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Análise Tática #25 – Parte 1: A defesa dos Patriots

Por boa parte da temporada regular, a defesa dos Patriots foi alvo de críticas da torcida e dos especialistas – principalmente após as lesões do calouro Derek Rivers e de Dont’a Hightower, discutivelmente melhor jogador da unidade.

As atuações instáveis de Stephen Gillmore e Malcolm Butler, bem como a fragilidade do pass rush e dos linebackers em rotas laterais foram motivos de preocupação em Foxborough, mesmo que nós saibamos que no final das contas, Bill Belichick sempre encontra um jeito de fazer a unidade produzir.

As estatísticas

Contra Tennessee no divisional round o principal número a se mencionar é os oito sacks obtidos contra Marcus Mariota. Foram 61 jogadas e 27min04s em campo por 10 campanhas, cedendo 65 jardas terrestres em 16 tentativas. Foram 202 jardas aéreas em 22 passes completos de 37 tentados.

Contra Jacksonville no AFC Championship Game, a defesa passou 35min08s em campo, em 71 jogadas divididas em 12 drives. Foram 101 jardas terrestres em 32 tentativas e 273 jardas aéreas em 23 passes completos de 36 tentativas. Dessa vez, foram 3 sacks.

Apesar de boas atuações, em nenhuma das duas partidas a defesa dos Patriots forçou turnovers.

A importância dos sacks contra Tennessee

A defesa dos Patriots colocou o ataque de Tennessee em quinze situações de terceira descida, permitindo apenas cinco conversões.  Dos oito sacks, dois foram nessas ocasiões, em que a defesa forçou os punts.

Em uma unidade em que nenhum jogador é exatamente uma estrela da liga, New England se sobressai principalmente pela leitura pré-snap de cada jogador e a dedicação dos mesmos em cumprir sua função na jogada. Tennessee alinha seus recebedores em um set 2×2 em stack formation, concentrando a defesa no meio do campo.

Observe que o safety Patrick Chung lê o motion de Delanie Walker e o acompanha, dando a entender que o mesmo estará em cobertura individual contra o mesmo, apesar de seu posicionamento de quadril dizer o contrário.

Observe também que o jogador marcado com uma estrela (Corey Davis) está cercado por pelo menos três jogadores de New England. Esse sistema de cobertura é constantemente utilizado por Belichick e Patricia para anular recebedores velozes dos adversários. Pelo menos dois jogadores irão marcar o principal WR em uma combinação de marcação individual e zona half, semelhante à cobertura cover 2-man, porém acontecendo em apenas um lado do campo..

No momento em que a jogada se desenvolve, a secundária rotacional de um desenho de cover 2 para uma cover 1, com todas as rotas tendo pelo menos um jogador marcando individualmente. É como se New England tivesse uma superioridade numérica na cobertura, portanto, nenhuma rota dará uma janela de passe confiável para Mariota.

No front, temos os seguintes alinhamentos de techniques (9-0-3-8), enquanto o defensor na 3-tech (Rufus Johnson) ficará de QB-Spy em Mariota. Trey Flowers na 9 tech é o jogador que traz a pressão pelo speed rush, forçando Mariota a escalar o pocket. O espaço preenchido por Rufus Johnson tira a possibilidade do scramble de Mariota e ajuda a Deatrich Wise a fechar o sack.

Como mostramos no texto sobre a defesa do Jacksonville Jaguars, esse é um tipo de sack obtido graças à excelente cobertura, o chamado sack-coverage.

O cover 2-man aparece empregado em sua totalidade nessa jogada no terceiro quarto, o segundo sack em terceira descida conquistado pelo New England Patriots. Pela situação, consideremos que o alvo principal seja Delanie Walker no meio do campo, por ser o recebedor mais confiável e ter o melhor matchup em tese.

Walker é marcado de forma individual, enquanto no flat do lado esquerdo de campo, o esquema de cover 2 anula o checkdown de Marcus Mariota. Ele novamente está sem opções para passar a bola, enquanto enfrenta um 3-men rush com spy. Observemos o front de New England.

Dessa vez a linha varia o alinhamento das techs para 9-4-0-8, com o defensor na 4-tech em QB Spy. Com o objetivo de prender Mariota no pocket, o flat do lado esquerdo está coberto por uma marcação em zona, enquanto no lado com a marcação individual, está justamente posicionado o espião. Além disso, esse é o lado em que a pressão vem pelo speed rush.

Adam Butler (#70) ataca pelo A-gap do lado direito da linha enquanto Kyle Van Noy (#53) permanece em spy. Essa combinação é suficiente para gerar pânico em Mariota e fazer com que o mesmo tire o olho de suas progressões. Mais um sack em terceira descida.

Os ajustes contra o jogo corrido de Jacksonville

É de conhecimento geral que o ataque do Jacksonville Jaguars é uma unidade predicada ao jogo terrestre. Como mostrado anteriormente, foram 101 jardas em 32 tentativas, uma média 3.2 jardas por corrida, abaixo do ideal de 4 YPC (yards per carry). Considera-se tal valor para determinar que o jogo terrestre de uma unidade foi bem aplicado durante a partida.

Essa jogada no segundo quarto mostra como o Jacksonville Jaguars estava utilizando conceitos de misdirection para utilizar o jogo corrido de Leonard Fournette. O misdirection aplicado ao jogo terrestre tem o objetivo de tirar alguns jogadores da defesa da direção da jogada.

Aqui, os jogadores alinhados em trips-bunch se deslocarão para a direita, atraindo os defensores marcando em zona para aquele lado. O movimento de Blake Bortles vendendo o draw ajuda a dar veracidade a essa tentativa.

A corrida se desenvolve como uma outside zone para o lado direito, com Fournette atacando o espaço entre o left guard e o center (A-Gap). Observe que ficam apenas 5 jogadores do lado em que se desenvolve a jogada, e apenas o safety Patrick Chung não está bloqueado, podendo reagir ao tackle. Fournette consegue ganhar 13 jardas na jogada, em drive que terminaria em touchdown para os Jaguars.

Observemos agora os Jaguars realizando uma inside zone no início do último quarto da partida, quando os Patriots buscavam a virada no placar. Conter Leonard Fournette e Corey Grant foi um dos pontos chave para que o Patriots tivesse tempo de relógio, considerando o jogo quase limpo em termos de turnovers (apenas Myles Jack forçou um fumble em drives anteriores).

O leitor já deve estar familiarizado com o sistema de zone blocking, o jogador bloqueará o adversário à sua frente ou ajudará o bloqueio ao seu lado na direção em que a jogada se desenvolve, de olho na possibilidade de atacar o segundo nível da defesa.

Observe pelo alinhamento dos recebedores, que os Jaguars tentarão repetir o misdirection. Mas provavelmente pela análise de tendências e situação da partida, os Patriots basicamente sabem que será uma corrida. Bill Belichick se sobressai como técnico exatamente nesse ponto, New England quase sempre faz os ajustes corretos no segundo tempo de jogos importantes, mesmo nas derrotas.

Malcom Brown consegue fechar o tackle a partir da 0-tech, após receber apenas o bloqueio do center de Jacksonville. Com os linebackers fechando as opções no mesh point de Fournette, o mesmo não consegue ganhar mais que duas jardas.

Uma unidade que mesmo sem jogadores de elite é capaz de ajustar tão bem graças à competência de seu coaching staff. Essa capacidade foi importante para os Patriots diante dos Falcons no Super Bowl LI e deverá ser novamente fundamental em Minneapolis.

Dessa vez, Belichick e Matt Patricia deverão estar atento a uma arma que já os derrotou na temporada, a Run-Pass-Option, dessa vez empregada pelos Eagles.

Análise Tática #24 – Rodada Divisional: A defesa do Jacksonville Jaguars

Chegamos à rodada divisional dos playoffs da temporada de 2017 da NFL, também conhecida como semifinais de conferência. No último domingo, o Jacksonville Jaguars avançou ao AFC Championship Game após uma vitória contra o Pittsburgh Steelers por 45 a 42.

Mesmo cedendo 42 pontos, a defesa de Jacksonville fez jus a reputação de melhor da NFL, principalmente contra um ataque poderoso como dos Steelers (falamos sobre o mesmo aqui). Utilizamos esse texto como referência, e agora vamos entender como a defesa comandada por Doug Marrone dificultou a vida de um ataque lotado de skill players como Pittsburgh.

O Depth Chart

A defesa majoritariamente montada por Gus Bradley atingiu seu potencial na gestão de Doug Marrone e Tom Coughlin, e coordenada por Todd Wash.

Fonte: ESPN

As adições de Marcell Dareus, Barry Church, AJ Bouye e Calais Campbell, possível jogador defensivo do ano, tornaram assustadora uma defesa que já tinha potencial para ser uma das melhores da liga. Foram 21 interceptações, 2 delas retornadas para touchdown, 17 fumbles forçados, 5 deles retornados para touchdown, e 55 sacks.

Em termos de estatísticas avançadas, a defesa dos Jaguars foi a primeira em DVOA (-16,1%), a quarta em Defesa Ponderada (-13,0%), essa estatística considera a importância maior dos últimos jogos da temporada. Ainda falando em DVOA, temos os Jaguars como primeiros em defesa contra o passe (-27.5%) e vigésimo-sextos contra a corrida (-2,8%).

Agora, uma estatística fornecida pelo Football Outsiders que eu gosto muito e ajuda a contextualizar as mencionadas no parágrafo anterior: a defesa dos Jaguars foi a vigésima-nona em variância (7,6%). Essa estatística mede a consistência do time, e combinada com o DVOA, podemos determinar que a defesa teve vários jogos excepcionais e outros na média.

DEF. DVOA

DEFESA PONDERADA RANK DEFESA PASSE RANK PASSE DEFESA CORRIDA

RANK CORRIDA

-16,1% -13,0% 400,0% -27,5% 1,0% -2,8% 26,0%

Não-Ajustado

VAR RANK FORÇA DE TABELA (DVOA) RANK
TOTAL PASSE

CORRIDA

-19,0% -32,5% -3,4% 7,6% 29,0% -5,1% 31

Individualmente, o destaque vai para Calais Campbell, com 14,5 sacks e Jalen Ramsey, com 4 interceptações e 7 passes desviados. Ambos foram selecionados para o 1st team All-Pro. Além deles, Malik Jackson e AJ Bouye foram selecionados ao Pro Bowl.

