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Troféu Alternativo Pick Six #2: premiando aquilo que realmente importa

O ser humano é fascinado por premiações, não importa o quão relevantes elas sejam. Do Miss Universo ao vencedor do Prêmio Puskas, da final do BBB a eleição para síndico do condomínio, invariavelmente queremos contemplar alguém com um troféu, mesmo que imaginário.

Na NFL não seria diferente e passamos horas e horas discutindo ou mesmo procurando uma hipotética justiça em premiações definidas de maneira arbitrária – e diversas vezes um tanto quanto óbvias. Pensando nisso e inspirados na já tradicional premiação que os colegas do Bola Presa fazem para as bizarrices da NBA, a Pick Six Enterprises traz a segunda edição de sua premiação alternativa. Antes de conhece os vencedores, relembre as categorias.

TROFÉU WES WELKER: com ele premiamos o “melhor” drop da temporada e homenageamos o WR (indiretamente?) responsável por um dos melhores momentos de Gisele Bundchen na NFL. Além, claro, de estar no hall dos grandes drops que o SB já nos proporcionou.

TROFÉU SKIP BAYLESS: uma homenagem a uma das maiores metralhadoras de bosta que a imprensa norte-americana já produziu. Dá nome a este glorioso prêmio o cidadão que já afirmou que Manti Te’o seria o próximo Ray Lewis, que preferia RGIII a Andrew Luck, Josh Freeman a Cam Newton e, bem, vamos parar por aqui. Então o vencedor desta honraria é o integrante da dita “imprensa especializada” responsável por proferir mais asneiras ao longo da temporada.

Metralhadora de bosta.

TROFÉU MICHAEL FABIANO: ele é o guru do fantasy da NFL.com. Mas também já destruiu muitos sonhos dourados com suas dicas imbecis, então nada mais justo que o atleta que foi uma decepção na temporada de Fantasy Football levar para casa uma estatueta com o nome do mito Michael Fabiano.

TROFÉU SEXY REX(y) GROSSMAN: Rex Grossman deve ser o garoto propaganda do que é ser um quarterback medíocre: com menos de 50 partidas iniciadas, ele tem mais derrotas do que vitórias – e mais interceptações do que touchdowns. Mesmo assim, escorado por uma forte defesa, ele chegou ao Super Bowl XLI, quando silenciou os críticos com vitórias contra Seahawks e Saints nos playoffs – para logo depois voltar a realidade e ser destruído por Peyton Manning e companhia na grande decisão. Por isso o prêmio para melhor atuação de jogador irrelevante homenageia o ex-QB do Chicago Bears (e de mais uma dúzia de outros times).

TROFÉU BLAKE BORTLES: Blake é um dos reis da irrelevância, o cara mais clutch quando nada importa, possivelmente o único capaz de fazer três touchdowns nos seis minutos finais, quando seu time precisaria de meia dúzia, mas isso pouco interessa. Por isso o troféu que leva seu nome premia o verdadeiro MVP: o MVP DO GARBAGE TIME.

TROFÉU JIM KELLY: Kelly levou o Buffallo Bills a quatro Super Bowls seguidos. E perdeu todos. Nada mais justo que dar nome ao prêmio que agraciará o melhor jogador de time que só perde.

TROFÉU NOT COMEBACK PLAYER OF THE YEAR: sejamos honestos: o prêmio original, Comeback Player of The Year, é um dos mais sem sentido já criados pela NFL – não pela mensagem, claro, mas pelo simples fato de que todo ano três ou quatro jogadores merecem ganhar essa desgraça e raramente temos uma unanimidade. Então criamos o NCPOY, para premiar aquele ser que teoricamente teria um grande retorno, mas na verdade era melhor nem ter voltado dos mortos.

TROFÉU CRAQUE NETO: “Acabei de saber que o Ronaldo está trazendo o Seedorf para o Corinthians”. Mais não precisamos falar. E com esta honraria premiamos a maior besteira escrita ou falada por um integrante do Pick Six – acreditem: falamos muita besteira.

TROFÉU DAVE SHULA: Dave Shula nunca fez muita coisa para justificar um cargo como HC na NFL. Exceto, claro, ser filho de Don e irmão de Mike Shula. Tanto que quando chegou ao cargo e lá ficou por cinco longos anos alcançou uma gloriosa carreira em Cincinnati, com 19 vitórias e 52 derrotas. Por isso o troféu que premia o conjunto da obra de piores e mais bizarras decisões de um HC na temporada leva seu nome!

TROFÉU JAMARCUS RUSSELL: JaMarcus talvez seja o maior bust da história da NFL. Primeira escolha geral do draft de 2007 pelo Oakland Raiders, em três temporadas Russell deixou a liga com um recorde de 7-18, 18 TDs e 23 INT. Ah, a escolha seguinte a ele foi um tal de Calvin Johnson, mas não vamos falar sobre isso. De qualquer forma, a honraria que leva seu nome premia a escolha de primeiro round que em sua temporada de estreia provou ter potencial para se tornar um tremendo bust.

TROFÉU TRENT RICHARDSON: Trent chegou a NFL como terceira escolha de primeira rodada do draft e, sendo gentil, sua carreira se resume a corridas de três jardas seguidas por um tombo com a cara no chão. Além de um especialista na arte dos bloqueios, já que sendo o próprio bloqueio, ele era poupado do trabalho de bloquear. Para homenageá-lo, este troféu premia a decepção do ano – e, algumas vezes, da vida.

TROFÉU CHUCK PAGANO: Chuck Pagano foi um dos responsáveis por uma das jogadas mais ridículas da história da NFL (relembre este momento mágico). Por isso o troféu que premia a jogada mais imbecil da temporada leva seu nome!

