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New England Patriots e um passado sempre presente

Confesse: quando o New England Patriots venceu o coin toss na final da AFC contra o Chiefs, você sabia o que iria acontecer. Era tudo familiar demais para negarmos: mais um grande duelo, e ali estava Tom Brady, pronto para encerrar uma nova grande história em um dos jogos mais empolgantes da temporada – praticamente um novo clássico instantâneo na história de New England.

Novamente estávamos vivendo o final do Super Bowl LI; era, afinal, o mesmo roteiro. Tom e seus companheiros caminharam tranquilamente pelo campo (confesse: você sabia que qualquer 3&10 seria convertida com requintes de crueldade) e que tudo seria encerrado com um running back qualquer, falso-herói improvável, entrando na endzone. Com o New England Patriots o passado é sempre presente.

Eterno retorno

20 anos após início da era Brady-Bellichick, o Patriots segue destruindo sonhos. Mas claro, seria divertido ver Patrick Mahomes, inegável MVP desta temporada e provavelmente o jovem mais empolgante da última década a pisar em um gramado da NFL, enfrentar o Rams em busca de vingança após a derrota por 55 a 51 na semana 11.

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Mas para quem gosta de football, é preciso confessar: New England está longe de ser chato. Nós já o conhecemos – como citamos no início deste mesmo texto, eles insistem em repetir o mesmo roteiro – e, bem, odiá-los é, no fundo, um pouco divertido.

Veja: após vencer Kansas, Brady e Gronk atravessam os túneis do Arrowhead Stadium ao som de “Bad Boy For Life” enquanto avisam: “ainda aqui”. Odeio-os, mas mesmo que saibamos que o dia de Mahomes está próximo, são eles quem irão ao Super Bowl novamente.

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Inevitabilidade

Não era como se, de fato, acreditássemos que isso não aconteceria novamente – mas tantas vezes nesta temporada o Patriots parecia estar em dúvida, o que agora, como sabemos, não passou de mera estratégia para iludir os incautos: New England foi enxotado por Lions e Titans, marcou apenas 10 pontos em um Steelers em colapso, foi derrotado pelos restos mortais do Jacksonville Jaguars e, bem, você ainda não esqueceu o que houve em Miami.

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Foram cinco derrotas para times que não foram aos playoffs – e alguns deles passaram longe de sequer terem alguma chance de se aventurar em janeiro. Vez ou outra, Brady e Gronk pareciam zumbis – Gronk, aliás, teve sua pior temporada na carreira; foram apenas 682 jardas e 3 TDs em 13 partidas.

No mesmo lado da moeda, Brady também teve suas piores médias em jardas por jogo e rating desde 2014. Foi também seu menor número de TDs desde 2013 e o maior número de INTs desde o já distante 2011.

Mas por mais que você confie no “tempo” ele insiste em ser relativo. Tanto Brady quanto Gronk não precisaram ser “úteis” contra o Chargers (tem que acabar o Chargers!). Porém, quando o relógio parecia encerrar o ciclo diante do Chiefs, mais uma vez eles o controlaram: com menos de um minuto para o final do tempo normal, Brady lançou mais uma bomba de 25 jardas para colocar New England a poucos metros da endzone.

Já na prorrogação, uma nova conexão em uma 3&10 que colocou o Patriots à beira do paraíso. Três jogadas depois, eles carimbavam sua passagem para Atlanta. Aos 41 anos de Tom Brady, você achou que o tempo poderia nos salvar. Mas mais uma vez o tempo insistiu em não passar.

Quanto antes você aceitar, menor será a dor

Observar o Patriots na pós-temporada, ano após ano, é divertido porque nos ensina sobre o estado atual da própria NFL: dos quatro times que chegaram às finais de conferência, eles têm a pior defesa – em uma era em que se insiste  afirmar que sistemas defensivos vencem campeonatos. Pode significar tudo, mas normalmente, com New England, eles vão nos mostrar que isso não significa nada.

New England insiste em nos amedrontar em janeiro porque, diferente da maioria das equipes da NFL, eles não vivem o momento: enquanto todos tentam maximizar suas janelas, seja quando seu QB ainda está no contrato de rookie, ou mesmo construir algo ao redor de um astro defensivo, como o Bears pode se propor a fazer com Khalil Mack, ou ainda atirando para todos os lados em um claro “all-in”, como Saints e o próprio Rams fazem, o Patriots é a prova de qualquer janela de tempo.

De novo, e mais uma vez, eles derrotam o tempo: eles abrem mão de peças talentosas para não se comprometerem no longo prazo, trocam escolhas para acumular ainda mais escolhas quando sabem que, talvez, um atalho para o sucesso esteja no draft do ano seguinte – e não no “agora”.

E é assim que tudo funciona há 20 anos, desde que New England derrotou o finado St. Louis Rams no Super Bowl XXXVI, e é por isso que o Patriots vencerá o Rams: se há duas décadas Bill Belichick se aproveitou da inflexibilidade de um treinador menos experiente e parou Marshall Faulk, nada nos mostra que ele não fará o mesmo com Todd Gurley e companhia.

São anos repetindo a mesma versão de um mesmo jogo enquanto mudam apenas treinadores e jogadores adversários. E enquanto isso, no fundo todos achamos que podemos derrotar o tempo – mas a verdade é que só o Patriots pode.