Estatísticas da partida

Contra os Steelers, a defesa dos Jaguars permaneceu em campo por 31 minutos e 10 segundos 78 jogadas ao todo, forçou 2 turnovers e cedeu 28 first downs. Foram 462 jardas de passe em 37 passes completos de 58 tentados e 83 jardas em 18 corridas. Dados obtidos pelo game chart da ESPN.

O Steelers sempre esteve atrás do placar, o que explica o desequilíbrio na proporção passe-corrida. Ben Roethlisberger teve 8,61 ANY/A (Adjusted Net Yards per Attempt), valor acima da média cedida pelos Jaguars durante toda a temporada.

Estatisticamente, pode parece não ter sido a melhor partida pela defesa dos Jaguars, em que pese o valor da variância apresentada pelo time ao longo da temporada. Entretanto, essa unidade apareceu em momentos-chave, forçando sacks e turnovers em drives que ajudaram o time a manter sempre a vantagem no placar.

Sacksonville

Os sacks conseguidos pela defesa de Jacksonville contra os Steelers reforçam bem a relação de mutualismo entre front e secundária. O conceito de sack-coverage se estabelece quando a cobertura atua tão bem ao não deixar espaços livres no fundo de campo que a linha ofensiva adversária não consegue segurar o pass rush. O quarterback não tem opções para se livrar da bola e sofre o sack.

Observe o que a defesa causa com as rotas internas, ambas são direcionadas ao mesmo ponto, tirando de questão duas opções. Myles Jack em zona acompanha LeVeon Bell, anulando o checkdown. Roethlisberger faz um 3-step dropback, tenta navegar pelo pocket até o momento em que é sackado por Yannick Ngakoue. A bola escapa e Telvin Smith a retorna para touchdown.

Pela visão do front, observa-se que temos dois defensores alinhados em 9-tech (Campbell e Ngakoue) contra o empty backfield dos Steelers.

Ngakoue vende o speed rush para Villanueva, quebra para dentro e consegue arrancar a bola de Roethlisberger pelas costas.

O segundo sack da partida, acontecido quando o placar estaca 28 a 7 para Jacksonville, desenha-se da seguinte forma:

Novamente um conjunto de rotas longas tentando atacar o meio do campo, que os Jaguars marcam rotacionando um conceito de cover 2 a partir de uma cover 1. Roethlisberger se concentra no lado esquerdo do campo e perde o TE Vance McDonald aberto no flat. Observe como os Jaguars não têm medo de deixar alguns pontos do campo abertos em prol de conter os skill players de Pittsburgh.

O front novamente está alinhado em wide 9 technique (Dante Fowler Jr. e Yannick Ngakoue). Fechando a linha defensiva, temos Calais Campbell em 4-tech e Marcell Dareus em 3-tech.

Calais recebe um double team do center e do left guard, abrindo espaço para Dareus invadir o backfield com um corte para dentro. Big Ben não consegue se livrar da bola e aceita o sack.

Interceptação

Agora vamos analisar a jogada da interceptação de Myles Jack sobre Bem Roethlisberger quando o placar ainda marcava 7 a 0 para Jacksonville.

O ataque dos Steelers se alinha em seu tradicional 11 personnel, tendo LeVeon Bell alinhado do lado forte e um set de recebedores em 2×1. A leitura aqui se dá entre o TE Jesse James e o WR Juju Smith-Schuster. Rotas out e dig, respectivamente, que se cruzam e se quebram em amplitudes diferentes do campo.

Jesse James reconhece Myles Jack como seu marcador e tenta fazer o bump-and-run no momento da quebra de rota, porém o linebacker conta com seu atleticismo e se recupera na marcação, tendo tempo de saltar em direção à bola no momento em que o passe chega.

Para deixar a jogada ainda melhor, Myles Jack ainda mostra seu controle de corpo e concentração para pegar a bola desviada por si mesmo e pisar com os dois pés dentro de campo.

Ainda odiados, cada vez melhores: nada muda em New England

Não somos fãs de discussões definitivas sobre aqueles que são, eventualmente, os melhores da história dentro de campo – invariavelmente, não se chega a lugar algum: Manning pode ter sido melhor que Brady e, na verdade, isso pouco importa. Hoje, e talvez até mesmo quando o sol engolir o planeta terra e todos derretermos, pode ser possível que Rodgers seja enfim considerado um atleta melhor e mais completo que Brady. Ou tudo isso é um misto de delírio e negação e, bem, Brady é melhor que Montana, Elway e Marino somados.

O fato é que se dentro das quatro linhas sempre haverá margem para discussões, fora delas, Bill Belichick construiu um império particular capaz de suplantar qualquer dúvida: em 17 anos, o New England Patriots têm 15 títulos de divisão, chegou no AFC Championship Game 12 vezes e ao Super Bowl outras sete – o número de anéis, claro, você já sabe de cor.

Falando em números, quando isolamos as conquistas do Patriots – e as quantificamos – em um recorte de tempo histórico, eles soam ainda mais irritantes. E ainda assim, não são capazes de contar a história em sua totalidade.

O domínio na AFC é produto direto da máquina que Bill construiu e aperfeiçoou a cada temporada – ele é o Head Coach, o GM e, por um momento, também foi coordenador defensivo; hoje ele talvez mande mais que Robert Kraft e ninguém saiba.

E enquanto é possível comparar jogadores, é quase impossível colocar Bill ao lado de outras treinadores e traçar comparações sólidas: não há HC na NFL contemporânea que sequer se aproxime de seus êxitos e, caso voltemos muito no tempo, pesará a seu favor a longevidade; enquanto grandes nomes como Vince Lombardi e Bill Walsh estiveram na NFL por uma década, nada indica que Belichick não chegará aos 20 anos comandando o Patriots – e, nas próximas semanas, ao seu oitavo Super Bowl, com o sexto título conquistado.

Sim, se existe uma sabedoria popular que deveria ser incorporada ao imaginário coletivo é esta: quando antes você aceitar seu triste destino, menor será frustração. Pode soar duro, mas é a mais pura verdade: estamos todos prestes a entrar em uma realidade em que Brady e Belichick venceram o Super Bowl seis vezes.

Bem louco.

Por que pode dar errado?

A sabedoria popular também nos ensina que quando tudo parece que dará errado é preciso se apegar ao passado. Mesmo dominantes, as derrotas de New England contaram com, claro, o destino: David Tyree recebeu um passe com o capacete, Asante Samuel caiu em desesperança, Randy Moss não alcançou bolas que normalmente alcançaria. Tudo ao mesmo tempo.

Enfim, mesmo para as equipes que costumeiramente estão no topo, algumas vezes, vencer ou perder pode ser determinado por um capacete.

Por que o Patriots vencerá?

Porque, afinal, está é a ordem natural das coisas: nada parece estar acontecendo e, mesmo assim, o New England Patriots está no topo da NFL. Eles podem não ter Tom Brady por quatro jogos, mas Brissett ou Jimmy G (também conhecido como o homem mais lindo que já pisou na terra) darão conta do recado.

Você também pode não ter escolhas de primeira rodada no draft e, mesmo assim, o planeta continuará girando normalmente: tudo está sempre sob controle e nada fará com que a franquia faça uma movimentação desesperada. Com o Patriots aprendemos sempre a esquecer o presente, afinal, eles estão sempre um passo a frente.

É tudo resultado de um longo processo, que pode parecer complexo, mas na verdade é essencialmente simples: faça as coisas certas, repetidamente. Em algum momento elas já funcionaram e você sabe o resultado final. Repita o processo ao longo dos anos e, invariavelmente, os resultados aparecerão.

Lógico, é impossível vencer sempre: times comuns implodem ao não saber lidar com suas frustrações, além de não ser possível controlar todos os fatores, como o capacete de Tyree ou as mãos de Wes Welker.

Ao olhar o sucesso do Patriots, entendemos porque nos desesperamos com os altos e baixos das demais franquias: é inacreditável o que o Vikings vem fazendo, mas parece que, para eles, é a última oportunidade de alcançar a glória – e, caso ela não venha, tudo será implodido. Lembramos que, por muito tempo, Indianapolis rodeou Peyton Manning por idiotas sem a mínima coordenação motora e esperou que seus milagres se repetissem até fevereiro. Ou ainda ficamos pasmos ao sermos confrontados com a ideia de que o Packers está desperdiçando os melhores anos de Aaron Rodgers com uma defesa, ano após ano, composta exclusivamente por débeis mentais.

Enquanto isso, em New England, absolutamente nada sai de controle.

Esperança.

O que nos resta?

O esporte é usado como válvula de escape para nossas frustrações, então é difícil, mas compreensível, aceitarmos o sucesso alheio repetido exaustivamente diante de nossos olhos. Queremos esforço coletivo e jornadas heroicas; queremos que David derrube Golias com uma frequência quase diária – para que assim possamos nos sentir vingados, seja de um boleto atrasado, de um chefe babaca ou do aumento da gasolina.

Por que alguns têm tanto enquanto nós temos tão pouco? De certa forma, a inveja é essencial para a evolução humana. Schadenfreude, palavra alemã que emprestamos para um segmento de nosso podcast (e o resto da civilização também emprestou para usar como julgar melhor), refere-se basicamente à felicidade que sentimos com a desgraça alheia.

Algo, ao mesmo tempo, humano e desprezível, mas que, de alguma forma, tentamos transparecer ainda mais no esporte, ainda mais em nossa relação com o New England Patriots: assim como o resto da liga, queremos ver seu reinado em chamas – mas ao mesmo tempo, podemos deixar esse egoísmo de lado e apreciar um momento tão raro como este, aproveitando o que resta disso: nenhuma dinastia dura para sempre.

A do Patriots, por exemplo, deve durar só mais uma década ou duas décadas. Começando no próximo dia 4.

OBS: se Blake Bortles e os Jaguars vencerem domingo, por favor, esqueçam esse monte de merda.

Quando tudo e nada gira em torno de Blake Bortles

Vamos direto ao que interessa: Blake Bortles. Você sabe quem é, você já riu dele e já até se aventurou com uma ou outra piadinha cretina. É assim com praticamente todos que acompanham a NFL: Bortles já deixou de ser apenas um QB para se tornar um personagem. A percepção que temos dele não vai mudar. Se fosse eliminado em New England, diríamos que ele não chegaria longe. Quando vencer o Super Bowl, diremos que “BLAKE BORTLES venceu o Super Bowl. Fechem a NFL etc etc”.

