática e não preferisse chutar FGs que não valem nada em um jogo que também não vale nada. Mas o passado já ficou para trás. Ironicamente, Hunter Henry, o bom rookie TE, foi quem recebeu o que pode ter sido o último passe para touchdown em San Diego. O futuro da franquia se mostrava naquele TD. Pena que o futuro talvez não seja mais ali.

E assim, ao som de Stand By Me, Gates e Henry, o passado e o futuro, entraram no túnel para talvez nunca mais voltar.

Como ser um time melhor sem um dos melhores jogadores da sua história

Durante o duelo contra o Jacksonville Jaguars na semana 11, em um dos milhares de intervalos comerciais proporcionados pela NFL, Calvin Johnson apareceu no telão do Ford Field. Era na verdade uma pequena peça promocional desejando boa sorte a um dos maiores ídolos da franquia em seu novo projeto pós-aposentadoria: Dancing With Stars. Vários aplausos, mas lá no fundo, tudo soava como falso apoio de amantes recém rejeitados – semanas depois, como um bom Lions, ele terminaria a disputa na terceira colocação. Mas essa é outra história.

A dor é compreensível, afinal, a perda de um grande amor nunca é facilmente superada. E Calvin Johnson sempre esteve naquele rol de jogadores que, mesmo que você odiasse os Lions, era impossível não adorar vê-lo em campo em uma tarde de domingo. E, claro, Calvin tinha um dos apelidos mais legais de todos os esportes: Megatron. Enfim, impossível não gostar de Calvin Johnson.

De qualquer forma, Calvin já era excelente quando estava no college. Quando chegou à NFL, seu sucesso era certo. Joe Anoi, seu companheiro de equipe na faculdade, certa vez chegou a declarar. “Para ser tão talentoso como ele é, para ser tão fisicamente dominante como ele é… Calvin é uma obra-prima que só Deus pode construir. E o que ele faz em campo sequer se compara com o tipo de pessoa que ele é”. Opinião semelhante tem Chan Gailey, seu treinador na universidade de Georgia Tech. “Nunca tive outro como ele, seja na faculdade ou na NFL. Nunca tive outro WR tão grande e rápido e com esta coordenação olho-mão”.

Mas, claro, sempre há que se considerar os argumentos dos detratores: Calvin jogou no período certo para um WR. Hoje, você não pode mais parti-los ao meio, não pode exercer pressão após míseras cinco jardas, não pode marretar seus crânios, você não pode sequer trombá-los quando estão correndo. Caras como Jerry Rice ou Lance Alworth devem ver as partidas atuais e imaginar seguidas temporadas com 2000 jardas e 20 touchdowns – e eles não estariam exagerando. Mas abrir esta margem para a discussão apenas evidencia o quão efetivamente é impossível comparar atletas de eras diferentes; são novas regras, períodos opostos no tempo e situações distintas.

Ao mesmo tempo, se torna impossível desconsiderar suas sete (em nove) temporadas com mais de 1100 jardas recebidas. Ou o absurdo que foi seu ano de 2012, beirando as 2000 jardas – ao todo, foram 1964 – com, fato curioso, apenas 5 TDs. Em nove temporadas, Calvin atingiu 11619 jardas, com uma média de 15,9 jardas por recepção e 83 touchdowns. E tudo isso com um quarterback como Matthew Stafford.

Fazendo coisas impossíveis.

Presente e futuro

E aqui já podemos começar a falar sobre Stafford e o presente do Detroit Lions. Com a aposentadoria repentina de Calvin, a principal dúvida que pairava sobre os fãs do Lions residia também sobre seu QB. Stafford é realmente bom? Matthew tem potencial para ser realmente grande? Ou é apenas mais um quarterback superestimado? Talvez ele apenas tivesse ganhado na loteria ao ter Megatron ao seu lado, não? Quais seriam seus números reais se retirássemos as 20 ou 30 recepções absurdas, toda temporada, que nenhum outro mortal seria capaz de fazer?

As respostas começaram a vir em 2016, com uma versão Lions-sem-Megatron que não faz nada que seja digno de nota: até a semana 15, Detroit tinha uma média de 21.5 pontos por jogo, a 20ª da NFL; eram também 253,6 jardas aéreas (12ª), 81.7 jardas corridas (30ª) para uma média final de 335.3 jardas totais (30ª). A defesa também esteve longe de encher os olhos, sendo uma das poucas a permitirem a Case Keenum (que Deus o tenha!) um jogo de 300 jardas na carreira – algumas semanas depois, ele seria relegado ao banco em Los Angeles.

A sensação é que sem o talento de Calvin Johnson o Lions é chato, pragmático, quase tedioso e incapaz de impor seu jogo sobre qualquer adversário. E mesmo assim, eles estão 9-5. Mas por que uma equipe destinada a perder insiste em vencer?

Bem, enquanto o Lions não se destaca em nenhum aspecto do campo, ao menos eles têm sido minimamente sólidos em cada setor. “Creio que conseguimos construir uma equipe com muita profundidade”, disse o WR Golden Tate durante uma entrevista coletiva. “E quando isso ocorre, você começa a perceber que cada um fazer seu trabalho individual trará bons resultados, e pode ser o suficiente para vencer”, completou.

Senso de equipe

Mesmo que nada salte aos olhos, o Lions tem hoje safeties e cornerbacks seguros, um quarterback, sem seu principal alvo, talvez mais ciente de suas limitações e, consequentemente, mais disposto a jogar a bola para fora ou aceitar o sack, no lugar de lança-la desesperadamente para frente e rezar para que Megatron esteja lá. O Lions tem reduzido riscos inerentes a individualidade, Stafford completa mais de 66% dos passes, segunda melhor média de sua carreira, com 22 touchdowns e apenas 8 interceptações até a week #15. E, bem, ao menos até o duelo contra o Giants na semana #14, nenhum RB havia atrapalhado Detroit.

“Quando você tem 11 caras fazendo seu trabalho, você pode esperar que a outra equipe, em algum momento, force o jogo e cometa um erro. É assim que Caldwell trabalha e eles estão se certificando de que joguemos football de forma inteligente”, disse o linebacker Tahir Whitehead. “Estamos começando a confiar em nossa preparação e no que temos por aqui. Estamos nos provando o tempo todo”, explica Golden Tate.

É está abordagem de equipe, de coletividade, que tem feito Stafford ter o segundo melhor rating de sua carreira (95.8, contra 97 na temporada passada). Em meados de outubro, Jim Bob Cooter, coordenador ofensivo da equipe, já reconhecera que não ter um talento do nível de Calvin Johnson como alvo estava auxiliando Matthew a perceber melhor as nuances do campo: “Quando você tem Calvin Johnson à disposição, um dos melhores WRs de todo o tempo é óbvio que você tenderá a lançar a bola em profundidade, não faz muito sentido não priorizá-lo e, às vezes, você substitui a leitura para fazer isso”.

