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Análise Tática #30 – A linha ofensiva do Indianapolis Colts

Dominação nas trincheiras. Faz parte dos jargões do futebol americano que o jogo de playoff é vencido a partir das linhas. Em janeiro, com tempo ruim e times melhores, o confronto físico decide os vencedores.

Também não é novidade para ninguém que durante o início de carreira, Andrew Luck foi o quarterback mais sackado da NFL. Cercado por um coaching staff e front office incompetentes, Andrew foi capaz de mascarar as deficiências do Indianapolis Colts e competir até a pós-temporada, até que apenas sua capacidade técnica não foi mais suficiente.

A quantidade de pressões sofridas por dropback chegou a níveis tão absurdos que Luck sofreu 100 sacks nas 3 primeiras temporadas. Como sabemos, em 2015 o quarterback teve lesões no ombro e costelas, agravadas por um acidente de snowboard em 2016, e uma laceração nos rins.

Andrew Luck merecia adicional por insalubridade.

Em 2016, temporada em que jogou lesionado, estando semanalmente nos injury reports, Luck sofreu 41 sacks, maior marca da sua carreira em uma temporada. Em 2017, a saga do ombro atingiu níveis jamais vistos e Andrew perdeu toda a temporada. Como desgraça pouca é bobagem, a linha ofensiva dos Colts contou com lesões do Center Ryan Kelly ao longo da temporada (não havia perdido um único snap na carreira até então desde os tempos de futebol universitário em Alabama), além de deficiências em outras posições, que resultaram em um total de 56 sacks, pior marca da temporada e recorde histórico da franquia.

Solucionando o que não tinha solução

O leitor deve saber que o general manager Chris Ballard (D@ddy) escolheu no draft o Guard Quenton Nelson (Notre Dame), com a sexta escolha geral. Outra adição de linha ofensiva via draft foi o então Guard, agora Right Tackle Braden Smith, de Auburn, escolhido na segunda rodada. Pelo período de Free Agency, as adições foram: Austin Howard (ruim), Matt Slauson (na injury reserve, mas ajuda no treinamento dos colegas) e Mark Glowinski, contratado no meio da temporada e despontando como titular absoluto na posição de Right Guard.

O mês de setembro foi de instabilidade, considerando as ausências do veterano Anthony Castonzo e a indefinição nas demais posições, com a linha cedendo 9 sacks, metade da quantidade total da temporada. Até o sexto jogo, derrota para os Jets que marcou a campanha de 1-5 da qual começou a virada da equipe, foram ao todo 12 sacks. Além disso, a instabilidade no jogo corrido era notória, com o comitê de Running Backs ainda não estabilizado pela ausência de Marlon Mack. Os calouros Nyheim Hines e Jordan Wilkins dividiam snaps com o veterano Christine Michael (sim, ele ainda existe, e esteve nos Colts essa temporada).

Tal cenário forçava Andrew Luck a lançar a bola muitas vezes por partida, tal como em seus tempos de Chuck Pagano. Entre as semanas 4 e 5, em que os Colts perderam para os Texans na prorrogação e em seguida perderam para os Patriots no Thursday Night Football, Luck lançou a bola um total de 121 vezes em um intervalo de quatro dias corridos, nada ideal para um Quarterback vindo de uma cirurgia no ombro direito. Apesar de naquele momento não estar se resultando em vitórias, já era possível ver sendo implantada a receita para tirar Luck desse cenário desfavorável.

Esse manja.

Antes de ver o game tape do que deu certo, vamos observar exemplos de jogadas do início da temporada em que a linha ofensiva ainda estava instável (ainda era um cocô em chamas).

Quenton Nelson testado contra os Bengals

Em sua estreia na NFL, o calouro Quenton Nelson sofreu contra o pass rush dos Bengals, principalmente na figura dos jogadores Geno Atkins e Carlos Dunlap.

Em seu primeiro snap na liga, Quenton alinha contra Geno Atkins e comete um holding após ser batido em um rush para dentro. Nelson tenta se recuperar na jogada, mas seu equilíbrio está comprometido e a única opção é fazer a falta.

Por vezes em sua partida de abertura, a linha ofensiva teve que lidar stunts. Nelson é particularmente bom para reconhecer esse tipo de movimentação dos defensores, mas é necessária uma coordenação precisa com os companheiros para que a contenção ocorra. Na jogada específica, Atkins consegue confundir Nelson e o Center Ryan Kelly, permitindo que o Defensive Tackle Ryan Glasgow (#98) atinja Luck, resultando em passe incompleto.

Os sacks contra os Texans

Quatro sacks cedidos contra o Houston Texans na semana 4 em Indianapolis foi a maior quantidade que a linha ofensiva dos Colts permitiu durante toda a temporada. Vamos observar o que aconteceu em cada uma dessas jogadas.

Colocando em contexto, 4 sacks em 65 jogadas de passe é ruim, mas o estrago poderia ser maior considerando o matchup nas pontas. Na primeira partida entre Colts e Texans na temporada, J.J. Watt e Jadeveon Clowney alinharam contra os tackles Le’Raven Clark e Denzelle Good (he’s not). Bem, eu não espero que o leitor neutro conheça esses nomes.

Jadeveon Clowney bate Le’Raven Clark com um speed rush enquanto J.J. Watt contém a possibilidade de scramble de Andrew Luck cortando para o ombro interno de Denzelle Good. O sack ocorre antes mesmo de Luck atingir o ponto de proteção ideal.

O sack seguinte foi creditado contra Denzelle Good, também com um speed rush, dessa vez de J.J. Watt. Antes de analisar a jogada, vale falar que o Indianapolis Colts tem que ser PROIBIDO de abrir o teto do Lucas Oil Stadium para sempre. Denzelle Good tenta compensar o rush de Justin James jogando o peso do corpo para trás, mas o camisa #99 se aproveita disso e usa as mãos para cortar para dentro e atingir Luck. Sack que colocou Indianapolis em situação perigosa de campo.

Agora um strip sack provocado por J.J. Watt e recuperado por Duke Ejiofor (#53) já dentro da linha de 10 jardas. Também com um speed rush, Watt vence Denzelle Good pelo ombro externo e atinge a bola.

Já na prorrogação quando os Colts tentavam marchar em campo para vencer a partida, o quarto sack dos Texans acabou por prejudicar o andamento do drive, que iria terminar na decisão de tentar converter a 4th & 4. Nesse caso, o sack é creditado contra Quenton Nelson, que perde equilíbrio ao sofrer um stunt de Jadeveon Clowney, resultando em perda de 10 jardas.

A evolução através do jogo corrido

A volta de Marlon Mack contra os Jets (semana 6), e a volta de Anthony Castonzo contra os Bills (semana 7) foram as peças que faltavam para o ataque dos Colts engrenar nos dois níveis. A considerar os adversários, Bills e Raiders, o jogo terrestre teve um salto de qualidade com o retorno de seus titulares, gerando estatísticas que não aconteciam a tempos. Pela primeira vez desde 2007 (Joseph Addai) os Colts tiveram um corredor ultrapassando a marca de 100 jardas terrestres em duas partidas consecutivas – Marlon Mack.