Agora vamos aos vencedores da temporada 2018-2019

TROFÉU WES WELKER: Alshon Jeffery vs Saints – Divisional Round

O New Orleans Saints vencia por 20 a 14 já dentro do two-minute warning. E quando todos pensávamos que BIG DICK NICK iria cometer o crime mais uma vez, Alshon Jeffery, alvo em tese confiável do ataque dos Eagles, deixou a bola pipocar em suas mãos e cair no peito de Marshon Lattimore quase como quem passa o filho recém-nascido para um amigo ninar. Suficiente para sacramentar a eliminação e a presença nesta categoria do Troféu Pick Six.

Troféu Skip Bayless: Stephen A. Smith analisando o Los Angeles Chargers

Nada mais POÉTICO que o premiado do troféu Skip Bayless desta edição ser seu antigo “parceiro” de ESPN First Take, Stephen A. Smith. Claro que fizemos isso de propósito, pois valorizamos acima de tudo a NARRATIVA, e não  os FATOS. Embora os fatos também apontem para Smith analisando jogadores que não estavam mais no Chargers.

Troféu Michael Fabiano: Leonard Fournette

Fournette foi uma escolha top 5 overall em toda e qualquer liga de fantasy com o mínimo de bom senso. O que ninguém esperava era sua temporada absolutamente nula em um Jaguars em completa implosão. Leonard passou boa parte da temporada lesionado com direito a um retorno quando não valia mais nada, apenas para alimentar o ódio de quem o escolheu.

Troféu Sexy Rex(y) Grossman: Nick Mullens em como ganhar uma conta verificada

Antes da semana 9 contra os Raiders, ninguém conhecia Nick Mullens (e quem disser que sim, estará mentindo). Uma atuação com os seguintes números – 16/22, 3 TDs, 262 jardas – serviu para colocar o jogador de Southern Mississippi no radar da vida e do Twitter também.

Troféu Blake Bortles: Lamar Jackson no Wild Card

Em sua estreia nos playoffs, Lamar Jackson, nosso RB que sonha em ser QB emulou os melhores momentos de Blake Bortles. O Baltimore Ravens iniciou o quarto período perdendo por 23 a 3, após aproximadamente 16 FGs. Foi quando Lamar acordou e explodiu em busca da redenção: foram dois TDs no último quarto e o placar findou em (falsos) honrosos 23 a 17, sugerindo uma partida extremamente disputada.

O duelo, hoje conhecido como “Lamar Jackson no multiverso“, teve pedidos para que Joe Flacco assumisse o posto após o intervalo (quem viveu sabe). Gritos de desespero justificados, afinal, pressupõe-se que um QB saiba passar. Ou ao menos tente.

Troféu Jim Kelly: George Kittle em “quebrando recordes em jogos que não servem para nada”

Depois que Jimmy Garoppolo deixou este mundo e o experimento C.J Beathard (mano, esse cidadão nem nome de QB tem) não durou muito tempo, restou a George Kittle carregar o piano em San Francisco. 1336 jardas recebidas, recorde histórico para a posição, mas que ninguém viu acontecer. Apenas acreditamos que aconteceu por que está nos registros oficiais.

Troféu Not Comeback Player of The Year: David Johnson em “Esqueceram de mim”

Uma temporada como primeira escolha geral de fantasy football desperdiçada por conta de um PULSO QUEBRADO. Passada a decepção Michaelfabianesca, aparentemente Mike McCoy resolveu SE VINGAR simplesmente ignorando a existência de David Johnson enquanto seu QB novato Josh Rosen sofria com um time nojento, para a tristeza dos nossos alunos da quarta série. 

Troféu Craque Neto: 40% do site em “A neve é boa para o Colts”

Completamente empolgados e cegos pelo clubismo após uma vitória no Wild Card contra os Texans, nossa dupla de sofredores Diego Vieira & Rafael Baltazar já CANTAVAM VITÓRIA CERTA quando as notícias de que o jogo da rodada divisional contra o Kansas City Chiefs seria debaixo de neve. Não somente o ataque de Patrick Mahomes passou o carro por cima da defesa dos Colts, o ataque terrestre comandado por Marlon Mack aparentemente não embarcou para o Missouri, e jogo no Arrowhead Stadium ainda ficou marcado como o CANTO DO CISNE da carreira de Andrew Luck. Ainda dói. E vai doer por bastante tempo.

Troféu Dave Shula: Hue Jackson em “Hard Knocks”

Já diria o sábio: respeito se conquista. Hue Jackson decidiu ir por caminhos contrários quando resolveu ignorar todas as sugestões de seu staff durante o training camp simplesmente para mostrar QUEM É QUE MANDA. Não continuou mandando muito tempo, mas deixou memórias que jamais iremos esquecer.

Troféu Jamarcus Russell: Hayden Hurst

Não conseguimos justificar, afinal Hayden Hurst sequer existe. E assim nasceu a justificativa perfeita para o vencedor deste ano.

Troféu Trent Richardson: Kirk Cousins em “errado é quem esperava diferente”

3 ANOS 84 MILHÕES. 2 anos restantes, 56 milhões ainda por pagar. Depois de mandar uma previsão de 13-3 sem medo de ser feliz, o torcedor do Vikings e ex-membro da diretoria do site não vê a hora de que o contrato de Kirk Cousins acabe para que possa seguir sua vida fingindo que isso nunca aconteceu.

O QB com o primeiro contrato totalmente garantido da história da NFL, apesar disso, justificou a quantia no aspecto entretenimento: desde as atuações contra times de campanha positiva, as derrotas em primetime, até as discussões com colegas de equipe (Adam Thielen). Sabem os deuses da bola oval como, mesmo assim os Vikings ainda tinham chances de playoffs até o jogo em casa contra os Bears na semana 17, bastava vencer, mas quem depende de Kirk Cousins sabe o que acontece. E errado é esperar diferente.