Los Angeles Rams: ao infinito e além

É um roteiro batido. Você já está cansado de ver em filmes, livros e séries narrativas que mostram uma nova mente brilhante enfrentando uma mente brilhante experiente – geralmente uma quer tomar o lugar da outra.

É impossível não traçar o paralelo dessas narrativas com o que veremos no Super Bowl LIII. De um lado a mente ofensiva e inovadora de Sean McVay, do outro a experiência e a maestria de Bill Belichick. Esse último já enfrentou todo tipo de adversário, vencendo a maioria deles. Já o novato está apenas no início de sua jornada, e o desafio de agora provavelmente servirá como termômetro para o resto de sua carreira.

“Não conseguiu vencer um técnico mais experiente.” vs “Não conseguiu superar as inovações de quem é o futuro da liga.”

Independentemente do resultado, as narrativas e os desdobramentos são até mesmo previsíveis.

Chegando até aqui

Há dois anos, quando o New England Patriots enfrentava o Atlanta Falcons, Sean McVay não era conhecido como é hoje. Recém contratado pelos Rams, McVay tinha como destaque o simples fato de ser novo. Dois anos depois, Sean é discutivelmente o técnico ativo com maior influência na liga e no pensamento coletivo do futebol americano. Treinadores que trabalharam com ele viraram HCs, e a tendência na NFL é de contratar jovens mentes capazes de trabalhar com o franchise QB – nenhum deles necessariamente provado. Se Sean McVay foi uma aposta, outros times tentam usar mercados diferentes para obter o mesmo resultado.

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2017 foi a temporada de apresentação das capacidades de McVay. Após assumir um time marcado pela mediocridade dos anos de Jeff Fisher, Sean levou a franquia a uma temporada com record 11-5 e o primeiro título de divisão desde que você assiste a NFL (com exceção de meia dúzia de malucos).

O trabalho mostrou resultado em números e no “teste do olho”. O Rams deixou a areia movediça da apatia para se tornar uma das equipes mais legais de se assistir. Jared Goff, que até então parecia destinado a estampar listas em que é citado junto com JaMarcus Russell e insira aqui também um QB escolhido na primeira escolha do draft que você desgosta. Em uma tacada só Los Angeles percebeu que tinha o seu quarterback e o HC do futuro. Resultado difícil de ter acontecido se o contratado tivesse sido Vance Joseph (in memorian), por exemplo.

Tirando as rodinhas

Como todo super-herói (e o Venom) em sua história de origem, a franquia da Califórnia precisou de um período para descobrir do que era capaz. Terminado o laboratório em 2017, a diretoria decidiu dar o próximo passo. Ou, se preferir, o famoso all in. Ndamukong Suh, Aqib Talib, Marcus Peters e Dante Fowler Jr foram adquiridos na defesa, e Brandin Cooks foi a peça escolhida para completar o ataque.

O resultado não foi diferente do esperado. Durante toda temporada o Rams era apontado como, se não a melhor, uma das melhores equipes da NFL. Podemos até mesmo discutir se, mesmo nesse patamar, o time já havia atingido todo seu potencial – dependendo de como encaramos a situação, pode ser uma falha ou sucesso, afinal você deve estar preparado para vencer seus desafios mesmo quando não está 100%.

E, tal qual em um filme de super-herói, a primeira batalha pareceu apenas o prelúdio do terceiro e último ato. A derrota em New Orleans na temporada regular custou a LA a oportunidade de ter mando de campo nos playoffs. Mas, tal qual os roteiros de Hollywood já nos ensinaram, o que importa é o final da história. É como as histórias acontecem o que nos faz nos apaixonarmos pelos personagens, mas sempre lembramos do final.

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Assim, o Rams mostrou que poderia aumentar ainda mais seus poderes para vencer os Saints no Superdome – a primeira derrota de Drew Brees em casa na pós-temporada. Pouco importa se pareceu truque de roteiro, a história só se lembra dos vencedores.

O mundo está assistindo

O Super Bowl é um evento atípico. É quando muitas pessoas param para assistir a um jogo que às vezes nem entendem. A NFL é composta por 32 times, e apenas dois podem ter os olhos do mundo no início de fevereiro. Estar lá já é uma pequena grande vitória.

Porém, como a história nos mostra, os vencedores estão em outro patamar. Jogadores são alçados ao status de lendas simplesmente porque centímetros jogaram a seu favor. O mérito é estar lá para ter os detalhes jogando ao seu lado. Com apenas duas temporadas, alguém duvida que essa será a única chance do Los Angeles Rams de chegar nessa posição novamente? O resultado final vale tudo e não vale nada.

O inferno de Cody Parkey e a lenda de Nick Foles

No clássico da literatura A Divina Comédia, Dante Alighieri descreveu os nove círculos do inferno, descendo de Jerusalém até, em uma linguagem moderna, o colo do capeta – naquela época, só existiam três continentes conhecidos (Europa, Ásia e África), e Dante imaginou que no polo oposto a Europa, algo como 43 jardas distante, estava a ilha do purgatório, que estaria ligada ao inferno por uma passagem aberta após a queda de Lúcifer.

É bem provável que Cody Parkey tenha passado pelos noves círculos enquanto seu chute percorria aquelas pouco mais de 40 jardas. Um chute que bateu em uma trave, beliscou outra caprichosamente, matou o mascote do Bears, transformou companheiros de time que estavam na sideline em memes e, bem, fez Nick Foles mais rico.