Ao longo do ano, Bortles alternou diversos momentos: na preseason ele quase perdeu o posto de titular; no início da temporada o time fez tudo para tirar a bola das suas mãos e; no meio da temporada, ele alternou momentos brilhantes (uma sequência avassaladora em dezembro em que foi o melhor QB em diversas métricas) e momentos ruins. Talvez o jogo contra Buffalo – o que mais gente assistiu  – tenha sido seu pior momento na temporada. Mas, no geral, Blake Bortles não foi terrível. Muito pelo contrário: ele mostrou que o time é capaz de vencer com ele. Ou apesar dele, se você preferir.

Não vamos analisar um milhão de estatísticas diferentes para mostrar os aspectos positivos e negativos do seu jogo, afinal a conclusão sobre ele já está tirada: é um dos piores QBs da liga, mas às vezes joga bem. E quando joga bem, é porque embalou. E Blake Bortles está embalado.

Vou ganhar.

O jogo contra Pittsburgh não muito bom, nem muito ruim. O que para Bortles é um tanto quanto atípico, tendo em vista que é um jogador muito 8 ou 60: ou é bom ou é péssimo. Foram 14 de 26 passes completos, para 214 jardas e um touchdown. Números um pouco abaixo do razoável, mas Blake não cometeu nenhum erro fatal na partida, o que, para ele, podemos considerar uma vitória.

A inconstância faz parte do seu jogo, mas ele já conquistou o respeito de seus companheiros, seja pela sua resiliência ou pelo que tem mostrado dentro de campo.

O ataque além de Bortles 

Leonard Fournette mostrou no jogo contra os Steelers porque foi escolhido com a quarta escolha geral do Draft. Suas 109 jardas em 25 tentativas e 3 TDs talvez não dêem a exata dimensão do quanto ele foi dominante e ajudou sua equipe a vencer o jogo. Depois de uma segunda metade de temporada um pouco abaixo do esperado, ele mostrou que está pronto para voltar ser a principal peça do ataque.

A linha ofensiva, uma das principais incógnitas no início do ano, mostrou que, além de dar conta do recado, pode ser uma das forças no ataque de Jacksonville. No duelo contra a defesa de Pittsburgh – a que mais sackou em 2017 -, nenhum sack foi permitido e Bortles não fez nenhuma jogada idiota por sofrer com a pressão. Os números de Fournette e Yeldon na partida mostraram que, apesar do jogo terrestre ser a principal preocupação das defesa que enfrentam os Jaguars, a OL também consegue trabalhar bloqueando para a corrida.

O corpo de recebedores sofreu com lesões ao longo do ano, mas Keelan Cole, Marqise Lee, Allen Hurns e Dede Westbrook já tiveram seus momentos durante a temporada. Não é um grupo recheado com grandes nomes, mas há profundidade na posição. Além deles, Marcedes Lewis também já mostrou que, além de ainda estar vivo, ainda consegue jogar.

Fournette talvez seja a única estrela do lado ofensivo dos Jaguars, mas isso não tem impedido o ataque de mostrar que pode enfrentar qualquer defesa.

Sacksonville 

Uma DL capaz de vencer o jogo sozinha. Um corpo de LBs rápidos e versáteis. Uma secundária que conta com a melhor dupla de CBs da NFL. Jacksonville não despendeu um caminhão de dinheiro no lado defensivo da bola à toa.

Calais Campbell é candidato a MVP na liga esse ano, além de ser First Team All Pro. E prefeito de Sacksonville. Campbell ganhou a honraria quando, ainda no início de dezembro, já havia quebrado o recorde de sacks da franquia em uma temporada. Ele ainda joga ao lado de Yannick Ngakoue (ianiq ngaqüe), que teve 12 sacks no ano, e nessa pós-temporada já se fez presente quando tirou a bola de Ben Roethlisberger. Malik Jackson – aquele – e Marcell Dareus, dois caras que juntos recebem o suficiente para comprar o Carolina Panthers completam a linha defensiva: e eles têm jogado tão bem quanto recebem (tá, talvez nem tanto, mas ainda são melhores que aquele DT estranho que seu time escolheu na quinta rodada dois anos atrás. Muito melhores, aliás).

Telvin Smith foi escolhido Second Team All Pro: seus 102 tackles, maior número da equipe no ano, juntamente com 3 interceptações, certamente contribuíram pra isso. Você deve se lembrar dele rindo de um Steeler enquanto terminava de trotar rumo à endzone. Ele joga ao lado de Myles Jack (90 tackles no ano), que também é bem versátil. Por fim, os restos mortais de Paul Posluszny ainda conseguem uma jogada aqui e acolá, afinal, é muita gente boa jogando ao seu redor e eventualmente sobra algo pra ele: amigo, acredite, até você, que não consegue nem levantar pra pegar uma água durante o jogo por preguiça, conseguiria algum highlight jogando nessa defesa.

Sacksonville: é você que financia.

Você já parou pra ouvir a palavra de Jalen Ramsey? Faça isso agora. “As pessoas falam: “ele é AJ Green, ele nunca passou por isso [um jogo frustrante em que perdeu a cabeça]”, bem, ele nunca enfrentou Jalen Ramsey antes.” Note a eloquência e serenidade em seu olhar ao falar de Green: quisera eu insultar (e poder insultar) dessa forma. Você pode continuar pesquisando sobre seu trash talking, e saiba que ele já garantiu a vitória no Super Bowl. Até Tom Brady se recusou a confrontá-lo nessa declaração. Medo, talvez? Acreditamos que sim.

Jalen também é First Team All Pro, e já está na conversa para ser considerado o melhor CB da NFL. Ao seu lado está AJ Bouye, Second Team All Pro e que teve 6 interceptações no ano. Fecham a secundária Barry Church e Tashaun Gipson, que tiveram cada um 4 interceptações na temporada, mesmo número de Ramsey. Some essas 18 interceptações. O Oakland Raiders de 2017 precisaria de mais de 3 temporadas e meia (3,6 – 57 jogos e dois quartos) para alcançar essa marca.

A unidade defensiva mostrou sua força também no coletivo: Sacksonville foi número 2 em interceptações e sacks, e ainda foi a primeira colocado no ranking do Football Outsiders, melhor que as métricas tradicionais para definir os melhores grupos da NFL.

O sentimento não vai parar

E quem é que vai parar tudo isso? Nick Foles vai conseguir lançar algum passe nessa secundária? A defesa contra o jogo corrido não é muito boa, mas se tirar Foles do jogo os Jaguars poderão focar em parar os RBs dos Eagles.

Case Keenum não vai conseguir outro milagre de Minneapolis, porque seus passes balão serão completados, mas não da forma que ele imaginou.

Tom Brady? Estude mais. Contra um time que tem Tom Coughlin, uma defesa com pass rush dominante e um QB inconstante, New England treme nos playoffs. E não somos nós que estamos falando. São os números (0 vitórias e duas derrotas). Já adiantamos: fechem a NFL antes que aconteça.

Por mais um último milagre de Minneapolis

Assisti ao jogo na casa da minha namorada, pelo celular, porque afinal de contas ainda não tenho direito de pegar o controle e mandar na TV lá (palavra chave: ainda). O primeiro tempo foi assustadoramente tranquilo, a defesa tão dominante quanto se poderia sonhar (Andrew Sendejo era facilmente o melhor WR de Drew Brees com aquela catch incrível) e o ataque era tão letal quanto pode ser – logo falaremos mais sobre ambos. 17-0. Algo historicamente não usual para um time como os Vikings de Minnesota.

Como passei o tempo inteiro pulando e vibrando, aproveitei o intervalo para dar um pouco de atenção para ela e respirar um pouco (coloquei o despertador para soar ao fim dos 15 minutos de intervalo). Quando o despertador tocou, peguei o celular e liguei no jogo de novo; ao mesmo tempo, minha namorada me avisa:

“Ok, eu vou tomar um banho pra dormir, tá tarde e eu trabalho amanhã.”

Sobre o time do primeiro tempo

A verdade é que, ainda que espetacular, o primeiro tempo foi tudo o que se podia esperar (e, portanto, ainda se espera pelos próximos dois jogos,). A linha defensiva, mesmo com Everson Griffen baleado, e produzindo apenas 2 sacks o jogo todo, perturbou tanto Drew Brees que o fez lançar duas interceptações: a que já citamos, em que Andrew Sendejo mais pareceu um WR que um S; e a outra, num desvio sem querer de Griffen, com a parte de trás da mão, que caiu no colo de Anthony Barr.

Créditos também para o gigantesco Linval Joseph e o do-it-all Eric Kendricks que, como sempre, taparam todos os espaços possíveis, limitando todas as corridas da dupla Kamara e Ingram assim como conseguiram os Panthers.

Diferente dos Panthers, entretanto, a secundária de Minnesota também foi gigante: Xavier Rhodes também manteve Michael Thomas no bolso, assim como Trae Waynes e Mackensie Alexander controlaram Ted Ginn Jr (afinal, apesar de 8 bolas recebidas, o maior ganho do velocista foi de 15 jardas). Harrison Smith, candidato a melhor jogador defensivo do ano mesmo estando fora do Pro Bowl, estava sempre na cobertura quando qualquer outro jogador (de qualquer outra posição: CB, LB  DL ) bobeava.

Do outro lado, no ataque, o time de Minnesota não é espetacular (válido lembrar, também, que a defesa de New Orleans não é de se jogar fora; mas não sobrou em nenhum momento nesses playoffs), mas conseguiu ser eficiente. Diggs e Thielen formam uma das melhores duplas de WRs da NFL hoje e agarram simplesmente qualquer coisa que Keenum joga na direção deles. Eles produzem first downs numa eficiência surpreendente junto com Rudolph e Wright (que se solidifica como WR3 porque sempre consegue converter terceiras descidas) – todos os recebedores de Case parecem estar sempre no lugar certo, na hora certa, sempre se esticando ao máximo e chegando a bolas que Dez Bryant com certeza não chegaria.

O jogo corrido de Latavius Murray e Jerick McKinnon não deixa a torcida sentir saudades de Adrian Peterson: dificilmente eles correrão para 80 jardas de uma vez só, mas igualmente difícil é vê-los correndo para -2 três vezes seguidas como nosso lendário RB fazia. Com uma linha ofensiva que consegue abrir espaços no jogo corrido especialmente no interior com Elflein, Beger e agora Remmers (movido de RT para LG com a ascensão de Rashod Hill), mesmo contra uma boa defesa, de first down em first down, os Vikings vão sempre chegando. Não à toa, tinham uma boa vantagem quando acabou o segundo quarto de partida.

Como a gente estava indo pro vestiário?

O banho

Quando ela falou em parar de ver o jogo, gelei. E se fosse ela quem estava dando sorte? O que eu fiz em seguida foi pior ainda.