Em paz com o passado

Claro, tudo isso seria considerado heresia se dito há um ano: somos condicionados a crer que grandes WRs tiram a pressão de WRs secundários e running backs, permitindo que o jogo, tanto aéreo como corrido, flua com mais naturalidade. Quando isto não ocorre, tendemos a culpar os WRs de apoio e não o quarterback. Inegavelmente, esse foi o roteiro do Lions na última década, sempre retornando ao discurso de que Calvin não tinha a ajuda necessária e era sobrecarregado. O Lions até tentou auxiliá-lo e investiu pesado no draft, selecionando Titus Young na segunda rodada em 2011 e Ryan Broyles também na segunda rodada em 2012 – que teve uma carreira digna de nota: 420 jardas, 32 recepções e 2 TDs em três temporadas. Houve tempo ainda para selecionar o TE Eric Ebron na primeira rodada de 2014, mas nada mudou até a chegada de Golden Tate.

Com Tate a pressão sobre Megatron realmente pareceu diminuir – em 2014 foram 144 targets em direção ao ex-WR do Seahawks, o maior número de qualquer recebedor do Lions que não se chamasse Calvin Johnson desde 2001. Naquele ano, o Lions terminou 11-5, contando também com um ótimo e consistente sistema defensivo.

Amizade sincera e verdadeira.

Mas essa ascensão de Golden Tate escondeu outro problema, que só seria revelado na temporada seguinte, quando a defesa ruiu: quando tudo apertava ou parecia perdido, Stafford voltava a recorrer exclusivamente a Calvin.

Em linhas gerais, Golden Tate ainda teve bons números em 2015, com 90 recepções, para 813 jardas e seis TDs – Calvin, porém, foi alvo de 23% dos passes de Stafford, com 88 recepções para 1214 jardas. O problema residia, claro, em situações de two-minute warning, quando Matthew voltava a sua estratégia corriqueira: aqui Calvin foi alvo em mais de 40% das tentativas, ou seja, apesar da solidez de Golden Tate, Johnson ainda era o a fortaleza de Stafford quando realmente importava, limitando possibilidades e restringindo sua capacidade de leitura.

A aposentadoria repentina de Megatron obrigou o Lions a se transformar em momentos críticos – tanto que boa parte das vitórias nesta temporada vieram no último quarto e por uma diferença inferior a 7 pontos. Nestas situações, hoje, nenhum recebedor é alvo em mais de 25% das tentativas.

Como disse o S Glover Quinn: “quando você tem alguém tão talentoso como Calvin, às vezes você só quer forçar a bola para que ele lhe tire de determinadas situações. Isso não irá acontecer mais”. Já o próprio Calvin, quando questionado sobre o sucesso do Lions sem ele, refletiu. “Pensava que seria mais fácil, porque normalmente iriam com marcação dupla em mim, especialmente em certas situações”.

Obviamente, em vez de tornar Detroit completamente previsível, Stafford poderia ter balanceado o talento de Johnson, distribuindo melhor a bola em situações decisivas. É o que grandes quarterbacks fariam. Como Stafford iria procurá-lo em todas as oportunidades, logicamente o adversário iria sobrecarregar os setores do campo em que Calvin estivesse.

Nem tão bom quanto esperávamos, nem tão ruim quanto imaginávamos.

Mas hoje Matthew enfim assumiu uma nova identidade, que tantas equipes tem dificuldade de encontrar. A ausência de Megatron fez com que fosse possível, definitivamente, enxergar nele um bom quarterback – ainda distante dos melhores, claro, mas também bem distante da linha da mediocridade. E talvez o Lions novamente não chegue a pós-temporada em 2016, mas o legado deste ano não pode ser perdido e o futuro pode ser promissor.

“Quem quer que seja, em determinado dia, ele estará lá”, diz Quin, sobre aqueles que agora podem decidir jogos em favor do Lions. “Na semana seguinte, tudo bem, poderá ser outra pessoa: quando você pode confiar em cada atleta do grupo, todos os 53 rapazes podem contribuir e jogar bem, o football se torna mais divertido”.

Jared Goff não pode ser pior do que Case Keenum, certo?

Em meio ao crescimento de Dak Prescott, as oscilações normais para um novato que Carson Wentz vem sofrendo até aqui, ao menos um dos QBs selecionados no último draft tem tido uma temporada tranquila: Jared Goff.

E enquanto o Rams caminha para sua já tradicional campanha 8-8, Goff não cometeu os mesmos erros tão comuns a rookies que Prescott cometeu ou oscilou como Wentz oscilou após um início quase irretocável. O único “porém” para Jared é que, até a semana 10, ele não participou de um mísero snap: o Los Angeles Rams trocou duas escolhas de primeira rodada, outras duas picks de segundo round e mais duas escolhas de terceira rodada para conseguir Goff e, por longas semanas, ele se restringiu a esquentar o banco.

Após Sam Bradford não ter se tornado o messias que salvaria a franquia e Nick Foles ter se revelado um presente de grego, Jared Goff deveria ser a solução dos problemas para o Rams.

Parecia que a franquia que não vai aos playoffs desde 2004 estava pronta para um recomeço, para apostar seu futuro em um jovem talentoso, certo? Parecia, mas na verdade ele permaneceu sentado enquanto Case Keenum levava a equipe às piores médias da NFL em todos os quesitos ofensivos.

Ninguém entendeu essa merd*.

Ninguém entendeu essa merd*.

E ressalte-se que nunca louvamos Jeff Fisher como um guru ofensivo, muito pelo contrário. Mas mesmo assim os números atuais soam ofensivos até para alguém com tamanha atração pela mediocridade como Fisher.

Na contramão da liga

Hoje o Dallas Cowboys é a melhor equipe da NFL com Dak Prescott comandando as ações. Carson Wentz tem momentos de instabilidade, mas em geral tem jogado razoavelmente bem e conseguido manter o Eagles na disputa por uma vaga na pós-temporada em umas das divisões mais disputadas da liga.

Se formos além, teremos ainda outros bons exemplos: Jacoby Brissett suportou a pressão e conseguiu levar o Patriots à vitória quando exigido e, se ampliarmos o leque até o pior time da NFL, veremos que tanto Cody Kessler como Kevin Hogan tiveram a mesma eficiência que Josh McCown teve com o Cleveland Browns (infelizmente isso quer dizer nenhuma).

Considerando todo este cenário podemos afirmar, sem medo, que todos os atletas acima citados são melhores que Case Keenum – enquanto, aparentemente, ao menos para o Rams, Jared Goff não era.