Um chute capaz de retratar a angústia de uma torcida que não participava dos playoffs desde 2010 – algo ainda mais dolorido para uma franquia que terminou a temporada com 12 vitórias, seu melhor ano desde o distante 2006.

O mais cruel é que não havia ninguém mais apropriado que Parkey para ser protagonista do destino escapando pela ponta das mãos – ou, bem, pela ponta dos pés: em novembro, Cody havia acertado a trave quatro vezes em um duelo contra o Lions (e mesmo assim o Bears venceu). Na última semana da temporada regular, Parkey carimbou a trave contra o Vikings mais uma vez (e, novamente, o Bears venceu).

Não se flerta com o perigo três vezes. E se há algo que a sabedoria popular (e um técnico de futebol multicampeão) foi capaz de cunhar para a eternidade é o fato de que “a bola pune”.

Um futuro para chamar de seu

Na estreia da temporada afirmamos que se a então improvável derrota do Bears diante do Packers era fruto de uma série de decisões no mínimo questionáveis de um HC em sua primeira temporada e um QB de 24 anos, ao mesmo tempo era evidente que após anos sofrendo nas mãos de gente como Jay Cutler e John Fox, Chicago enfim tinha um sistema ofensivo criativo e moderno. E que melhores dias para a defesa do Bears, com Khalil Mack, Leonard Floyd e Roquan Smith cada vez mais entrosados, eram mera questão de tempo.

Foi assim na rodada de Wild Card: assim como ao longo do ano, Chicago apoiou-se na melhor defesa da NFL para se manter com chances. Foles fez ótimas jogadas em momentos cruciais, mas de uma forma geral, o sistema comandado por Vic Fangio conseguiu manter o Bears no jogo – Nick foi interceptado duas vezes e o jogo terrestre do Eagles beirou o ridículo.

Para o futuro, porém, é preciso ficar de olho no questionável desenvolvimento de Trubisky, que pareceu melhor em seu segundo ano sob o comando de Matt Nagy, mas, algo normal, nunca soou 100% confiável. Vez ou outra, sua capacidade de fazer boas jogadas, ler coberturas e escapar de um pocket em colapso estão lá, mas nunca de forma totalmente consistente – hoje, para classificar Trubisky como um sucesso, seria necessário mais do que Parkey acertar um FG de 40 jardas.

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Já sobre a defesa em si, é preciso voltar no tempo para compreender o quão  complexo é os motivos que levam Chicago a ambicionar um “sistema defensivo” eficiente mais do que outras franquias – mesmo que outras equipes tenham em sua história defesas fantásticas, como lendária “Cortina de Ferro” dos Steelers, o Ravens do final dos anos 90 ou mesmo o Denver Broncos vencedor do SB 50.

De qualquer forma, na história, para o Bears, todos os seus grandes momentos ainda vivos na memória tiveram como pano de fundo uma grande defesa – seja ao vencer a NFL pré-Super Bowl em 1963 ou no histórico time de 1985, que também levantou o troféu, e é por muitos considerado a melhor defesa de todos os tempos; o Bears sempre sentiu que defender era o melhor caminho e moldou sua identidade a partir disso.

“Pode ser diferente em Indianápolis ou Green Bay, onde a torcida quer ver Aaron Rodgers lançar touchdowns. Aqui simplesmente querem nos ver defender”, declarou recentemente o ex-CB Charles Tillman.

Para 2019-2020 Chicago precisará fazer escolhas, que podem não ser suficientes para manter o CB Bryce Callahan e o S Adrian Amos, ambos free agents na próxima intertemporada – mesmo assim, perdas são normais na NFL. Mas a maior mudança no setor pode não estar em um jogador: o DC Vic Fangio fez um trabalho tão eficaz que é cotado como um dos nomes para se tornar HC na próxima temporada; perdê-lo, porém, pode ser um golpe duro no principal sistema defensivo da NFL.

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Mas mesmo que Fangio fique a história nos mostra que é improvável que a defesa de Chicago repita o mesmo desempenho monstruoso; quando se está em um nível sobrenatural é normal dar um passo atrás; lembre-se da própria defesa do Bears de 85, ou ainda do Jacksonville Jaguars de 2017 (agora comparada ao desempenho um pouco mais fraco em 2018).

Aqui note uma possível (futura) semelhança: Jacksonville terminou 2017 como a melhor unidade em DVOA – eles foram ainda mais eficientes que o Bears de 2018. Na temporada atual, porém, o Jaguars caiu para a sexta posição nesta mesma métrica e, como o ataque não compensou essa oscilação natural, não foi possível equacionar o desempenho: de certa forma, Blake Bortles foi um obstáculo que a defesa do próprio Jaguars não foi capaz de superar. E com base naquilo que Trubisky apresentou ao longo da temporada, se tornar o Jacksonville de 2018 pode ser o maior pesadelo que o Bears pode ter em 2019.

De qualquer forma, em um cenário mais adequado a realidade de Chicago, volte ao já citado Broncos de 2015-2016. Mas mesmo assim, após anos sofrendo com Fox e Cutler, ao menos agora há algo a se apegar: em setembro, quando Mack, Floyd e Smith se alinharem no Soldier Field em uma tarde fria de domingo, a história de Chicago estará novamente em seu lugar – basta não deixá-la desaparecer após duas décadas procurando o que fora perdido.