A destacar a alternância entre Marlon Mack e Nyheim Hines como os Running Backs responsáveis por esse salto de qualidade no backfield (127 jardas contra os Jets, 220 jardas contra os Bills e 222 jardas contra os Raiders). A escalação titular fixou-se com Anthony Castonzo (LT), Quenton Nelson (LG), Ryan Kelly (C), Mark Glowinski (RG) e Braden Smith (RT), e produziu o desempenho de elite que chamou a atenção de toda a liga.

Pela primeira vez na carreira ajudado por um jogo terrestre minimamente capaz de controlar jogos, Andrew Luck começou a aumentar gradativamente a média de jardas aéreas por tentativa de passe, à medida em que Frank Reich passou a ter confiança a deixar o QB recém-recuperado de lesão a “soltar o braço”. Luck começou a soltar a bola cada vez mais rápido também, ajudando a linha ofensiva a manter os bloqueios.

Análise dos esquemas de bloqueio

O pilar do ataque montado por Frank Reich é a variação de jogadas em formações diferentes. Os Colts costumam chamar jogadas de corridas a partir de diversas formações, seja com sets pesados ou de recebedores espalhados em campo, com TE bloqueador (Ryan Hewitt) por vezes alinhando como FB na I-formation ou tomando uma instância de bloqueio vindo de motion de uma posição slot. A partir do momento em que o jogo terrestre começou a dar sinais de evolução, Marlon Mack (segundanista) e Nyheim Hines (calouro) começaram a concentrar a maior parte dos snaps, ainda com a contribuição adicional do também calouro Jordan Wilkins.

Uma das principais estratégias de bloqueio utilizadas pelos Colts, que vem rendendo boas jogadas é a movimentação de jogadores em bloqueios pull. Essa técnica acontece quando um bloqueador sai de sua posição inicial para bloquear em outra região do campo, geralmente oposta a que ele estava. Esse tipo de movimentação geralmente ocasiona uma demora na defesa em reagir ao movimento da linha e ajustar o preenchimento dos gaps, e funciona muito bem contra fronts com jogadores em 2-gap-technique.

Fronts 2-gap são geralmente construídos com jogadores que precisam ter o domínio físico sobre o bloqueador, e a movimentação de pull tem o objetivo de anular tal comportamento, fazendo com que o defensive lineman tenha que agir como um tackleador de campo aberto.

Um dos conceitos usados pelo Colts  na temporada 2018 para combater fronts 2-gap é o Trap-Wham-Block. Nesse tipo de jogada, um jogador externo ataca o centro da linha de scrimmage para bloquear o jogador de linha defensiva alvo da jogada lateralmente.

Indianapolis por diversas vezes utiliza o Wham Block com os TEs, principalmente Jack Doyle e Ryan Hewitt a partir de formações big. Depois da lesão, Mo-Alie Cox assumiu o papel de Doyle nessas jogadas. Esse tipo de movimentação geralmente é feito com a intenção de liberar Quenton Nelson e Ryan Kelly rapidamente das designações iniciais para atacar o segundo nível da defesa, ambos jogadores com grande eficiência em realizar bloqueios em campo aberto.

Nessa jogada da partida contra os Raiders (semana 8) vemos o Trap-Wham-Block sendo aplicado para permitir que Ryan Kelly ataque os LBs.

Por reconhecimento dos assignments, Mark Glowinski, o Right Guard também ataca o segundo nível, ajudando Ryan Kelly. A corrida de Marlon Mack não é exatamente explosiva, mas ganhou as jardas necessárias para um novo set de descidas.

Outro exemplo de Wham Block por parte de Jack Doyle. Dessa vez, o RB2 Nyheim Hines ganha 15 jardas.

Dessa vez, o lineman que sai em pull é o left tackle Anthony Castonzo. Nessa jogada, destaca-se também o trabalho do rookie Quenton Nelson executando bloqueio em dois jogadores ao mesmo tempo na jogada.

Na jogada subsequente, os Colts mostram mais um exemplo de sua variedade de jogadas novamente partindo do shotgun, agora correndo uma outside zone com dois jogadores executando pull. Esse conceito é conhecido como Toss Sweep. Nesse caso, Ryan Kelly e Mark Glowinski partem em sweep limpando o caminho para Nyheim Hines no strongside.

Como explicamos nesse texto do ano passado, a filosofia de bloqueios em zona dá uma leitura específica para os jogadores de linha. Kelly e Glowinski estão no campo aberto, então a inteligência desses jogadores em identificar corretamente os adversários a serem bloqueados é essencial para que a jogada funcione.

O fator Ryan Kelly na proteção do passe

Selecionado na décima-oitava escolha do draft de 2018, o center vindo de Alabama jogou todos os snaps de sua carreira universitária como titular sem sofrer lesões, e foi escolhido à época por Jim Irsay com à certeza de ser uma cornerstone para uma linha ofensiva que precisava de investimentos. Apesar disso, como as coisas nunca são fáceis para o Indianapolis Colts e uma temporada de calouro sólida, apesar de abaixo do radar, o segundo ano de Ryan Kelly foi recheado por lesões.

Uma fratura na perna em uma atividade conjunta com o Detroit Lions no training camp o tirou de toda a pré-temporada de 2017, e quando retornou, o jogador não mostrava o mesmo desempenho da temporada anterior, uma vez que a linha ofensiva dos Colts como um todo era a pior da liga. Outras lesões acabaram por encerrar a temporada de Kelly, fazendo com que o jogador fosse para a injury reserve no mês de dezembro.

Em 2018, desde que a linha ofensiva dos Colts se estabeleceu na formação titular de Castonzo, Nelson, Kelly, Glowinski e Smith. Entre as semanas 6 e 11 (Jets, Bills, Raiders, Jaguars e Titans), Luck não sofreu nenhum sack. Uma sequência de quase 300 dropbacks sem ser derrubado, que impulsionou uma virada de uma campanha de 1-5 para 5-5 até então.

Contra os Titans, Ryan Kelly sofreu uma lesão na perna que o afastaria das próximas 3 partidas, sendo substituído pelo center reserva Evan Boehm. Nesse caso, não só a qualidade na proteção do passe caiu para níveis “humanos” (Luck sofreu 6 sacks no período, interrompendo a sequência recorde desde 1991), bem como o jogo terrestre dominante teve uma queda de desempenho – o ataque registrou 118 jardas corridas contra os Dolphins, 41 contra os Jaguars e 50 contra os Texans.

No retorno de Kelly contra os Cowboys, não somente Luck não voltou a ser derrubado como também o ataque terrestre registrou 178 jardas contra a defesa de Dallas, uma das melhores parando a corrida até então.

O time que venceu nove dos últimos dez jogos na temporada regular tem uma identidade claramente definida por dominação nas trincheiras, podendo controlar a posse de bola com jogo terrestre à vontade se estiver com sua linha ofensiva titular completa. Além disso, os Colts contam com um Quarterback que já se mostrou competente o bastante para ganhar jogos quando não tinha nenhum desses fatores para o ajudar. Na rodada de Wild Card dos playoffs essa receita se mostrou mais fatal que nunca para o Houston Texans, que não mostraram a menor resistência, mesmo tendo bastante talento na defesa.