As razões para a ausência de Goff soam inexplicáveis. O Los Angeles Rams conta com um bom sistema defensivo e, em uma temporada marcada pela igualdade, jogando em uma divisão com um Seattle Seahawks claramente um passo a frente, um San Francisco 49ers que sofreria no primeiro quarto contra algumas equipes do college football e um Arizona Cardinals que pouco lembra a equipe dos últimos dois anos, com um ataque minimamente decente Los Angeles poderia brigar por uma vaga nos playoffs; mas com Keenum este ataque esteve longe, muito longe, de poder ser considerado minimamente decente: foram apenas 139 pontos em 10 semanas, pior marca da liga.

#exausta

#exausta

Talvez Fisher tenha pensado que manter Goff esperando era o melhor para seu desenvolvimento a longo prazo? É uma tese até certo ponto coerente, mas podemos discordar, apesar de muitos especialistas afirmarem que expor Goff nesta situação poderia ser extremamente prejudicial porque erros poderiam abalá-lo, além de, por estar em um sistema ofensivo caótico, seria necessário adquirir hábitos que posteriormente seriam difíceis de serem corrigidos.

Tudo isso, porém, cai por terra quando assumimos que evolução só é possível através da experiência. E se o Rams viu algum talento em Jared durante a faculdade, eles desperdiçaram algumas semanas em que ele poderia estar em campo descobrindo como adequá-lo, como aperfeiçoar suas virtudes e, sobretudo, quais características precisaria deixar para trás na NFL.

Por outro lado, se a preocupação era preservá-lo psicologicamente, tentemos olhar tudo a partir da perspectiva de Jared. O Rams poderia ter selecionado Carson Wentz. O Rams poderia ter mantido suas escolhas de primeira e segunda rodadas e selecionado Dak Prescott, ao que tudo indica o quarterback mais “pronto” desta classe, no terceiro ou quarto round. O Rams poderia ainda ter decido continuar com Keenum, assumindo mais um ano medíocre e preparando o terreno para o draft de 2017. Mas o Rams trocou meia dúzia de escolhas para selecionar Goff e, semana após semana, o preteriu em favor de Keenum.

Goff pode simplesmente ter passado dez semanas entendo aquilo como um simples “Case é melhor que Jared”. É um cenário aterrorizante: o que faz um quarterback ser pior do que Case Keenum? Ele saberia segurar uma bola? Ele poderia pisar em um estádio de football? (Considerando a ficha criminal de alguns jogadores, o que faria alguém ser proibido de entrar num estádio?)

"Sério mesmo que eu sou pior que esse cara?"

“Sério mesmo que eu sou pior que esse cara?”

Olhemos então um pouco mais para o passado: os últimos seis quarterbacks selecionados na primeira rodada que chegaram a novembro sem iniciar uma partida na NFL foram Johnny Manziel, Jake Locker, Tim Tebow, Josh Freeman, JaMarcus Russell e Brady Quinn. Tudo bem, não iremos supor que nenhum deles teve sucesso na NFL por não terem iniciado uma partida como profissional em seus primeiros meses na liga, sabemos que eles provavelmente estão desempregados hoje por simplesmente serem ruins.

Mas a verdade é que first picks normalmente são diretamente colocados na linha de fogo, prova disso são os cinco últimos QBs escolhidos na primeira posição do draft antes de Goff: Jameis Winston (bônus para Marcus Mariota, segundo selecionado no mesmo ano), Andrew Luck (também com o bônus de Robert Griffin III), Cam Newton, o já citado Sam Bradford e Matthew Stafford. Todos iniciaram como titulares logo no primeiro ano.

Mas agora isso pouco importa, já que com mais da metade da temporada perdida, enfim Jeff Fisher anunciou que Jared Goff será titular na semana #11. Se Fisher precisou de dez semanas para assumir que este ano não resultará em nada além da já habitual mediocridade, ao menos restam seis partidas para observar Goff em situações reais de jogo.

(Não) há luz no fim do túnel

Durante a derrota para o Panthers, há algumas semanas, os torcedores (?) do Rams perderam a paciência e gritaram “Queremos Goff” (e, dizem, “Queremos Tebow” também ecoou no estádio). Muitos, aliás, deixaram o Memorial Coliseum antes mesmo do final da partida.

Provavelmente a grande questão para eles é a mesma que persegue aqueles que acompanham a NFL: Jared Goff não pode ser pior do que Case Keenun, certo? A realidade, porém, é que Goff não impressionou na pré-temporada. Na verdade ele foi… horrível. Foram apenas 22 passes completos em 49 tentativas, para 232 jardas, dois touchdowns e duas interceptações.

Aliás, na última partida da pré-temporada, contra o Vikings, Jared protagonizou momentos constrangedores, completando apenas seis passes em 16 tentados para 67 jardas. Neste lance, em formação shotgun, ele dropa o snap e cai com a cara no chão tentando recuperar a bola que, claro, acabou com o Vikings. Pouco tempo depois, uma obra prima difícil de descrever.

Em linhas gerais, o saldo final da participação de Jared na pré-temporada foi um quarterback que parecia distante das condições físicas ideias (e não nos referimos a preparo) para suportar um jogo tão intenso como o football profissional e completamente inseguro de suas capacidades.

O fundo do poço

Agora tudo está jogando contra Jared Goff – assim como, no Rams, jogou contra Sam Bradford. O Los Angeles Rams é um time construído para ganhar com sua defesa, enquanto o quarterback coloca a bola nas mãos de Todd Gurley.

Até aqui, não saiu como o planejado e, claro, Case Keenum não é o único culpado: a linha ofensiva é digna de risos e não há nenhum WR confiável. E enquanto o Rams insiste em dar a bola para Gurley, basta a defesa adversária congestionar a linha de scrimmage e desafiar QB e WRs a jogarem. E aqui entra a parcela de culpa de Keenum: ele não é tão inocente quanto Fisher quer que você pense.

E além deste cenário caótico, Goff encontrará ainda um técnico que historicamente não soube trabalhar com quarterbacks novatos (McNair é a famosa exceção que confirma a regra) e lutando por sua reputação após quatro temporadas colecionando derrotas.

Jared Goff, claro, pode não estar pronto, mas ainda paira sobre ele o benefício da dúvida – algo que Case Keenum já perdeu. Ele pode não melhorar o Rams imediatamente, mas é inconcebível não imaginá-lo como QB da franquia nas duas próximas temporadas pelo menos. É preciso honrar a aposta, é necessário cobrir o alto valor pago para subir no draft e selecioná-lo.

Na última offseason, o Rams se apaixonou por Goff quando foi a Berkeley vê-lo treinar em sua universidade. Choveu muito e mesmo assim Los Angeles aguardou mais um dia, já que Goff queria jogar, queria mostrar seu valor. Naquela offseason, o mau tempo não os assustou. Agora, se os Rams possui alguma real pretensão de em breve deixar a mediocridade, ele também não pode assustá-los.