“Mas e se for você quem está dando sorte? E se você for tomar banho e a gente tomar a virada?” – Ziquei. Forte. Tentei bater na madeira, tentei todo tipo de reza para tirar toda a desgraça que atraí para mim e para o meu time, tentei IMPEDI-LA de ir. Mas ela foi do mesmo jeito. Pois cheirosa.

E como vocês ainda devem lembrar, era realmente ela quem estava dando sorte. Afinal, o terceiro quarto foi um dos piores da temporada dos Vikings: um drive de sete minutos que acabou em punt, um TD fácil em que Xavier Rhodes perdeu na corrida para Michael Thomas, uma interceptação bizarra de Case Keenum e mais um TD bizarro em que, com Rhodes sentindo, o experiente Terrence Newman caiu no balanço do excelente Michael Thomas.

Nota da edição: Lembrem-se sempre de respeitar o meu Michael Thomas. 

Além disso, provavelmente o jogador mais surpreendente dessa equipe, Andrew Sendejo, foi apagado por uma trombada desnecessária (vindo logo da cidade do Bountygate, também podemos chamar de “trombada bem estranha”) do mesmo Michael Thomas e caiu travado no chão.

Nota da edição.2: Meu Michael Thomas não é desleal. 

O time que não jogou o segundo tempo

Assim como o primeiro tempo foi tudo aquilo que se espera da equipe de Minneapolis, o segundo foi exatamente o que o pior pessimista poderia esperar: a defesa regrediu a 2016 e o ataque mostrou aquela mediocridade latente. Obviamente, como é esperado desde a semana 2 da temporada, os que puxaram o ataque para trás foram a linha ofensiva e Keenum. Um, por ceder à crescente pressão que a defesa adversária trouxe, o que acabou também dificultando o jogo corrido e fazendo com que Keenum não conseguisse trabalhar em paz dentro do pocket e encontrar aquele micro-espaço que precisam os recebedores (o que acabaram tornando-se passes bizarros que passam longe).

Não à toa, Keenum lançou uma interceptação bizarra enquanto era atingido, o que preparou o segundo TD dos Saints no jogo, e Minnesota só pontuou em FGs muito longos (de 49 e 53 jardas), de um Kai Forbath que… Esquece. Não vai ter elogio para kicker até ganhar o Super Bowl.

A defesa, que dominou por dois quartos inteiros, desmontou-se quando perdeu a segurança de Andrew Sendejo. Foi aparente a falta de um “último homem” ali atrás e, mesmo que razoável, Anthony Harris não é metade do homem que é Sendejo – e, considerando que Andrew sofreu uma concussão, a pior lesão possível para se curar, sua recuperação é algo pela qual vale a pena acender uma vela. Ainda na secundária, Xavier Rhodes precisa recuperar o foco de quem parou Antonio Brown e Julio Jones na temporada regular para ajudar o time a ter sucesso nesses playoffs; além disso, é necessário perceber que talvez Terrence Newman já não seja assim uma grande opção que foi nos últimos anos – pelo que Waynes e Alexander tem evoluido a cada snap.

The Minneapolis Miracle

Em algum momento entre a interceptação e o segundo TD a minha namorada estava de volta (o suficiente para ajudar Kai Forbath a acertar os dois FGs que só ela, insensível ao histórico do meu time com kickers, teve coragem de olhar), mas Alvin Kamara enfrentando um simples linebacker, mesmo que Eric Kendricks, é apenas crueldade. 23-21.

Com um minuto e meio de jogo, Drew Brees lançava a bola e conquistava first downs com velocidade. Minha respiração trancava a cada passe completo e vibrava com cada stop. Obviamente, sabemos que Nova Orleans chegou à linha de 25 jardas e, com Zimmer podendo pedir apenas mais dois tempos, esteve a uma jarda (3-and-1) de garantir a vitória. Defensive stop. Ainda assim, era um chute fácil. Não quis olhar, sabendo que um erro bizarro seria basicamente a última esperança, minha namorada também se manteve em silêncio.

“Acertou?”, perguntei um minuto depois. “Aham.”, respondeu ela, já segurando o celular porque eu tremia de raiva. 24-23, 25 segundos restantes. “Acabou.”, simplesmente anunciei e, se estivesse sozinho, com certeza teria largado o celular e ido xingar os pipoqueiros no twitter do site. “Mas, assim, acabou mesmo? Não tem nenhuma chance de eles fazerem pontos?”, perguntou minha namorada, como disse, inocente às dores do futebol americano. Não resisti à esperança: “Tem, até, acho, 0,1% de chance, mas do jeito que estamos jogando, só um milagre”.

Sentei. Primeira jogada, false start de Mike Remmers – agora sim estava tudo perdido. Logo em seguida, Keenum acerta um passe de 19 jardas para Stefon Diggs, no meio do campo, gastando o último pedido de tempo roxo-e-dourado. 18 segundos para o fim.

“Ok, precisamos de mais umas 25 jardas e sair de campo.”, expliquei mais para mim mesmo que para ela. Me frustrei no primeiro passe errado para Jarius Wright e, com 14 segundos, sabia que Keenum sequer tinha braço para vencer a secundária dos Saints já marcando as laterais e assistia apenas porque, afinal, já estava ali mesmo e VAI QUE. Mais um passe errado para McKinnon. 10 segundos.

“Bom, último lance. É agora ou nunca.” – minha cabeça já estava trabalhando nos palavrões dos quais eu xingaria Forbath mesmo que o time entrasse em posição de chutar. Como se diz: o resto é história. Minha namorada tinha razão.

Nota da edição.3: o autor do texto tem uma namorada, caso vocês não tenham percebido até aqui.

Griffen (1,91m, 124kg) depois do milagre e de ter sido girado no ar por Linval Joseph. Gente como a gente.

O que esperamos de Case Keenum?

Estamos vivendo um playoff de defesas: Jaguars, Eagles e um amontoado qualquer controlado malignamente por Belichick – as três igualmente assustadoras. Entretanto, basta olhar o que a defesa dos Vikings foi capaz de produzir durante toda a temporada regular e no primeiro tempo contra Drew Brees para saber que ela é melhor do que as outras – e será a grande responsável por controlar os jogos e permitir que o time ganhe com poucos pontos. Simples assim. Obviamente, será necessário aprender com a falta de concentração que aconteceu no segundo tempo e especialmente torcer pela volta de Andrew Sendejo – ou ajustar o time para jogar sem ele, como fez em 3 jogos na temporada, com destaque para a semana 8, contra os até então imparáveis Los Angeles Rams.

Do outro lado, jogando contra grandes defesas, será necessário contar com um ataque que produza pontos suficientes. Está claro que os recebedores são excelentes, no mínimo no mesmo nível de qualquer um dos outros 3 restantes (mas provavelmente melhores). Considerando que a linha manterá o seu nível médio, o jogo cai na mão de Case Keenum.

Se a vida real fosse igual Madden, certamente Sam Bradford seria uma opção muito superior. Entretanto, e especialmente depois do que aconteceu no domingo 14 à noite, esse time morre ou vive nos braços de Keenum – contando com a sua habilidade ou com sua sorte. Sua habilidade de controlar bem o pocket será colocada a prova contra Philadelphia e seus pés imparáveis (perceba como ele simplesmente não fica fincado enquanto passa pelas suas opções, mas sim sempre se movimentando e evitando a pressão) serão essenciais para isso.

Além disso, colocar os seus recebedores em boa posição evitando, pelo menos alguma vezes, mandar um passe alto demais (vamos ser sinceros, deu certo, mas o passe derradeiro para Diggs, assim como algumas outras catches espetaculares de Thielen, simplesmente não estavam no lugar certo) poderá ser a diferença entre a vida e a morte. Explorar a secundária de um time que basicamente não permite corridas, mas é apenas razoável contra o passe será o caminho da vitória de Minnesota.

Por último e certamente crucial para os Vikings: para alguém que nunca tinha visto um jogo completo, também, a Lu aceitará a sua condição de talismã. E sem banhos no meio do jogo dessa vez.

Tá na agenda!

De favorito a underdog: a história do Philadelphia Eagles

O Philadelphia Eagles de 2017 é o time dos extremos: depois de conquistar a primeira posição na NFC durante a temporada regular e ser um dos favoritos a chegar ao Super Bowl, o time passou a ser um verdadeiro azarão. A contusão de Carson Wentz, que vinha sendo o melhor QB da liga e principal candidato ao prêmio de MVP, teve um impacto muito grande para o Eagles, e não apenas dentro de campo.

O melhor time da Conferência, pelo menos na tabela de classificação, chegou ao Divisional Round dos playoffs como posição número um mais menosprezada dos últimos tempos. Foi a primeira vez na história em que as casas de apostas americanas consideraram que o time com a sexta melhor campanha, o Atlanta Falcons, jogando fora de casa, era o favorito no confronto contra a seed #1 e mandante da partida.

Apesar do descrédito, o primeiro round foi bem sucedido. A vitória contra o Falcons não foi bonita, é claro. O placar de 15×10 não acaba com as dúvidas dos que não acreditam no Eagles sem Carson Wentz. Em um jogo apertado, de pouca inspiração ofensiva, o time mais eficiente venceu, mas não empolgou. Se Atlanta tivesse tido um pouco mais de inspiração nas chamadas ofensivas em seus últimos quatro downs (isso é sim um ataque direto a Steve Sarkisian), quando esteve a duas jardas de vencer o jogo, esse texto não estaria nem sendo escrito.

Saudades Carsinho.

Mas o Eagles contrariou os prognósticos desfavoráveis e venceu, provando que o título de underdog era um pouco exagerado. Agora, na final da Conferência, o adversário é o forte Minnesota Vikings, que vem carregado de energias positivas após uma das jogadas mais épicas de todos os tempos. Assim como no jogo contra o Falcons, o Eagles é novamente considerado zebra: Las Vegas considera que o Vikings tem vantagem de 3,5 pontos no confronto.

O menosprezo externo parece não afetar o time, que usa a narrativa de ser um underdog como motivação. “Prefiro que as pessoas duvidem de nós, ao invés de nos dar tapinhas nas costas”, disse o Right Tackle Lane Johnson, que após o jogo contra o Falcons não hesitou em colocar uma máscara de cachorro e esfregar a vitória na cara dos que consideravam o Eagles como “dogs”.

Apesar de novamente ser subestimado, o Eagles tem todas as condições de bater o Vikings e avançar ao Super Bowl pela primeira vez desde 2005, quando perdeu para o New England Patriots. Como isso acontecerá? As razões são várias.