A partida de Wild Card

Impulsionado por uma linha ofensiva no ápice de seu jogo na temporada e de um excelente plano de jogo por parte do técnico Frank Reich, Marlon Mack atingiu a melhor marca de sua carreira com 148 jardas terrestres contra o Houston Texans. Assim como na partida anterior contra os Titans, dois touchdowns nas duas primeiras campanhas da partida ajudaram a ditar o ritmo da partida e permitir com que os Colts controlassem o adversário com jogo terrestre.

Quenton Nelson, que dispensa apresentações, e fizemos questão de destacar o início complicado de carreira que teve, teve partida fenomenal. O calouro First Team All-Pro colecionou pancakes ao longo da partida (e da temporada, como indicado pelo ex-jogador de linha ofensiva Brian Baldinger, no twitter). Para observar tamanha dominação por parte da linha ofensiva dos Colts, vamos analisar algumas jogadas.

No início do jogo, as conversões de terceira descida foram importantes para ditar o ritmo de ataque. Os Colts converteram 7 de 7 tentativas antes de chutarem o primeiro punt. Na primeira tentativa, Luck tem um pocket limpo para completar um passe de 12 jardas para T.Y. Hilton e mover as correntes.

A linha defensiva dos Texans tenta atacar com o mesmo stunt que os Colts teve problema para parar no início da temporada, mas dessa vez o resultado é totalmente diferente. De Glowinski (#64) para a esquerda, todos os jogadores fazem a técnica de slide protection para este lado da linha para compensar os stunts e manter o pocket limpo. Luck mantém-se no ponto de proteção até que Hilton vença o duelo contra o marcador.

A jogada acima, do segundo drive dos Colts na partida, é um exemplo de como Frank Reich usa misdirection para criar situações favoráveis para o ataque. Chester Rogers é visto em motion pré-snap carregando um Safety para longe da direção em que ocorrerá a jogada.

Corrida em pull, com Quenton Nelson e Ryan Kelly sendo os leading blockers abrem caminho para uma corrida de 25 jardas de Marlon Mack. Pela câmera lateral da All-22. Podemos perceber que a movimentação pré-snap é essencial para permitir tamanho ganho. O safety acompanha a movimentação de Chester Rogers e o snap sai no momento em que o camisa #80 passa pelas costas de Luck.

O camisa #20 dos Texans não acompanha a movimentação até o fim, mas é tarde demais para que o mesmo possa reagir na jogada e evitar a big play. Excelente chamada e play design por parte de Frank Reich, bem como a execução por parte dos jogadores.

Agora a jogada que colocou o placar em 14 a 0 para os Colts, praticamente selando um domínio absoluto do time na partida. Corrida sweep para a esquerda da tela. Dessa vez, o TE Eric Ebron (#85) sai em motion novamente tirando o Safety Justin Reid (#20) da direção da corrida.

Aqui cabe a explicação de que a corrida sweep é um tipo de jogada em que o corredor atravessa a linha executando o bloqueio em uma determinada direção, enquanto o lineman da ponta bloqueia o edge rusher com um movimento no sentido oposto à direção da corrida, servindo de “âncora”, permitindo com que o corredor “vire a esquina”.

Mo-Alie Cox (#81) é o âncora da linha, enquanto Ebron se movimenta em motion para que fiquem apenas 3 defensores do lado do campo em que a corrida vai se desenvolver. Observe no decorrer do gif que quatro jogadores da linha ofensiva dos Colts se deslocam para aquele lado.

Nesse caso, a jogada é tão bem executada que Marlon Mack além do caminho que tomou, poderia ter escolhido o gap aberto entre Quenton Nelson e Ryan Kelly, conquistando o TD sem ser tocado.

  • Diego Vieira acredita que está vivendo um sonho ao ver a OL dos Colts jogar nesse nível.

O inferno de Cody Parkey e a lenda de Nick Foles

No clássico da literatura A Divina Comédia, Dante Alighieri descreveu os nove círculos do inferno, descendo de Jerusalém até, em uma linguagem moderna, o colo do capeta – naquela época, só existiam três continentes conhecidos (Europa, Ásia e África), e Dante imaginou que no polo oposto a Europa, algo como 43 jardas distante, estava a ilha do purgatório, que estaria ligada ao inferno por uma passagem aberta após a queda de Lúcifer.

É bem provável que Cody Parkey tenha passado pelos noves círculos enquanto seu chute percorria aquelas pouco mais de 40 jardas. Um chute que bateu em uma trave, beliscou outra caprichosamente, matou o mascote do Bears, transformou companheiros de time que estavam na sideline em memes e, bem, fez Nick Foles mais rico.

Um chute capaz de retratar a angústia de uma torcida que não participava dos playoffs desde 2010 – algo ainda mais dolorido para uma franquia que terminou a temporada com 12 vitórias, seu melhor ano desde o distante 2006.

O mais cruel é que não havia ninguém mais apropriado que Parkey para ser protagonista do destino escapando pela ponta das mãos – ou, bem, pela ponta dos pés: em novembro, Cody havia acertado a trave quatro vezes em um duelo contra o Lions (e mesmo assim o Bears venceu). Na última semana da temporada regular, Parkey carimbou a trave contra o Vikings mais uma vez (e, novamente, o Bears venceu).

Não se flerta com o perigo três vezes. E se há algo que a sabedoria popular (e um técnico de futebol multicampeão) foi capaz de cunhar para a eternidade é o fato de que “a bola pune”.

Um futuro para chamar de seu

Na estreia da temporada afirmamos que se a então improvável derrota do Bears diante do Packers era fruto de uma série de decisões no mínimo questionáveis de um HC em sua primeira temporada e um QB de 24 anos, ao mesmo tempo era evidente que após anos sofrendo nas mãos de gente como Jay Cutler e John Fox, Chicago enfim tinha um sistema ofensivo criativo e moderno. E que melhores dias para a defesa do Bears, com Khalil Mack, Leonard Floyd e Roquan Smith cada vez mais entrosados, eram mera questão de tempo.

Foi assim na rodada de Wild Card: assim como ao longo do ano, Chicago apoiou-se na melhor defesa da NFL para se manter com chances. Foles fez ótimas jogadas em momentos cruciais, mas de uma forma geral, o sistema comandado por Vic Fangio conseguiu manter o Bears no jogo – Nick foi interceptado duas vezes e o jogo terrestre do Eagles beirou o ridículo.

Para o futuro, porém, é preciso ficar de olho no questionável desenvolvimento de Trubisky, que pareceu melhor em seu segundo ano sob o comando de Matt Nagy, mas, algo normal, nunca soou 100% confiável. Vez ou outra, sua capacidade de fazer boas jogadas, ler coberturas e escapar de um pocket em colapso estão lá, mas nunca de forma totalmente consistente – hoje, para classificar Trubisky como um sucesso, seria necessário mais do que Parkey acertar um FG de 40 jardas.

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Já sobre a defesa em si, é preciso voltar no tempo para compreender o quão  complexo é os motivos que levam Chicago a ambicionar um “sistema defensivo” eficiente mais do que outras franquias – mesmo que outras equipes tenham em sua história defesas fantásticas, como lendária “Cortina de Ferro” dos Steelers, o Ravens do final dos anos 90 ou mesmo o Denver Broncos vencedor do SB 50.