Troféu Chuck Pagano: Bill Belichick colocando Gronk (in memoriam) como Safety na Hail Mary

Rob Gronkowski no fundo do campo para defender uma possível Hail Mary partindo da linha de 31 jardas do campo de defesa. Foi isso mesmo que Bill Belichick fez. O vídeo do lance fala por si.

Antes de sair relembre os vencedores da primeira edição!

New England Patriots e um passado sempre presente

Confesse: quando o New England Patriots venceu o coin toss na final da AFC contra o Chiefs, você sabia o que iria acontecer. Era tudo familiar demais para negarmos: mais um grande duelo, e ali estava Tom Brady, pronto para encerrar uma nova grande história em um dos jogos mais empolgantes da temporada – praticamente um novo clássico instantâneo na história de New England.

Novamente estávamos vivendo o final do Super Bowl LI; era, afinal, o mesmo roteiro. Tom e seus companheiros caminharam tranquilamente pelo campo (confesse: você sabia que qualquer 3&10 seria convertida com requintes de crueldade) e que tudo seria encerrado com um running back qualquer, falso-herói improvável, entrando na endzone. Com o New England Patriots o passado é sempre presente.

Eterno retorno

20 anos após início da era Brady-Bellichick, o Patriots segue destruindo sonhos. Mas claro, seria divertido ver Patrick Mahomes, inegável MVP desta temporada e provavelmente o jovem mais empolgante da última década a pisar em um gramado da NFL, enfrentar o Rams em busca de vingança após a derrota por 55 a 51 na semana 11.

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Mas para quem gosta de football, é preciso confessar: New England está longe de ser chato. Nós já o conhecemos – como citamos no início deste mesmo texto, eles insistem em repetir o mesmo roteiro – e, bem, odiá-los é, no fundo, um pouco divertido.

Veja: após vencer Kansas, Brady e Gronk atravessam os túneis do Arrowhead Stadium ao som de “Bad Boy For Life” enquanto avisam: “ainda aqui”. Odeio-os, mas mesmo que saibamos que o dia de Mahomes está próximo, são eles quem irão ao Super Bowl novamente.

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Inevitabilidade

Não era como se, de fato, acreditássemos que isso não aconteceria novamente – mas tantas vezes nesta temporada o Patriots parecia estar em dúvida, o que agora, como sabemos, não passou de mera estratégia para iludir os incautos: New England foi enxotado por Lions e Titans, marcou apenas 10 pontos em um Steelers em colapso, foi derrotado pelos restos mortais do Jacksonville Jaguars e, bem, você ainda não esqueceu o que houve em Miami.

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Foram cinco derrotas para times que não foram aos playoffs – e alguns deles passaram longe de sequer terem alguma chance de se aventurar em janeiro. Vez ou outra, Brady e Gronk pareciam zumbis – Gronk, aliás, teve sua pior temporada na carreira; foram apenas 682 jardas e 3 TDs em 13 partidas.

No mesmo lado da moeda, Brady também teve suas piores médias em jardas por jogo e rating desde 2014. Foi também seu menor número de TDs desde 2013 e o maior número de INTs desde o já distante 2011.

Mas por mais que você confie no “tempo” ele insiste em ser relativo. Tanto Brady quanto Gronk não precisaram ser “úteis” contra o Chargers (tem que acabar o Chargers!). Porém, quando o relógio parecia encerrar o ciclo diante do Chiefs, mais uma vez eles o controlaram: com menos de um minuto para o final do tempo normal, Brady lançou mais uma bomba de 25 jardas para colocar New England a poucos metros da endzone.

Já na prorrogação, uma nova conexão em uma 3&10 que colocou o Patriots à beira do paraíso. Três jogadas depois, eles carimbavam sua passagem para Atlanta. Aos 41 anos de Tom Brady, você achou que o tempo poderia nos salvar. Mas mais uma vez o tempo insistiu em não passar.

Quanto antes você aceitar, menor será a dor

Observar o Patriots na pós-temporada, ano após ano, é divertido porque nos ensina sobre o estado atual da própria NFL: dos quatro times que chegaram às finais de conferência, eles têm a pior defesa – em uma era em que se insiste  afirmar que sistemas defensivos vencem campeonatos. Pode significar tudo, mas normalmente, com New England, eles vão nos mostrar que isso não significa nada.

New England insiste em nos amedrontar em janeiro porque, diferente da maioria das equipes da NFL, eles não vivem o momento: enquanto todos tentam maximizar suas janelas, seja quando seu QB ainda está no contrato de rookie, ou mesmo construir algo ao redor de um astro defensivo, como o Bears pode se propor a fazer com Khalil Mack, ou ainda atirando para todos os lados em um claro “all-in”, como Saints e o próprio Rams fazem, o Patriots é a prova de qualquer janela de tempo.

De novo, e mais uma vez, eles derrotam o tempo: eles abrem mão de peças talentosas para não se comprometerem no longo prazo, trocam escolhas para acumular ainda mais escolhas quando sabem que, talvez, um atalho para o sucesso esteja no draft do ano seguinte – e não no “agora”.

E é assim que tudo funciona há 20 anos, desde que New England derrotou o finado St. Louis Rams no Super Bowl XXXVI, e é por isso que o Patriots vencerá o Rams: se há duas décadas Bill Belichick se aproveitou da inflexibilidade de um treinador menos experiente e parou Marshall Faulk, nada nos mostra que ele não fará o mesmo com Todd Gurley e companhia.

São anos repetindo a mesma versão de um mesmo jogo enquanto mudam apenas treinadores e jogadores adversários. E enquanto isso, no fundo todos achamos que podemos derrotar o tempo – mas a verdade é que só o Patriots pode.

