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Mock Draft Pick Six 2019

O esperado draft da NFL está prestes a começar: após meses de especulação vamos saber quem serão os novos jogadores que vão entrar na liga a partir desta temporada. Um dos clichês desta época é a elaboração de mock drafts, simulações do que pode acontecer no primeiro round do processo de escolha como forma de gerar cliques e fazer uma análise de qual será a estratégia dos times nos próximos dias.

Há de se falar que com a quantidade de informação que temos atualmente sobre os jogadores que vão para o draft, os mock drafts se tornaram obsoletos. Mas mesmo assim isso continua sendo um sucesso de audiência então não poderíamos ficar de fora com pitacos sobre o que vai acontecer.

A classe de jogadores que entrará na NFL neste ano é excepcionalmente anormal. Não há nenhum QB que seja uma unanimidade, todos têm alguma deficiência gritante no seu jogo, e os grandes destaques são um punhado de jogadores defensivos que farão diferença imediatamente nos times que os escolherem.

Mesmo assim será um draft relativamente raso, com poucas opções realmente de elite e um mar de jogadores que são mais ou menos parecidos. Se o seu time faz escolha na parte de baixo do primeiro round é bem provável que o valor do jogador escolhido seja o mesmo de um jogador escolhido no segundo round, então podemos esperar várias negociações de times interessados em descer quando os jogadores de elite forem escolhidos.

Feita essa breve explicação sobre o a classe de jogadores do draft, eis aqui um mock draft sem trocas e uma explicação mais detalhada sobre os prospectos top 10. Podem começar a me xingar (eu não ligo).

 1) Arizona Cardinals – QB Kyler Murray (Oklahoma)

Essa é uma bola que vem sendo cantada há alguns meses e o time nunca se dispôs exatamente a acabar com os rumores, o que significa bastante coisa. Apesar de terem escolhido Josh Rosen no primeiro round do draft de 2018, a nova comissão técnica do Cardinals pode enxergar em Murray o cara que encaixaria perfeitamente no esquema ofensivo e a temporada que Kyler teve em 2018 o credencia para ser a primeira escolha geral do draft.

2) San Francisco 49ers – EDGE Nick Bosa (Ohio State)

Dependendo do que acontecer na primeira escolha do draft, o 49ers terá a sua disposição todos os ótimos jogadores defensivos e aqui vai muito do que Kyle Shanahan e John Lynch enxergam como o atleta que mais se encaixará em seu esquema defensivo. Nick Bosa é de longe o melhor pass rusher puro desse draft e se encaixaria perfeitamente junto com Dee Ford e DeForest Buckner para reviver a anêmica defesa do 49ers.

3) New York Jets – EDGE Josh Allen (Kentucky)

Aqui as coisas começam a ficar interessantes. O Jets quer desesperadamente negociar essa escolha para acumular capital e tentar tornar o elenco o mais competitivo possível para Sam Darnold. Na eventualidade de ficarem na sua escolha, devem partir para o caminho de escolher um jogador defensivo e Josh Allen, um híbrido de pass rusher com linebacker, tem um ótimo potencial sob o novo coordenador defensivo Gregg Williams.

4) Oakland Raiders – DT Quinnen Williams (Alabama)

O Oakland Raiders é o primeiro grande mistério desse draft. Ninguém sabe o que o time fará agora que Jon Gruden assumiu totalmente o controle, então podem ir para qualquer lado. Há conversas persistentes que a confiança em Derek Carr como QB1 vem sendo perdida, então pode ser que o time arrisque. Torceremos, porém, para que a franquia tenha bom senso e escolha Quinnen Williams, o melhor jogador defensivo desse draft, para ter uma âncora no estilo de Aaron Donald em sua linha defensiva.

5) Tampa Bay Buccaneers – LB Devin Bush (Michigan)

O Tampa Bay Buccaneers é outro time que está torcendo para acontecer alguma zoeira nas quatro primeiras escolhas e algum dos três jogadores de elite desse draft possa cair em seu colo. Se isso não acontecer é bem provável que escolham um linebacker, que é a posição de maior valor da forma que está acontecendo esse mock draft. E aqui vai a primeira surpresa: acho Devin Bush o melhor LB puro da classe, e ele chegaria ao time com experiência no sistema 3-4 que será utilizado pelo técnico Bruce Arians.

6) New York Giants – QB Dwayne Haskins (Ohio State)

Outro time que está guardando a sete chaves o que vai fará neste draft, o New York Giants tem uma necessidade urgente por um novo quarterback. Apesar do time insistir que Eli Manning será o titular nesta temporada, há que se criar um plano de sucessão e Dwayne Haskins, nascido e criado como torcedor do Giants em Nova Jersey, é a solução que se encaixa no esquema ofensivo de Pat Shurmur. Resta saber o que vai acontecerá nas escolhas anteriores; o time pode se encantar caso algum dos jogadores defensivos de elite estejam disponíveis.

7) Jacksonville Jaguars – OT Jawaan Taylor (Florida)

Em um draft que não é exatamente forte em jogadores de linha ofensiva, Jawaan Taylor é o cara com maior potencial na classe. Após uma queda de produção gigantesca no grupo que colocou o Jaguars novamente no Top 10 do draft, o time precisa de um cara para garantir minimamente que o ataque encabeçado por Nick Foles e Leonard Fournette seja efetivo nesta próxima temporada.

8) Detroit Lions – EDGE Montez Sweat (Mississippi State)

Montez Sweat é o nome que vem mais sendo ligado ao Detroit Lions nesse processo pré-draft e faz sentido caso ele seja a escolha. Mesmo com a chegada de Trey Flowers na janela de transferências, o time precisa de mais reforços no seu pass rush e Sweat entraria imediatamente na rotação para auxiliar a defesa do técnico Matt Patricia. Há rumores, porém, que um problema cardíaco de Sweat está assustando os times, mas ele ter sido liberado no Combine (e ter ido muito bem no evento) é um sinal que isso não é tão sério.

9) Buffalo Bills – DT Ed Oliver (Houston)

O que o Buffalo Bills vai fazer com sua primeira escolha? Ninguém sabe. Mas fato é que o time precisa de reforços em sua linha defensiva mesmo com a chegada de Star Lotulelei na janela de transferências. Um defensive tackle puro como Ed Oliver, que vem se destacando desde o colegial e teve uma carreira universitária brilhante, faz sentido no esquema defensivo de Sean McDermott e pode trazer uma estabilidade para o time como um todo.

10) Denver Broncos – LB Devin White (LSU)

Será que o Denver Broncos vai escolher mais um quarterback no primeiro round? De novo em uma classe fraca? Não acho que John Elway cometerá o mesmo erro e a chegada de Joe Flacco traz, por pelo menos um ano, alguma segurança que não é exatamente urgente um novato na posição. O novo técnico Vic Fangio é um cara de filosofia defensiva então nada mais natural que a escolha de um jogador com o potencial de White na 10ª escolha.

11) Cincinnati Bengals – QB Drew Lock (Missouri)

12) Green Bay Packers – TE T.J. Hockenson (Iowa)

13) Miami Dolphins – EDGE Clellin Ferrell (Clemson)

14) Atlanta Falcons – DT Christian Wilkins (Clemson)

15) Washington Redskins – QB Daniel Jones (Duke)

16) Carolina Panthers – EDGE Rashan Gary (Michigan)

17) New York Giants (via CLE) – OT Jonah Williams (Alabama)

18) Minnesota Vikings – OG Cody Ford (Georgia)

19) Tennessee Titans – OL Garrett Bradbury (North Carolina State)

20) Pittsburgh Steelers – EDGE Brian Burns (Florida State)

21) Seattle Seahawks – WR N’Keal Harry (Arizona State)

22) Baltimore Ravens – WR A.J. Brown (Ole Miss)

23) Houston Texans – OT Andre Dillard (Washington State)

24) Oakland Raiders (via CHI) – CB Byron Murphy (Washington)

25) Philadelphia Eagles – DT Dexter Lawrence (Clemson)

26) Indianapolis Colts – S Taylor Rapp (Washington)

27) Oakland Raiders (via DAL) – WR Hakeem Butler (Iowa State)

28) Los Angeles Chargers – OL Chris Lindstrom (Boston College)

29) Seattle Seahawks (via KC) – S Jonathan Abram (Mississippi State)

30) Green Bay Packers (via NO) – WR D.K. Metcalf (Ole Miss)

31) Los Angeles Rams – CB DeAndre Baker (Georgia)

32) New England Patriots – WR J.J. Arcega-Whiteside (Stanford)

New England Patriots e um passado sempre presente

Confesse: quando o New England Patriots venceu o coin toss na final da AFC contra o Chiefs, você sabia o que iria acontecer. Era tudo familiar demais para negarmos: mais um grande duelo, e ali estava Tom Brady, pronto para encerrar uma nova grande história em um dos jogos mais empolgantes da temporada – praticamente um novo clássico instantâneo na história de New England.

Novamente estávamos vivendo o final do Super Bowl LI; era, afinal, o mesmo roteiro. Tom e seus companheiros caminharam tranquilamente pelo campo (confesse: você sabia que qualquer 3&10 seria convertida com requintes de crueldade) e que tudo seria encerrado com um running back qualquer, falso-herói improvável, entrando na endzone. Com o New England Patriots o passado é sempre presente.

Eterno retorno

20 anos após início da era Brady-Bellichick, o Patriots segue destruindo sonhos. Mas claro, seria divertido ver Patrick Mahomes, inegável MVP desta temporada e provavelmente o jovem mais empolgante da última década a pisar em um gramado da NFL, enfrentar o Rams em busca de vingança após a derrota por 55 a 51 na semana 11.