De qualquer forma, na história, para o Bears, todos os seus grandes momentos ainda vivos na memória tiveram como pano de fundo uma grande defesa – seja ao vencer a NFL pré-Super Bowl em 1963 ou no histórico time de 1985, que também levantou o troféu, e é por muitos considerado a melhor defesa de todos os tempos; o Bears sempre sentiu que defender era o melhor caminho e moldou sua identidade a partir disso.

“Pode ser diferente em Indianápolis ou Green Bay, onde a torcida quer ver Aaron Rodgers lançar touchdowns. Aqui simplesmente querem nos ver defender”, declarou recentemente o ex-CB Charles Tillman.

Para 2019-2020 Chicago precisará fazer escolhas, que podem não ser suficientes para manter o CB Bryce Callahan e o S Adrian Amos, ambos free agents na próxima intertemporada – mesmo assim, perdas são normais na NFL. Mas a maior mudança no setor pode não estar em um jogador: o DC Vic Fangio fez um trabalho tão eficaz que é cotado como um dos nomes para se tornar HC na próxima temporada; perdê-lo, porém, pode ser um golpe duro no principal sistema defensivo da NFL.

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Mas mesmo que Fangio fique a história nos mostra que é improvável que a defesa de Chicago repita o mesmo desempenho monstruoso; quando se está em um nível sobrenatural é normal dar um passo atrás; lembre-se da própria defesa do Bears de 85, ou ainda do Jacksonville Jaguars de 2017 (agora comparada ao desempenho um pouco mais fraco em 2018).

Aqui note uma possível (futura) semelhança: Jacksonville terminou 2017 como a melhor unidade em DVOA – eles foram ainda mais eficientes que o Bears de 2018. Na temporada atual, porém, o Jaguars caiu para a sexta posição nesta mesma métrica e, como o ataque não compensou essa oscilação natural, não foi possível equacionar o desempenho: de certa forma, Blake Bortles foi um obstáculo que a defesa do próprio Jaguars não foi capaz de superar. E com base naquilo que Trubisky apresentou ao longo da temporada, se tornar o Jacksonville de 2018 pode ser o maior pesadelo que o Bears pode ter em 2019.

De qualquer forma, em um cenário mais adequado a realidade de Chicago, volte ao já citado Broncos de 2015-2016. Mas mesmo assim, após anos sofrendo com Fox e Cutler, ao menos agora há algo a se apegar: em setembro, quando Mack, Floyd e Smith se alinharem no Soldier Field em uma tarde fria de domingo, a história de Chicago estará novamente em seu lugar – basta não deixá-la desaparecer após duas décadas procurando o que fora perdido.

A lenda de Big Dick Nick

Quando Nick Foles derrotou Tom Brady e se tornou o herói improvável do último Super Bowl, você achou que havia acabado. Mas ele fez de novo, e mais uma vez manteve o Eagles vivo em uma temporada que parecia perdida. E, claro, você pode chamá-lo de MVP, Big Dick Nick ou simplesmente de Foles, mas seja qual a nomenclatura escolhida, é hora de reconhecer que ele é muito bom em vencer jogos de football realmente importantes – ou que simplesmente estejamos diante de alguém com poderes concedidos por alguma entidade celestial; talvez esta seja a opção mais lógica.

Mesmo assim, antes de Parkey esbarrar na trave pela sexta (ou sétima, se você for alguém extremamente cruel) vez no ano, e o próprio Foles encontrar Golden Tate na endzone, Nick vinha em sua atuação menos impressionante desde que decidiu se tornar uma lenda; foram 25 passes completos em 40 tentativas, 2 TDs e 2 INTs (a primeira vez desde 2015) e, também pela primeira vez em suas aventuras de janeiro, um rating inferior a 100 (77.7).

Mesmo assim, quando Philly recebeu a bola com pouco menos de 5 minutos no relógios, os torcedores do Eagles dirão que não duvidaram dele por um segundo sequer – eles, claro estarão mentindo.

Quando o ataque chegou a beira da endzone, agora, qualquer analista de obra concluída, pode cravar que era óbvio que Darren Sprolles não chegaria ao paraíso em suas duas corridas. A terceira tentativa também foi em vão e, quando Doug Pederson usou seu primeiro timeout, praticamente implodindo qualquer possibilidade de ter a bola novamente se tudo desse errado, não parecia existir outra alternativa além de uma nova Philly Special. Mas, claro, não importa mais como, Nick encontrou Golden Tate e mais US$ 1 milhão na sua conta.

Mas sua atuação não acabou aí: quando Parkey chutou a bola, de alguma forma, Foles a moveu com os olhos, provando que pode manipular o ar, o espaço ou mesmo tempo. Provando que pode, além de encontrar Golden Tate e derrotar Tom Brady, mover o eixo gravitacional da terra – e, de alguma forma, provando para o front office do Eagles e para quem mais diabos duvida que pode vencer dois Super Bowls em sequência.

A Louisiana é logo ali

Volte no tempo até 2013. Lá, por dois meses, Foles foi o quarterback mais eficiente da NFL. Mas até encontrar Brady e os Patriots em fevereiro passado, tudo acabara ali e Nick, em geral, transitou entre (e abaixo da) linha da mediocridade.

Hoje é irônico ver que o Eagles precisou abrir mão de uma caminhão de escolhas para selecionar Carson Wentz, torná-lo o presente e o futuro da franquia, para ter um backup que eles já haviam descartado os levando para o Super Bowl.

E embora é possível (e muito provavelmente o mais lógico e sábio) que Wentz seja o escolhido para guiar o Philadelphia Eagles pelo futuro, é Foles que tem o amor e a gratidão da Filadéfila – agora imagine o que acontecerá com ele caso consiga repetir o mesmo roteiro de 2018.

Além disso, Foles é um herói improvável porque sua personalidade não pede que ele seja. No próprio Eagles há jogadores muito mais talhados a esse papel – do próprio Wentz, jovem e promissor, a Chris Long ou mesmo Malcom Jenkins, muito mais ativos no vestiário; há ainda Fletcher Cox, indiscutivelmente um dos melhores nomes da sua posição em toda a NFL.

Foles, por outro lado, não nasceu para os holofotes. E, de certa forma, nas últimas décadas, Philadelphia teve inúmeros quarterbacks talentosos que poderiam ter vivido a glória: Randall Cunningham, Donovan McNabb e, mais tarde, Michael Vick. O próprio Wentz, é provável, ainda terá tempo para brilhar. Mas, bem, a verdade é que agora é Nick Foles quem está em um avião a caminho de New Orleans – e, mesmo que pareça improvável, não seria prudente duvidar dele.

Cleveland, Joe Thomas, LeBron e Mayfield: uma nova (velha) cidade 635 dias depois

O que você faz em 635 dias?

Não existem canções de amor para Cleveland – ou, se elas existem, bem, não conhecemos. Mas não é como se ela precisasse de sua própria versão para “Sweet Home Alabama”.

Cleveland está no meio do nada, as margens do Lago Erie, em algum lugar entre a Pennsylvania, Michigan e Indiana; como quase tudo nessa vida, claro, localização é mera questão de perspectiva. Não que um estrangeiro não consiga se apaixonar por ela; é calma e aconchegante, diferente dos grandes centros dos EUA. Mas também vazia: desde 1950, a cidade perdeu mais da metade de sua população.