Los Angeles Rams: ao infinito e além

É um roteiro batido. Você já está cansado de ver em filmes, livros e séries narrativas que mostram uma nova mente brilhante enfrentando uma mente brilhante experiente – geralmente uma quer tomar o lugar da outra.

É impossível não traçar o paralelo dessas narrativas com o que veremos no Super Bowl LIII. De um lado a mente ofensiva e inovadora de Sean McVay, do outro a experiência e a maestria de Bill Belichick. Esse último já enfrentou todo tipo de adversário, vencendo a maioria deles. Já o novato está apenas no início de sua jornada, e o desafio de agora provavelmente servirá como termômetro para o resto de sua carreira.

“Não conseguiu vencer um técnico mais experiente.” vs “Não conseguiu superar as inovações de quem é o futuro da liga.”

Independentemente do resultado, as narrativas e os desdobramentos são até mesmo previsíveis.

Chegando até aqui

Há dois anos, quando o New England Patriots enfrentava o Atlanta Falcons, Sean McVay não era conhecido como é hoje. Recém contratado pelos Rams, McVay tinha como destaque o simples fato de ser novo. Dois anos depois, Sean é discutivelmente o técnico ativo com maior influência na liga e no pensamento coletivo do futebol americano. Treinadores que trabalharam com ele viraram HCs, e a tendência na NFL é de contratar jovens mentes capazes de trabalhar com o franchise QB – nenhum deles necessariamente provado. Se Sean McVay foi uma aposta, outros times tentam usar mercados diferentes para obter o mesmo resultado.

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2017 foi a temporada de apresentação das capacidades de McVay. Após assumir um time marcado pela mediocridade dos anos de Jeff Fisher, Sean levou a franquia a uma temporada com record 11-5 e o primeiro título de divisão desde que você assiste a NFL (com exceção de meia dúzia de malucos).

O trabalho mostrou resultado em números e no “teste do olho”. O Rams deixou a areia movediça da apatia para se tornar uma das equipes mais legais de se assistir. Jared Goff, que até então parecia destinado a estampar listas em que é citado junto com JaMarcus Russell e insira aqui também um QB escolhido na primeira escolha do draft que você desgosta. Em uma tacada só Los Angeles percebeu que tinha o seu quarterback e o HC do futuro. Resultado difícil de ter acontecido se o contratado tivesse sido Vance Joseph (in memorian), por exemplo.

Tirando as rodinhas

Como todo super-herói (e o Venom) em sua história de origem, a franquia da Califórnia precisou de um período para descobrir do que era capaz. Terminado o laboratório em 2017, a diretoria decidiu dar o próximo passo. Ou, se preferir, o famoso all in. Ndamukong Suh, Aqib Talib, Marcus Peters e Dante Fowler Jr foram adquiridos na defesa, e Brandin Cooks foi a peça escolhida para completar o ataque.

O resultado não foi diferente do esperado. Durante toda temporada o Rams era apontado como, se não a melhor, uma das melhores equipes da NFL. Podemos até mesmo discutir se, mesmo nesse patamar, o time já havia atingido todo seu potencial – dependendo de como encaramos a situação, pode ser uma falha ou sucesso, afinal você deve estar preparado para vencer seus desafios mesmo quando não está 100%.

E, tal qual em um filme de super-herói, a primeira batalha pareceu apenas o prelúdio do terceiro e último ato. A derrota em New Orleans na temporada regular custou a LA a oportunidade de ter mando de campo nos playoffs. Mas, tal qual os roteiros de Hollywood já nos ensinaram, o que importa é o final da história. É como as histórias acontecem o que nos faz nos apaixonarmos pelos personagens, mas sempre lembramos do final.

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Assim, o Rams mostrou que poderia aumentar ainda mais seus poderes para vencer os Saints no Superdome – a primeira derrota de Drew Brees em casa na pós-temporada. Pouco importa se pareceu truque de roteiro, a história só se lembra dos vencedores.

O mundo está assistindo

O Super Bowl é um evento atípico. É quando muitas pessoas param para assistir a um jogo que às vezes nem entendem. A NFL é composta por 32 times, e apenas dois podem ter os olhos do mundo no início de fevereiro. Estar lá já é uma pequena grande vitória.

Porém, como a história nos mostra, os vencedores estão em outro patamar. Jogadores são alçados ao status de lendas simplesmente porque centímetros jogaram a seu favor. O mérito é estar lá para ter os detalhes jogando ao seu lado. Com apenas duas temporadas, alguém duvida que essa será a única chance do Los Angeles Rams de chegar nessa posição novamente? O resultado final vale tudo e não vale nada.

O inferno de Cody Parkey e a lenda de Nick Foles

No clássico da literatura A Divina Comédia, Dante Alighieri descreveu os nove círculos do inferno, descendo de Jerusalém até, em uma linguagem moderna, o colo do capeta – naquela época, só existiam três continentes conhecidos (Europa, Ásia e África), e Dante imaginou que no polo oposto a Europa, algo como 43 jardas distante, estava a ilha do purgatório, que estaria ligada ao inferno por uma passagem aberta após a queda de Lúcifer.

É bem provável que Cody Parkey tenha passado pelos noves círculos enquanto seu chute percorria aquelas pouco mais de 40 jardas. Um chute que bateu em uma trave, beliscou outra caprichosamente, matou o mascote do Bears, transformou companheiros de time que estavam na sideline em memes e, bem, fez Nick Foles mais rico.

Um chute capaz de retratar a angústia de uma torcida que não participava dos playoffs desde 2010 – algo ainda mais dolorido para uma franquia que terminou a temporada com 12 vitórias, seu melhor ano desde o distante 2006.