A dura realidade daqueles que não são facilmente iludidos

Começo a escrever no momento do segundo TD lançado pelo rookie Carson Wentz, em um jogo horroroso dos dois ataques (ou incrível das duas defesas, como você preferir), com trezentos turnovers para cada lado. Espero que, quando estiver chegando ao fim, possa comentar sobre uma virada incrível. Enfim, parece cada vez mais difícil, então falemos um pouco mais sobre de onde esse time saiu e perceberemos que a simples existência do 5-0 atual já é algo incrível.

Lembro bem quando conheci o Minnesota Vikings: aquela derrota deprimente para o New Orleans Saints – estaria torcendo contra qualquer time que jogassem contra eles, estava cansado de todo o hype em volta do time. Mas entre Brett Favre mito (mesmo que ele tenha lançado aquela interceptação na qual DEVERIA TER CORRIDO) e um nome legal (além de eu ser um tradicionalmente trouxa em escolher times para torcer) e mesmo após ter flertado com alguns times na intertemporada de 2010 (minha campanha no Madden no PC com o Detroit Lions foi espetacular), lá no fundo foi amor a segunda ou terceira vista.

Lembro também de ter acompanhado ansioso a visita de Jared Allen, Ryan Longwell e Steve Hutchinson a Favre em alguma fazenda no Mississippi (é fácil imaginar os três chegando a cavalo em uma daquelas plantations de filme) para convencê-lo a voltar – pior, torcendo muito que ele voltasse logo. Certo mesmo estava Allen que, recentemente, junto com sua também recente aposentadoria, aproveitou para contar que, na verdade, ele foi ao Mississippi para aconselhar Brett a não voltar a jogar – o que o quarterback infelizmente não seguiu, voltando para uma última temporada fracassada, que teve como seu ponto alto uma partida de terça-feira com Joe Webb. Contra o Eagles. O mesmo Eagles que estã chegando na redzone novamente e, bem, acho que hoje não vai dar.

De qualquer forma, o período pós-Favre trouxe, como a cartilha da NFL manda, novo head coach (Leslie Frazier) e novo quarterback (Christian Ponder). Foram três anos de, como manda a cartilha dos Vikings, novas decepções. Até houve uma época que tivemos um tal running back que foi MVP da liga, antes de voltarmos a Joe Webb nos playoffs (nunca esqueçamos) e perdermos. Foi a única vez que o time chegou nas fases finais da liga entre 2010 e a chegada de Mike Zimmer.

Mestre dos magos.

Mestre dos magos.

Um pouco sobre Mike Zimmer

Zimmer é uma das grandes histórias de injustiças que a NFL produziu. Se diz que, mesmo após ter produzido grandes defesas nos Cowboys, onde se tornou discípulo de Bill Parcells, sempre pedindo conselhos ao lendário treinador, e nos Bengals (além de uma grande entrevista no seu breve tempo de Falcons, em meio a polêmicas com Michael Vick preso e Bobby Petrino, o treinador chamado de “gutless motherfucker”, abandonando o barco), ele nunca recebeu uma oportunidade como head coach porque era sincero demais nas entrevistas – sua participação no Hard Knocks é um show à parte.

Até que Rick Spielman, o GM do time, resolveu dar uma chance e tentar mudar a cultura do time, que teve uma das piores defesas do ano de 2013 e, além disso, tinha problemas disciplinares a cada semana (ou pelo menos parecia assim) – aqui incluímos todo o drama de Adrian Peterson e seu filho que atrapalhou muito o time logo no começo de 2014. E funcionou.

A defesa de Zimmer

Anthony Barr, Harrison Smith, Linval Joseph, Everson Griffen, Xavier Rhodes e muitos mais que facilmente seriam titulares em qualquer equipe da NFL. Todos são grandes nomes por si só, já mais ou menos estabelecidos, e merecem crédito por serem simplesmente craques. Mas mais do que isso, seu denominador comum é: são frutos da espetacular parceria entre Mike Zimmer e Rick Spielman na sua aquisição.

Dos hoje ‘14’ titulares (considerando nickel e rotações na linha defensiva) dessa defesa, somente Andrew Sendejo, que chegou em uma época que Spielman ainda não era o chefe-mor do time, e Chad Greenway e Brian Robinson não foram trazidos por Spielman, seja via draft (com sua tática sagrada de buscar 10 escolhas por ano), via free agency (como as aquisições de Linval Joseph, um monstro no miolo da defesa, ou Terrence Newman, que parece melhor a cada ano que passa) ou ainda via renovações duvidosas a princípio, mas que se confirmaram indiscutíveis, como Everson Griffen.

E ao que Rick Spielman traz, cabe a Mike Zimmer produzir. E o treinador, que já tinha feito isso em Cincinnati, continua tirando o máximo dos seus jogadores, como Xavier Rhodes e Trae Waynes, a quem lhes botavam dúvidas sobre serem muito dados às pass interference nos tempos de universidade e hoje têm anulado WRs como Kelvin Benjamin e Odell Beckham, ou Anthony Barr, que tinha apenas dois anos de experiência como LB, mas joga desde sua chegada como um veterano, produzindo em todas as fases do seu jogo.

Ponte para o futuro

Depois de anos difíceis com Christian Ponder, a lógica também apontava que Minnesota precisava de um franchise quarterback legítimo. Lembro bem também desse dia, já que desisti do primeiro round do draft quando Johnny Manziel foi selecionado, acreditando que os Vikings acabariam sem um QB de alto nível naquele ano. Para então, na madrugada, na última escolha, Rick Spielman fazer de suas mágicas e acabar com Teddy Bridgewater, que durante toda a temporada de 2013 era apontado como o melhor QB da classe, antes de acabar perdendo posições por não aparecer bem nos combines e afins pré-draft.

Obviamente, quando ele parecia o homem a dar o passo seguinte, superando as deficiências de rookie e se cimentando como um QB de alto nível, e assim dar uma ajudinha a essa defesa incrível montada (que apesar da derrota contra Wentz e companhia, continua se mostrando imbatível se o ataque colaborar), sofreu uma lesão bizarra, sozinho, em um lance normal de treino, para o desespero de todos.

Até que Sam Bradford entrou em seu lugar. Já falamos demais sobre Sam Bradford e, na verdade, até este domingo, ele estava indo além das melhores expectativas. Infelizmente, nenhum turnover, mesmo com a sua proteção destruída, não era algo que se manteria – e com a atuação horrível na última semana, não acho que ele esteja merecendo muitas palavras mais da minha parte. Pelo menos, considerando que os Bears ajudarão o time a voltar ao normal (curaram até Aaron Rodgers!), Bradford é a melhor opção para comandar o ataque dos Vikings e rezamos para que ele consiga seguir saudável – mesmo com essa proteção horrenda.

Lançando umas bolas enquanto aguardo um raio-x preventivo.

Lançando umas bolas enquanto aguardo um raio-x preventivo.