A lenda de Big Dick Nick

Quando Nick Foles derrotou Tom Brady e se tornou o herói improvável do último Super Bowl, você achou que havia acabado. Mas ele fez de novo, e mais uma vez manteve o Eagles vivo em uma temporada que parecia perdida. E, claro, você pode chamá-lo de MVP, Big Dick Nick ou simplesmente de Foles, mas seja qual a nomenclatura escolhida, é hora de reconhecer que ele é muito bom em vencer jogos de football realmente importantes – ou que simplesmente estejamos diante de alguém com poderes concedidos por alguma entidade celestial; talvez esta seja a opção mais lógica.

Mesmo assim, antes de Parkey esbarrar na trave pela sexta (ou sétima, se você for alguém extremamente cruel) vez no ano, e o próprio Foles encontrar Golden Tate na endzone, Nick vinha em sua atuação menos impressionante desde que decidiu se tornar uma lenda; foram 25 passes completos em 40 tentativas, 2 TDs e 2 INTs (a primeira vez desde 2015) e, também pela primeira vez em suas aventuras de janeiro, um rating inferior a 100 (77.7).

Mesmo assim, quando Philly recebeu a bola com pouco menos de 5 minutos no relógios, os torcedores do Eagles dirão que não duvidaram dele por um segundo sequer – eles, claro estarão mentindo.

Quando o ataque chegou a beira da endzone, agora, qualquer analista de obra concluída, pode cravar que era óbvio que Darren Sprolles não chegaria ao paraíso em suas duas corridas. A terceira tentativa também foi em vão e, quando Doug Pederson usou seu primeiro timeout, praticamente implodindo qualquer possibilidade de ter a bola novamente se tudo desse errado, não parecia existir outra alternativa além de uma nova Philly Special. Mas, claro, não importa mais como, Nick encontrou Golden Tate e mais US$ 1 milhão na sua conta.

Mas sua atuação não acabou aí: quando Parkey chutou a bola, de alguma forma, Foles a moveu com os olhos, provando que pode manipular o ar, o espaço ou mesmo tempo. Provando que pode, além de encontrar Golden Tate e derrotar Tom Brady, mover o eixo gravitacional da terra – e, de alguma forma, provando para o front office do Eagles e para quem mais diabos duvida que pode vencer dois Super Bowls em sequência.

A Louisiana é logo ali

Volte no tempo até 2013. Lá, por dois meses, Foles foi o quarterback mais eficiente da NFL. Mas até encontrar Brady e os Patriots em fevereiro passado, tudo acabara ali e Nick, em geral, transitou entre (e abaixo da) linha da mediocridade.

Hoje é irônico ver que o Eagles precisou abrir mão de uma caminhão de escolhas para selecionar Carson Wentz, torná-lo o presente e o futuro da franquia, para ter um backup que eles já haviam descartado os levando para o Super Bowl.

E embora é possível (e muito provavelmente o mais lógico e sábio) que Wentz seja o escolhido para guiar o Philadelphia Eagles pelo futuro, é Foles que tem o amor e a gratidão da Filadéfila – agora imagine o que acontecerá com ele caso consiga repetir o mesmo roteiro de 2018.

Além disso, Foles é um herói improvável porque sua personalidade não pede que ele seja. No próprio Eagles há jogadores muito mais talhados a esse papel – do próprio Wentz, jovem e promissor, a Chris Long ou mesmo Malcom Jenkins, muito mais ativos no vestiário; há ainda Fletcher Cox, indiscutivelmente um dos melhores nomes da sua posição em toda a NFL.

Foles, por outro lado, não nasceu para os holofotes. E, de certa forma, nas últimas décadas, Philadelphia teve inúmeros quarterbacks talentosos que poderiam ter vivido a glória: Randall Cunningham, Donovan McNabb e, mais tarde, Michael Vick. O próprio Wentz, é provável, ainda terá tempo para brilhar. Mas, bem, a verdade é que agora é Nick Foles quem está em um avião a caminho de New Orleans – e, mesmo que pareça improvável, não seria prudente duvidar dele.

Cleveland, Joe Thomas, LeBron e Mayfield: uma nova (velha) cidade 635 dias depois

O que você faz em 635 dias?

Não existem canções de amor para Cleveland – ou, se elas existem, bem, não conhecemos. Mas não é como se ela precisasse de sua própria versão para “Sweet Home Alabama”.

Cleveland está no meio do nada, as margens do Lago Erie, em algum lugar entre a Pennsylvania, Michigan e Indiana; como quase tudo nessa vida, claro, localização é mera questão de perspectiva. Não que um estrangeiro não consiga se apaixonar por ela; é calma e aconchegante, diferente dos grandes centros dos EUA. Mas também vazia: desde 1950, a cidade perdeu mais da metade de sua população.

Cleveland agora está em uma encruzilhada entre passado e futuro: andar por suas ruas é como visitar décadas diferentes. Você vê pessoas em esquinas tentando se esconder do frio e, três quarteirões depois, está em um típico bairro de algum subúrbio norte-americano de classe média. E se o centro é limpo e agradável, repleto de vida, normalmente orbitando seus hospitais – a cidade, inegavelmente, é referência em saúde –, a leste, a poucos passos dali, você entra em um deserto pós-industrial.