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Mas para quem gosta de football, é preciso confessar: New England está longe de ser chato. Nós já o conhecemos – como citamos no início deste mesmo texto, eles insistem em repetir o mesmo roteiro – e, bem, odiá-los é, no fundo, um pouco divertido.

Veja: após vencer Kansas, Brady e Gronk atravessam os túneis do Arrowhead Stadium ao som de “Bad Boy For Life” enquanto avisam: “ainda aqui”. Odeio-os, mas mesmo que saibamos que o dia de Mahomes está próximo, são eles quem irão ao Super Bowl novamente.

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Inevitabilidade

Não era como se, de fato, acreditássemos que isso não aconteceria novamente – mas tantas vezes nesta temporada o Patriots parecia estar em dúvida, o que agora, como sabemos, não passou de mera estratégia para iludir os incautos: New England foi enxotado por Lions e Titans, marcou apenas 10 pontos em um Steelers em colapso, foi derrotado pelos restos mortais do Jacksonville Jaguars e, bem, você ainda não esqueceu o que houve em Miami.

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Foram cinco derrotas para times que não foram aos playoffs – e alguns deles passaram longe de sequer terem alguma chance de se aventurar em janeiro. Vez ou outra, Brady e Gronk pareciam zumbis – Gronk, aliás, teve sua pior temporada na carreira; foram apenas 682 jardas e 3 TDs em 13 partidas.

No mesmo lado da moeda, Brady também teve suas piores médias em jardas por jogo e rating desde 2014. Foi também seu menor número de TDs desde 2013 e o maior número de INTs desde o já distante 2011.

Mas por mais que você confie no “tempo” ele insiste em ser relativo. Tanto Brady quanto Gronk não precisaram ser “úteis” contra o Chargers (tem que acabar o Chargers!). Porém, quando o relógio parecia encerrar o ciclo diante do Chiefs, mais uma vez eles o controlaram: com menos de um minuto para o final do tempo normal, Brady lançou mais uma bomba de 25 jardas para colocar New England a poucos metros da endzone.

Já na prorrogação, uma nova conexão em uma 3&10 que colocou o Patriots à beira do paraíso. Três jogadas depois, eles carimbavam sua passagem para Atlanta. Aos 41 anos de Tom Brady, você achou que o tempo poderia nos salvar. Mas mais uma vez o tempo insistiu em não passar.

Quanto antes você aceitar, menor será a dor

Observar o Patriots na pós-temporada, ano após ano, é divertido porque nos ensina sobre o estado atual da própria NFL: dos quatro times que chegaram às finais de conferência, eles têm a pior defesa – em uma era em que se insiste  afirmar que sistemas defensivos vencem campeonatos. Pode significar tudo, mas normalmente, com New England, eles vão nos mostrar que isso não significa nada.

New England insiste em nos amedrontar em janeiro porque, diferente da maioria das equipes da NFL, eles não vivem o momento: enquanto todos tentam maximizar suas janelas, seja quando seu QB ainda está no contrato de rookie, ou mesmo construir algo ao redor de um astro defensivo, como o Bears pode se propor a fazer com Khalil Mack, ou ainda atirando para todos os lados em um claro “all-in”, como Saints e o próprio Rams fazem, o Patriots é a prova de qualquer janela de tempo.

De novo, e mais uma vez, eles derrotam o tempo: eles abrem mão de peças talentosas para não se comprometerem no longo prazo, trocam escolhas para acumular ainda mais escolhas quando sabem que, talvez, um atalho para o sucesso esteja no draft do ano seguinte – e não no “agora”.

E é assim que tudo funciona há 20 anos, desde que New England derrotou o finado St. Louis Rams no Super Bowl XXXVI, e é por isso que o Patriots vencerá o Rams: se há duas décadas Bill Belichick se aproveitou da inflexibilidade de um treinador menos experiente e parou Marshall Faulk, nada nos mostra que ele não fará o mesmo com Todd Gurley e companhia.

São anos repetindo a mesma versão de um mesmo jogo enquanto mudam apenas treinadores e jogadores adversários. E enquanto isso, no fundo todos achamos que podemos derrotar o tempo – mas a verdade é que só o Patriots pode.

Los Angeles Rams: ao infinito e além

É um roteiro batido. Você já está cansado de ver em filmes, livros e séries narrativas que mostram uma nova mente brilhante enfrentando uma mente brilhante experiente – geralmente uma quer tomar o lugar da outra.

É impossível não traçar o paralelo dessas narrativas com o que veremos no Super Bowl LIII. De um lado a mente ofensiva e inovadora de Sean McVay, do outro a experiência e a maestria de Bill Belichick. Esse último já enfrentou todo tipo de adversário, vencendo a maioria deles. Já o novato está apenas no início de sua jornada, e o desafio de agora provavelmente servirá como termômetro para o resto de sua carreira.

“Não conseguiu vencer um técnico mais experiente.” vs “Não conseguiu superar as inovações de quem é o futuro da liga.”

Independentemente do resultado, as narrativas e os desdobramentos são até mesmo previsíveis.

Chegando até aqui

Há dois anos, quando o New England Patriots enfrentava o Atlanta Falcons, Sean McVay não era conhecido como é hoje. Recém contratado pelos Rams, McVay tinha como destaque o simples fato de ser novo. Dois anos depois, Sean é discutivelmente o técnico ativo com maior influência na liga e no pensamento coletivo do futebol americano. Treinadores que trabalharam com ele viraram HCs, e a tendência na NFL é de contratar jovens mentes capazes de trabalhar com o franchise QB – nenhum deles necessariamente provado. Se Sean McVay foi uma aposta, outros times tentam usar mercados diferentes para obter o mesmo resultado.

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2017 foi a temporada de apresentação das capacidades de McVay. Após assumir um time marcado pela mediocridade dos anos de Jeff Fisher, Sean levou a franquia a uma temporada com record 11-5 e o primeiro título de divisão desde que você assiste a NFL (com exceção de meia dúzia de malucos).

O trabalho mostrou resultado em números e no “teste do olho”. O Rams deixou a areia movediça da apatia para se tornar uma das equipes mais legais de se assistir. Jared Goff, que até então parecia destinado a estampar listas em que é citado junto com JaMarcus Russell e insira aqui também um QB escolhido na primeira escolha do draft que você desgosta. Em uma tacada só Los Angeles percebeu que tinha o seu quarterback e o HC do futuro. Resultado difícil de ter acontecido se o contratado tivesse sido Vance Joseph (in memorian), por exemplo.

Tirando as rodinhas

Como todo super-herói (e o Venom) em sua história de origem, a franquia da Califórnia precisou de um período para descobrir do que era capaz. Terminado o laboratório em 2017, a diretoria decidiu dar o próximo passo. Ou, se preferir, o famoso all in. Ndamukong Suh, Aqib Talib, Marcus Peters e Dante Fowler Jr foram adquiridos na defesa, e Brandin Cooks foi a peça escolhida para completar o ataque.

O resultado não foi diferente do esperado. Durante toda temporada o Rams era apontado como, se não a melhor, uma das melhores equipes da NFL. Podemos até mesmo discutir se, mesmo nesse patamar, o time já havia atingido todo seu potencial – dependendo de como encaramos a situação, pode ser uma falha ou sucesso, afinal você deve estar preparado para vencer seus desafios mesmo quando não está 100%.

E, tal qual em um filme de super-herói, a primeira batalha pareceu apenas o prelúdio do terceiro e último ato. A derrota em New Orleans na temporada regular custou a LA a oportunidade de ter mando de campo nos playoffs. Mas, tal qual os roteiros de Hollywood já nos ensinaram, o que importa é o final da história. É como as histórias acontecem o que nos faz nos apaixonarmos pelos personagens, mas sempre lembramos do final.

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Assim, o Rams mostrou que poderia aumentar ainda mais seus poderes para vencer os Saints no Superdome – a primeira derrota de Drew Brees em casa na pós-temporada. Pouco importa se pareceu truque de roteiro, a história só se lembra dos vencedores.

O mundo está assistindo

O Super Bowl é um evento atípico. É quando muitas pessoas param para assistir a um jogo que às vezes nem entendem. A NFL é composta por 32 times, e apenas dois podem ter os olhos do mundo no início de fevereiro. Estar lá já é uma pequena grande vitória.

Porém, como a história nos mostra, os vencedores estão em outro patamar. Jogadores são alçados ao status de lendas simplesmente porque centímetros jogaram a seu favor. O mérito é estar lá para ter os detalhes jogando ao seu lado. Com apenas duas temporadas, alguém duvida que essa será a única chance do Los Angeles Rams de chegar nessa posição novamente? O resultado final vale tudo e não vale nada.

Análise Tática #30 – A linha ofensiva do Indianapolis Colts

Dominação nas trincheiras. Faz parte dos jargões do futebol americano que o jogo de playoff é vencido a partir das linhas. Em janeiro, com tempo ruim e times melhores, o confronto físico decide os vencedores.

Também não é novidade para ninguém que durante o início de carreira, Andrew Luck foi o quarterback mais sackado da NFL. Cercado por um coaching staff e front office incompetentes, Andrew foi capaz de mascarar as deficiências do Indianapolis Colts e competir até a pós-temporada, até que apenas sua capacidade técnica não foi mais suficiente.

A quantidade de pressões sofridas por dropback chegou a níveis tão absurdos que Luck sofreu 100 sacks nas 3 primeiras temporadas. Como sabemos, em 2015 o quarterback teve lesões no ombro e costelas, agravadas por um acidente de snowboard em 2016, e uma laceração nos rins.

Andrew Luck merecia adicional por insalubridade.