O que ainda podemos esperar

Já temos confirmada a primeira derrota dos Vikings. Inclusive, já temos também confirmadas as entrevistas REVOLTADAS do treinador Zimmer sobre a atuação do time – uma bosta completa, em resumo, especialmente a linha ofensiva, que ele chamou de “soft” e disse estar cansado de desculpas. Isso, lembrando, em entrevista à imprensa. Imagine que delícia deve ter sido o clima no vestiário.

Pelo menos a atitude de Zimmer dá a segurança de que o time dará a volta por cima (ano passado, depois de cada jogo complicado parecia vir um jogo de assertividade, como estava acontecendo entre o primeiro e segundo tempo esse ano). Mais do que isso, é importante atentar-se de que o grande questionamento está sobre o ataque (e algo sob os special teams, que não podem dar os vacilos que deram) – a alma do time, a defesa, continuou jogando bem contra os Eagles e cedeu somente 13 pontos (seguindo com a melhor média da NFL), mesmo estando pressionada o tempo inteiro pelos erros constantes do ataque.

O que o histórico aponta? O que podemos esperar para os próximos 10 jogos? Vamos listar, para depois sermos cobrados:

  • A defesa de Mike Zimmer seguirá dominante e ganhará pelo menos mais 6-8 jogos para Minnesota;
  • Sam Bradford ainda irá, infelizmente, se machucar (porque certamente não será Jake Long a solução para nossa odiável linha ofensiva) – nem que seja por excesso de raios-x preventivos;
  • Blair Walsh errará muito mais chutes do que deveria;

E os Vikings chegarão, apesar de todos os pesares, com moral aos playoffs, apenas para acontecer algo bizarro e, novamente, morrer na praia. Ou pior, ao Super Bowl, para que a dor e sofrimento sejam maiores ainda. Porque é isso que acontece quando se tem esperança com esse time: algo sempre dá muito errado.

Por que não aguentamos mais o New England Patriots?

Confesso que não me sinto tão hater do New England, mesmo que, provavelmente, tenhamos que assumir que eles são a maior franquia do século XXI. De qualquer forma, meu time não é sequer da AFC para tomar pau deles com frequência. Mesmo assim estamos aqui para tentar entender por que diabos o massacre do Texans ocorreu e os motivos que fazem esse time parecer, cada vez mais, imparável.

Obviamente esperávamos algo parecido com isso quando Brady foi suspenso (vide o preview que escrevemos, onde falávamos sobre um 2-2 no início da temporada, com Tom Brady voltando para destruir). Esperávamos, enfim, porque Belichik é foda e já tinha feito essa graça uma vez, não é?

Essa doeu.

Essa doeu.

Relembrando Matt Cassel

As chances são altas de que você conheça Matt Cassel. Provavelmente o odeie porque ele jogou no seu time, ou talvez lhe ache um palhaço porque jogou contra – de uma maneira ou de outra, você não o admira nem contaria com ele para ganhar jogos pela sua equipe do coração se ele iniciasse um jogo por ela.

OBS I: não é mesmo, Jerry Jones?

OBS II: ATENÇÃO TITANS CUIDEM DE MARIOTA!

Inclusive, a falta de crédito a Cassel é bem mais antiga que isso. Ele esteve na Universidade do Sul da Califórnia (a sempre potente USC) entre 2001-2004 e nunca iniciou uma partida como quarterback (33 passes e 11 corridas em quatro anos para um total de 224 jardas), estando na famosa melhor posição do mundo: esquentando o banco para Carson Palmer e Matt Leinart (inclusive, ambos ganharam o Heisman) tomarem porrada em campo, enquanto aproveitava a fama de ser QB do time da universidade. Bom, ao menos gostamos de imaginar que ele tenha aproveitado, mesmo que não mereça.

De qualquer forma, veio o draft e na sétima rodada ele acabou sendo escolhido pelo Dark Lord Belichik, em uma de suas tradicionais escolhas (no momento) incompreensíveis: já que ele queria um QB reserva para o estabelecido tricampeão Tom Brady, que escolhesse algum jogador que havia mostrado potencial no college (como o vencedor do Heisman, Jason White). De qualquer forma, mais três anos tranquilo se somaram à vida de Cassel.

Até que, na primeira rodada da temporada de 2008, em um lance complicado de definir, para não ser injusto com o safety (não sabemos se Pollard realmente foi maldoso, ou se apenas Brady teve azar de estar com a perna no lugar errado na hora errada), o então MVP da liga explodiu o joelho e foi decretado fora da temporada, dando passagem ao até então pouco testado e quase desconhecido Matt Cassel (alguns repórteres previam que ele sequer seria o reserva de Tom no ano); era a fórmula ideal para o fracasso, perfeitamente aceitável nessas circunstâncias.

E essa íngua (se hoje ele já é ruim, imagina quando ele não tinha começado um jogo sequer por oito anos) produziu 3693 jardas (oitavo na liga), 21-11 em TD-INT, 410 pontos totais (sétimo na liga, segundo na AFC) e 11 vitórias, que só não levaram o time aos playoffs (e sério, essa porra ia acabar ganhando o Super Bowl) por uma combinação bizarra de resultados. E foi a segunda e última vez que os Patriots não ganharam a AFC East desde o início da era Brady-Belichik (a primeira foi em 2002, entre os três Super Bowls).

Obviamente, é válido lembrar que o time veio de uma campanha invicta em 2007, o que mostra que a decadência sem Brady realmente aconteceu (ou seja, não, Brady não é só um QB simplesmente produzido pelo sistema em que está) – mas decair para 11 vitórias talvez seja a decadência ideal. E se Cassel talvez não merece tantos méritos, com certeza o New England Patriots (liderados por Belichik e seus moletons) merece: construir uma defesa, jogo corrido e alvos tão eficientes a ponto de funcionarem com qualquer QB é uma tarefa difícil.

Brady jogará até os 45 anos

Quando esperamos ansiosamente que Brady anuncie que irá se aposentar logo e aproveitar a vida com Gisele (essa, sim, já aposentada), esquecemos que ele talvez só não ganhou mais prêmios de “jogador mais valioso” por causa de Belichik, que insiste em montar uma defesa para apoiá-lo e ajudá-lo a ganhar jogos (inclusive ressuscitando jogadores que não conseguem jogar bem em nenhum outro time, como Patrick Chung ou Jabaal Sheard, que produziu oito sacks sendo titular em apenas um jogo em 2015 e já tem dois esse ano).

Além disso, é fácil ignorar que, ao contrário de Peyton Manning, ele é apenas um jogador de sexta rodada que não tinha grandes atributos físicos quando chegou à liga – e obviamente não evoluirá eles com a idade. O segredo está todo em sua capacidade mental de trabalhar defesas e em como o ataque dos Patriots foi evoluindo (os seus passes longos mágicos são muito mais técnica do que um braço parecido com Joe Flacco ou Matt Stafford) – desde os tempos em que só se corria e evitava vacilos, passando por Randy Moss e Aaron Hernandez, até chegar no que é hoje.