Torcida e clima

A atmosfera na Philadelphia será extremamente favorável ao Eagles. Na arquibancada, serão 69 mil torcedores sedentos por um Super Bowl. Famosos pelo fanatismo e pelo descontrole (e pelas vaias), são capazes de ser presos por socar o cavalo da polícia, vaiar o Papai Noel e promover brigas épicas no metrô. São esses mesmos torcedores alucinados que tornarão a vida do Minnesota Vikings um inferno durante todo o jogo.

A vantagem de jogar em casa não pode ser menosprezada, especialmente no frio de Philly em Janeiro e contra um time que já se acostumou a jogar no calor de seu novo e confortável estádio coberto.

Essa turminha vai arrumar altas confusões em janeiro!

Eliminar erros

Em um jogo que promete ser disputado até o fim, como foi contra o Falcons, quem errar menos, obviamente, vence. Por isso, é fundamental eliminar alguns deslizes inaceitáveis como os que poderiam ter custado a vitória no Divisional Round. Turnovers, como o fumble de Jay  Ajayi logo no início da partida, e falhas em jogadas de special teams, como o ponto extra perdido por Jake Elliot e o muffed punt que deu a bola para o Falcons já na redzone, simplesmente não podem acontecer. O Minnesota Vikings é um time mais forte que o Atlanta Falcons e certamente conseguirá tirar mais proveito desse tipo de falha em um jogo cujo placar deve ser baixo.

Ter sucesso no jogo corrido

De acordo com o site Number Fire, desde que Jay Ajayi chegou a Philadelphia, na semana 9 da temporada regular, apenas Alvin Kamara tem média de jardas por tentativa superior a do RB do Eagles. Porém, a missão de Ajayi contra o Vikings não será nada fácil. Minnesota tem uma das melhores defesas da NFL contra o jogo terrestre. Além de uma linha defensiva dominante, os linebackers são muito rápidos e versáteis. Correr contra o Vikings é, sim, difícil. Mas mais difícil ainda é travar um duelo aéreo contra a secundária de Minnesota, especialmente quando Nick Foles é seu QB.

Claramente, o ponto forte do ataque do Eagles sem Carson Wentz é pelo chão. Para ter chances reais de vitória, é fundamental estabelecer o jogo terrestre desde o início do jogo, controlar o relógio e manter o placar sob controle.

Esconder Nick Foles

No duelo dos backup QBs, o time que conseguir mascarar as falhas do comandante do seu ataque terá mais chances de sucesso. Isso parece ser mais importante para o Philadelphia Eagles do que para o Minnesota Vikings, que tem Case Keenum jogando bem desde o início da temporada e sendo um QB claramente melhor que Nick Foles.

Contra uma defesa rápida e agressiva, o Eagles precisa tornar o trabalho de Foles o mais simples possível. Leituras rápidas, passes curtos, screens e run-pass options (o novo termo da moda pra quem quer fingir que entende de tática) são maneiras efetivas de minimizar os riscos de turnovers e ganhar jardas, mesmo que poucas, de forma contínua. A experiência que Foles teve no ataque de Chip Kelly, em 2013, quando lançou 27 TDs e apenas 2 INTs, mesmo tendo sido um desvio de percurso, pode e deve ser aproveitada nessa situação.

Pressionar Case Keenum

Brandon Graham, Fletcher Cox, Tim Jernigan e Vinny Curry formam uma das melhores linhas defensivas da NFL, tanto contra o jogo terrestre quanto contra o jogo aéreo. De acordo com o site Pro Football Focus, o Eagles conseguiu pressionar o QB adversário em 41,5% dos dropbacks, enquanto a média da liga é 34,7%. O que mais impressiona é que a linha defensiva consegue colocar pressão no QB em 38,3% dos snaps em que manda apenas quatro pass rushers. Ou seja, em grande parte dos snaps, o Eagles consegue chegar ao cenário ideal para uma defesa: conseguir chegar ao QB sem mandar Blitzes.

Ao mesmo tempo em que a defesa tem um pass rush eficiente, Case Keenum é um dos QBs mais pressionados da NFL: 39,3% das jogadas, de acordo com o PFF. Naturalmente, como a maioria dos QBs, Keenum tem percentual de passes completos e rating consideravelmente inferiores quando está sob pressão. Contra o Saints, ele completou apenas 3 de 11 passes quando estava sob pressão e, inclusive, lançou uma interceptação de sangrar os olhos. A matemática, nesse caso, está ao lado de Philly e pode ser decisiva, afinal títulos já foram decididos por defesas com pass rush eficiente (alô, Denver Broncos!).

Spoiler.

Acreditar no destino

Por último, é preciso acreditar que, mesmo sem seu melhor e mais importante jogador, o Eagles não chegou até a final de Conferência por acaso. Com uma pequena força dos deuses do football, que têm vontades bastante peculiares, o time pode emular um New York Giants de 2007 ou um Baltimore Ravens de 2012, chegar ao Super Bowl e, inclusive, vencê-lo. Basta uma ajudinha do destino, por que não?

Análise Tática #23 – Wild Card: os pontos chaves para a virada do Tennessee Titans

Finalmente chegamos aos playoffs. No último sábado, o Kansas City Chiefs foi eliminado mais uma vez no Arrowhead Stadium após uma boa temporada, assumindo o papel de seleção mexicana da NFL, em seu mote “jogamos como nunca, perdemos como sempre”.

E dessa vez, foi com requintes de crueldade. 21 a 3 no primeiro tempo, grande exibição, ataque produzindo bastante jardas e jogo corrido engrenado. A defesa dos Titans comandada por Dick LeBeau não conseguia respostas, enquanto o ataque comandado por Marcus Mariota parecia mal preparada e desenhada.

No segundo tempo, tudo mudou: os Titans anotaram 19 pontos seguidos, enquanto a defesa não cedeu nada aos Chiefs, 22 a 21 na primeira vitória de pós-temporada de Marcus Mariota. O técnico Mike Mularkey inclusive pensou que seria demitido, enquanto o time ganhou uma sobrevida para enfrentar o New England Patriots na rodada divisional.

Domínio dos Chiefs

O primeiro tempo foi marcado pelo ataque dos Chiefs dominando a defesa dos Titans em todos os pontos do jogo, principalmente com o TE Travis Kelce. O ataque coordenado por Matt Nagy partiu principalmente do 11 personnel. Nagy costuma posicionar Kelce em diferentes pontos do ataque, como X, Y e Z, geralmente utilizando motion para fornecer leituras defensivas ao QB Alex Smith. Esse comportamento é comum em times com TEs dominantes.

Na imagem acima mostra-se a primeira conversão de terceira descida do jogo. Jogada desenhada para Travis Kelce sair do motion e ajudar Alex Smith detectar a marcação. Junto com a posição do quadril dos CBs e o acompanhamento de um jogador, Smith sabe que encara uma cobertura mano-a-mano.

O desdobramento dessa leitura pré-snap é que Kelce provavelmente terá vantagem em relação a seu marcador devido ao atleticismo. O TE executa uma rota de double move que eu chamo de slant-corner (na realidade esse nome é um conceito, como o curl flats do Madden), provavelmente o corte para fora é devido à sua leitura de opção. Smith coloca a bola no ombro de fora, ponto que apenas Kelce consiga alcançar. Novo set de downs.

Aqui, cabe-se o fato de que devido ao cushion dado pelos safeties na marcação em zona, Kelce fica em marcação individual. Adoree’ Jackson percebe e larga Tyrek Hill para fechar o tackle e evitar um ganho maior que 14 jardas.

A defesa dos Chiefs segurou o ataque dos Titans. Novamente em uma terceira descida, o Chiefs apresenta um shotgun em 11 personnel.

O interessante dessa jogada, que dependendo da progressão que Alex Smith faça na jogada, ela pode ser um conceito smash, levels ou mesh. Aqui, pela situação descida/distância, Smith enfrenta um 3-men rush e se concentra nas rotas internas, definindo o conceito mesh.

Mariota a ponto de ter o passe desviado.

Tyreek Hill quebra os tackles, conta com o bloqueio de Kareem Hunt na rota wheel e consegue um ganho de 45 jardas. Big play responsável por ditar o ritmo do drive que terminou com o primeiro touchdown da partida.

A defesa dos Chiefs forçou mais um 3-and-out, e o ataque novamente capitalizou. Após um drive de 6 jogadas, 3 delas com ganho maior que 15 jardas. A pontuação veio com um ganho de 13 jardas em uma 1st & 10 na redzone, ainda no primeiro quarto.

Travis Kelce parte da posição de 3 apoios na rota seam, a preferida dos TEs dominantes, pois é impossível defender contra um lob-pass. Contra um LB e um safety, Alex Smith coloca o passe acima da cabeça de Kelce, que faz a recepção. As rotas espalhadas para as laterais criam esse mismatch, deixando o meio do campo livre.

O domínio defensivo dos Chiefs

Como mencionado repetidas vezes, a defesa dos Chiefs forçou 3 punts, conquistou uma interceptação e cedeu apenas um field goal. Vamos observar a jogada em que Marcus Peters intercepta Marcus Mariota quando o placar estava 14 a 0 para o time de Kansas City.

Os Titans tentam aplicar um tipo de Strong flood em que três rotas out e uma rota dig quebram em regiões diferentes do campo, criando camadas de leitura (tal como o conceito levels) para o QB. Aqui, a progressão provavelmente é entre as rotas dos recebedores no lado forte da linha (direito).

O recebedor mais aberto tentará atrair Marcus Peters até o fundo da endzone enquanto Delanie Walker quebrará a rota na altura da linha de 5 jardas. A jogada dá errado por que Peters (marcando em zona, repare como os quadris estão voltados para o meio do campo) reconhece o padrão e percebe que o passe vai na direção de Walker, pula na rota e faz a interceptação.

Um ball placement abaixo do desejável por Mariota permite que Marcus Peters alcance a bola.

Os ajustes ofensivos de Tennessee

No segundo tempo o jogo mudou. Em parte, devido à concussão de Travis Kelce, o Kansas City Chiefs não conseguiu manter o poderio ofensivo mostrado na primeira etapa, além do fato de que o coordenador ofensivo Matt Nagy ter limitado Kareem Hunt a cinco carregadas. Não se tira a bola do seu melhor jogador quando se está ganhando o jogo, ainda mais quando o mesmo é um running back.