Cleveland está para baixo”, conta-me um morador de rua, que vive próximo ao First Energy Stadium, casa do Cleveland Browns. “Só quero voltar para Chicago”, continua, antes de me mostrar a direção correta.

someone sed i should write

something constructive

about east cleveland”

Turistinha procurando clichês.

Literatura

Darryl Allan Levy (d.a. levy) morava próximo ao rio Cuyahoga, que desaguá no Lago Erie. Ele olhava pela janela e via a ponte Lorain-Carnegie e os “Guardians of Transportation”, esculturas que dão vida àquela passagem. Ele via Cleveland como ela era, mas sempre a imaginava além, queria mais para sua cidade.

Diariamente escrevia seus próprios poemas e, depois, caminhava sobre a ponte – mas ninguém que o via ali conseguiria imaginar que Levy se tornaria uma figura central na contracultura de Cleveland e, como consequência, seria alvo da polícia graças a sua literatura “subversiva”.

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Em 1964, Levy passou uma temporada em Nova York, lendo sua poesia pelos cafés da cidade, mas sempre se queixara do espírito cosmopolita da cidade: “Quase odeio aqui – quero a Cleveland confortável, sofisticada e indiferente”, escreveu a um amigo.

Queixava-se que a cidade que amava não era representada como merecia na literatura; falava sobre Sandburgh, Crane e Williams e como Chicago ou o Brooklyn tinham grandes obras literárias.

Por isso, provavelmente, escreveu “Cleveland Undercovers“, repleto de alusões aos naufrágios no Lago Erie, ao Assassino do Tronco, famoso serial killer que assombrou o estado de Ohio na década de 30, ou ainda profanando Moses Cleaveland, fundador da cidade. Levy é a versão beatnik de Ohio, que o ungiu, da mesma forma que Jack Kerouac e Allen Ginsbergm, a porta-voz de uma juventude que se rebelava para quebrar antigos costumes.

Roteiro fácil, claro, o apreço pela maconha e pelo LSD fez de Levy um alvo da polícia. Em 1966 ele foi indiciado e no ano seguinte acabou preso, sob a acusação de “contribuir com a delinquência”; ele havia permitido que menores de idade lessem seus poemas, permeados por sexo e drogas, algo considerado obsceno na época.

Sua prisão colocou Cleveland no centro de uma discussão nacional e nomes como o próprio Ginsberg e Gary Snyder (vencedor do Pulitzer em 1975) sairiam em sua defesa. Mas Levy nunca se recuperou do episódio e em 1968 confidenciou a vários amigos que deixaria a cidade. Em 24 de novembro daquele mesmo ano, ele se suicidou.

Cleveland, eu dei-lhe

os poemas que ninguém nunca

escreveu sobre você

e você não me deu

NADA”

Há ainda muito de seus poemas naqueles que vivem em Cleveland: você a ama, não quer deixá-la, mas ela não consegue lhe oferecer nada em troca. Então, caso insista em ficar, você precisa se apegar a algo e, bem, só existem três opções. Mesmo que elas teimem em lhe maltratar.

Algo a se apegar: basquete

Na offseason de 2010, LeBron James fez tudo errado. Hoje ele sabe disso. Sua quase cidade natal ligou-se a ele, mas ele decidiu cortar essa ligação da pior forma possível para que o rejeitassem com tanta força que James acabaria em um limbo, uma fadiga mental e física, da qual ele só conseguiria sair mais de um ano depois, durante as finais da NBA de 2011 – para então conquistar seus dois primeiros títulos.

Mas ele nunca se esqueceu do que aconteceu e, no fundo, sempre quis ser perdoado. Quatro anos depois, na offseason de 2014, o roteiro já estava escrito – e ele não se transformou em um reality show televisionado, como em 2010.

James não disse uma palavra. LeBron sequer insinuou algo ou especulou sobre sua decisão: ele a anunciou em um misto entre declaração de amor e pedido por perdão. E então voou para o Brasil assistir a Copa do Mundo.

Logo no primeiro ano, Cleveland retornou as finais da NBA, mas parou no Golden State Warriors. Há uma frase de David Blatt, técnico do Cavaliers na época, capaz de sintetizar o sentimento da cidade em relação aos esportes: “Estamos em Cleveland: nada é fácil por aqui”.

Mas no ano seguinte, LeBron e o Cavs recuperaram um déficit de três jogos para derrotar o mesmo Warriros e dar um título a cidade após 52 anos.

Quando retornou, James escreveu:

“Antes de qualquer um se importar com o lugar onde eu iria jogar basquete, eu era só um garoto do noroeste do estado de Ohio. Foi lá que eu andei, corri e chorei. É onde eu sangrei. É um local que tem um lugar especial no meu coração. As pessoas lá me viram crescer, eu quero dar a eles tanto quanto puder. Quero inspirá-los quando eu puder. Minha relação com o noroeste de Ohio é maior do que o basquete”.

É mais simbólico do que pode parecer e é provável que você só compreenda quando passar por Cleveland. “Meus primos, por exemplo, foram embora de Cleveland. Talvez como LeBron fez, agora eles possam pensar um dia em voltar”, me confidenciou um atendente de um Starbucks no caminho para a Quick Loans Arena, em novembro de 2017 – horas antes do Cavs vencer o Pistons pela temporada regular da NBA.