Cleveland agora está em uma encruzilhada entre passado e futuro: andar por suas ruas é como visitar décadas diferentes. Você vê pessoas em esquinas tentando se esconder do frio e, três quarteirões depois, está em um típico bairro de algum subúrbio norte-americano de classe média. E se o centro é limpo e agradável, repleto de vida, normalmente orbitando seus hospitais – a cidade, inegavelmente, é referência em saúde –, a leste, a poucos passos dali, você entra em um deserto pós-industrial.

Cleveland está para baixo”, conta-me um morador de rua, que vive próximo ao First Energy Stadium, casa do Cleveland Browns. “Só quero voltar para Chicago”, continua, antes de me mostrar a direção correta.

someone sed i should write

something constructive

about east cleveland”

Turistinha procurando clichês.

Literatura

Darryl Allan Levy (d.a. levy) morava próximo ao rio Cuyahoga, que desaguá no Lago Erie. Ele olhava pela janela e via a ponte Lorain-Carnegie e os “Guardians of Transportation”, esculturas que dão vida àquela passagem. Ele via Cleveland como ela era, mas sempre a imaginava além, queria mais para sua cidade.

Diariamente escrevia seus próprios poemas e, depois, caminhava sobre a ponte – mas ninguém que o via ali conseguiria imaginar que Levy se tornaria uma figura central na contracultura de Cleveland e, como consequência, seria alvo da polícia graças a sua literatura “subversiva”.

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Em 1964, Levy passou uma temporada em Nova York, lendo sua poesia pelos cafés da cidade, mas sempre se queixara do espírito cosmopolita da cidade: “Quase odeio aqui – quero a Cleveland confortável, sofisticada e indiferente”, escreveu a um amigo.

Queixava-se que a cidade que amava não era representada como merecia na literatura; falava sobre Sandburgh, Crane e Williams e como Chicago ou o Brooklyn tinham grandes obras literárias.

Por isso, provavelmente, escreveu “Cleveland Undercovers“, repleto de alusões aos naufrágios no Lago Erie, ao Assassino do Tronco, famoso serial killer que assombrou o estado de Ohio na década de 30, ou ainda profanando Moses Cleaveland, fundador da cidade. Levy é a versão beatnik de Ohio, que o ungiu, da mesma forma que Jack Kerouac e Allen Ginsbergm, a porta-voz de uma juventude que se rebelava para quebrar antigos costumes.

Roteiro fácil, claro, o apreço pela maconha e pelo LSD fez de Levy um alvo da polícia. Em 1966 ele foi indiciado e no ano seguinte acabou preso, sob a acusação de “contribuir com a delinquência”; ele havia permitido que menores de idade lessem seus poemas, permeados por sexo e drogas, algo considerado obsceno na época.

Sua prisão colocou Cleveland no centro de uma discussão nacional e nomes como o próprio Ginsberg e Gary Snyder (vencedor do Pulitzer em 1975) sairiam em sua defesa. Mas Levy nunca se recuperou do episódio e em 1968 confidenciou a vários amigos que deixaria a cidade. Em 24 de novembro daquele mesmo ano, ele se suicidou.

Cleveland, eu dei-lhe

os poemas que ninguém nunca

escreveu sobre você

e você não me deu

NADA”

Há ainda muito de seus poemas naqueles que vivem em Cleveland: você a ama, não quer deixá-la, mas ela não consegue lhe oferecer nada em troca. Então, caso insista em ficar, você precisa se apegar a algo e, bem, só existem três opções. Mesmo que elas teimem em lhe maltratar.

Algo a se apegar: basquete

Na offseason de 2010, LeBron James fez tudo errado. Hoje ele sabe disso. Sua quase cidade natal ligou-se a ele, mas ele decidiu cortar essa ligação da pior forma possível para que o rejeitassem com tanta força que James acabaria em um limbo, uma fadiga mental e física, da qual ele só conseguiria sair mais de um ano depois, durante as finais da NBA de 2011 – para então conquistar seus dois primeiros títulos.

Mas ele nunca se esqueceu do que aconteceu e, no fundo, sempre quis ser perdoado. Quatro anos depois, na offseason de 2014, o roteiro já estava escrito – e ele não se transformou em um reality show televisionado, como em 2010.

James não disse uma palavra. LeBron sequer insinuou algo ou especulou sobre sua decisão: ele a anunciou em um misto entre declaração de amor e pedido por perdão. E então voou para o Brasil assistir a Copa do Mundo.

Logo no primeiro ano, Cleveland retornou as finais da NBA, mas parou no Golden State Warriors. Há uma frase de David Blatt, técnico do Cavaliers na época, capaz de sintetizar o sentimento da cidade em relação aos esportes: “Estamos em Cleveland: nada é fácil por aqui”.

Mas no ano seguinte, LeBron e o Cavs recuperaram um déficit de três jogos para derrotar o mesmo Warriros e dar um título a cidade após 52 anos.

Quando retornou, James escreveu:

“Antes de qualquer um se importar com o lugar onde eu iria jogar basquete, eu era só um garoto do noroeste do estado de Ohio. Foi lá que eu andei, corri e chorei. É onde eu sangrei. É um local que tem um lugar especial no meu coração. As pessoas lá me viram crescer, eu quero dar a eles tanto quanto puder. Quero inspirá-los quando eu puder. Minha relação com o noroeste de Ohio é maior do que o basquete”.

É mais simbólico do que pode parecer e é provável que você só compreenda quando passar por Cleveland. “Meus primos, por exemplo, foram embora de Cleveland. Talvez como LeBron fez, agora eles possam pensar um dia em voltar”, me confidenciou um atendente de um Starbucks no caminho para a Quick Loans Arena, em novembro de 2017 – horas antes do Cavs vencer o Pistons pela temporada regular da NBA.

Destino: felicidade.

Kyrie Irving acabara de partir para Boston; a outra estrela do Cavs também havia recém deixado a equipe. Pergunto como a cidade lidara com um novo abandono. “Se James aprendeu ao partir, nós também: não temos nenhuma mágoa e, bem, lembra daquele arremesso no ano passado?”, diz o jovem, ao relembrar a cesta que garantiu o primeiro título para a franquia. Como já dissemos, a relação da cidade com o esporte, vai além de qualquer simbolismo tangível para aqueles que não estão lá.

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Antes de sair, relembro a conversa com o morador de rua e confesso que gostei mais de Cleveland do que de Chicago, por onde havia passado dias antes – ele se assusta, e pergunta se eu poderia viver ali.

Claro”, respondo. “Bom, não é uma cidade moderna, normalmente é cinzenta, mas você não verá trânsito e o aluguel é barato. Então não descarte essa possibilidade”, disse ele, antes de se despedir.

Algo a se apegar: football

Você pode não acreditar, mas nas ruas de Cleveland, existe apenas uma pessoa tão respeitada como LeBron James: não é absurdo cravar que a devoção por Joe Thomas está no mesmo patamar. E para entender essa relação, é preciso voltar para 2007: LeBron perderia sua primeira final da NBA naquele ano, mas o Browns tiveram aquela que continua sendo sua melhor temporada na última década.

Cleveland venceu 10 partidas no ano de rookie de Joe Thomas e ele foi ao Pro Bowl pela primeira vez na carreira (ele seria selecionado para o jogo das estrelas em todas as temporadas entre 2007 e 2016). Parecia o desenho de anos promissores, mas o Browns entrou em um espiral de disfunção e desde então foram seis HCs, uma infinidade de OCs e, bem, se contamos direito, 21 quarterbacks iniciando uma partida como titular até o último TNF contra o Jets.