Na parte defensiva, Dick LeBeau ajustou seus esquemas de pressão a Alex Smith, ao contrário do que estava tentando na primeira etapa. Smith não é exatamente o QB mais prolífico da liga, então algumas blitzes pontuais eram necessárias para dar uma nova leitura ao QB, tentar deixá-lo desconfortável no pocket. No primeiro tempo de jogo, Tennessee tentava pressionar Smith na maioria das vezes com 3-men-rush, e o QB encontrava jogadores livres devido ao tempo disponível no pocket.

No ataque, Marcus Mariota finalmente apareceu para jogar. O QB vindo de Oregon fez exatamente o que se espera de um líder de um time no momento de maior necessidade. Criou jogadas com as pernas, conectou bons passes e mesmo bloqueou na jogada que selou a vitória.

Tennessee virou a relação de posse de bola, passando a comandar campanhas ofensivas mais longas, da mesma forma em que a defesa conseguia tirar Kansas City de campo mais rapidamente. Os Titans abriram o terceiro quarto com uma campanha de 15 jardas e quase 10 minutos que acabou em touchdown, o cenário dos sonhos para qualquer bom ataque.

Os Titans executam o conceito levels, porém a defesa de Kansas City marca todas as rotas individualmente e obriga Marcus Mariota a ir para o checkdown. Contra um 4-men-rush, o QB consegue permanecer no ponto ótimo de proteção e conecta o passe.

Pela “teoria do cobertor curto”, como as rotas principais estavam bem marcadas, isso logicamente abriu um espaço para que Derrick Henry conquistasse muitas jardas com as pernas, 29 ao todo. O drive terminou no touchdown de Mariota em que ele recepcionou o próprio passe defletido pela defesa de Kansas City e se atirou no pylon.

Em seguida, os Titans tiveram sorte ao Harrison Butker perder um field goal em um drive vindo de um turnover de special teams. Os Titans capitalizaram com touchdown, reduzindo a vantagem para 5 pontos.

Pelo texto em que demonstramos o plano de jogo dos Steelers, o leitor já deve conhecer o conceito trap. Um jogador de linha ofensiva, geralmente o guard bloqueia no lado oposto ao seu em relação ao center, na direção em que se desenvolve a jogada. Aqui, vemos Josh Kline realizar esse papel.

 

Observando a jogada de frente, observamos que Kline engaja seu bloqueio no camisa 21, enquanto a linha se desloca para a direita. O gap criado ocorre bem na direção da hashmark esquerda. Alcançando o mesh point em velocidade, Henry toma a leitura bang. Nenhum defensor é capaz de alcançá-lo e o touchdown acontece.

Na jogada que resultou a virada no placar, observamos que Terry Robiskie –coordenador ofensivo – desenha duas rotas para a mesma direção, com Eric Decker e Delanie Walker. Em quesito estratégico, isso dificulta o trabalho de Mariota, pois concentra os dois safeties para a direção da bola, em vez de abrir o espaço no meio do campo.

Aqui, Mariota conta com o excelente trabalho da linha contra um 4-men-rush e coloca o passe em uma ótima posição, resultando em touchdown. 22 a 21, a virada aconteceu.

Ajustes defensivos de Tennessee

Para exemplificar como Dick LeBeau trabalhou a defesa no segundo tempo, vamos observar uma jogada chave de passe incompleto, stop que antecedeu o drive do touchdown da virada pelos Titans.

Os Chiefs tentam realizar uma conversão rápida de um 3rd & 2 com uma slant simples. Por causa do press coverage, a rota fica fora de timing com Alex Smith, enquanto o recebedor tenta improvisar indo um pouco mais fundo no campo. O single-high safety reage bem na jogada e fecha a linha de passe.

Após uma virada improvável, Tennessee tem mais uma dura tarefa ao enfrentar os Patriots em Foxborough, onde não perdem em um jogo de playoffs desde o AFC Championship Game da temporada de 2012.

  • Diego Vieira será Titans desde criancinha no próximo sábado.

O New Orleans Saints está voltando

Esses dias, twettamos:

O caso da franquia de Nova Orleans não é diferente. O time sempre foi carregado pelo lendário desempenho de Drew Brees (é assim desde 2006), quando chegou junto com Sean Payton para mudar uma história fracassada dos Saints: o time não ganhou nenhum jogo de playoff durante o século XX e apenas um até a chegada deles; desde então, são seis vitórias em cinco aparições nos playoffs (também igualando a marca da franquia pré-Brees), incluindo o Super Bowl XLIV – e, válido lembrar, jogos eletrizantes perdidos para Marshawn Lynch em 2011 e Alex Smith em 2012; invariavelmente o Saints nos playoffs tem nos trazido coisa boa.

Entretanto, durante a inter-temporada de 2012, o famoso Bountygate foi descoberto e líderes importantes da equipe, como o LB Jonathan Vilma e o DE Will Smith foram envolvidos, obviamente não colaborando com a estabilidade da equipe – que já não contava com o DC Gregg Williams (hoje, surpreendentemente, ainda na NFL, trabalhando nos Browns). Foi o primeiro 7-9 de quatro que viriam em cinco anos.

Apesar da melhora em 2013 (11-5), os anos que seguiram foram de dar orgulho para Jeff Fisher: se Drew Brees seguia quebrando recordes (liderando a liga em jardas passadas em 2014-16), elevando o nível dos jogadores a seu redor e comandando um ataque top 10 como já era habitual, obviamente o problema estava do outro lado, com uma defesa eternamente entre as cinco piores da liga, tanto em jardas como em pontos.

A liderança de um rookie (ou vários)

Cameron Tyler (“Cam” para os mais chegados) Jordan é o principal nome da defesa dos Saints desde que foi draftado, em 2011. Desde 2012, quando assumiu a titularidade, ele acumula uma média de de 9.1 sacks por temporada em um esquema em que ele é responsável por fazer muito do serviço sujo nas trincheiras, como proteger contra o jogo corrido e abrir espaço para os LBs; até 2015, ele era DE em um 3-4. Com um pouco mais de liberdade que ganhou em 2017, Jordan recebeu pela primeira vez a honraria de First Team All-Pro da NFL: afinal, provavelmente nenhum outro jogador conseguiu acumular 13 sacks enquanto também adicionava 12 passes desviados (bons números para mostrar o terror que Jordan causa nos QBs adversários).

Apesar de ser um craque que merece receber as glórias agora que finalmente a defesa parece estar encaixada (já que Cam é o único ponto positivo há anos em um sistema medíocre), a jovem secundária é quem ganhou, merecidamente, maior destaque. Em uma posição em que tradicionalmente se toma tempo para se desenvolver (Xavier Rhodes e Aqib Talib, por exemplo, sequer iniciaram todos os seus jogos quando novatos), Marshon Lattimore não só se mostrou pronto para ser titular poucos meses depois de ter sido escolhido na 11ª posição do draft, como para ser um dos melhores cornerbacks da liga em 2017 (7º melhor, de acordo com a PFF), somando cinco interceptações, uma visita ao Pro Bowl e dois prêmios de Defensive Rookie of the Month, o primeiro jogador na história a consegui-lo.

Mais interessante é que Lattimore não fez parte de um grupo sólido de veteranos. Excetuando Kenny Vaccaro (na IR, portanto indisponível para ajudar a equipe durante os playoffs), que já não é mais o pesadelo como matchup que era quando chegou a liga, o resto da secundária era composta por mais novatos ou segundoanistas: Vonn Bell, que chegou à liga da segunda rodada de 2016; Marcus Williams, da segunda rodada desta temporada, que também já chegou metendo quatro interceptações; e Ken Crawley, undrafted em 2016. Um conjunto interessante que, mesmo tendo executado um trabalho apenas suficiente, mostra um potencial altíssimo – supondo que continue desenvolvendo-se para o futuro.

Turminha do barulho.

Drew Brees precisava de ajuda

Podemos dizer negar e torcer pelo contrário, mas a idade chega para todos. Por mais incrível que seja, até mesmo para Brees ela começaria a pesar – obviamente ele ainda é um Hall of Famer, mas seus números já não são os mesmos do MVP absoluto que carregava a equipe independentemente do que tivesse ao redor: basta olhar os “míseros” 23 TDs lançados, menor valor desde seu segundo ano na liga, e os 386 passes completos, menor valor desde 2009 (!), mesmo que ainda maior número na liga – nada que o tenha impedido de bater o recorde de % de passes completos marcado por Sam Bradford ano passado.

A solução lógica? Adicionar boas peças a seu redor. Obviamente a troca de Bradin Cooks parecia bizarra, mas a melhora na linha ofensiva (foram cedidos apenas 20 sacks em 2017) trazida pelo RT Ryan Ramczyk, trazido com a escolha da trade por Cooks, e o RG Larry Warford, com o dinheiro que seria destinado a Cooks, foi parte importante.

Os skill players foram ainda mais impressionantes; Michael Thomas continua tão assustador quanto possível e é um dos WRs mais confiáveis da liga, enquanto Ted Ginn volta e meia descola uma grande jogada para ajudar o jogo. Mais assustadores ainda são os “reservas de Adrian Peterson”.

Assim que Adrian foi trocado, na bye da equipe na semana 5, a dupla Ingram e Kamara (que, admitimos, criticamos a sua seleção por um time que não precisava de RB. Hoje, porém, compreendemos que foi mais do que justificada) simplesmente explodiu. Ambos acumularam 3094 jardas e 25 TDs combinados, com 288 e 201 toques na bola, respectivamente – Kamara, inclusive, se tornou o segundo com mais recepções na equipe, com 81.

E um time com RBs, sempre válido lembrar, dá sempre uma opção segura para o QB (não à toa, Brees também lançou seu menor número de INT/passe da carreira, mesmo com um braço que já não é tudo aquilo), além de colaborar com o controle do relógio.

Dupla da pesada.

Falta apenas responder: o que é uma defesa suficiente?

Nos 12 anos de Payton-Brees, a defesa dos Saints foi top 10 na liga em número de jardas e pontos cedidos em duas oportunidades: 2010 (em que o time foi animal contra o passe, ainda na tona do desempenho de 2009) e em 2013 – a mais recente, contando com uma grande temporada de estreia do híbrido Kenny Vaccaro, além de jogadores como Keenan Lewis, Malcolm Jenkins e Junior Galette (nenhum segue em New Orleans). Nas demais, teve uma forte tendência a ficar na metade de baixo da lista.

Ainda assim, o time esteve presente nos playoffs algumas mais vezes. A tendência forte desses anos foi a de ceder um pouco menos de pontos que o costumeiro: sempre que cedeu menos de 350 pontos totais (uma média nada absurda de quase 22 por jogo – os Vikings cederam menos de 16 por jogo em 2017, a título de comparação), o time chegou à pós-temporada. Produzindo tipicamente mais de 400 (só em 2007 e 2010 o time não chegou à essa marca), as vitórias inevitavelmente se acumulam.