Destino: felicidade.

Kyrie Irving acabara de partir para Boston; a outra estrela do Cavs também havia recém deixado a equipe. Pergunto como a cidade lidara com um novo abandono. “Se James aprendeu ao partir, nós também: não temos nenhuma mágoa e, bem, lembra daquele arremesso no ano passado?”, diz o jovem, ao relembrar a cesta que garantiu o primeiro título para a franquia. Como já dissemos, a relação da cidade com o esporte, vai além de qualquer simbolismo tangível para aqueles que não estão lá.

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Antes de sair, relembro a conversa com o morador de rua e confesso que gostei mais de Cleveland do que de Chicago, por onde havia passado dias antes – ele se assusta, e pergunta se eu poderia viver ali.

Claro”, respondo. “Bom, não é uma cidade moderna, normalmente é cinzenta, mas você não verá trânsito e o aluguel é barato. Então não descarte essa possibilidade”, disse ele, antes de se despedir.

Algo a se apegar: football

Você pode não acreditar, mas nas ruas de Cleveland, existe apenas uma pessoa tão respeitada como LeBron James: não é absurdo cravar que a devoção por Joe Thomas está no mesmo patamar. E para entender essa relação, é preciso voltar para 2007: LeBron perderia sua primeira final da NBA naquele ano, mas o Browns tiveram aquela que continua sendo sua melhor temporada na última década.

Cleveland venceu 10 partidas no ano de rookie de Joe Thomas e ele foi ao Pro Bowl pela primeira vez na carreira (ele seria selecionado para o jogo das estrelas em todas as temporadas entre 2007 e 2016). Parecia o desenho de anos promissores, mas o Browns entrou em um espiral de disfunção e desde então foram seis HCs, uma infinidade de OCs e, bem, se contamos direito, 21 quarterbacks iniciando uma partida como titular até o último TNF contra o Jets.

Voltando a Joe Thomas, é difícil expressar o que um LT pode representar para uma organização – a dimensão dos feitos na posição raramente são mensurados por números, mas mesmo assim, Joe conseguiu quebrar essa barreira; ele esteve em campo em todos os snaps até uma lesão (posteriormente) encerrar sua carreira. Ele foi ao Pro Bowl em todas as temporadas que completou. E ele nunca deixou Cleveland.

“Hoje entendo LeBron, claro, mas Joe nunca foi embora: ele nos escolheu”, me conta o vendedor da loja oficial do Browns no First Energy Stadium. “Bem, é óbvio que Jim Brown é o maior jogador da história do Browns – não por acaso há uma estátua dele logo ali. Mas mesmo assim, era outra época, uma época em que mesmo o Cleveland Indians havia vencido poucos anos antes, então é difícil expressar o quanto amamos Joe”, continua.

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Em 10 anos, Joe viveu apenas uma temporada com mais vitórias do que derrotas. Seu maior feito, porém, não está dentro de campo: Joe conseguiu ensinar para uma cidade que esporte é muito mais do que vencer; é sobre querer estar onde se está e, por mais difícil que pareça, ser alguém a quem é possível se apegar enquanto a maré não acalma é tão representativo quanto qualquer troféu.

Ame este homem.

Novos ventos

O que você faz em 635 dias? Nesse período o Cleveland Browns perdeu. Mas no TNF da semana 3 desta temporada, Baker Mayfield deu ao Browns algo que ele não tinha há 635 dias: uma vitória.

Substituindo Tyrod Taylor após uma concussão, a primeira escolha geral do draft de 2018 explodiu uma vantagem de 14 pontos do New York Jets contaminando o estádio com um sentimento até então distante: esperança. E inspirando torcedores ao redor do PLANETA a torcer por um franquia até então motivo apenas de COMPAIXÃO.

Ao final de seu primeiro drive, Mayfield já tinha mais jardas do que Tyrod Taylor havia conseguindo em praticamente dois quartos – ele terminaria a partida com 17 passes completos em 23 tentativas para 201 jardas. Assim que Baker pisou em campo, parecia que o Browns havia desbloqueado diversas jogadas antes travadas em seu playbook – ele simplesmente era capaz de fazer o que Tyrod não conseguia.

O cenário em que tudo isso ocorreu dificilmente seria pensado por um ótimo roteirista especialista em CLICHÊS: jogo transmitido nacionalmente, três escolhas de primeira rodada do último draft e, bem, um running back correndo entre o estádio e o hospital enquanto esperava o nascimento de seu primeiro filho – no dia do seu aniversário.

Tudo é épico na vitória comandada por Mayfield: ele levou a equipe a um FG na primeira campanha, recebeu uma conversão de dois pontos ao final do terceiro quarto para empatar a partida e viu o então futuro pai, Carlos Hyde, anotar o TD da vitória.

Direto do túnel do tempo.

O caminho até ali

Nos primeiros 28 minutos de partida Cleveland foi o que havia sido nos últimos anos: uma equipe apática. O ataque estava imóvel enquanto Tyrod Taylor lutava contra sua própria incapacidade (foram quatro passes completos em 14 tentativas) e a de seus companheiros – Antonio Callaway deixou um TD fácil escapar e o jogo corrido simplesmente não fluía.