Voltando a Joe Thomas, é difícil expressar o que um LT pode representar para uma organização – a dimensão dos feitos na posição raramente são mensurados por números, mas mesmo assim, Joe conseguiu quebrar essa barreira; ele esteve em campo em todos os snaps até uma lesão (posteriormente) encerrar sua carreira. Ele foi ao Pro Bowl em todas as temporadas que completou. E ele nunca deixou Cleveland.

“Hoje entendo LeBron, claro, mas Joe nunca foi embora: ele nos escolheu”, me conta o vendedor da loja oficial do Browns no First Energy Stadium. “Bem, é óbvio que Jim Brown é o maior jogador da história do Browns – não por acaso há uma estátua dele logo ali. Mas mesmo assim, era outra época, uma época em que mesmo o Cleveland Indians havia vencido poucos anos antes, então é difícil expressar o quanto amamos Joe”, continua.

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Em 10 anos, Joe viveu apenas uma temporada com mais vitórias do que derrotas. Seu maior feito, porém, não está dentro de campo: Joe conseguiu ensinar para uma cidade que esporte é muito mais do que vencer; é sobre querer estar onde se está e, por mais difícil que pareça, ser alguém a quem é possível se apegar enquanto a maré não acalma é tão representativo quanto qualquer troféu.

Ame este homem.

Novos ventos

O que você faz em 635 dias? Nesse período o Cleveland Browns perdeu. Mas no TNF da semana 3 desta temporada, Baker Mayfield deu ao Browns algo que ele não tinha há 635 dias: uma vitória.

Substituindo Tyrod Taylor após uma concussão, a primeira escolha geral do draft de 2018 explodiu uma vantagem de 14 pontos do New York Jets contaminando o estádio com um sentimento até então distante: esperança. E inspirando torcedores ao redor do PLANETA a torcer por um franquia até então motivo apenas de COMPAIXÃO.

Ao final de seu primeiro drive, Mayfield já tinha mais jardas do que Tyrod Taylor havia conseguindo em praticamente dois quartos – ele terminaria a partida com 17 passes completos em 23 tentativas para 201 jardas. Assim que Baker pisou em campo, parecia que o Browns havia desbloqueado diversas jogadas antes travadas em seu playbook – ele simplesmente era capaz de fazer o que Tyrod não conseguia.

O cenário em que tudo isso ocorreu dificilmente seria pensado por um ótimo roteirista especialista em CLICHÊS: jogo transmitido nacionalmente, três escolhas de primeira rodada do último draft e, bem, um running back correndo entre o estádio e o hospital enquanto esperava o nascimento de seu primeiro filho – no dia do seu aniversário.

Tudo é épico na vitória comandada por Mayfield: ele levou a equipe a um FG na primeira campanha, recebeu uma conversão de dois pontos ao final do terceiro quarto para empatar a partida e viu o então futuro pai, Carlos Hyde, anotar o TD da vitória.

Direto do túnel do tempo.

O caminho até ali

Nos primeiros 28 minutos de partida Cleveland foi o que havia sido nos últimos anos: uma equipe apática. O ataque estava imóvel enquanto Tyrod Taylor lutava contra sua própria incapacidade (foram quatro passes completos em 14 tentativas) e a de seus companheiros – Antonio Callaway deixou um TD fácil escapar e o jogo corrido simplesmente não fluía.

Para tornar tudo ainda mais cruel, Isaiah Crowell, ex-Browns, anotou dois TDs – no segundo, moleque travesso e rancoroso (rancor, o sentimento mais belo que um ser humano pode cultivar e alimentar), limpou-se com a bola e atirou na arquibancada.

Mas logo depois Taylor precisou sair de campo e, com 1 minuto e 23 segundos no relógio, Baker entrou em campo disposto a interromper anos de sofrimento.

Dilly dilly!

Após a vitória, Joe Thomas perguntou a Mayfield onde ele encontrara confiança para jogar, já que não havia treinando como titular durante a semana. “Por mais engraçado que isso possa parecer, foi assim minha vida inteira”, respondeu, antes de perguntar. “Os bares ainda estão abertos? Dilly dilly!”, disse, se referindo a promessa de cerveja gratuita em caso de vitória dos Browns.

Na última quinta-feira, Baker não ganhou apenas um jogo, ele ganhou o direito de construir sua própria narrativa na NFL – assim como já havia feito em sua carreira universitária, onde escreveu sua história semana após semana. Mayfield não apenas derrotou os Buckeyes em Ohio; eles os derrotou e cravou a bandeira de Oklahoma em pleno Ohio Stadium.

Ele não apenas conquistou a titularidade em Texas Tech em seu primeiro ano; ele o fez e então se transferiu para Oklahoma, não apenas inspirando pessoas a fazerem camisas o criticando – ele as comprou para vestir. Mas como o próprio Baker disse após o jogo: “Passado é passado. Você precisa apertar o botão de reset e dar o próximo passo em frente”.

Agora não importa mais se Cleveland teve um dos maiores jogadores da história do basquete (e indiscutivelmente o melhor de sua geração) por 10 anos e o transformou em apenas um título. Não mais importa se Cleveland teve o melhor OT da história da NFL e não conseguiu nada além do que transformá-lo em um símbolo para cidade. Na última quinta-feira, tudo valeu a pena, afinal, 635 dias depois, Cleveland bebeu cerveja de graça.

Análise Tática #28 – Semana 2, 2018: Patrick Mahomes e a nova dimensão do ataque dos Chiefs

Mais uma semana de temporada regular nos livros (traduções literais) e a análise tática deste maravilhoso sítio vem novamente destrinchar a posição mais chamativa do jogo: Quarterback. Dessa vez falaremos sobre o início avassalador de Patrick Mahomes no Kansas City Chiefs.

Patrick Lavon Mahomes II, vindo de Texas Tech, talvez seja o principal personagem gunslinger do início da temporada. Após passar seu ano de calouro na NFL como redshirt (jogou apenas pré-temporada e na semana 17), o segundanista começou o ano com um desempenho inacreditável, colocando-o ao lado de nomes como Peyton Manning, Tom Brady e Ryan Fitzmagic™ (por que não).

Após os 10 touchdowns em dois jogos (quatro na semana 1 contra os Chargers e 6 na semana 2 contra os Steelers) é impossível não se impressionar com o desempenho do jogador. Mahomes tem como estatísticas totais (atentando ao baixo espaço amostral) 38/55 passes (69.1%), 582 jardas aéreas, 10.6 jardas por passe, 10 TDs e nenhum turnover.

Traduzindo esses números para termos de estatísticas avançadas, Mahomes tem incríveis 13.65 ANY/A (qualquer número acima de 7 é considerado bom). Segundo o Pro Football Focus, Pat teve 235 pass-DYAR (Defense-Adjusted Yards Above Replacement). Suas atuações contribuem para que os Chiefs sejam o segundo time em DVOA na temporada, com 59.4%.

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Dada tamanha produção tão cedo, é natural esperar que de certa forma haja uma queda ao longo do ano. Mahomes na prática é um calouro, então será normal ver o Quarterback lançar algum passe duvidoso que gere alguma interceptação que não deveria acontecer.