Em 2016, temporada em que jogou lesionado, estando semanalmente nos injury reports, Luck sofreu 41 sacks, maior marca da sua carreira em uma temporada. Em 2017, a saga do ombro atingiu níveis jamais vistos e Andrew perdeu toda a temporada. Como desgraça pouca é bobagem, a linha ofensiva dos Colts contou com lesões do Center Ryan Kelly ao longo da temporada (não havia perdido um único snap na carreira até então desde os tempos de futebol universitário em Alabama), além de deficiências em outras posições, que resultaram em um total de 56 sacks, pior marca da temporada e recorde histórico da franquia.

Solucionando o que não tinha solução

O leitor deve saber que o general manager Chris Ballard (D@ddy) escolheu no draft o Guard Quenton Nelson (Notre Dame), com a sexta escolha geral. Outra adição de linha ofensiva via draft foi o então Guard, agora Right Tackle Braden Smith, de Auburn, escolhido na segunda rodada. Pelo período de Free Agency, as adições foram: Austin Howard (ruim), Matt Slauson (na injury reserve, mas ajuda no treinamento dos colegas) e Mark Glowinski, contratado no meio da temporada e despontando como titular absoluto na posição de Right Guard.

O mês de setembro foi de instabilidade, considerando as ausências do veterano Anthony Castonzo e a indefinição nas demais posições, com a linha cedendo 9 sacks, metade da quantidade total da temporada. Até o sexto jogo, derrota para os Jets que marcou a campanha de 1-5 da qual começou a virada da equipe, foram ao todo 12 sacks. Além disso, a instabilidade no jogo corrido era notória, com o comitê de Running Backs ainda não estabilizado pela ausência de Marlon Mack. Os calouros Nyheim Hines e Jordan Wilkins dividiam snaps com o veterano Christine Michael (sim, ele ainda existe, e esteve nos Colts essa temporada).

Tal cenário forçava Andrew Luck a lançar a bola muitas vezes por partida, tal como em seus tempos de Chuck Pagano. Entre as semanas 4 e 5, em que os Colts perderam para os Texans na prorrogação e em seguida perderam para os Patriots no Thursday Night Football, Luck lançou a bola um total de 121 vezes em um intervalo de quatro dias corridos, nada ideal para um Quarterback vindo de uma cirurgia no ombro direito. Apesar de naquele momento não estar se resultando em vitórias, já era possível ver sendo implantada a receita para tirar Luck desse cenário desfavorável.

Esse manja.

Antes de ver o game tape do que deu certo, vamos observar exemplos de jogadas do início da temporada em que a linha ofensiva ainda estava instável (ainda era um cocô em chamas).

Quenton Nelson testado contra os Bengals

Em sua estreia na NFL, o calouro Quenton Nelson sofreu contra o pass rush dos Bengals, principalmente na figura dos jogadores Geno Atkins e Carlos Dunlap.

Em seu primeiro snap na liga, Quenton alinha contra Geno Atkins e comete um holding após ser batido em um rush para dentro. Nelson tenta se recuperar na jogada, mas seu equilíbrio está comprometido e a única opção é fazer a falta.

Por vezes em sua partida de abertura, a linha ofensiva teve que lidar stunts. Nelson é particularmente bom para reconhecer esse tipo de movimentação dos defensores, mas é necessária uma coordenação precisa com os companheiros para que a contenção ocorra. Na jogada específica, Atkins consegue confundir Nelson e o Center Ryan Kelly, permitindo que o Defensive Tackle Ryan Glasgow (#98) atinja Luck, resultando em passe incompleto.

Os sacks contra os Texans

Quatro sacks cedidos contra o Houston Texans na semana 4 em Indianapolis foi a maior quantidade que a linha ofensiva dos Colts permitiu durante toda a temporada. Vamos observar o que aconteceu em cada uma dessas jogadas.

Colocando em contexto, 4 sacks em 65 jogadas de passe é ruim, mas o estrago poderia ser maior considerando o matchup nas pontas. Na primeira partida entre Colts e Texans na temporada, J.J. Watt e Jadeveon Clowney alinharam contra os tackles Le’Raven Clark e Denzelle Good (he’s not). Bem, eu não espero que o leitor neutro conheça esses nomes.

Jadeveon Clowney bate Le’Raven Clark com um speed rush enquanto J.J. Watt contém a possibilidade de scramble de Andrew Luck cortando para o ombro interno de Denzelle Good. O sack ocorre antes mesmo de Luck atingir o ponto de proteção ideal.

O sack seguinte foi creditado contra Denzelle Good, também com um speed rush, dessa vez de J.J. Watt. Antes de analisar a jogada, vale falar que o Indianapolis Colts tem que ser PROIBIDO de abrir o teto do Lucas Oil Stadium para sempre. Denzelle Good tenta compensar o rush de Justin James jogando o peso do corpo para trás, mas o camisa #99 se aproveita disso e usa as mãos para cortar para dentro e atingir Luck. Sack que colocou Indianapolis em situação perigosa de campo.

Agora um strip sack provocado por J.J. Watt e recuperado por Duke Ejiofor (#53) já dentro da linha de 10 jardas. Também com um speed rush, Watt vence Denzelle Good pelo ombro externo e atinge a bola.

Já na prorrogação quando os Colts tentavam marchar em campo para vencer a partida, o quarto sack dos Texans acabou por prejudicar o andamento do drive, que iria terminar na decisão de tentar converter a 4th & 4. Nesse caso, o sack é creditado contra Quenton Nelson, que perde equilíbrio ao sofrer um stunt de Jadeveon Clowney, resultando em perda de 10 jardas.

A evolução através do jogo corrido

A volta de Marlon Mack contra os Jets (semana 6), e a volta de Anthony Castonzo contra os Bills (semana 7) foram as peças que faltavam para o ataque dos Colts engrenar nos dois níveis. A considerar os adversários, Bills e Raiders, o jogo terrestre teve um salto de qualidade com o retorno de seus titulares, gerando estatísticas que não aconteciam a tempos. Pela primeira vez desde 2007 (Joseph Addai) os Colts tiveram um corredor ultrapassando a marca de 100 jardas terrestres em duas partidas consecutivas – Marlon Mack.

A destacar a alternância entre Marlon Mack e Nyheim Hines como os Running Backs responsáveis por esse salto de qualidade no backfield (127 jardas contra os Jets, 220 jardas contra os Bills e 222 jardas contra os Raiders). A escalação titular fixou-se com Anthony Castonzo (LT), Quenton Nelson (LG), Ryan Kelly (C), Mark Glowinski (RG) e Braden Smith (RT), e produziu o desempenho de elite que chamou a atenção de toda a liga.

Pela primeira vez na carreira ajudado por um jogo terrestre minimamente capaz de controlar jogos, Andrew Luck começou a aumentar gradativamente a média de jardas aéreas por tentativa de passe, à medida em que Frank Reich passou a ter confiança a deixar o QB recém-recuperado de lesão a “soltar o braço”. Luck começou a soltar a bola cada vez mais rápido também, ajudando a linha ofensiva a manter os bloqueios.

Análise dos esquemas de bloqueio

O pilar do ataque montado por Frank Reich é a variação de jogadas em formações diferentes. Os Colts costumam chamar jogadas de corridas a partir de diversas formações, seja com sets pesados ou de recebedores espalhados em campo, com TE bloqueador (Ryan Hewitt) por vezes alinhando como FB na I-formation ou tomando uma instância de bloqueio vindo de motion de uma posição slot. A partir do momento em que o jogo terrestre começou a dar sinais de evolução, Marlon Mack (segundanista) e Nyheim Hines (calouro) começaram a concentrar a maior parte dos snaps, ainda com a contribuição adicional do também calouro Jordan Wilkins.

Uma das principais estratégias de bloqueio utilizadas pelos Colts, que vem rendendo boas jogadas é a movimentação de jogadores em bloqueios pull. Essa técnica acontece quando um bloqueador sai de sua posição inicial para bloquear em outra região do campo, geralmente oposta a que ele estava. Esse tipo de movimentação geralmente ocasiona uma demora na defesa em reagir ao movimento da linha e ajustar o preenchimento dos gaps, e funciona muito bem contra fronts com jogadores em 2-gap-technique.

Fronts 2-gap são geralmente construídos com jogadores que precisam ter o domínio físico sobre o bloqueador, e a movimentação de pull tem o objetivo de anular tal comportamento, fazendo com que o defensive lineman tenha que agir como um tackleador de campo aberto.

Um dos conceitos usados pelo Colts  na temporada 2018 para combater fronts 2-gap é o Trap-Wham-Block. Nesse tipo de jogada, um jogador externo ataca o centro da linha de scrimmage para bloquear o jogador de linha defensiva alvo da jogada lateralmente.

Indianapolis por diversas vezes utiliza o Wham Block com os TEs, principalmente Jack Doyle e Ryan Hewitt a partir de formações big. Depois da lesão, Mo-Alie Cox assumiu o papel de Doyle nessas jogadas. Esse tipo de movimentação geralmente é feito com a intenção de liberar Quenton Nelson e Ryan Kelly rapidamente das designações iniciais para atacar o segundo nível da defesa, ambos jogadores com grande eficiência em realizar bloqueios em campo aberto.

Nessa jogada da partida contra os Raiders (semana 8) vemos o Trap-Wham-Block sendo aplicado para permitir que Ryan Kelly ataque os LBs.

Por reconhecimento dos assignments, Mark Glowinski, o Right Guard também ataca o segundo nível, ajudando Ryan Kelly. A corrida de Marlon Mack não é exatamente explosiva, mas ganhou as jardas necessárias para um novo set de descidas.

Outro exemplo de Wham Block por parte de Jack Doyle. Dessa vez, o RB2 Nyheim Hines ganha 15 jardas.

Dessa vez, o lineman que sai em pull é o left tackle Anthony Castonzo. Nessa jogada, destaca-se também o trabalho do rookie Quenton Nelson executando bloqueio em dois jogadores ao mesmo tempo na jogada.