Para tornar tudo ainda mais cruel, Isaiah Crowell, ex-Browns, anotou dois TDs – no segundo, moleque travesso e rancoroso (rancor, o sentimento mais belo que um ser humano pode cultivar e alimentar), limpou-se com a bola e atirou na arquibancada.

Mas logo depois Taylor precisou sair de campo e, com 1 minuto e 23 segundos no relógio, Baker entrou em campo disposto a interromper anos de sofrimento.

Dilly dilly!

Após a vitória, Joe Thomas perguntou a Mayfield onde ele encontrara confiança para jogar, já que não havia treinando como titular durante a semana. “Por mais engraçado que isso possa parecer, foi assim minha vida inteira”, respondeu, antes de perguntar. “Os bares ainda estão abertos? Dilly dilly!”, disse, se referindo a promessa de cerveja gratuita em caso de vitória dos Browns.

Na última quinta-feira, Baker não ganhou apenas um jogo, ele ganhou o direito de construir sua própria narrativa na NFL – assim como já havia feito em sua carreira universitária, onde escreveu sua história semana após semana. Mayfield não apenas derrotou os Buckeyes em Ohio; eles os derrotou e cravou a bandeira de Oklahoma em pleno Ohio Stadium.

Ele não apenas conquistou a titularidade em Texas Tech em seu primeiro ano; ele o fez e então se transferiu para Oklahoma, não apenas inspirando pessoas a fazerem camisas o criticando – ele as comprou para vestir. Mas como o próprio Baker disse após o jogo: “Passado é passado. Você precisa apertar o botão de reset e dar o próximo passo em frente”.

Agora não importa mais se Cleveland teve um dos maiores jogadores da história do basquete (e indiscutivelmente o melhor de sua geração) por 10 anos e o transformou em apenas um título. Não mais importa se Cleveland teve o melhor OT da história da NFL e não conseguiu nada além do que transformá-lo em um símbolo para cidade. Na última quinta-feira, tudo valeu a pena, afinal, 635 dias depois, Cleveland bebeu cerveja de graça.

O primeiro jogo do ano – e do resto de nossas vidas

Parecia que a temporada do Green Bay Packers duraria pouco mais de 20 minutos. Rodgers poderia ter sofrido uma séria lesão no joelho mesmo antes da metade do segundo quarto do primeiro SNF e, de repente, talvez estivéssemos vendo um dos maiores QBs de sua geração desperdiçar mais um ano de seu auge: quando Aaron Rodgers se dirigiu aos vestiários, qualquer apaixonado por football prendeu o ar e pensou “de novo”? E, bem, a expressão do Quarterback convergia com aquilo estávamos pensando.

Os próximos atos do roteiro indicavam o pior cenário possível para os torcedores do Packers: Green Bay seria triturado logo na semana #1, contra seu maior maior rival. Khalil Mack fazia o backup, DeShone Kizer, parecer uma criança indefesa assistindo a um filme de terror e, bem, ali mesmo já era claro que seria um longo ano se Kizer fosse o titular nas próximas semanas.

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Mack, ao respirar, MOVIMENTAVA O AR e transformava Kizer em um atleta amador (talvez ele seja isso aí mesmo e errado é quem espera algo diferente). Khalil logo conseguiu um sack, uma interceptação, forçou um fumble e anotou um touchdown em poucos minutos ou tudo no mesmo lance (se você estivesse dopado pelo medo, seria incapaz de distinguir): em pouco tempo, Chicago abria 17 pontos de vantagem no Lambeau Field pela primeira vez desde 1948.

Restava a nós, meros mortais, amaldiçoar o front office de Green Bay eternamente por ser incapaz de cercar Aaron por algum talento capaz de lhe auxiliar, e culpar Mike McCarthy (essa é fácil) por todos os seus crimes inafiançáveis contra o esporte (em breve uma lista própria sobre o tema).

Você já viu o que McCarthy é “capaz” de fazer com um time quando não tem um HoF QB ao seu dispor, e ninguém em sã consciência teria prazer em assistir uma continuação deste filme.

Um quase (não) retorno

Quando Aaron retornou no terceiro quarto, os Bears logo abriram 20 pontos de frente – e o quarterback claramente não estava saudável: ele se protegia, tentava permanecer dentro do pocket (o equivalente a uma tentativa de suicídio quando consideramos a OL de Green Bay) e alterava seu posicionamento para evitar sobrecarregar a perna esquerda.

Mas como o próprio Aaron Rodgers afirmaria na entrevista pós-jogo, para retornar a uma partida, basta “fazer algumas boas jogadas” – facilita, claro, quando se é Aaron Rodgers, e não DeShone Kizer. Não estamos falando de ciência aeroespacial aqui, afinal. 

Algumas jogadas depois, Aaron completou cinco passes em um drive, que terminaria com um FG de Mason Crosby; a vantagem do Bears voltava para 17 pontos, mas agora restavam apenas 15 minutos no relógio. Não era uma cenário necessariamente tranquilo. 

Mas quando o Packers recebeu a bola novamente, já no último período, Rodgers precisou de apenas seis jogadas – em quatro delas, ele encontrou Geronimo Allison para, na última delas, conseguir um touchdown de 39 jardas em que a bola FLUTOU EM UMA PARÁBOLA CELESTIAL, reduzindo o déficit para apenas 10 pontos. Convenhamos: ali, você já sabia o que estava por vir.