Além disso, é evidente que as boas atuações dos Chiefs se deram por outros fatores que a atuação do jovem QB, mas como a posição era o principal ponto de interrogação de Kansas City na temporada, é impossível não se impressionar. Antes que a regressão à média inevitavelmente ataque o jogador, vamos curtir o desempenho de Mahomes analisando o tape das melhores jogadas de pontuação dos Chiefs nas duas primeiras semanas.

KC 7-3 SD. Q1 7:12. 2nd & 4 em KC42

Na primeira jogada da análise, vemos um exemplo de como Mahomes tomou uma decisão rápida com o pocket colapsando à sua frente.

Kansas City alinha-se em uma formação com indicação pesada para uma possível corrida para o lado esquerdo da defesa, enquanto Tyrek Hill sai em motion. Dada essa situação, os jogadores indicados em vermelho serão as iscas, enquanto Hill tem a sua frente um defensor marcando em zona, que o passará para o Safety caso Hill vá em profundidade. Como o pocket colapsa pelo A-Gap, toda essa leitura precisa ser de forma rápida, e Mahomes solta a bola com uma mecânica meio questionável (repare na postura torta dos braços).

O fator força no braço é determinante na jogada, e Mahomes consegue conectar o passe no triângulo entre os jogadores circulados em vermelho. A partir de então, a responsabilidade toda é de Tyrek Hill em vencer os adversários em velocidade e disparar à endzone.

KC 24-12 SD. Q3 1:20. 1st & 10 em LAC36

A segunda etapa é outro exemplo de como os Chiefs partiram de uma formação com desenho pesado de corrida para rotas espalhadas pelo campo. Essa foi uma forma de Andy Reid fazer com que a velocidade de seus skill players se sobressaísse a partir do momento em que todos eles cruzassem a linha de scrimmage.

Os Chiefs partem para um four verts, enquanto os Chargers respondem com um Cover 4 na secundária. A chave aqui é a formação pesada, fazendo com que os defensores precisem compensar alinhando um pouco mais para a região das hashmarks.

O jogador circulado em vermelho será a isca, enquanto todos os demais, defendendo rotas go, terão jogadores para observar. Por causa disso, nenhum dos jogadores em zona no fundo do campo é capaz de dobrar a marcação em cima de Tyrek Hill, que ao já sair em velocidade da linha de scrimmage, vence com facilidade seu marcador.

No momento do passe, Hill ainda está atrás do marcador, mas Mahomes vê por antecipação e cálculo de velocidade a vantagem no duelo, e lança um passe no ponto futuro da rota, quase próximo à linha lateral. Tyrek mantém o equilíbrio e continua dentro de campo, indo para o segundo TD de deep ball dos Chiefs na partida da primeira rodada.

KC 0-0 PIT. Q1 13:26 2nd & 15 em PIT15

Agora vamos para a segunda partida da temporada, mostrando como John Keith Butler e Mike Tomlin “ajudaram” Andy Reid no trabalho de fazer o talento de Mahomes se sobressair. Em todas as jogadas da partida da segunda semana, temos o ponto em comum: o uso da seam.

Ao contrário dos exemplos anteriores, essa jogada tem apenas uma rota em profundidade, que atacará o espaço vazio. Reparem que o safety single-high está um pouco deslocado para o lado superior da imagem. Esse offset no posicionamento gera o espaço vazio marcado com o polígono, que será atacado pela rota seam.

As demais rotas da jogada são usadas para prender marcadores à linha de scrimmage. Os recebedores externos adotam posições de screen-pass, enquanto o slot receiver faz o melhor método de quebra de marcação possível: ELE SIMPLESMENTE CATA UM CAVACO BONITO NA JOGADA, EXECUÇÃO 10/10.

Boa parte das leituras de quarterback a nível profissional baseiam-se na identificação de triângulos na defesa. A partir do snap, é exatamente essa leitura que Mahomes deve identificar. Geralmente, essa “progressão” ocorre a partir do Safety no fundo do campo (primeira identificação pré-snap), pelo marcador mais próximo ao recebedor, e ao marcador defensor mais próximo dos dois.

Essas leituras vão sendo alternadas ao longo do campo à medida que o QB avança em sua progressão. Alguns fatores como reação do jogador de defesa em relação ao movimento da jogada influenciam na leitura. O leitor deve estar pensando que é uma quantidade absurda de informação que o quarterback tem que realizar em até 2 segundos, o que justifica que os bons jogadores da posição recebem contratos milionários e por que esse tipo de atleta é o que mais faz diferença em um time em relação a todos os esportes coletivos.

Após essa explicação rudimentar da leitura triângulo do QB (detalhes mais avançados ficam para futuros textos, não vamos queimar tudo agora), observamos a marcação feita na figura, com os três defensores envolvidos na jogada. Um dos jogadores-vértices já passou o recebedor para seu companheiro no fundo do campo, mesmo sendo quase que impossível para o Safety reagir e defender o passe, dado espaço entre os marcadores. Recepção fácil no fundo da endzone.

KC 7-0 PIT. Q1 9:41 2nd & 8 em PIT19

O exemplo a seguir é semelhante ao segundo deste texto, em que os Chiefs utilizam uma formação com desenho pesado para corrida e rotas verticais para maximizar a velocidade dos recebedores contra a defesa. Aqui, Andy Reid incrementa o uso de motion para dar algumas pistas a Mahomes quanto ao tipo de marcação e identificação dos jogadores-chave.

Quanto à leitura-triângulo, Mahomes identifica o single-high mas precisa alterar um dos vértices do triângulo para o box-safety, já que o primeiro irá para o lado oposto da progressão. O recebedor principal é o TE Travis Kelce.

Ao contrário do exemplo anterior, a janela aqui é um pouco mais estreita, sendo necessário um passe mais alto para que Kelce leve vantagem na habilidade atlética.

O primeiro jogo do ano – e do resto de nossas vidas

Parecia que a temporada do Green Bay Packers duraria pouco mais de 20 minutos. Rodgers poderia ter sofrido uma séria lesão no joelho mesmo antes da metade do segundo quarto do primeiro SNF e, de repente, talvez estivéssemos vendo um dos maiores QBs de sua geração desperdiçar mais um ano de seu auge: quando Aaron Rodgers se dirigiu aos vestiários, qualquer apaixonado por football prendeu o ar e pensou “de novo”? E, bem, a expressão do Quarterback convergia com aquilo estávamos pensando.

Os próximos atos do roteiro indicavam o pior cenário possível para os torcedores do Packers: Green Bay seria triturado logo na semana #1, contra seu maior maior rival. Khalil Mack fazia o backup, DeShone Kizer, parecer uma criança indefesa assistindo a um filme de terror e, bem, ali mesmo já era claro que seria um longo ano se Kizer fosse o titular nas próximas semanas.

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Mack, ao respirar, MOVIMENTAVA O AR e transformava Kizer em um atleta amador (talvez ele seja isso aí mesmo e errado é quem espera algo diferente). Khalil logo conseguiu um sack, uma interceptação, forçou um fumble e anotou um touchdown em poucos minutos ou tudo no mesmo lance (se você estivesse dopado pelo medo, seria incapaz de distinguir): em pouco tempo, Chicago abria 17 pontos de vantagem no Lambeau Field pela primeira vez desde 1948.