Na jogada subsequente, os Colts mostram mais um exemplo de sua variedade de jogadas novamente partindo do shotgun, agora correndo uma outside zone com dois jogadores executando pull. Esse conceito é conhecido como Toss Sweep. Nesse caso, Ryan Kelly e Mark Glowinski partem em sweep limpando o caminho para Nyheim Hines no strongside.

Como explicamos nesse texto do ano passado, a filosofia de bloqueios em zona dá uma leitura específica para os jogadores de linha. Kelly e Glowinski estão no campo aberto, então a inteligência desses jogadores em identificar corretamente os adversários a serem bloqueados é essencial para que a jogada funcione.

O fator Ryan Kelly na proteção do passe

Selecionado na décima-oitava escolha do draft de 2018, o center vindo de Alabama jogou todos os snaps de sua carreira universitária como titular sem sofrer lesões, e foi escolhido à época por Jim Irsay com à certeza de ser uma cornerstone para uma linha ofensiva que precisava de investimentos. Apesar disso, como as coisas nunca são fáceis para o Indianapolis Colts e uma temporada de calouro sólida, apesar de abaixo do radar, o segundo ano de Ryan Kelly foi recheado por lesões.

Uma fratura na perna em uma atividade conjunta com o Detroit Lions no training camp o tirou de toda a pré-temporada de 2017, e quando retornou, o jogador não mostrava o mesmo desempenho da temporada anterior, uma vez que a linha ofensiva dos Colts como um todo era a pior da liga. Outras lesões acabaram por encerrar a temporada de Kelly, fazendo com que o jogador fosse para a injury reserve no mês de dezembro.

Em 2018, desde que a linha ofensiva dos Colts se estabeleceu na formação titular de Castonzo, Nelson, Kelly, Glowinski e Smith. Entre as semanas 6 e 11 (Jets, Bills, Raiders, Jaguars e Titans), Luck não sofreu nenhum sack. Uma sequência de quase 300 dropbacks sem ser derrubado, que impulsionou uma virada de uma campanha de 1-5 para 5-5 até então.

Contra os Titans, Ryan Kelly sofreu uma lesão na perna que o afastaria das próximas 3 partidas, sendo substituído pelo center reserva Evan Boehm. Nesse caso, não só a qualidade na proteção do passe caiu para níveis “humanos” (Luck sofreu 6 sacks no período, interrompendo a sequência recorde desde 1991), bem como o jogo terrestre dominante teve uma queda de desempenho – o ataque registrou 118 jardas corridas contra os Dolphins, 41 contra os Jaguars e 50 contra os Texans.

No retorno de Kelly contra os Cowboys, não somente Luck não voltou a ser derrubado como também o ataque terrestre registrou 178 jardas contra a defesa de Dallas, uma das melhores parando a corrida até então.

O time que venceu nove dos últimos dez jogos na temporada regular tem uma identidade claramente definida por dominação nas trincheiras, podendo controlar a posse de bola com jogo terrestre à vontade se estiver com sua linha ofensiva titular completa. Além disso, os Colts contam com um Quarterback que já se mostrou competente o bastante para ganhar jogos quando não tinha nenhum desses fatores para o ajudar. Na rodada de Wild Card dos playoffs essa receita se mostrou mais fatal que nunca para o Houston Texans, que não mostraram a menor resistência, mesmo tendo bastante talento na defesa.

A partida de Wild Card

Impulsionado por uma linha ofensiva no ápice de seu jogo na temporada e de um excelente plano de jogo por parte do técnico Frank Reich, Marlon Mack atingiu a melhor marca de sua carreira com 148 jardas terrestres contra o Houston Texans. Assim como na partida anterior contra os Titans, dois touchdowns nas duas primeiras campanhas da partida ajudaram a ditar o ritmo da partida e permitir com que os Colts controlassem o adversário com jogo terrestre.

Quenton Nelson, que dispensa apresentações, e fizemos questão de destacar o início complicado de carreira que teve, teve partida fenomenal. O calouro First Team All-Pro colecionou pancakes ao longo da partida (e da temporada, como indicado pelo ex-jogador de linha ofensiva Brian Baldinger, no twitter). Para observar tamanha dominação por parte da linha ofensiva dos Colts, vamos analisar algumas jogadas.

No início do jogo, as conversões de terceira descida foram importantes para ditar o ritmo de ataque. Os Colts converteram 7 de 7 tentativas antes de chutarem o primeiro punt. Na primeira tentativa, Luck tem um pocket limpo para completar um passe de 12 jardas para T.Y. Hilton e mover as correntes.

A linha defensiva dos Texans tenta atacar com o mesmo stunt que os Colts teve problema para parar no início da temporada, mas dessa vez o resultado é totalmente diferente. De Glowinski (#64) para a esquerda, todos os jogadores fazem a técnica de slide protection para este lado da linha para compensar os stunts e manter o pocket limpo. Luck mantém-se no ponto de proteção até que Hilton vença o duelo contra o marcador.

A jogada acima, do segundo drive dos Colts na partida, é um exemplo de como Frank Reich usa misdirection para criar situações favoráveis para o ataque. Chester Rogers é visto em motion pré-snap carregando um Safety para longe da direção em que ocorrerá a jogada.

Corrida em pull, com Quenton Nelson e Ryan Kelly sendo os leading blockers abrem caminho para uma corrida de 25 jardas de Marlon Mack. Pela câmera lateral da All-22. Podemos perceber que a movimentação pré-snap é essencial para permitir tamanho ganho. O safety acompanha a movimentação de Chester Rogers e o snap sai no momento em que o camisa #80 passa pelas costas de Luck.

O camisa #20 dos Texans não acompanha a movimentação até o fim, mas é tarde demais para que o mesmo possa reagir na jogada e evitar a big play. Excelente chamada e play design por parte de Frank Reich, bem como a execução por parte dos jogadores.

Agora a jogada que colocou o placar em 14 a 0 para os Colts, praticamente selando um domínio absoluto do time na partida. Corrida sweep para a esquerda da tela. Dessa vez, o TE Eric Ebron (#85) sai em motion novamente tirando o Safety Justin Reid (#20) da direção da corrida.

Aqui cabe a explicação de que a corrida sweep é um tipo de jogada em que o corredor atravessa a linha executando o bloqueio em uma determinada direção, enquanto o lineman da ponta bloqueia o edge rusher com um movimento no sentido oposto à direção da corrida, servindo de “âncora”, permitindo com que o corredor “vire a esquina”.

Mo-Alie Cox (#81) é o âncora da linha, enquanto Ebron se movimenta em motion para que fiquem apenas 3 defensores do lado do campo em que a corrida vai se desenvolver. Observe no decorrer do gif que quatro jogadores da linha ofensiva dos Colts se deslocam para aquele lado.

Nesse caso, a jogada é tão bem executada que Marlon Mack além do caminho que tomou, poderia ter escolhido o gap aberto entre Quenton Nelson e Ryan Kelly, conquistando o TD sem ser tocado.

  • Diego Vieira acredita que está vivendo um sonho ao ver a OL dos Colts jogar nesse nível.

O inferno de Cody Parkey e a lenda de Nick Foles

No clássico da literatura A Divina Comédia, Dante Alighieri descreveu os nove círculos do inferno, descendo de Jerusalém até, em uma linguagem moderna, o colo do capeta – naquela época, só existiam três continentes conhecidos (Europa, Ásia e África), e Dante imaginou que no polo oposto a Europa, algo como 43 jardas distante, estava a ilha do purgatório, que estaria ligada ao inferno por uma passagem aberta após a queda de Lúcifer.

É bem provável que Cody Parkey tenha passado pelos noves círculos enquanto seu chute percorria aquelas pouco mais de 40 jardas. Um chute que bateu em uma trave, beliscou outra caprichosamente, matou o mascote do Bears, transformou companheiros de time que estavam na sideline em memes e, bem, fez Nick Foles mais rico.

Um chute capaz de retratar a angústia de uma torcida que não participava dos playoffs desde 2010 – algo ainda mais dolorido para uma franquia que terminou a temporada com 12 vitórias, seu melhor ano desde o distante 2006.

O mais cruel é que não havia ninguém mais apropriado que Parkey para ser protagonista do destino escapando pela ponta das mãos – ou, bem, pela ponta dos pés: em novembro, Cody havia acertado a trave quatro vezes em um duelo contra o Lions (e mesmo assim o Bears venceu). Na última semana da temporada regular, Parkey carimbou a trave contra o Vikings mais uma vez (e, novamente, o Bears venceu).

Não se flerta com o perigo três vezes. E se há algo que a sabedoria popular (e um técnico de futebol multicampeão) foi capaz de cunhar para a eternidade é o fato de que “a bola pune”.

Um futuro para chamar de seu

Na estreia da temporada afirmamos que se a então improvável derrota do Bears diante do Packers era fruto de uma série de decisões no mínimo questionáveis de um HC em sua primeira temporada e um QB de 24 anos, ao mesmo tempo era evidente que após anos sofrendo nas mãos de gente como Jay Cutler e John Fox, Chicago enfim tinha um sistema ofensivo criativo e moderno. E que melhores dias para a defesa do Bears, com Khalil Mack, Leonard Floyd e Roquan Smith cada vez mais entrosados, eram mera questão de tempo.

Foi assim na rodada de Wild Card: assim como ao longo do ano, Chicago apoiou-se na melhor defesa da NFL para se manter com chances. Foles fez ótimas jogadas em momentos cruciais, mas de uma forma geral, o sistema comandado por Vic Fangio conseguiu manter o Bears no jogo – Nick foi interceptado duas vezes e o jogo terrestre do Eagles beirou o ridículo.