O mais cruel é que não havia ninguém mais apropriado que Parkey para ser protagonista do destino escapando pela ponta das mãos – ou, bem, pela ponta dos pés: em novembro, Cody havia acertado a trave quatro vezes em um duelo contra o Lions (e mesmo assim o Bears venceu). Na última semana da temporada regular, Parkey carimbou a trave contra o Vikings mais uma vez (e, novamente, o Bears venceu).

Não se flerta com o perigo três vezes. E se há algo que a sabedoria popular (e um técnico de futebol multicampeão) foi capaz de cunhar para a eternidade é o fato de que “a bola pune”.

Um futuro para chamar de seu

Na estreia da temporada afirmamos que se a então improvável derrota do Bears diante do Packers era fruto de uma série de decisões no mínimo questionáveis de um HC em sua primeira temporada e um QB de 24 anos, ao mesmo tempo era evidente que após anos sofrendo nas mãos de gente como Jay Cutler e John Fox, Chicago enfim tinha um sistema ofensivo criativo e moderno. E que melhores dias para a defesa do Bears, com Khalil Mack, Leonard Floyd e Roquan Smith cada vez mais entrosados, eram mera questão de tempo.

Foi assim na rodada de Wild Card: assim como ao longo do ano, Chicago apoiou-se na melhor defesa da NFL para se manter com chances. Foles fez ótimas jogadas em momentos cruciais, mas de uma forma geral, o sistema comandado por Vic Fangio conseguiu manter o Bears no jogo – Nick foi interceptado duas vezes e o jogo terrestre do Eagles beirou o ridículo.

Para o futuro, porém, é preciso ficar de olho no questionável desenvolvimento de Trubisky, que pareceu melhor em seu segundo ano sob o comando de Matt Nagy, mas, algo normal, nunca soou 100% confiável. Vez ou outra, sua capacidade de fazer boas jogadas, ler coberturas e escapar de um pocket em colapso estão lá, mas nunca de forma totalmente consistente – hoje, para classificar Trubisky como um sucesso, seria necessário mais do que Parkey acertar um FG de 40 jardas.

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Já sobre a defesa em si, é preciso voltar no tempo para compreender o quão  complexo é os motivos que levam Chicago a ambicionar um “sistema defensivo” eficiente mais do que outras franquias – mesmo que outras equipes tenham em sua história defesas fantásticas, como lendária “Cortina de Ferro” dos Steelers, o Ravens do final dos anos 90 ou mesmo o Denver Broncos vencedor do SB 50.

De qualquer forma, na história, para o Bears, todos os seus grandes momentos ainda vivos na memória tiveram como pano de fundo uma grande defesa – seja ao vencer a NFL pré-Super Bowl em 1963 ou no histórico time de 1985, que também levantou o troféu, e é por muitos considerado a melhor defesa de todos os tempos; o Bears sempre sentiu que defender era o melhor caminho e moldou sua identidade a partir disso.

“Pode ser diferente em Indianápolis ou Green Bay, onde a torcida quer ver Aaron Rodgers lançar touchdowns. Aqui simplesmente querem nos ver defender”, declarou recentemente o ex-CB Charles Tillman.

Para 2019-2020 Chicago precisará fazer escolhas, que podem não ser suficientes para manter o CB Bryce Callahan e o S Adrian Amos, ambos free agents na próxima intertemporada – mesmo assim, perdas são normais na NFL. Mas a maior mudança no setor pode não estar em um jogador: o DC Vic Fangio fez um trabalho tão eficaz que é cotado como um dos nomes para se tornar HC na próxima temporada; perdê-lo, porém, pode ser um golpe duro no principal sistema defensivo da NFL.

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Mas mesmo que Fangio fique a história nos mostra que é improvável que a defesa de Chicago repita o mesmo desempenho monstruoso; quando se está em um nível sobrenatural é normal dar um passo atrás; lembre-se da própria defesa do Bears de 85, ou ainda do Jacksonville Jaguars de 2017 (agora comparada ao desempenho um pouco mais fraco em 2018).

Aqui note uma possível (futura) semelhança: Jacksonville terminou 2017 como a melhor unidade em DVOA – eles foram ainda mais eficientes que o Bears de 2018. Na temporada atual, porém, o Jaguars caiu para a sexta posição nesta mesma métrica e, como o ataque não compensou essa oscilação natural, não foi possível equacionar o desempenho: de certa forma, Blake Bortles foi um obstáculo que a defesa do próprio Jaguars não foi capaz de superar. E com base naquilo que Trubisky apresentou ao longo da temporada, se tornar o Jacksonville de 2018 pode ser o maior pesadelo que o Bears pode ter em 2019.

De qualquer forma, em um cenário mais adequado a realidade de Chicago, volte ao já citado Broncos de 2015-2016. Mas mesmo assim, após anos sofrendo com Fox e Cutler, ao menos agora há algo a se apegar: em setembro, quando Mack, Floyd e Smith se alinharem no Soldier Field em uma tarde fria de domingo, a história de Chicago estará novamente em seu lugar – basta não deixá-la desaparecer após duas décadas procurando o que fora perdido.

A lenda de Big Dick Nick

Quando Nick Foles derrotou Tom Brady e se tornou o herói improvável do último Super Bowl, você achou que havia acabado. Mas ele fez de novo, e mais uma vez manteve o Eagles vivo em uma temporada que parecia perdida. E, claro, você pode chamá-lo de MVP, Big Dick Nick ou simplesmente de Foles, mas seja qual a nomenclatura escolhida, é hora de reconhecer que ele é muito bom em vencer jogos de football realmente importantes – ou que simplesmente estejamos diante de alguém com poderes concedidos por alguma entidade celestial; talvez esta seja a opção mais lógica.