Restava a nós, meros mortais, amaldiçoar o front office de Green Bay eternamente por ser incapaz de cercar Aaron por algum talento capaz de lhe auxiliar, e culpar Mike McCarthy (essa é fácil) por todos os seus crimes inafiançáveis contra o esporte (em breve uma lista própria sobre o tema).

Você já viu o que McCarthy é “capaz” de fazer com um time quando não tem um HoF QB ao seu dispor, e ninguém em sã consciência teria prazer em assistir uma continuação deste filme.

Um quase (não) retorno

Quando Aaron retornou no terceiro quarto, os Bears logo abriram 20 pontos de frente – e o quarterback claramente não estava saudável: ele se protegia, tentava permanecer dentro do pocket (o equivalente a uma tentativa de suicídio quando consideramos a OL de Green Bay) e alterava seu posicionamento para evitar sobrecarregar a perna esquerda.

Mas como o próprio Aaron Rodgers afirmaria na entrevista pós-jogo, para retornar a uma partida, basta “fazer algumas boas jogadas” – facilita, claro, quando se é Aaron Rodgers, e não DeShone Kizer. Não estamos falando de ciência aeroespacial aqui, afinal. 

Algumas jogadas depois, Aaron completou cinco passes em um drive, que terminaria com um FG de Mason Crosby; a vantagem do Bears voltava para 17 pontos, mas agora restavam apenas 15 minutos no relógio. Não era uma cenário necessariamente tranquilo. 

Mas quando o Packers recebeu a bola novamente, já no último período, Rodgers precisou de apenas seis jogadas – em quatro delas, ele encontrou Geronimo Allison para, na última delas, conseguir um touchdown de 39 jardas em que a bola FLUTOU EM UMA PARÁBOLA CELESTIAL, reduzindo o déficit para apenas 10 pontos. Convenhamos: ali, você já sabia o que estava por vir.

Um novo three-and-out de Chicago deu mais uma injeção de ADRENALINA ao Packers que, aproveitou a chance com uma conexão de 51 jardas para Davante Adams – que, três jogadas depois, anotaria o TD. Naquela altura, era evidente o colapso mental que rondava o Bears. Mesmo após marchar quase um campo inteiro, o time conseguiu apenas um FG, insuficiente para selar a vitória – a vantagem no placar era de apenas 6 pontos. 

Segundas chances

Pouco menos de três minutos e uma jogada que poderiam ter selado a partida. Logo na primeira tentativa, Kyle Fuller poderia ter interceptado Rodgers, mas dropou a pelota, em um lance aparentemente fácil para um atleta de seu nível.

Contra Aaron Rodgers, tudo que você pode pedir aos céus é uma chance para terminar a partida. Contra Aaron Rodgers, tudo que você não pode ceder, é uma segunda chance: duas jogadas depois, ele encontrou Randall Cobb no meio do campo – e Randall correu 75 jardas para a glória.

Cobb é inegavelmente quem tem mais méritos no sucesso dessa jogada específica – e também inegavelmente o sistema defensivo do Bears teve uma crise de caibrã mental naqueles segundos. Mas, mesmo que tentemos negar, desde o passe para Geronimo Alisson, um lançamento que nenhum outro ser humano poderia fazer, sabíamos o que os próximos minutos reservavam: após um início com apenas três passes completados em sete tentativas e uma lesão, Rodgers terminou a partida com 20 passes (em 30 tentados), para 286 jardas e três TDs – todos no último período.

Algo possível apenas para alguém capaz de fazer uma torcida inteira acreditar graças ao simples fato de estar em campo.

O outro lado

A então improvável vitória de Green Bay também é fruto de uma série de decisões no mínimo questionáveis de um HC em sua primeira temporada e um QB de 24 anos e apenas 13 partidas como profissional (além de uma dúzia delas em sua carreira universitária).

Durante a primeira etapa (e aqui se inclui o período com Rodgers em campo), o Bears expôs todas as fraquezas do sistema defensivo de Green Bay, tripudiando daquilo que parecia algo formado por torcedores sorteados antes da partida para trajar uniformes e entrar em campo: os RBs Tarik Cohen e Jordan Howard alinhavam no backfield, o OT Charles Leno abria espaços como se estivesse DANÇANDO BALÉ e Clay Matthews tinha como estatística a incrível média de “uma vergonha” por snap. 

Após anos sofrendo nas mãos de John Fox, Chicago enfim tinha um sistema ofensivo criativo e moderno. No fundo, o Packers só chegou com alguma chance ao terceiro período, porque o LB Blake Martinez era um pequeno sopro de dignidade dentre os “defensores”. Sim, Blake Martinez era o melhor jogador de Green Bay em campo. Leia novamente até acreditar.

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Mas com a mesma velocidade que essa sensação de que um novo ataque havia desembarcado em Illinois chegou, ela desapareceu. Durante todo o segundo tempo, Trubisky se limitou a procurar Cohen e Howard (Allen Robinson e Taylor Gabriel eram meros figurantes), sua confiança diminuiu e algumas oportunidades com recebedores livres foram desperdiçadas.

Claro, não se pode colocar toda a conta da derrota no jovem QB, e sua atuação nos dois últimos períodos tornam a decisão de Matt Nagy em uma jogada crucial, capaz de cravar um punhal em Green Bay, ainda mais questionável: em uma 3&1, com pouco menos de três minutos restantes, na linha de 14 jardas do campo de ataque, Chicago tentou um passe para Anthony Miller que acabou incompleto e resultou em um FG – naquela altura, o jogo estava 23 a 17 e, bem, já falamos sobre como essa história termina.

Nesse instante, a defesa do Bears já não era a mesma: Mack foi incrível nos dois primeiros quartos, mas esperar que ele mantivesse o mesmo nível por 60 minutos com apenas uma semana de treinos seria irreal – tanto que nos últimos períodos ele passou uma quantidade significativa de snaps na linha lateral e, quando esteve em campo, encontrou dificuldades para vencer o RT Byan Bulaga (que havia tido uma atuação trágica antes do intervalo).

Mesmo assim é evidente que melhores dias para a defesa do Bears, com Mack e Roquan Smith cada vez mais entrosados, são mera questão de tempo: tudo que aconteceu em Wisconsin são ótimos sinais a se apegar, sobretudo para uma franquia que precisava desesperadamente de novas perspectivas.

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E não há nada de errado em se agarrar ao “se”: “se” Fuller não tivesse dropado uma interceptação fácil, “se” Howard tivesse corrido aquela maldita jarda ou “se” Mitch enxergasse WRs livres, o Bears teria saído com a vitória.

Claro, não se vive de “se” (já diria o ditado: “se estivesse um rio aqui, eu estaria pescando, e não escrevendo merda“), mas há diversas novas possibilidades que valem a pena ter em conta quando olharmos os próximos passos do Chicago Bears em 2018.

Na primeira partida, porém, uma festa que parecia certa foi estragada. Mas foi estragada por uma dos melhores jogadores da história. Não há motivos para desespero: os dias de Chicago na NFC North podem (e devem) chegar em breve. Desde que, claro, Aaron Rodgers não consiga se apoiar em pé no Lambeau Field.