Para o futuro, porém, é preciso ficar de olho no questionável desenvolvimento de Trubisky, que pareceu melhor em seu segundo ano sob o comando de Matt Nagy, mas, algo normal, nunca soou 100% confiável. Vez ou outra, sua capacidade de fazer boas jogadas, ler coberturas e escapar de um pocket em colapso estão lá, mas nunca de forma totalmente consistente – hoje, para classificar Trubisky como um sucesso, seria necessário mais do que Parkey acertar um FG de 40 jardas.

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Já sobre a defesa em si, é preciso voltar no tempo para compreender o quão  complexo é os motivos que levam Chicago a ambicionar um “sistema defensivo” eficiente mais do que outras franquias – mesmo que outras equipes tenham em sua história defesas fantásticas, como lendária “Cortina de Ferro” dos Steelers, o Ravens do final dos anos 90 ou mesmo o Denver Broncos vencedor do SB 50.

De qualquer forma, na história, para o Bears, todos os seus grandes momentos ainda vivos na memória tiveram como pano de fundo uma grande defesa – seja ao vencer a NFL pré-Super Bowl em 1963 ou no histórico time de 1985, que também levantou o troféu, e é por muitos considerado a melhor defesa de todos os tempos; o Bears sempre sentiu que defender era o melhor caminho e moldou sua identidade a partir disso.

“Pode ser diferente em Indianápolis ou Green Bay, onde a torcida quer ver Aaron Rodgers lançar touchdowns. Aqui simplesmente querem nos ver defender”, declarou recentemente o ex-CB Charles Tillman.

Para 2019-2020 Chicago precisará fazer escolhas, que podem não ser suficientes para manter o CB Bryce Callahan e o S Adrian Amos, ambos free agents na próxima intertemporada – mesmo assim, perdas são normais na NFL. Mas a maior mudança no setor pode não estar em um jogador: o DC Vic Fangio fez um trabalho tão eficaz que é cotado como um dos nomes para se tornar HC na próxima temporada; perdê-lo, porém, pode ser um golpe duro no principal sistema defensivo da NFL.

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Mas mesmo que Fangio fique a história nos mostra que é improvável que a defesa de Chicago repita o mesmo desempenho monstruoso; quando se está em um nível sobrenatural é normal dar um passo atrás; lembre-se da própria defesa do Bears de 85, ou ainda do Jacksonville Jaguars de 2017 (agora comparada ao desempenho um pouco mais fraco em 2018).

Aqui note uma possível (futura) semelhança: Jacksonville terminou 2017 como a melhor unidade em DVOA – eles foram ainda mais eficientes que o Bears de 2018. Na temporada atual, porém, o Jaguars caiu para a sexta posição nesta mesma métrica e, como o ataque não compensou essa oscilação natural, não foi possível equacionar o desempenho: de certa forma, Blake Bortles foi um obstáculo que a defesa do próprio Jaguars não foi capaz de superar. E com base naquilo que Trubisky apresentou ao longo da temporada, se tornar o Jacksonville de 2018 pode ser o maior pesadelo que o Bears pode ter em 2019.

De qualquer forma, em um cenário mais adequado a realidade de Chicago, volte ao já citado Broncos de 2015-2016. Mas mesmo assim, após anos sofrendo com Fox e Cutler, ao menos agora há algo a se apegar: em setembro, quando Mack, Floyd e Smith se alinharem no Soldier Field em uma tarde fria de domingo, a história de Chicago estará novamente em seu lugar – basta não deixá-la desaparecer após duas décadas procurando o que fora perdido.

A lenda de Big Dick Nick

Quando Nick Foles derrotou Tom Brady e se tornou o herói improvável do último Super Bowl, você achou que havia acabado. Mas ele fez de novo, e mais uma vez manteve o Eagles vivo em uma temporada que parecia perdida. E, claro, você pode chamá-lo de MVP, Big Dick Nick ou simplesmente de Foles, mas seja qual a nomenclatura escolhida, é hora de reconhecer que ele é muito bom em vencer jogos de football realmente importantes – ou que simplesmente estejamos diante de alguém com poderes concedidos por alguma entidade celestial; talvez esta seja a opção mais lógica.

Mesmo assim, antes de Parkey esbarrar na trave pela sexta (ou sétima, se você for alguém extremamente cruel) vez no ano, e o próprio Foles encontrar Golden Tate na endzone, Nick vinha em sua atuação menos impressionante desde que decidiu se tornar uma lenda; foram 25 passes completos em 40 tentativas, 2 TDs e 2 INTs (a primeira vez desde 2015) e, também pela primeira vez em suas aventuras de janeiro, um rating inferior a 100 (77.7).

Mesmo assim, quando Philly recebeu a bola com pouco menos de 5 minutos no relógios, os torcedores do Eagles dirão que não duvidaram dele por um segundo sequer – eles, claro estarão mentindo.

Quando o ataque chegou a beira da endzone, agora, qualquer analista de obra concluída, pode cravar que era óbvio que Darren Sprolles não chegaria ao paraíso em suas duas corridas. A terceira tentativa também foi em vão e, quando Doug Pederson usou seu primeiro timeout, praticamente implodindo qualquer possibilidade de ter a bola novamente se tudo desse errado, não parecia existir outra alternativa além de uma nova Philly Special. Mas, claro, não importa mais como, Nick encontrou Golden Tate e mais US$ 1 milhão na sua conta.

Mas sua atuação não acabou aí: quando Parkey chutou a bola, de alguma forma, Foles a moveu com os olhos, provando que pode manipular o ar, o espaço ou mesmo tempo. Provando que pode, além de encontrar Golden Tate e derrotar Tom Brady, mover o eixo gravitacional da terra – e, de alguma forma, provando para o front office do Eagles e para quem mais diabos duvida que pode vencer dois Super Bowls em sequência.

A Louisiana é logo ali

Volte no tempo até 2013. Lá, por dois meses, Foles foi o quarterback mais eficiente da NFL. Mas até encontrar Brady e os Patriots em fevereiro passado, tudo acabara ali e Nick, em geral, transitou entre (e abaixo da) linha da mediocridade.

Hoje é irônico ver que o Eagles precisou abrir mão de uma caminhão de escolhas para selecionar Carson Wentz, torná-lo o presente e o futuro da franquia, para ter um backup que eles já haviam descartado os levando para o Super Bowl.

E embora é possível (e muito provavelmente o mais lógico e sábio) que Wentz seja o escolhido para guiar o Philadelphia Eagles pelo futuro, é Foles que tem o amor e a gratidão da Filadéfila – agora imagine o que acontecerá com ele caso consiga repetir o mesmo roteiro de 2018.

Além disso, Foles é um herói improvável porque sua personalidade não pede que ele seja. No próprio Eagles há jogadores muito mais talhados a esse papel – do próprio Wentz, jovem e promissor, a Chris Long ou mesmo Malcom Jenkins, muito mais ativos no vestiário; há ainda Fletcher Cox, indiscutivelmente um dos melhores nomes da sua posição em toda a NFL.

Foles, por outro lado, não nasceu para os holofotes. E, de certa forma, nas últimas décadas, Philadelphia teve inúmeros quarterbacks talentosos que poderiam ter vivido a glória: Randall Cunningham, Donovan McNabb e, mais tarde, Michael Vick. O próprio Wentz, é provável, ainda terá tempo para brilhar. Mas, bem, a verdade é que agora é Nick Foles quem está em um avião a caminho de New Orleans – e, mesmo que pareça improvável, não seria prudente duvidar dele.

Análise Tática #28 – Semana 2, 2018: Patrick Mahomes e a nova dimensão do ataque dos Chiefs

Mais uma semana de temporada regular nos livros (traduções literais) e a análise tática deste maravilhoso sítio vem novamente destrinchar a posição mais chamativa do jogo: Quarterback. Dessa vez falaremos sobre o início avassalador de Patrick Mahomes no Kansas City Chiefs.

Patrick Lavon Mahomes II, vindo de Texas Tech, talvez seja o principal personagem gunslinger do início da temporada. Após passar seu ano de calouro na NFL como redshirt (jogou apenas pré-temporada e na semana 17), o segundanista começou o ano com um desempenho inacreditável, colocando-o ao lado de nomes como Peyton Manning, Tom Brady e Ryan Fitzmagic™ (por que não).

Após os 10 touchdowns em dois jogos (quatro na semana 1 contra os Chargers e 6 na semana 2 contra os Steelers) é impossível não se impressionar com o desempenho do jogador. Mahomes tem como estatísticas totais (atentando ao baixo espaço amostral) 38/55 passes (69.1%), 582 jardas aéreas, 10.6 jardas por passe, 10 TDs e nenhum turnover.

Traduzindo esses números para termos de estatísticas avançadas, Mahomes tem incríveis 13.65 ANY/A (qualquer número acima de 7 é considerado bom). Segundo o Pro Football Focus, Pat teve 235 pass-DYAR (Defense-Adjusted Yards Above Replacement). Suas atuações contribuem para que os Chiefs sejam o segundo time em DVOA na temporada, com 59.4%.

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Dada tamanha produção tão cedo, é natural esperar que de certa forma haja uma queda ao longo do ano. Mahomes na prática é um calouro, então será normal ver o Quarterback lançar algum passe duvidoso que gere alguma interceptação que não deveria acontecer.

Além disso, é evidente que as boas atuações dos Chiefs se deram por outros fatores que a atuação do jovem QB, mas como a posição era o principal ponto de interrogação de Kansas City na temporada, é impossível não se impressionar. Antes que a regressão à média inevitavelmente ataque o jogador, vamos curtir o desempenho de Mahomes analisando o tape das melhores jogadas de pontuação dos Chiefs nas duas primeiras semanas.

KC 7-3 SD. Q1 7:12. 2nd & 4 em KC42

Na primeira jogada da análise, vemos um exemplo de como Mahomes tomou uma decisão rápida com o pocket colapsando à sua frente.