Mesmo assim, antes de Parkey esbarrar na trave pela sexta (ou sétima, se você for alguém extremamente cruel) vez no ano, e o próprio Foles encontrar Golden Tate na endzone, Nick vinha em sua atuação menos impressionante desde que decidiu se tornar uma lenda; foram 25 passes completos em 40 tentativas, 2 TDs e 2 INTs (a primeira vez desde 2015) e, também pela primeira vez em suas aventuras de janeiro, um rating inferior a 100 (77.7).

Mesmo assim, quando Philly recebeu a bola com pouco menos de 5 minutos no relógios, os torcedores do Eagles dirão que não duvidaram dele por um segundo sequer – eles, claro estarão mentindo.

Quando o ataque chegou a beira da endzone, agora, qualquer analista de obra concluída, pode cravar que era óbvio que Darren Sprolles não chegaria ao paraíso em suas duas corridas. A terceira tentativa também foi em vão e, quando Doug Pederson usou seu primeiro timeout, praticamente implodindo qualquer possibilidade de ter a bola novamente se tudo desse errado, não parecia existir outra alternativa além de uma nova Philly Special. Mas, claro, não importa mais como, Nick encontrou Golden Tate e mais US$ 1 milhão na sua conta.

Mas sua atuação não acabou aí: quando Parkey chutou a bola, de alguma forma, Foles a moveu com os olhos, provando que pode manipular o ar, o espaço ou mesmo tempo. Provando que pode, além de encontrar Golden Tate e derrotar Tom Brady, mover o eixo gravitacional da terra – e, de alguma forma, provando para o front office do Eagles e para quem mais diabos duvida que pode vencer dois Super Bowls em sequência.

A Louisiana é logo ali

Volte no tempo até 2013. Lá, por dois meses, Foles foi o quarterback mais eficiente da NFL. Mas até encontrar Brady e os Patriots em fevereiro passado, tudo acabara ali e Nick, em geral, transitou entre (e abaixo da) linha da mediocridade.

Hoje é irônico ver que o Eagles precisou abrir mão de uma caminhão de escolhas para selecionar Carson Wentz, torná-lo o presente e o futuro da franquia, para ter um backup que eles já haviam descartado os levando para o Super Bowl.

E embora é possível (e muito provavelmente o mais lógico e sábio) que Wentz seja o escolhido para guiar o Philadelphia Eagles pelo futuro, é Foles que tem o amor e a gratidão da Filadéfila – agora imagine o que acontecerá com ele caso consiga repetir o mesmo roteiro de 2018.

Além disso, Foles é um herói improvável porque sua personalidade não pede que ele seja. No próprio Eagles há jogadores muito mais talhados a esse papel – do próprio Wentz, jovem e promissor, a Chris Long ou mesmo Malcom Jenkins, muito mais ativos no vestiário; há ainda Fletcher Cox, indiscutivelmente um dos melhores nomes da sua posição em toda a NFL.

Foles, por outro lado, não nasceu para os holofotes. E, de certa forma, nas últimas décadas, Philadelphia teve inúmeros quarterbacks talentosos que poderiam ter vivido a glória: Randall Cunningham, Donovan McNabb e, mais tarde, Michael Vick. O próprio Wentz, é provável, ainda terá tempo para brilhar. Mas, bem, a verdade é que agora é Nick Foles quem está em um avião a caminho de New Orleans – e, mesmo que pareça improvável, não seria prudente duvidar dele.

Cleveland, Joe Thomas, LeBron e Mayfield: uma nova (velha) cidade 635 dias depois

O que você faz em 635 dias?

Não existem canções de amor para Cleveland – ou, se elas existem, bem, não conhecemos. Mas não é como se ela precisasse de sua própria versão para “Sweet Home Alabama”.

Cleveland está no meio do nada, as margens do Lago Erie, em algum lugar entre a Pennsylvania, Michigan e Indiana; como quase tudo nessa vida, claro, localização é mera questão de perspectiva. Não que um estrangeiro não consiga se apaixonar por ela; é calma e aconchegante, diferente dos grandes centros dos EUA. Mas também vazia: desde 1950, a cidade perdeu mais da metade de sua população.

Cleveland agora está em uma encruzilhada entre passado e futuro: andar por suas ruas é como visitar décadas diferentes. Você vê pessoas em esquinas tentando se esconder do frio e, três quarteirões depois, está em um típico bairro de algum subúrbio norte-americano de classe média. E se o centro é limpo e agradável, repleto de vida, normalmente orbitando seus hospitais – a cidade, inegavelmente, é referência em saúde –, a leste, a poucos passos dali, você entra em um deserto pós-industrial.

Cleveland está para baixo”, conta-me um morador de rua, que vive próximo ao First Energy Stadium, casa do Cleveland Browns. “Só quero voltar para Chicago”, continua, antes de me mostrar a direção correta.

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something constructive

about east cleveland”

Turistinha procurando clichês.

Literatura

Darryl Allan Levy (d.a. levy) morava próximo ao rio Cuyahoga, que desaguá no Lago Erie. Ele olhava pela janela e via a ponte Lorain-Carnegie e os “Guardians of Transportation”, esculturas que dão vida àquela passagem. Ele via Cleveland como ela era, mas sempre a imaginava além, queria mais para sua cidade.

Diariamente escrevia seus próprios poemas e, depois, caminhava sobre a ponte – mas ninguém que o via ali conseguiria imaginar que Levy se tornaria uma figura central na contracultura de Cleveland e, como consequência, seria alvo da polícia graças a sua literatura “subversiva”.