Originalmente, o sistema Erhardt-Perkins tem como lema “passes para marcar pontos, corrida para vencer jogos”, ou seja, precisa que seu quarterback realize grandes lançamentos para vencer partidas (coisa que Brady sempre se mostrou capaz de fazer), mas lhe retira muita pressão com um jogo corrido insuportável, trabalhando o famoso ground and pound para cansar a defesa e manter o ataque adversário fora de campo o maior tempo possível.

Obviamente, a partir disso se foi evoluindo, junto com Brady, já tricampeão do Super Bowl, enquanto chegavam melhores armas para o jogo aéreo e as mudanças de regras da liga o beneficiavam – que aumentou bastante a proporção de passes nesse ataque, como lembramos do ano mágico de 2007 (sabotado pelos Giants). Além disso, Brady também é muito bom em “vender” o play-action, mantendo sempre a defesa em dúvida e atacando-a nas suas costas.

Entretanto, não por isso o espírito do ataque mudou. Com a formação da dupla Gronkowski-Hernandez (agora tentando reeditar-se com Martellus Bennett ao invés de Hernandez, preso por assassinato – desde que Gronkowski consiga manter-se saudável) e Wes Welker (depois substituído por Julian Edelman), o sistema de passes curtos e rápidos, que diminuem as pancadas sofridas por Brady e se aproveitam de sua capacidade única de enxergar o recebedor certo na hora certa, junto com o no-huddle (em que o ataque não forma aquela rodinha no campo para repassar a jogada seguinte, mas vai diretamente para a linha de scrimmage) inferniza a defesa e a esgota, especialmente para os finais da partida.

Muso.

Muso.

Construindo Jimmy Garoppolo (ou Matt Cassel versão atualizada)

Quem viu a decadência súbita de Peyton Manning, de gênio MVP para meramente eficiente (por ser um gênio) e posteriormente para “é melhor que Brock Osweiler seja titular”, em duas temporadas sabe: todos estão sujeitos à idade. Pensando nisso, mesmo sendo uma equipe que está sempre em busca do Super Bowl – e, portanto, toda escolha, especialmente as iniciais, deve ter seu valor maximizado – quando teve a oportunidade de draftar Jimmy Garoppolo, de Eastern Illinois (mais conhecida como “universidade do Tony Romo”), no final da segunda rodada, Belichik puxou o gatilho.

O quarterback teve um período pre-draft incrível, sendo inclusive apontado como possibilidade para a primeira rodada, além de ser descrito como ideal para esse ataque: tomava boas decisões, de maneira rápida e com passes certeiros.

Dessa forma, Bill sabia que estaria protegido para o inevitável declínio de Tom Brady, caso ele acontecesse. Se não, ele esperava conseguir trocá-lo por uma escolha mais alta quando seu contrato de rookie chegasse próximo do fim. No final das contas, Garoppolo aproveitou, como Cassel, dois aninhos tranquilos segurando a prancheta e aprendendo cada elemento desse ataque.

Ao contrário de Cassel, para sua sorte, Jimmy descobriu que teria a oportunidade de ser titular bem mais cedo, com toda uma pré-temporada para preparar-se, já que sua oportunidade veio não por decadência ou acidente de Brady, mas sim por suas já conhecidas “maracutaias” – ou o que quer que queiram chamar o Deflategate.

Muito também foi feito para facilitar as coisas para o basicamente rookie (pelo menos no que consta em seus 31 passes lançados antes de 2016), o time voltou às origens de Erhardt-Perkins: basta olhar para LeGarrette Blount, líder em jardas corridas na NFL até o momento, em grande parte por suas absurdas 75 carries em 3 partidas (que seriam 400 em 16 jogos) para um corredor sem grande potencial para grandes jogadas.

Assim, obviamente, ele correspondeu às expectativas e acertou 70% dos seus passes para quase 500 jardas e 4 TDs em um jogo e meio mesmo sem poder contar com o seu suposto principal alvo, antes de também se machucar.

Making a Jacoby Brissett

Vá a qualquer empresa dos Estados Unidos e eles devem ter pelo menos um funcionário de capacidade parecida. Até agora não sabemos exatamente de onde surgiu Brissett (draftado antes de jogadores muito mais conhecidos e teoricamente mais capazes, como Connor Cook, Dak Prescott e Cardale Jones) – mas é assim que o homem trabalha; a big board do draft de Bill Belichik é dita ser seguida à risca, além de conter pouquíssimos jogadores (100-150), o que às vezes leva a escolhas “diferentes”, sobre as quais todos já aprendemos a calar a boca e não duvidar que funcionarão.

Tudo dá errado; começamos com três vitórias

É possível viver sem Brady. Isso todos imaginávamos, porque esse ataque está bem montado. Obviamente se produziria menos e não se pode esperar milagres típicos de quarterbacks de elite, mas com bons alvos como Dion Lewis e Rob Gronkowski, além de uma proteção sólida começando por um grande LT Nate Solder, não era difícil imaginar um início de temporada consistente.

Exceto que todos eles se machucaram. Gronk está voltando lentamente, mas obviamente não é aquele, MELHOR TE DA LIGA, que estamos acostumados a ver. Até o próprio Garoppolo se machucou (depois de 4 TDs e duas vitórias) e Jacoby Brissett, apenas um rookie de qualidade duvidosa, teve a chance de ser titular. E jogou (razoavelmente) bem! Ou pelo menos não acabou com o time.

E agora Brissett também sofreu uma lesão e é dúvida junto com Garoppolo para o jogo contra o Bills. A melhor opção seria fazer que Tebow deixasse de brincar de beisebol e voltasse por pelo menos um jogo SÓ PELA ZOEIRA (e para dar alguma emoção). Mas Belichik vai acabar escalando Julian Edelman – e quando lembramos do seu passe para Amendola nos playoffs de 2014, alguém apostará em Rex Ryan nesse matchup?

Se Brady jogará mais uns 10 anos, Bill treinará eternamente

Válido lembrar que para a rodada 5, Brady volta, lindo e 100% saudável, como se estivesse começando a temporada (porque, atenção, ele está), o que pode acabar fazendo com que a suspensão acabe até sendo benéfica para ele (!) – afinal, do alto dos seus 39 anos, mesmo que sua intenção seja jogar até os 45 anos (e nesse estilo de jogo, não duvidamos), melhor fazer cada snap valer o máximo.

Junto com ele, Rob Gronkowski deverá estar saudável. E mesmo que não esteja 100%, não é como se isso lhe fizesse falta para ser o melhor TE da liga e ainda acabar sendo o que recebe mais TDs no final da temporada. Além disso, esperamos ansiosamente que Dion Lewis (outro que nunca havia conseguido produzir antes de Bill Belichik) possa voltar saudável e jogar o final da temporada em um nível próximo ao eletrizante início que teve em 2015 (622 jardas e 4 TDs em 85 toques e 6 jogos como titular), sendo mais uma arma para esse jogo de passes curtos [chato] dos Patriots.