Kansas City alinha-se em uma formação com indicação pesada para uma possível corrida para o lado esquerdo da defesa, enquanto Tyrek Hill sai em motion. Dada essa situação, os jogadores indicados em vermelho serão as iscas, enquanto Hill tem a sua frente um defensor marcando em zona, que o passará para o Safety caso Hill vá em profundidade. Como o pocket colapsa pelo A-Gap, toda essa leitura precisa ser de forma rápida, e Mahomes solta a bola com uma mecânica meio questionável (repare na postura torta dos braços).

O fator força no braço é determinante na jogada, e Mahomes consegue conectar o passe no triângulo entre os jogadores circulados em vermelho. A partir de então, a responsabilidade toda é de Tyrek Hill em vencer os adversários em velocidade e disparar à endzone.

KC 24-12 SD. Q3 1:20. 1st & 10 em LAC36

A segunda etapa é outro exemplo de como os Chiefs partiram de uma formação com desenho pesado de corrida para rotas espalhadas pelo campo. Essa foi uma forma de Andy Reid fazer com que a velocidade de seus skill players se sobressaísse a partir do momento em que todos eles cruzassem a linha de scrimmage.

Os Chiefs partem para um four verts, enquanto os Chargers respondem com um Cover 4 na secundária. A chave aqui é a formação pesada, fazendo com que os defensores precisem compensar alinhando um pouco mais para a região das hashmarks.

O jogador circulado em vermelho será a isca, enquanto todos os demais, defendendo rotas go, terão jogadores para observar. Por causa disso, nenhum dos jogadores em zona no fundo do campo é capaz de dobrar a marcação em cima de Tyrek Hill, que ao já sair em velocidade da linha de scrimmage, vence com facilidade seu marcador.

No momento do passe, Hill ainda está atrás do marcador, mas Mahomes vê por antecipação e cálculo de velocidade a vantagem no duelo, e lança um passe no ponto futuro da rota, quase próximo à linha lateral. Tyrek mantém o equilíbrio e continua dentro de campo, indo para o segundo TD de deep ball dos Chiefs na partida da primeira rodada.

KC 0-0 PIT. Q1 13:26 2nd & 15 em PIT15

Agora vamos para a segunda partida da temporada, mostrando como John Keith Butler e Mike Tomlin “ajudaram” Andy Reid no trabalho de fazer o talento de Mahomes se sobressair. Em todas as jogadas da partida da segunda semana, temos o ponto em comum: o uso da seam.

Ao contrário dos exemplos anteriores, essa jogada tem apenas uma rota em profundidade, que atacará o espaço vazio. Reparem que o safety single-high está um pouco deslocado para o lado superior da imagem. Esse offset no posicionamento gera o espaço vazio marcado com o polígono, que será atacado pela rota seam.

As demais rotas da jogada são usadas para prender marcadores à linha de scrimmage. Os recebedores externos adotam posições de screen-pass, enquanto o slot receiver faz o melhor método de quebra de marcação possível: ELE SIMPLESMENTE CATA UM CAVACO BONITO NA JOGADA, EXECUÇÃO 10/10.

Boa parte das leituras de quarterback a nível profissional baseiam-se na identificação de triângulos na defesa. A partir do snap, é exatamente essa leitura que Mahomes deve identificar. Geralmente, essa “progressão” ocorre a partir do Safety no fundo do campo (primeira identificação pré-snap), pelo marcador mais próximo ao recebedor, e ao marcador defensor mais próximo dos dois.

Essas leituras vão sendo alternadas ao longo do campo à medida que o QB avança em sua progressão. Alguns fatores como reação do jogador de defesa em relação ao movimento da jogada influenciam na leitura. O leitor deve estar pensando que é uma quantidade absurda de informação que o quarterback tem que realizar em até 2 segundos, o que justifica que os bons jogadores da posição recebem contratos milionários e por que esse tipo de atleta é o que mais faz diferença em um time em relação a todos os esportes coletivos.

Após essa explicação rudimentar da leitura triângulo do QB (detalhes mais avançados ficam para futuros textos, não vamos queimar tudo agora), observamos a marcação feita na figura, com os três defensores envolvidos na jogada. Um dos jogadores-vértices já passou o recebedor para seu companheiro no fundo do campo, mesmo sendo quase que impossível para o Safety reagir e defender o passe, dado espaço entre os marcadores. Recepção fácil no fundo da endzone.

KC 7-0 PIT. Q1 9:41 2nd & 8 em PIT19

O exemplo a seguir é semelhante ao segundo deste texto, em que os Chiefs utilizam uma formação com desenho pesado para corrida e rotas verticais para maximizar a velocidade dos recebedores contra a defesa. Aqui, Andy Reid incrementa o uso de motion para dar algumas pistas a Mahomes quanto ao tipo de marcação e identificação dos jogadores-chave.

Quanto à leitura-triângulo, Mahomes identifica o single-high mas precisa alterar um dos vértices do triângulo para o box-safety, já que o primeiro irá para o lado oposto da progressão. O recebedor principal é o TE Travis Kelce.

Ao contrário do exemplo anterior, a janela aqui é um pouco mais estreita, sendo necessário um passe mais alto para que Kelce leve vantagem na habilidade atlética.

O primeiro jogo do ano – e do resto de nossas vidas

Parecia que a temporada do Green Bay Packers duraria pouco mais de 20 minutos. Rodgers poderia ter sofrido uma séria lesão no joelho mesmo antes da metade do segundo quarto do primeiro SNF e, de repente, talvez estivéssemos vendo um dos maiores QBs de sua geração desperdiçar mais um ano de seu auge: quando Aaron Rodgers se dirigiu aos vestiários, qualquer apaixonado por football prendeu o ar e pensou “de novo”? E, bem, a expressão do Quarterback convergia com aquilo estávamos pensando.

Os próximos atos do roteiro indicavam o pior cenário possível para os torcedores do Packers: Green Bay seria triturado logo na semana #1, contra seu maior maior rival. Khalil Mack fazia o backup, DeShone Kizer, parecer uma criança indefesa assistindo a um filme de terror e, bem, ali mesmo já era claro que seria um longo ano se Kizer fosse o titular nas próximas semanas.

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Mack, ao respirar, MOVIMENTAVA O AR e transformava Kizer em um atleta amador (talvez ele seja isso aí mesmo e errado é quem espera algo diferente). Khalil logo conseguiu um sack, uma interceptação, forçou um fumble e anotou um touchdown em poucos minutos ou tudo no mesmo lance (se você estivesse dopado pelo medo, seria incapaz de distinguir): em pouco tempo, Chicago abria 17 pontos de vantagem no Lambeau Field pela primeira vez desde 1948.

Restava a nós, meros mortais, amaldiçoar o front office de Green Bay eternamente por ser incapaz de cercar Aaron por algum talento capaz de lhe auxiliar, e culpar Mike McCarthy (essa é fácil) por todos os seus crimes inafiançáveis contra o esporte (em breve uma lista própria sobre o tema).

Você já viu o que McCarthy é “capaz” de fazer com um time quando não tem um HoF QB ao seu dispor, e ninguém em sã consciência teria prazer em assistir uma continuação deste filme.

Um quase (não) retorno

Quando Aaron retornou no terceiro quarto, os Bears logo abriram 20 pontos de frente – e o quarterback claramente não estava saudável: ele se protegia, tentava permanecer dentro do pocket (o equivalente a uma tentativa de suicídio quando consideramos a OL de Green Bay) e alterava seu posicionamento para evitar sobrecarregar a perna esquerda.

Mas como o próprio Aaron Rodgers afirmaria na entrevista pós-jogo, para retornar a uma partida, basta “fazer algumas boas jogadas” – facilita, claro, quando se é Aaron Rodgers, e não DeShone Kizer. Não estamos falando de ciência aeroespacial aqui, afinal. 

Algumas jogadas depois, Aaron completou cinco passes em um drive, que terminaria com um FG de Mason Crosby; a vantagem do Bears voltava para 17 pontos, mas agora restavam apenas 15 minutos no relógio. Não era uma cenário necessariamente tranquilo. 

Mas quando o Packers recebeu a bola novamente, já no último período, Rodgers precisou de apenas seis jogadas – em quatro delas, ele encontrou Geronimo Allison para, na última delas, conseguir um touchdown de 39 jardas em que a bola FLUTOU EM UMA PARÁBOLA CELESTIAL, reduzindo o déficit para apenas 10 pontos. Convenhamos: ali, você já sabia o que estava por vir.

Um novo three-and-out de Chicago deu mais uma injeção de ADRENALINA ao Packers que, aproveitou a chance com uma conexão de 51 jardas para Davante Adams – que, três jogadas depois, anotaria o TD. Naquela altura, era evidente o colapso mental que rondava o Bears. Mesmo após marchar quase um campo inteiro, o time conseguiu apenas um FG, insuficiente para selar a vitória – a vantagem no placar era de apenas 6 pontos. 

Segundas chances

Pouco menos de três minutos e uma jogada que poderiam ter selado a partida. Logo na primeira tentativa, Kyle Fuller poderia ter interceptado Rodgers, mas dropou a pelota, em um lance aparentemente fácil para um atleta de seu nível.

Contra Aaron Rodgers, tudo que você pode pedir aos céus é uma chance para terminar a partida. Contra Aaron Rodgers, tudo que você não pode ceder, é uma segunda chance: duas jogadas depois, ele encontrou Randall Cobb no meio do campo – e Randall correu 75 jardas para a glória.