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Em 1964, Levy passou uma temporada em Nova York, lendo sua poesia pelos cafés da cidade, mas sempre se queixara do espírito cosmopolita da cidade: “Quase odeio aqui – quero a Cleveland confortável, sofisticada e indiferente”, escreveu a um amigo.

Queixava-se que a cidade que amava não era representada como merecia na literatura; falava sobre Sandburgh, Crane e Williams e como Chicago ou o Brooklyn tinham grandes obras literárias.

Por isso, provavelmente, escreveu “Cleveland Undercovers“, repleto de alusões aos naufrágios no Lago Erie, ao Assassino do Tronco, famoso serial killer que assombrou o estado de Ohio na década de 30, ou ainda profanando Moses Cleaveland, fundador da cidade. Levy é a versão beatnik de Ohio, que o ungiu, da mesma forma que Jack Kerouac e Allen Ginsbergm, a porta-voz de uma juventude que se rebelava para quebrar antigos costumes.

Roteiro fácil, claro, o apreço pela maconha e pelo LSD fez de Levy um alvo da polícia. Em 1966 ele foi indiciado e no ano seguinte acabou preso, sob a acusação de “contribuir com a delinquência”; ele havia permitido que menores de idade lessem seus poemas, permeados por sexo e drogas, algo considerado obsceno na época.

Sua prisão colocou Cleveland no centro de uma discussão nacional e nomes como o próprio Ginsberg e Gary Snyder (vencedor do Pulitzer em 1975) sairiam em sua defesa. Mas Levy nunca se recuperou do episódio e em 1968 confidenciou a vários amigos que deixaria a cidade. Em 24 de novembro daquele mesmo ano, ele se suicidou.

Cleveland, eu dei-lhe

os poemas que ninguém nunca

escreveu sobre você

e você não me deu

NADA”

Há ainda muito de seus poemas naqueles que vivem em Cleveland: você a ama, não quer deixá-la, mas ela não consegue lhe oferecer nada em troca. Então, caso insista em ficar, você precisa se apegar a algo e, bem, só existem três opções. Mesmo que elas teimem em lhe maltratar.

Algo a se apegar: basquete

Na offseason de 2010, LeBron James fez tudo errado. Hoje ele sabe disso. Sua quase cidade natal ligou-se a ele, mas ele decidiu cortar essa ligação da pior forma possível para que o rejeitassem com tanta força que James acabaria em um limbo, uma fadiga mental e física, da qual ele só conseguiria sair mais de um ano depois, durante as finais da NBA de 2011 – para então conquistar seus dois primeiros títulos.

Mas ele nunca se esqueceu do que aconteceu e, no fundo, sempre quis ser perdoado. Quatro anos depois, na offseason de 2014, o roteiro já estava escrito – e ele não se transformou em um reality show televisionado, como em 2010.

James não disse uma palavra. LeBron sequer insinuou algo ou especulou sobre sua decisão: ele a anunciou em um misto entre declaração de amor e pedido por perdão. E então voou para o Brasil assistir a Copa do Mundo.

Logo no primeiro ano, Cleveland retornou as finais da NBA, mas parou no Golden State Warriors. Há uma frase de David Blatt, técnico do Cavaliers na época, capaz de sintetizar o sentimento da cidade em relação aos esportes: “Estamos em Cleveland: nada é fácil por aqui”.

Mas no ano seguinte, LeBron e o Cavs recuperaram um déficit de três jogos para derrotar o mesmo Warriros e dar um título a cidade após 52 anos.

Quando retornou, James escreveu:

“Antes de qualquer um se importar com o lugar onde eu iria jogar basquete, eu era só um garoto do noroeste do estado de Ohio. Foi lá que eu andei, corri e chorei. É onde eu sangrei. É um local que tem um lugar especial no meu coração. As pessoas lá me viram crescer, eu quero dar a eles tanto quanto puder. Quero inspirá-los quando eu puder. Minha relação com o noroeste de Ohio é maior do que o basquete”.

É mais simbólico do que pode parecer e é provável que você só compreenda quando passar por Cleveland. “Meus primos, por exemplo, foram embora de Cleveland. Talvez como LeBron fez, agora eles possam pensar um dia em voltar”, me confidenciou um atendente de um Starbucks no caminho para a Quick Loans Arena, em novembro de 2017 – horas antes do Cavs vencer o Pistons pela temporada regular da NBA.

Destino: felicidade.

Kyrie Irving acabara de partir para Boston; a outra estrela do Cavs também havia recém deixado a equipe. Pergunto como a cidade lidara com um novo abandono. “Se James aprendeu ao partir, nós também: não temos nenhuma mágoa e, bem, lembra daquele arremesso no ano passado?”, diz o jovem, ao relembrar a cesta que garantiu o primeiro título para a franquia. Como já dissemos, a relação da cidade com o esporte, vai além de qualquer simbolismo tangível para aqueles que não estão lá.

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Antes de sair, relembro a conversa com o morador de rua e confesso que gostei mais de Cleveland do que de Chicago, por onde havia passado dias antes – ele se assusta, e pergunta se eu poderia viver ali.

Claro”, respondo. “Bom, não é uma cidade moderna, normalmente é cinzenta, mas você não verá trânsito e o aluguel é barato. Então não descarte essa possibilidade”, disse ele, antes de se despedir.

Algo a se apegar: football

Você pode não acreditar, mas nas ruas de Cleveland, existe apenas uma pessoa tão respeitada como LeBron James: não é absurdo cravar que a devoção por Joe Thomas está no mesmo patamar. E para entender essa relação, é preciso voltar para 2007: LeBron perderia sua primeira final da NBA naquele ano, mas o Browns tiveram aquela que continua sendo sua melhor temporada na última década.