Por último, também não podemos esquecer da importância dessa defesa, que é quinta em pontos sofridos e a sétima que menos fica em campo, que simplesmente acabou com Houston na última rodada e parece melhor mesmo após “perder” Chandler Jones (trocado para os Cardinals). Lembrando que, apesar de todo o brilhantismo do ataque, a grande especialidade de Belichik é a defesa – e onde ele parece sempre capaz de tirar o máximo de todo jogador medíocre.

A última esperança.

A última esperança.

E se Dick LeBeau, coordenador defensivo, ainda tem seu cargo do alto de seus 79 anos, Bill, com 64, deve ter pelo menos mais 15 para aterrorizar a liga. De qualquer forma, é melhor que os Bills apareçam bem esse domingo e mostrem que Belichik é humano. Do contrário nos restará rezar para que Eli Manning, Jason Pierre-Paul e cia ajeitem suas vidinhas na NFC e reapareçam para salvar o dia e evitar o pentacampeonato desses malditos gênios.

Sobre estar de joelhos, Ruby Bridges, Beyoncé e racismo

Há mais de cinco décadas, uma criança de seis anos de idade chamada Ruby Bridges desfilou em meio a uma multidão enfurecida, composta por segregacionistas, para se tornar a primeira criança negra na William Frantz Elementary School, em New Orleans. E o que deveria ser apenas uma cena rotineira, extrapola toda e qualquer noção de poder imagético: Ruby, com toda sua imponência física, é escoltada por policiais no caminho até a sala de aula.

Para além da história, mais de cinquenta anos depois, permanece uma das pinturas mais significativas na luta contra o racismo, que hoje está no lado externo do escritório do presidente Barack Obama, além de diversos estudos sobre moralidade, liderados pelo psiquiatra Robert Coles.

The Problem We All Live With, pintura de Norman Rockwell, hoje na parte externa do escritório do presidente Barack Obama.

The Problem We All Live With, pintura de Norman Rockwell, hoje na parte externa do escritório do presidente Barack Obama.

O contexto histórico, porém, nos ajuda a compreender um pouco o absurdo: em 1954, ano em que Ruby nasceu, a Suprema Corte dos EUA ordenou o fim da separação racial nas escolas – instituições do sul do país, no entanto, ignoraram a decisão. O estado da Lousiana, por exemplo, teve até o final de setembro de 1960 para colocar em prática a nova política educacional e o objetivo era integrar gradativamente: ano a ano, o processo começaria pelo que aqui conhecemos como jardim de infância e seguiria pelas séries seguintes.

Ruby foi uma das cinco crianças afrodescendentes que passaram no teste que determinava quais crianças seriam enviadas às escolas “brancas”. O teste, claro, já havia sido concebido de uma maneira que, digamos, tornasse mais difícil o ingresso de afro-americanos. Mesmo assim, os pais de Ruby decidiram lutar pela inclusão e, em seu primeiro dia de aula, a garota chegou à escola escoltada pelos já citados quatro agentes federais.

Durante todo o período letivo, a turma de Ruby teve apenas cinco alunos: ela e quatro colegas brancos. Pais optaram por manter filhos em casa, afinal, para eles era algo melhor do que partilhar a escola com uma criança negra.  Dessa forma, ela passou boa parte do ano ali, sentada, sozinha, aprendendo matemática com um professor que visualizava como seu melhor amigo.

Moralidade e o ser humano

Robert Coles, um dos psiquiatras infantis mais renomados da atualidade, queria compreender o que aquela menina, imersa em fúria e intolerância, pensava e sentia. Por vários meses, ele e a pequena Ruby conversaram, até o dia em que Coles foi surpreendido: Ruby disse a ele que sentia pena daquelas pessoas. E o rebateu, questionando-o se não achava que aquelas pessoas eram passíveis do mesmo sentimento.

Coles então foi desarmado por uma menina de apenas seis anos enquanto tentava aplicar psicologia padrão, tentava ajudá-la a perceber que, por algum motivo obscuro, ela havia irritado a ordem social vigente e que seria completamente normal ela estar amargurada ou ansiosa. Mas Ruby, ao seis anos de idade, respondeu que orava por eles; no fundo ela era inteligente o suficiente para compreender o que ocorre com o ser humano.

Mas quando Coles fala sobre aquilo que ocorre com o ser humano, ele se refere ao que ocorre com seu senso de moralidade. Para ele a moralidade não está apenas nas sutilezas, não é algo teórico: é, sim, uma questão de lado e também o ponto central da existência humana, o fator que norteia nossas vidas.

“A moral caracteriza nossa própria natureza. Ela tem a ver com conexão humana, com o tipo de conexão que responde a terceiros. Se somos privados de nossa moralidade, estamos privados de uma parte essencial de nós mesmos”, afirma.

É fato que o racismo é um problema histórico e enraizado na cultura norte-americana. Você pode argumentar que cinco décadas se passaram desde o caso de Ruby, mas a verdade é que, mesmo assim, ele ainda está ali, latente, em uma sociedade que não soube exorcizar seus fantasmas.

E aqui não cabe a nós criticar como lidamos com um passado que insistimos em negar, afinal qual sociedade está em paz com os períodos mais sombrios de sua história? Difícil encontrar aquelas que superaram seus erros sem cicatrizes. E, enfim, por que esta história está em um site sobre NFL? Chegaremos lá, mas para isso voltemos ao último Super Bowl.

Racismo enraizado

Um dia antes de se apresentar no Halftime Show, ao lado de Coldplay e Bruno Mars, Beyoncé lançou o clipe de “Formation”. Potencializado pela genialidade da sacada de marketing (timing é tudo, amigos), o vídeo revoltou diversos setores sociais dos EUA. Já na apresentação, Beyoncé trouxe ainda um figurino que homenageava os Panteras Negras: era um mix iconográfico de referências à cultura afro-americana que, claro, mobilizou tanto simpatizantes quanto detratores.

“Formation”, aliás, é gravado na mesma New Orleans que há 60 anos proibiu Ruby Bridges de frequentar a mesma escola que colegas brancos. A mesma cidade, símbolo da força criativa afro-americana e, na mesma medida, palco de históricas repressões policiais. A mesma cidade, berço da Ku Klux Klan. E ali Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina, como milhares de negros submergiram após a tragédia em 2005 – e provavelmente por isso policiais foram orientados a desligar seus televisores no intervalo do SB.

Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina.

Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina.

A primeira frase dita no videoclipe é “What happened after New Orleans?” (“O que houve com New Orleans”, em tradução livre). A voz é de Messya Maye, famoso vlogger da mesma cidade, morto em 2010 quando saía de um evento com sua namorada. Já em outra parte do vídeo vemos um cordão de policiais com as mãos para o alto, seguido por um muro em que está pichada a frase “parem de atirar em nós”, semelhante aos gritos ecoados pela população negra durante as manifestações de 2014.