Cobb é inegavelmente quem tem mais méritos no sucesso dessa jogada específica – e também inegavelmente o sistema defensivo do Bears teve uma crise de caibrã mental naqueles segundos. Mas, mesmo que tentemos negar, desde o passe para Geronimo Alisson, um lançamento que nenhum outro ser humano poderia fazer, sabíamos o que os próximos minutos reservavam: após um início com apenas três passes completados em sete tentativas e uma lesão, Rodgers terminou a partida com 20 passes (em 30 tentados), para 286 jardas e três TDs – todos no último período.

Algo possível apenas para alguém capaz de fazer uma torcida inteira acreditar graças ao simples fato de estar em campo.

O outro lado

A então improvável vitória de Green Bay também é fruto de uma série de decisões no mínimo questionáveis de um HC em sua primeira temporada e um QB de 24 anos e apenas 13 partidas como profissional (além de uma dúzia delas em sua carreira universitária).

Durante a primeira etapa (e aqui se inclui o período com Rodgers em campo), o Bears expôs todas as fraquezas do sistema defensivo de Green Bay, tripudiando daquilo que parecia algo formado por torcedores sorteados antes da partida para trajar uniformes e entrar em campo: os RBs Tarik Cohen e Jordan Howard alinhavam no backfield, o OT Charles Leno abria espaços como se estivesse DANÇANDO BALÉ e Clay Matthews tinha como estatística a incrível média de “uma vergonha” por snap. 

Após anos sofrendo nas mãos de John Fox, Chicago enfim tinha um sistema ofensivo criativo e moderno. No fundo, o Packers só chegou com alguma chance ao terceiro período, porque o LB Blake Martinez era um pequeno sopro de dignidade dentre os “defensores”. Sim, Blake Martinez era o melhor jogador de Green Bay em campo. Leia novamente até acreditar.

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Mas com a mesma velocidade que essa sensação de que um novo ataque havia desembarcado em Illinois chegou, ela desapareceu. Durante todo o segundo tempo, Trubisky se limitou a procurar Cohen e Howard (Allen Robinson e Taylor Gabriel eram meros figurantes), sua confiança diminuiu e algumas oportunidades com recebedores livres foram desperdiçadas.

Claro, não se pode colocar toda a conta da derrota no jovem QB, e sua atuação nos dois últimos períodos tornam a decisão de Matt Nagy em uma jogada crucial, capaz de cravar um punhal em Green Bay, ainda mais questionável: em uma 3&1, com pouco menos de três minutos restantes, na linha de 14 jardas do campo de ataque, Chicago tentou um passe para Anthony Miller que acabou incompleto e resultou em um FG – naquela altura, o jogo estava 23 a 17 e, bem, já falamos sobre como essa história termina.

Nesse instante, a defesa do Bears já não era a mesma: Mack foi incrível nos dois primeiros quartos, mas esperar que ele mantivesse o mesmo nível por 60 minutos com apenas uma semana de treinos seria irreal – tanto que nos últimos períodos ele passou uma quantidade significativa de snaps na linha lateral e, quando esteve em campo, encontrou dificuldades para vencer o RT Byan Bulaga (que havia tido uma atuação trágica antes do intervalo).

Mesmo assim é evidente que melhores dias para a defesa do Bears, com Mack e Roquan Smith cada vez mais entrosados, são mera questão de tempo: tudo que aconteceu em Wisconsin são ótimos sinais a se apegar, sobretudo para uma franquia que precisava desesperadamente de novas perspectivas.

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E não há nada de errado em se agarrar ao “se”: “se” Fuller não tivesse dropado uma interceptação fácil, “se” Howard tivesse corrido aquela maldita jarda ou “se” Mitch enxergasse WRs livres, o Bears teria saído com a vitória.

Claro, não se vive de “se” (já diria o ditado: “se estivesse um rio aqui, eu estaria pescando, e não escrevendo merda“), mas há diversas novas possibilidades que valem a pena ter em conta quando olharmos os próximos passos do Chicago Bears em 2018.

Na primeira partida, porém, uma festa que parecia certa foi estragada. Mas foi estragada por uma dos melhores jogadores da história. Não há motivos para desespero: os dias de Chicago na NFC North podem (e devem) chegar em breve. Desde que, claro, Aaron Rodgers não consiga se apoiar em pé no Lambeau Field.

Análise Tática #27 – Semana 1, 2018: Fitzmagic™

Finalmente a temporada da NFL voltou para que possamos malhar as franquias ruins e reclamar daquele jogo de primetime que foi agendado em março, quando todos os times eram bons, além de cornetas totalmente gratuitas e sem aspecto lógico contra QBs e times que odiamos (no caso todos).

A semana 1 nos proporcionou jogos com tempo-recorde, alguns com “(insira seu time aqui) é isso aí mesmo, errado é quem espera diferente” e até mesmo algumas surpresas, que inclusive será o assunto da primeira análise tática do novo ano desse esporte maravilhoso (às vezes nem tanto).

Ryan Joseph Fitzpatrick, ou Fitzmagic™ (quando joga bem), ou Fitztragic™ (quando vai mal), de acordo com a preferência do leitor, é conhecido, além de por ter estudado em Harvard (marque sua cartela), por ter uma série de eventos coincidentes envolvendo os times que jogou e os QBs que eram titulares na ocasião de sua contratação. O genial @DrawPlayDave categorizou tais coincidências em um fenômeno conhecido como o “O Ciclo de Ryan Fitzpatrick”.

Fonte: @DrawPlayDave (Twitter).

Os Buccaneers entraram no momento do Ciclo Fitzpatrick em que o titular (Jameis Winston) sai de cena e ele assume e joga bem. Tampa Bay foi a maior surpresa da primeira rodada, conseguindo o upset contra os Saints no Superdome.

Análise Estatística

As estatísticas de Fitzpatrick na partida são sensacionais. 21/28, 417 jardas, 4 TDs, 97.1 de rating. Ryan, além disso correu 12 tentativas para 36 jardas e 1 TD. Em termos de estatísticas avançadas, Fitzpatrick teve incríveis 17.75 ANY/A, bem como foi o QB da semana em DVOA pelo Football Outsiders. Uma atuação de gala em um tiroteio contra a defesa dos Saints, que se acreditava que havia melhorado e apresentou os mesmos problemas do início de 2017.

Análise do Tape

Temos conceitos interessantes a se observar nas cinco jogadas de pontuação ofensiva de Fitzpatrick, seu TD corrido e seus passes lançados para touchdown.

Q1 9:41 TB 7-7 NO. 1st & 10 em TB 42.

Tampa Bay alinha-se em singleback 1×2 com Fitzpatrick undercenter. Os Saints demonstram uma formação com um safety single-high um pouco offset na jogada (Marcus Williams, aquele do tackle errado nos playoffs) tentando disfarçar um possível recuo para cover 2.

Apenas três recebedores atacarão o fundo do campo, sendo DeSean Jackson o destino do passe. O X corre uma rota dig, o Z corre uma comeback, ambas de 10 jardas, enquanto Jackson, partindo do slot, corre o que parece ser uma option-route.

Option-routes, similarmente ao jogo corrido em zone blocking, possuem mesh points. Esse conceito tirado da Run N’ Shoot de Glen “Tiger” Ellison, permite que recebedores aproveitem o espaço vazio no campo com base na leitura de comportamento sobre um defensor específico. No caso da jogada, DeSean Jackson, o recebedor que ataca mais fundo no campo, lê o comportamento do Safety. Observemos na imagem a seguir esse exato momento.

Jackson observa que o S dá um passe para a direção da rota do recebedor X (Mike Evans, quebrando uma dig 10 jardas adiante da linha de scrimmage), tendo essa ajuda, Jackson quebra a rota em direção ao pylon. A proteção é boa o suficiente para que Ryan Fitzpatrick espere essa rota se desenvolver e conecte um passe para TD de 52 jardas. O desenvolvimento completo da jogada.

Q1 1:58 TB 14-10 NO. 1st & Goal em NO 3

O leitor mais veterano de NFL provavelmente não esquece que em 2012 a zone read em formação pistol tomou de assalto a liga (quem pegou, pegou). Essa filosofia de ataque foi como uma tomada espremida até a última gota, o que gerou respostas defensivas nas temporadas seguintes. Apesar disso, esse tipo de jogada não foi completamente descartado, e aparece exatamente no TD corrido de Fitzpatrick na partida.

A zone-read é uma jogada de option com uma leitura (!!!!) simples. O QB lê o movimento de um edge rusher e decide se entrega a bola para o RB ou corre ele mesmo. Se o defensor atacar o meio da linha, o QB corre por fora, se o defensor ficar na posição, o QB faz o handoff.

Nessa jogada específica, o defensor que será vítima da leitura é o EDGE #94 Cameron Jordan. Em situação de linha de gol, Jordan ataca a corrida de Peyton Barber, enquanto Fitzpatrick corre para a endzone. No desenvolvimento, Ryan ainda quebra um tackle na linha de gol para completar o TD.

Q2 4:42 TB 24-17 NO. 3rd & 6 em NO 9

O leitor que viu os últimos playoffs e o jogo de abertura da temporada assistiu o coirmão de ambos os times da NFC South morrer em jogadas de fade na endzone. Essa rota de baixa probabilidade de conversão depende de fatores com um passe preciso como uma linha na agulha pelo QB e que o recebedor consiga vencer o duelo físico contra a press coverage.

O leitor também deve estar pensando que uma jogada dos Bucs nessa situação provavelmente seria para um recebedor como Mike Evans, mas aqui é Chris Godwin quem recebe o TD em uma fade em direção ao pylon. Tampa está com um conceito mirrors com duas fades nas extremidades de campo, enquanto rotas no seam tendem a prender os linebackers e os safeties no miolo. Teoricamente, a jogada está armada para funcionar, resta a execução por meio de Fitzpatrick e Godwin.