Cleveland venceu 10 partidas no ano de rookie de Joe Thomas e ele foi ao Pro Bowl pela primeira vez na carreira (ele seria selecionado para o jogo das estrelas em todas as temporadas entre 2007 e 2016). Parecia o desenho de anos promissores, mas o Browns entrou em um espiral de disfunção e desde então foram seis HCs, uma infinidade de OCs e, bem, se contamos direito, 21 quarterbacks iniciando uma partida como titular até o último TNF contra o Jets.

Voltando a Joe Thomas, é difícil expressar o que um LT pode representar para uma organização – a dimensão dos feitos na posição raramente são mensurados por números, mas mesmo assim, Joe conseguiu quebrar essa barreira; ele esteve em campo em todos os snaps até uma lesão (posteriormente) encerrar sua carreira. Ele foi ao Pro Bowl em todas as temporadas que completou. E ele nunca deixou Cleveland.

“Hoje entendo LeBron, claro, mas Joe nunca foi embora: ele nos escolheu”, me conta o vendedor da loja oficial do Browns no First Energy Stadium. “Bem, é óbvio que Jim Brown é o maior jogador da história do Browns – não por acaso há uma estátua dele logo ali. Mas mesmo assim, era outra época, uma época em que mesmo o Cleveland Indians havia vencido poucos anos antes, então é difícil expressar o quanto amamos Joe”, continua.

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Em 10 anos, Joe viveu apenas uma temporada com mais vitórias do que derrotas. Seu maior feito, porém, não está dentro de campo: Joe conseguiu ensinar para uma cidade que esporte é muito mais do que vencer; é sobre querer estar onde se está e, por mais difícil que pareça, ser alguém a quem é possível se apegar enquanto a maré não acalma é tão representativo quanto qualquer troféu.

Ame este homem.

Novos ventos

O que você faz em 635 dias? Nesse período o Cleveland Browns perdeu. Mas no TNF da semana 3 desta temporada, Baker Mayfield deu ao Browns algo que ele não tinha há 635 dias: uma vitória.

Substituindo Tyrod Taylor após uma concussão, a primeira escolha geral do draft de 2018 explodiu uma vantagem de 14 pontos do New York Jets contaminando o estádio com um sentimento até então distante: esperança. E inspirando torcedores ao redor do PLANETA a torcer por um franquia até então motivo apenas de COMPAIXÃO.

Ao final de seu primeiro drive, Mayfield já tinha mais jardas do que Tyrod Taylor havia conseguindo em praticamente dois quartos – ele terminaria a partida com 17 passes completos em 23 tentativas para 201 jardas. Assim que Baker pisou em campo, parecia que o Browns havia desbloqueado diversas jogadas antes travadas em seu playbook – ele simplesmente era capaz de fazer o que Tyrod não conseguia.

O cenário em que tudo isso ocorreu dificilmente seria pensado por um ótimo roteirista especialista em CLICHÊS: jogo transmitido nacionalmente, três escolhas de primeira rodada do último draft e, bem, um running back correndo entre o estádio e o hospital enquanto esperava o nascimento de seu primeiro filho – no dia do seu aniversário.

Tudo é épico na vitória comandada por Mayfield: ele levou a equipe a um FG na primeira campanha, recebeu uma conversão de dois pontos ao final do terceiro quarto para empatar a partida e viu o então futuro pai, Carlos Hyde, anotar o TD da vitória.

Direto do túnel do tempo.

O caminho até ali

Nos primeiros 28 minutos de partida Cleveland foi o que havia sido nos últimos anos: uma equipe apática. O ataque estava imóvel enquanto Tyrod Taylor lutava contra sua própria incapacidade (foram quatro passes completos em 14 tentativas) e a de seus companheiros – Antonio Callaway deixou um TD fácil escapar e o jogo corrido simplesmente não fluía.

Para tornar tudo ainda mais cruel, Isaiah Crowell, ex-Browns, anotou dois TDs – no segundo, moleque travesso e rancoroso (rancor, o sentimento mais belo que um ser humano pode cultivar e alimentar), limpou-se com a bola e atirou na arquibancada.

Mas logo depois Taylor precisou sair de campo e, com 1 minuto e 23 segundos no relógio, Baker entrou em campo disposto a interromper anos de sofrimento.

Dilly dilly!

Após a vitória, Joe Thomas perguntou a Mayfield onde ele encontrara confiança para jogar, já que não havia treinando como titular durante a semana. “Por mais engraçado que isso possa parecer, foi assim minha vida inteira”, respondeu, antes de perguntar. “Os bares ainda estão abertos? Dilly dilly!”, disse, se referindo a promessa de cerveja gratuita em caso de vitória dos Browns.

Na última quinta-feira, Baker não ganhou apenas um jogo, ele ganhou o direito de construir sua própria narrativa na NFL – assim como já havia feito em sua carreira universitária, onde escreveu sua história semana após semana. Mayfield não apenas derrotou os Buckeyes em Ohio; eles os derrotou e cravou a bandeira de Oklahoma em pleno Ohio Stadium.

Ele não apenas conquistou a titularidade em Texas Tech em seu primeiro ano; ele o fez e então se transferiu para Oklahoma, não apenas inspirando pessoas a fazerem camisas o criticando – ele as comprou para vestir. Mas como o próprio Baker disse após o jogo: “Passado é passado. Você precisa apertar o botão de reset e dar o próximo passo em frente”.

Agora não importa mais se Cleveland teve um dos maiores jogadores da história do basquete (e indiscutivelmente o melhor de sua geração) por 10 anos e o transformou em apenas um título. Não mais importa se Cleveland teve o melhor OT da história da NFL e não conseguiu nada além do que transformá-lo em um símbolo para cidade. Na última quinta-feira, tudo valeu a pena, afinal, 635 dias depois, Cleveland bebeu cerveja de graça.