Repetindo a receita dos bons anos da defesa, 2017 conseguiu ser outra vez suficiente, cedendo apenas 326 pontos (top 10 da liga). Auxiliado pelo jogo corrido e pela pontaria de Drew Brees, produzindo bem mais first downs que os adversários, o cronômetro raramente para e a equipe fica muito mais com a bola que os rivais, com drives mais longos também para a defesa descansar.

Olhando também para a defesa de 2009, que ajudou muito a vencer o Super Bowl, a atual tem a mesma mentalidade de buscar sempre o turnover (basta lembrar as interceptações de Tracy Porter contra Brett Favre e Peyton Manning, nos dois jogos finais): 13,6% (quase 1 em cada 7) dos drives adversários acabaram com um roubo de posse da defesa, especialmente com interceptações (20, número 3 na liga).

Se a história se repete, ela pode ser uma boa lembrança para se apegar.

Análise Tática #21 – Semana #15: O plano de jogo do Pittsburgh Steelers

A análise tática semanal dá mais um passo no entendimento do jogo (ou não). Nas últimas semanas, introduzimos alguns conceitos de situações espeíficas, como trabalho do quarterback, jogo terrestre, two-minute drill. O objetivo do texto dessa semana é introduzir a percepção de como se desenvolve o plano de jogo de uma equipe durante uma partida, no caso, o ataque do Pittsburgh Steelers contra o New England Patriots na semana 15 da temporada de 2017.

O amigo leitor sabe que o futebol americano é um jogo estratégico, um “xadrez dentro de campo” (marca registrada). Apesar de eu odiar essa analogia, ela faz o perfeito sentido. Segundo Pat Kirwan, o desenvolvimento do plano de jogo começa logo após o encerramento da partida anterior, e se estende ao longo dos treinamentos até os ajustes de intervalo.

No aspecto ofensivo, um quarterback experiente como Ben Roethlisberger participa de todo esse processo, seja vendo vídeos de partidas anteriores para detectar as tendências e deficiências da defesa adversária, junto com o setor de scouting. Também opinar sobre aquilo o que ele se sente confortável a executar durante a partida, juntamente com os técnicos.

Em um aspecto macro, é trabalho do head-coach e do coordenador ofensivo, ao obterem as informações vindas do setor de scouting, saber determinar as próprias tendências. Assim, a defesa adversária mantém-se em dúvida sobre qual tipo de jogada será executada quando observa um determinado pacote em campo. Assim se instala o jogo de futebol americano, na maioria dos casos, quem consegue ocultar melhor suas características, leva vantagem no plano estratégico.

Em uma jornada semanal completa (o time joga aos domingos), a detecção de tendências geralmente ocorre às segundas e terças, enquanto o plano é levado a campo a ser passado aos jogadores de quarta à sexta. O sábado é focado em ajustes e testes de sincronismo aos jogadores, por que provavelmente o time se concentrará em algum hotel da cidade ou necessita viajar ao local da partida.

Tratando, especificamente da partida, a situação ideal de plano de jogo. Como inativos, o Steelers teve apenas os OT Matt Feller, TE Vance McDonald e WR Justin Hunter, nenhum ponto central do ataque. Já como deficiências do adversário, podemos sinalizar de imediato a falta de um pass-rush dominante e a falta de linebackers como principais pontos do New England Patriots. Dont’a Hightower está fora da temporada e o time ainda teve a ausência do DT Alan Branch no último domingo.

Apesar de que bons técnicos são capazes de contornar essas situações, a falta de estrelas em uma unidade afeta a construção estratégica, por que o time precisa considerar o planejamento de prancheta só se converterá em campo se houver no elenco as peças certas para tal. Parece um ponto óbvio, mas acredite leitor, vemos muitas equipes no domingo tentando executar sistemas que não são capazes, não à toa temos tantos times abaixo da média na liga (16 ataques com DVOA negativo em 2017).

Em termos estatísticos, o ataque dos Steelers executou 63 jogadas, sendo 22/30 passes (completos/tentados) para 270 jardas, 31 tentativas de corridas para 143 jardas. Houve uma interceptação, justamente a que deu a vitória ao New England Patriots, e Roethlisberger sofreu sack em duas ocasiões. Esse montante se desenvolveu em 9 drives ofensivos, 5 punts, 3 touchdowns ofensivos e 1 field goal. A campanha mais longa se desenvolveu no segundo quarto, totalizando 15 jogadas. As demais tiveram entre 6 e 8 snaps.

Observando jogada a jogada cada formação colocada em campo pelo ataque dos Steelers, percebemos um determinado padrão. Roethlisberger alinhou 30 vezes em shotgun em situações de corrida e 24 vezes em situações de passe, maioria absoluta (das 31 tentativas de corrida e 32 dropbacks), destes, os 22 primeiros snaps foram com Big Bem alinhado 5 jardas atrás do center.

Claramente Mike Tomlin deu um padrão a ser observado por Bill Belichick e Matt Patricia nos ajustes de intervalo. Em relação aos personnel (quantidade de TEs e RBs em campo, ajuda a saber se o ataque está propenso ao passe ou à corrida), destacou-se o 11 personnel, que apareceu em 21 ocasiões de passe e 17 ocasiões de corrida. Quanto às descidas, a relação foi a seguinte:

  • 1st down: 12 passes, 17 corridas.
  • 2nd down: 7 passes, 15 corridas
  • 3rd down: 15 passes, 1 corrida.

Aqui cabe a observação que em nenhum momento do jogo o time da Pensilvânia arriscou uma tentativa de conversão de 4th down. No primeiro tempo da partida, os Steelers concentraram a maior quantidade de jogadas de passe no jogo, situação que se reverteu na metade seguinte. O objetivo foi basicamente comprometer a defesa com a bidimensionalidade do ataque, permitindo com que Bem Roethlisberger explorasse o play action fake, fato que se sucedeu principalmente em terceiras descidas.

Depois dessa quantidade de números, vamos finalmente tratar dos conceitos apresentados em campo. Afinal, essa coluna é a análise tática, então vocês esperam ver prints com rotas desenhadas no paint e GIFs, certo?

A inside zone dos Steelers

Em termos de jogo terrestre , a jogada mais executada na partida foi a inside zone. Valendo-se da elusividade de Le’Veon Bell, os Steelers utilizaram esse conceito de forma direta em sete oportunidades. Conta-se outros formatos de corrida que contam com esse tipo de bloqueio indiretamente. Em contrapartida, o outro método que vimos semana passada, a outside zone, foi executada em quatro oportunidades.

Houve uma diferença básica apresentada pelos Steelers nesse jogo. Como o time correu 30 vezes do shotgun, isso causa uma pequena diferença conceitual: o mesh point ocorre quase ao mesmo tempo em que Bell recebe o handoff. Isso obriga o RB a observar antecipadamente a disposição da defesa em campo ao mesmo tempo em que recebe a bola em mãos, fato que explica por que vemos Bell lenta e pacientemente observando os bloqueios se estabelecerem em vez de atacar o gap à toda velocidade.

A vantagem é que essa é exatamente a melhor característica do jogador, e o Steelers a utiliza com perfeição, exemplo de um plano de jogo montado às características dos skill players disponíveis. Se Bell não jogasse, com certeza veríamos números diferentes aos mostrados acima. O desenvolvimento de uma inside zone pode ser visto no gif abaixo.

A trap como contrapeso

A trap é um tipo de corrida em bloqueio por zona que depende do atleticismo dos jogadores de linha ofensiva. Basicamente, um dos guards é o lead blocker e deverá se deslocar ao lado oposto ao que está alinhado, enquanto o restante da linha bloqueia no sentido inverso. O RB deverá desenvolver sua leitura seguindo o bloqueio do guard.

Na imagem acima, vemos uma situação logo do início da partida, bola na linha de 28 do campo de defesa, uma 2nd & 15, com 13:05 de relógio. Foi a primeira vez que o Steelers estabeleceu a trap na partida. New England mostra um formato de Cover 2-Man, contra o shotgun singleback weak com recebedores em 1×2 de Pittsburgh. O safety mais próximo a parte inferior da tela mostra a blitz seguidas vezes de forma a tentar confundir a leitura do QB, até o ponto em que ele se mostra estar reagindo ao que Le’Veon Bell fará na jogada, tornando a defesa em Cover 1.

A jogada se desenvolve com o camisa #66 sendo o lead blocker para o lado direito, enquanto Le’Veon Bell o acompanha. O RB tropeça e encerra o que poderia ser uma jogada de grande avanço.

Na partida do último domingo observamos os Steelers bastante comprometidos com o jogo corrido, seja de forma a dominar o tempo de posse de bola contra o New England Patriots (manter Brady fora de campo é uma das premissas para derrotar o time de Foxboro), seja estruturando Bell como o ponto central do ataque. Outra possibilidade estratégica é explorar a fragilidade dos inside linebackers de New England: sem Dont’a Hightower fora da temporada por lesão, Kyle van Noy e Elandon Roberts, não são as opções mais apropriadas para conter um jogador elusivo como Le’Veon Bell.

Isso aconteceu também no jogo aéreo, em que os Steelers aproveitaram-se de passes curtos e laterais para aproveitar a velocidade de seus recebedores contra os linebackers adversários.

O passe curto

O subtítulo acima pode ser confuso e contraditório, mas no início da partida, Pittsburgh utilizou passes curtos como contrabalanço, de forma a manter a defesa dos Patriots com um mesmo conjunto defensivo em campo, principalmente em situações de terceira descida.

Como observamos, os Steelers concentraram a grande quantidade das jogadas de passe no primeiro tempo, e as jogadas de poucas jardas aéreas serviram como análogo ao jogo terrestre. Le’Veon Bell aparece novamente aqui executando com perfeição a wheel route. Foram três recepções executando essa rota, duas delas em shotgun weakside singleback (11 personnel) e uma em shotgun strongside singleback (10 personnel). Nenhuma, entretanto, foi para pontuação, apesar de que uma dessas se deu em conversão de terceira descida.

Na figura acima, observa-se o uso da wheel route em situação de primeira descida. O objetivo é deixar LeVeon Bell sem marcação nenhuma, enquanto dois recebedores percorrem rotas verticais e os mais internos realizam um conceito mesh. Isso permite que Bell ganhe várias jardas após a recepção pela incapacidade física dos LBs de o acompanhar e pela distância do safety responsável por aquele lado do campo.