Um novo three-and-out de Chicago deu mais uma injeção de ADRENALINA ao Packers que, aproveitou a chance com uma conexão de 51 jardas para Davante Adams – que, três jogadas depois, anotaria o TD. Naquela altura, era evidente o colapso mental que rondava o Bears. Mesmo após marchar quase um campo inteiro, o time conseguiu apenas um FG, insuficiente para selar a vitória – a vantagem no placar era de apenas 6 pontos. 

Segundas chances

Pouco menos de três minutos e uma jogada que poderiam ter selado a partida. Logo na primeira tentativa, Kyle Fuller poderia ter interceptado Rodgers, mas dropou a pelota, em um lance aparentemente fácil para um atleta de seu nível.

Contra Aaron Rodgers, tudo que você pode pedir aos céus é uma chance para terminar a partida. Contra Aaron Rodgers, tudo que você não pode ceder, é uma segunda chance: duas jogadas depois, ele encontrou Randall Cobb no meio do campo – e Randall correu 75 jardas para a glória.

Cobb é inegavelmente quem tem mais méritos no sucesso dessa jogada específica – e também inegavelmente o sistema defensivo do Bears teve uma crise de caibrã mental naqueles segundos. Mas, mesmo que tentemos negar, desde o passe para Geronimo Alisson, um lançamento que nenhum outro ser humano poderia fazer, sabíamos o que os próximos minutos reservavam: após um início com apenas três passes completados em sete tentativas e uma lesão, Rodgers terminou a partida com 20 passes (em 30 tentados), para 286 jardas e três TDs – todos no último período.

Algo possível apenas para alguém capaz de fazer uma torcida inteira acreditar graças ao simples fato de estar em campo.

O outro lado

A então improvável vitória de Green Bay também é fruto de uma série de decisões no mínimo questionáveis de um HC em sua primeira temporada e um QB de 24 anos e apenas 13 partidas como profissional (além de uma dúzia delas em sua carreira universitária).

Durante a primeira etapa (e aqui se inclui o período com Rodgers em campo), o Bears expôs todas as fraquezas do sistema defensivo de Green Bay, tripudiando daquilo que parecia algo formado por torcedores sorteados antes da partida para trajar uniformes e entrar em campo: os RBs Tarik Cohen e Jordan Howard alinhavam no backfield, o OT Charles Leno abria espaços como se estivesse DANÇANDO BALÉ e Clay Matthews tinha como estatística a incrível média de “uma vergonha” por snap. 

Após anos sofrendo nas mãos de John Fox, Chicago enfim tinha um sistema ofensivo criativo e moderno. No fundo, o Packers só chegou com alguma chance ao terceiro período, porque o LB Blake Martinez era um pequeno sopro de dignidade dentre os “defensores”. Sim, Blake Martinez era o melhor jogador de Green Bay em campo. Leia novamente até acreditar.

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Mas com a mesma velocidade que essa sensação de que um novo ataque havia desembarcado em Illinois chegou, ela desapareceu. Durante todo o segundo tempo, Trubisky se limitou a procurar Cohen e Howard (Allen Robinson e Taylor Gabriel eram meros figurantes), sua confiança diminuiu e algumas oportunidades com recebedores livres foram desperdiçadas.

Claro, não se pode colocar toda a conta da derrota no jovem QB, e sua atuação nos dois últimos períodos tornam a decisão de Matt Nagy em uma jogada crucial, capaz de cravar um punhal em Green Bay, ainda mais questionável: em uma 3&1, com pouco menos de três minutos restantes, na linha de 14 jardas do campo de ataque, Chicago tentou um passe para Anthony Miller que acabou incompleto e resultou em um FG – naquela altura, o jogo estava 23 a 17 e, bem, já falamos sobre como essa história termina.

Nesse instante, a defesa do Bears já não era a mesma: Mack foi incrível nos dois primeiros quartos, mas esperar que ele mantivesse o mesmo nível por 60 minutos com apenas uma semana de treinos seria irreal – tanto que nos últimos períodos ele passou uma quantidade significativa de snaps na linha lateral e, quando esteve em campo, encontrou dificuldades para vencer o RT Byan Bulaga (que havia tido uma atuação trágica antes do intervalo).

Mesmo assim é evidente que melhores dias para a defesa do Bears, com Mack e Roquan Smith cada vez mais entrosados, são mera questão de tempo: tudo que aconteceu em Wisconsin são ótimos sinais a se apegar, sobretudo para uma franquia que precisava desesperadamente de novas perspectivas.

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E não há nada de errado em se agarrar ao “se”: “se” Fuller não tivesse dropado uma interceptação fácil, “se” Howard tivesse corrido aquela maldita jarda ou “se” Mitch enxergasse WRs livres, o Bears teria saído com a vitória.

Claro, não se vive de “se” (já diria o ditado: “se estivesse um rio aqui, eu estaria pescando, e não escrevendo merda“), mas há diversas novas possibilidades que valem a pena ter em conta quando olharmos os próximos passos do Chicago Bears em 2018.

Na primeira partida, porém, uma festa que parecia certa foi estragada. Mas foi estragada por uma dos melhores jogadores da história. Não há motivos para desespero: os dias de Chicago na NFC North podem (e devem) chegar em breve. Desde que, claro, Aaron Rodgers não consiga se apoiar em pé no Lambeau Field.