Beyoncé, porém, não está atacando apenas a polícia norte-americana, como sugeririam conservadores na época. Não foi ela quem recolocou a questão racial no centro do debate alguns meses atrás, assim como não foi Colin Kaepernick quem a recolocou na pauta atual. Quem trouxe novamente a questão à tona foi, na verdade, Maryland e Ferguson. Foram Alton Sterling em Baton Rouge e Philando Castile nas ruas de Falcon Heights. Foi Messya Maye, em 2010. Foram tantos outros que não sabemos o nome.

Sentindo na (cor da) pele

Não tenho propriedade alguma para falar sobre o racismo cotidiano nos EUA (na verdade, tampouco sobre racismo no Brasil; sou daqueles que acredita que só quem já sentiu na pele estas situações pode dar a real dimensão do problema), mas é sabido que até hoje uma das estrofes não cantadas no hino norte-americano “supostamente” enaltece a caçada de escravos.

Por outro lado, dados tornam impossível negar a realidade: de acordo levantamento do Mapping Police Violence, em 2015 um negro tinha três vezes mais chances de ser morto por um policial que um branco. Segundo o mesmo mapa, apenas 30% dos 346 negros mortos por policiais estavam armados (contra 19% de vítimas brancas). Já pesquisas recentes conduzidas pelo Black Youth Project da Universidade de Chicago e pelo Centro Associated Press-NORC de Pesquisa de Questões Públicas, indicam que mais de 60% dos jovens negros (e 40% dos jovens hispânicos) dos Estados Unidos afirmam que eles ou alguém que conhecem já sofreram alguma forma de violência policial. Paradoxalmente, eles também pedem uma presença maior da polícia em suas comunidades.

De joelhos

Era 26 de agosto quando Colin Kaepernick se ajoelhou pela primeira vez durante a execução do hino norte-americano. Um ato que por si só pode não significar tanto para nós, brasileiros – estamos longe de ser um país patriota, mal sabemos cantar o hino – quanto para norte-americanos, mas de qualquer forma, o cerne aqui é a motivação de Colin.

"“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor", declarou Kaepernick.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor”, declarou Kaepernick.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que football e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos”, disse o quarterback em entrevista à NFL após o primeiro ato.

É inegável que há uma falsa impressão de que o esporte é capaz de superar preconceitos, que é um elemento capaz de quebrar barreiras e promover o encontro entre o diferente. Bem, no fundo, é apenas mais uma balela que, após repetida a exaustão, sobretudo sob a chancela do famoso “espírito olímpico”, se tornou uma falsa verdade.

A prova disso é que atletas, brancos e negros, se dividiram após a o gesto de Colin – isto em um ambiente 67% negro, segundo levantamento do Instituto pela Diversidade e Ética no Esporte, o que só nos mostra que, mesmo em um cenário composto em sua maioria por afrodescendentes, a aceitação está longe de ser garantida.

E se uma semana depois do gesto de Colin, Marcus Peters, cornerback do Chiefs, foi além e cerrou o punho, Justin Pugh, branco e tackle do New York Giants, postou em seu Twitter: “Ficarei de pé durante a execução do hino nacional nesta noite. Obrigado a todos (gênero, raça, religião) por colocarem suas vidas em risco pela bandeira.

Já Jim Harbaugh (branco), um dos grandes treinadores do esporte e que comandou o mesmo Colin Kaepernick em sua melhor fase afirmou não “respeitar a motivação, tampouco o ato” – para em seguida se desculpar, dizendo que apenas o ato o incomodava.

Tudo bem, aceitamos o fato de que é algo a se pensar quando atletas negros se opõem ao gesto. Jerry Rice, por exemplo, criticou Kaep. E depois mudou de ideia. Victor Cruz, wide receiver do Giants, também se opôs: “Você precisa respeitar a bandeira. Você precisa se levantar com seu time”, declarou. 

Já na NBA, Russel Westbrook, armador do Oklahoma City Thunder, postou em seu Instagram um desabafo na última terça-feira (20) contra a violênciaMas tudo isto ganha outro significado quando diferentes atletas e técnicos brancos se posicionam como árbitros para a injustiça racial. É o momento em que temos situações absurdas, como a de Alex Boone, branco, 29 anos, e guard do Minnesota Vikings, mesmo estado em que o já citado Philando Castile perdeu a vida; Alex classifica o ato como “vergonhoso” e exige que Colin mostre “algum respeito”.

Você ainda tem Sean Payton, branco e treinador do New Orleans Saints, que fica na mesma New Orleans de Ruby Bridges, na mesma New Orleans onde Beyoncé deu vida a “Formation”, declarando que “há coisas mais importantes para serem trabalhadas”.

Não importa se não há consenso de que sentar durante o hino é um ato extremamente desrespeitoso. Pouco importa se não sabemos ao certo o quanto cerrar os punhos é ofensivo à bandeira. Tampouco importa se na pior das hipóteses Colin Kaepernick esteja ao menos trazendo novamente à tona uma importante discussão.

Payton, Pugh, Harbaugh, Boone e tantos outros apenas escancaram aquilo que possivelmente foi a maior motivação de Kaepernick ao se ajoelhar pela primeira vez: lembrar toda a sociedade americana que o racismo ainda está ali, embora uma parcela dela insista em negá-lo e insista, sobretudo, em negar seu passado.

Ao se ajoelhar, Colin expôs a dificuldade que esta parte da sociedade tem em enxergar questões que estão a um palmo de distância, questões estão sob seus olhos. Tudo isto lançando mão de argumentos esdrúxulos como seu alto salário ou o fato de o presidente ser negro. Ou ainda questionar que ele está fazendo isso no momento mais conturbado de sua carreira.

O próprio Colin, aliás, revelou em entrevista coletiva que recebeu diversas ameaças após sua atitude. “Recebi algumas ameaças, mas não estou preocupado com isso. Para mim, se algo assim acontecer, você provou meu ponto e vai ser alto e claro para todos por que isso acontece”, disse.

“Há muito racismo disfarçado de patriotismo neste país e as pessoas não gostam de lidar com isso, eles não gostam de abordar qual é a origem deste protesto. Você tem jogadores em todo o país, não só na NFL, mas jogadores de futebol, da NBA e da universidade: eles não gostam de abordar esta questão de que as pessoas de cor são oprimidas e tratadas injustamente. Não sei por que é assim ou o que eles temer, mas isso precisa ser falado”, completou.

De joelhos perante um símbolo nacional, Colin Kaepernick mostrou que na verdade a sociedade norte-americana ainda é incapaz de ouvir. Mostrou que, infelizmente, quando se trata da existência do racismo, ela prefere se agarrar em seus próprios privilégios a lidar com o problema.