O Steelers utilizou novamente essa combinação de duas rotas verticais e duas que se cruzam no meio do campo em conjunto com a wheel na conversão de terceira descida. Aqui, objetivo era guiar os linebackers ao fundo do campo e deixar Bell apenas acompanhado pelos safeties, que chegariam tardiamente na jogada.

Em uma situação de poucas jardas, o Patriots naturalmente protegeu a linha de first down, mas não foi suficiente para evitar a conversão.

As jogadas de pontuação

O Steelers conquistou 3 TDs em uma partida que terminou em uma derrota de 27-24. Vamos a cada um deles.

O primeiro touchdown de Pittsburgh na partida foi obtido em um mismatch entre o WR Eli Rogers e um linebacker. O recebedor executou uma angle route em direção ao meio do campo e venceu seu marcador na agilidade. No decorrer da jogada, a cobertura não foi capaz de alcançá-lo antes da endzone.

Esse é o típico caso em que a leitura do QB pré-snap sobre a defesa traz bons frutos. Big Ben observou o matchup favorável e fez o ajuste por meio de audibles. A defesa de New England não reagiu e o TD aconteceu. Reparem que a situação é tão favorável que os demais recebedores sequer correm suas rotas até o final e mesmo assim a jogada é bem-sucedida.

Antes ao intervalo, o Steelers executou seu melhor drive na partida. Foram 15 jogadas que consumiram 8 minutos de relógio, terminando em TD, mostrado na imagem acima. Os Steelers partiram de uma formação 1×3, e Bell saiu em motion para sobrecarregar o strongside, alinhando como recebedor. O WR à esquerda também se deslocou para esse lado, formando o conceito Strong Flood. O recebedor com a rota em laranja se desloca em sentido inverso, com o objetivo de se desmarcar com o tráfego no meio do campo.

Ben Roethlisberger executa um lob pass, e mesmo bem marcado, Martavis Bryant consegue fazer a recepção.

Lembra-se da trap que terminou em um tropeção de LeVeon Bell, caro leitor? Bem, ela reaparece aqui, dessa vez para render 6 pontos aos Steelers, no que foi sua última pontuação no jogo. O conceito é semelhante: o right guard será o lead blocker e guiará LeVeon Bell. O RB usa a inércia e se projeta na endzone mesmo sofrendo o tackle.

Como dito anteriormente, o New England Patriots venceu fora de casa por 27 a 24, situação que o deixou confortável na briga pela home field advantage. Porém, observamos que mesmo com a derrota, o Steelers, em seu plano de jogo, foi fiel às características das peças de seu ataque e conseguiu executar, em alguns momentos de manual o que foi planejado.

Mesmo com a derrota, o time de Pittsburgh conseguiu explorar as deficiências do adversário, não conseguiu vencer por que na outra fase do jogo havia um Rob Gronkowski em dia inspirado.

O sacrifício de Carson Wentz em nome do terceiro homem de Fisher

De atuações no mínimo duvidosas em 2016 (inclusive acumulando mais turnovers, 21, que touchdowns, 18), para principal candidato a MVP em 2017 – dependendo apenas de duas derrotas de Nick Foles nas próximas semanas para demonstrar sua vital importância -, Carson Wentz derrubou haters a cada semana. Jogos como os contra San Francisco e Kansas City, à la Kaepernick com menos de 60% de passes completos, deixavam os críticos preparados, apenas para acabarem respondidos por atuações como a contra Denver, com 4 TDs dominando a defesa dos Broncos mesmo sem Jason Peters protegendo seu lado cego.

O jogador favorito de LeBron James, teoricamente daqueles torcedores duplos, de Cowboys e Browns, virou muitas cabeças em 2017. Melhor de tudo, frio como os invernos em Fargo, Wentz não está nem aí para tanto hype.

Origens

Carson Wentz nasceu na Carolina do Norte, mas se mudou cedo para Bismarck; é a carinha do midwest rural e sempre lhe veremos como um menino da Dakota do Norte que está se aventurando muito longe – mesmo que na pré-temporada ele chame seus colegas para treinar em Fargo, onde, como definiu Jordan Matthews, “não tem nem uma estação de rádio que toque hip-hop”.

Fargo é onde está a sede de North Dakota State, a universidade onde vimos Carson surgir (por puro esquecimento das grandes universidades dessa parte do país). Esta, inclusive, uma universidade dominante da FCS, ou como preferimos chamar, a segunda divisão do futebol americano universitário (como prova o Fargodome comporta apenas 19 mil espectadores). Ele inclusive demorou para ter sua oportunidade como titular, já que o time era campeão todo ano e Brock Jensen, o então QB titular, era razoável – como definiu Tim Polasek: “estava claro quão talentoso Wentz era, mas estávamos de mãos amarradas. Estávamos satisfeitos com Brock, ele tinha o time nas mãos e o liderava.”

Com a saída de Brock Jensen e dois anos de experiência acumulados (e, não surpreendentemente, mais dois títulos somados), Wentz entrou para o draft. Somente Steve McNair (que teve uma boa carreira nos Titans, saído de Alcorn State) e Joe Flacco (que passou por Pittsburgh, da NCAA, antes de ir para Delaware) foram draftados diretamente da FCS no primeiro round – e Carson entrou bem contato para ser o terceiro da lista.

Esquecido anteriormente, foi colocado lado a lado com Jared Goff no draft de 2016 – enquanto Goff tinha mais pedigree, saído de uma universidade da Pac-12, Wentz tinha mais tempo de campo (com boas atuações, mas contra competição duvidosa) e todos os atributos físicos. Em uma decisão que hoje soa incompreensível, mas na época a maioria de nós aplaudimos, os temidos Browns trocaram a oportunidade de escolhê-lo pelos apaixonados Eagles de Doug Pederson – que já tinham Sam Bradford recém-renovado e Chase Daniel recém-contratado brigando pela titularidade na época.

Com a troca de Sam, Carson imediatamente assumiu as rédeas da equipe. Como já dito, a primeira temporada foi cheia de altos e baixos, além das dores típicas de crescimento de um novato: a inconstância no acerto de passes ou de medir a força deles, que animavam os críticos que afirmavam que ele só parecia jogar bem porque enfrentava jogadores fracos na universidade. Os últimos quatro jogos com a temporada dos Eagles já acabada, entretanto, pareciam uma forte indicação de que a NFL estava ficando mais lenta para Carson.

A temporada atual

Previmos na intertemporada que os Eagles estavam caminhando na direção correta, buscando a evolução de Wentz e Pederson, adicionando peças interessantes de apoio para quem sabe conseguir sonhar com uma pós-temporada agarrada pelos cabelos – doce ilusão. Depois de um início parecido com a temporada de 2016, os Eagles pegaram fogo e emendaram nove vitórias seguidas entre outubro e novembro.

Como nos sentimos obrigados a adicionar asteriscos (que, como veremos no próximo ponto, é o que poderá trazer esperança para Philadelphia), é importante relembrar que a defesa dos Eagles é uma das mais dominantes da liga atualmente, especialmente contra o jogo corrido.

Além disso, Wentz tem sido mais clutch que dominante all-around, conseguindo vitórias como o 37-9 contra Dallas ou 51-23 contra Denver com apenas 168 e 199 jardas, respectivamente, além de contar com mais de 100 jardas de seus running backs em quase todos (menos dois) jogos na temporada.

De qualquer forma, um QB ideal é aquele que aproveita as oportunidades que a vida (defesa adversária) oferece (vide Brady, Tom). Não importa como, 33 touchdowns (inclusive superando o recorde de Donovan McNabb com 3,5 jogos a menos) são o tipo de coisa que um jogador mais valioso do time conquista – garantindo o melhor aproveitamento na redzone da liga e o segundo melhor em conversão de terceiras descidas. Se ajudar a equipe a fabricar vitórias é em que Carson é bom, aposto que ninguém na Wentzylvania vai reclamar.

Vai ficar tudo bem.

Lesão

2017, porém, não pode deixar ninguém em paz. Em uma jogada corajosa, Wentz mergulhou para a endzone (o que seria seu primeiro TD corrido da temporada), sendo esmagado por dois defensores: um batendo na sua cintura, outro na sua canela. É assustador, já que suas pernas parecem moles, não de ossos; naturalmente, o seu joelho não aguentou o impacto, rompendo o ligamento anterior e, notícias mais recentes indicam, mais algum ligamento que pode prejudicar a sua volta. Para adicionar o “toque 2017” ao lance, o TD marcado pelo menino Carson Wentz não foi válido, já que foi marcado holding de Lane Johnson.

Nick Foles e o que janeiro traz

Se algo de bom podemos tirar, é o retorno do lendário Nick Foles, que produziu em sua segunda temporada (tal qual a atual de Wentz) um ratio de 27 TDs para apenas quatro turnovers (duas interceptações), e só não recebeu consideração real para um título de MVP naquele ano de 2013 porque Peyton Manning bateu o recorde de touchdowns lançados em uma só temporada. E porque, bem, era Nick Foles.

Obviamente, pouco tempo depois ele acabou voltando ao esperado, com duas temporadas medíocres na Philadelphia e posteriormente em St Louis, ao ser trocado por Sam Bradford em 2015. Acabou em Kansas City em 2016 antes de voltar para onde tudo começou.

Desde sua grande temporada, as oportunidades foram bem menores devido a lesões e, também, a pura mediocridade, não podemos negar. Ainda assim, substituindo Alex Smith em dois jogos ano passado, Foles lançou 35 passes, com três TDs e nenhum turnover. Contra os Giants no domingo, lançou quatro TDs novamente (sem turnovers) e sem muita ajuda da defesa ou do jogo corrido, em uma apresentação em que só faltou dar o golpe final para não passar tanto aperto.

Seja o que Deus quiser.

Talvez Nick não seja exatamente o homem dos sonhos para o Super Bowl, mas na NFL atual não se pode escolher muito – e dentre os backups possíveis, ele vem mostrando estar entre os melhores (já que profundidade é crucial para um time que está na sua “quarta lesão pesada”, depois de Darren Sproles, Jordan Hicks e Jason Peters).

Considerando que Foles entra na lista de “ex-reféns de Jeff Fisher”, como Keenum e Goff, o ano parece propício para que Nick tenha suas chances. Inclusive, talvez os homens realmente ideais para Seahawks e Chargers chegarem à pós-temporada sejam os também lendários Austin Davis e Kellen Clemens. Você ouviu primeiro aqui.