Chris Godwin consegue vencer o bump-and-run e ganha a vantage física na jogada, resta a Ryan executar o famigerado backshoulder fade. Fazendo um nitpicking, o passe sai um pouco baixo, mas como Godwin teve a vantagem física na jogada, o recebedor não consegue defender, nem fazer a falta. Touchdown com requintes de crueldade que colocou os Saints em uma desvantagem de 14 pontos próximo ao intervalo.

Q3 2:58 TB 41-24 NO. 3rd & 6 em 50

Agora Fitzpatrick inaugura a sessão incendiária da análise, em que ele torna o dia muito difícil para o single-high Safety de New Orleans. Enfrentando formações com zona no fundo do campo, o QB deve manipular tais marcadores com os olhos, fazendo com que eles ataquem espaços errados, abrindo as janelas de passe.

Nessa jogada, os Saints mostram blitz e um Safety em profundidade, enquanto os Bucs irão atacar o fundo do campo novamente com três rotas longas. O RB terá funções de bloqueio para que as rotas tenham tempo de se desenvolver. O alvo da jogada é Mike Evans, no canto superior da imagem, marcado individualmente por Marshon Lattimore.

Experiente, Fitzpatrick tem a paciência suficiente de olhar para o X receiver no início da jogada, levando o Safety para aquele lado do campo. Evans vence o duelo individual e tem uma grande janela de recepção. Bomba no fundo do campo e touchdown. Acompanhe o desenvolvimento do lance.

 Q4 12:19 TB 48-24 NO. 1st & 10 em NO 36

No último drive em que Tampa Bay pontuou na partida, mais uma vez Fitzpatrick aproveitou-se da indecisão causada no Safety. Mesmo em um espaço mais curto em relação à jogada anterior e os Saints estarem mostrando um formato de dois Safeties em profundidade (afinal, a coisa estava feia), Tampa inunda o weakside e explora a rota mais profunda partindo do strongside.

Formação singleback com set de 1×2 em 11 personnel. DeSean Jackson é o alvo principal da jogada. Como falamos anteriormente, todas as demais rotas quebram para o lado esquerdo do campo, portanto é natural que a defesa reaja dessa forma. Por causa disso, Jackson fica mano-a-mano com o CB do seu lado do campo que estava em posicionamento de marcação em zona. A ajuda do Safety marcado em vermelho não existe e Jackson tem a vantagem do espaço ao ganhar o meio do campo.

  • Diego Vieira está bolando soluções para não deixar a análise tática monótona como um jogo de quinta à noite.

Homens causando (e passando) medo

Nunca é fácil escrever (e por escrever aqui queremos normalmente dizer “falar mal”) sobre o que time que se gosta, mesmo que tal tarefa não possa ser delegada a algum dos outros marginais que também fazem parte desta “mídia” (só os mais antigos entenderão).

Além disso, é ainda mais difícil escrever sobre um time que perdeu o que parecia ser sua grande chance na hora da verdade para ninguém menos que Nick Foles, enquanto se acredita que agora se pode chegar mais longe do que da última vez.

A razão disso, além da defesa sobre a qual dedicaremos mais linhas do que são devidas para contar suas fortalezas, é o novo Quarterback que, quando Mike Zimmer chegou em Minnesota, era uma possibilidade inimaginável: Kirk Cousins, que assinou um contrato de três anos e 84 milhões de dólares com o único objetivo de ganhar o primeiro título da história dos Vikings. Qualquer coisa diferente disso será considerado um fracasso.

E não faltam razões para falarmos em fracassos e decepções na história recente de Minnesota: desde Christian Ponder (que, hoje, vemos que não tinha como dar certo), até as insistentes lesões de Teddy Bridgewater – que agora parece destinado a ser feliz em um lugar mais quente – e Sam Bradford.

A efeito de potencial, podemos muito bem olhar para a carreira do próprio Nick Foles: QBs branquelos com cara de nerdões podem ganhar um Super Bowl dada a oportunidade correta. Cousins, inclusive, teve muito mais estabilidade do que Foles (isso depois, assim como um dia fizeram com Aaron Rodgers – alerta de comparação esdrúxula gratuita – passar três anos esquentando banco e aprendendo sobre a liga) e tem números para fortalecer seu posicionamento como um dos bons QBs da NFL: como titular, sempre passou para mais de 4.000 jardas e mais de 25 TDs, coisa que o Vikings não vê desde Brett Favre – outra temporada feliz, mas deprimente.

Como última curiosidade, quando se enfrentaram em 2017, Cousins conseguiu marcar 2 TDs corridos. Quem sabe o homem seja até mesmo uma ameaça dupla (não é, ele correu para 5 jardas).

Diggs, Thielen & Cook

Se no momento em que falávamos sobre QBs importantes da história recente de Minnesota você sentiu falta do último, Case Keenum, saiba que foi intencional para usá-lo como exemplo de quão bom são esses jogadores de suporte: o eternamente medíocre Keenum teve um rating de 98.3, 22 TDs e 3547 jardas lançadas (das quais 2125 acumularam Diggs – hoje 72 milhões mais rico – e Thielen – o primeiro WR de 1000 jardas desde Sidney Rice), além de ter surpreendentemente vencido 11 jogos (mais do que no resto da carreira). Se Kirk Cousins teve um bom desempenho com Josh Doctson e Jamison Crowder, é válido sonhar com números absurdos com o novo trio.

É preciso mencionar também os complementos Kyle Rudolph e Laquon Treadwell. Rudolph foi um alvo importante na redzone para Keenum e produziu 8 TDs, mas segue sendo apenas um TE sólido, que colabora muito com o ataque sem trazer o brilho que outros têm na liga (como, por exemplo, tem Jordan Reed); Laquon Treadwell, por outro lado, teve uma segunda temporada tão decepcionante quanto a primeira, mas o fato de ter se solidificado como WR3 na equipe durante a pré-temporada lhe coloca como o principal coringa de Cousins (que curte distribuir a bola) e pode surpreender na temporada.

Um terror chamado linha (ofensiva)

É importante marcar que essa linha é o ponto de sustentação mais importante desse ataque com potencial absurdo que já falamos até aqui. E é facilmente o maior medo da torcida – vide o trabalho dos Eagles naquela final de conferência inesquecível (por mais que se tente).

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Ainda é impossível apontar exatamente a escalação completa dos Vikings (claro, tal qual os outros times em que erramos bastante também), mas aqui o problema especial é a própria OL. Mesmo após ter melhorado seu desempenho em relação aos tempos de Sam Bradford e Teddy (e talvez parte disso seja a “lendária” presença no pocket de Case Keenum), somente Riley Reiff estará presente na mesma posição de 2017.

Mike Remmers foi movido para o interior e será o RG, enquanto Rashod Hill (que jogou algumas partidas já no ano passado, mas, de acordo com ele mesmo, sentiu a falta de fôlego naquele jogo dramático contra os Eagles) provavelmente lhe substituirá como RT.

Pat Elflein, o C e melhor jogador da linha está machucado, enquanto o time trocou por Brett Jones, que não seria titular nos Giants nesse ano (apesar de ter sido o C titular em 2017), e contratou Tom Compton – desses três, deverão sair dois titulares (e se você não tem um titular definido a essa altura do campeonato, já sabemos que algum problema está aí).

Outro terror também chamado linha (defensiva)  e mais alguns amigos ricos

Se por um lado a estabilidade do ataque passa pela linha ofensiva, o caminho para a terra prometida passa pela defesa. Uma das histórias mais interessantes da offseason eram os Vikings tentando achar dinheiro para pagar Kirk Cousins, a melhor opção de QB no mercado, sem ter que abrir mão de importantes peças defensivas – e, ao que tudo indica, conseguiram até mais do que isso, pelo menos para 2018.

Principalmente porque a grande contratação de 2018 pode acabar sendo Sheldon Richardson ao invés de Cousins: no ano passado, a equipe não contava com um verdadeiro 3T como um dia teve Kevin Williams para destruir defesas pelo meio e agora tem, logo ao lado do monstruoso e imparável Linval Joseph.

Para piorar, do lado de cada um deles, estarão Everson Griffen, que dispensa comentários além dos seus 13 sacks (maior marca da carreira, ou seja, ainda está melhorando), e Danielle Hunter que, se não produziu números em 2017 (7 sacks em sua primeira temporada como titular absoluto), sua capacidade de cheirar cangotes de QB e empurrar gordinhos da OL está posta no papel na forma dos mesmos 72 milhões que recebeu Stefon Diggs.

Na rotatividade dessa linha, inclusive, deverá ser incluído o já mencionado Anthony Barr, única estrela de 2017 que ainda não recebeu um novo contrato, que com a saída de Brian Robison (dispensado), deverá ter a oportunidade de caçar QBs da linha como fazia na época da universidade. O seu companheiro, Erick Kendricks, também ganhou contrato novo, mas mais modesto: só 50 milhões.

A secundária, que disputou em 2017 e deverá disputar em 2018 com a dos Jaguars pelo posto de qual cede menos aos adversários, também tem reforços novos, tanto em campo como nas sidelines: ao invés de escolher um jogador de linha ofensiva como todos esperavam, na primeira rodada do draft os Vikings pegaram Mike Hughes, CB maloqueiro e aparentemente já tem dado resultados na difícil posição do slot, tirando a relevância de Mackesie Alexander. Como novo treinador, o time contou com a aposentadoria de Terrance Newman, que chegou ao fim de sua carreira interminável e seguirá como apoio.

Treinados por Newman (“técnico de defesa nickel”, no título oficial), deverá se repetir o grupo que jogou com ele em 2017: as estrelas Xavier Rhodes e Harrison Smith, que frequentemente são colocados como os melhores ou entre os melhores das suas posições, opostos por Trae Waynes e Andrew Sendejo, que um dia foram considerados medíocres, mas a temporada de 2017 apenas consolidou a evolução deles e o esperado é que isso siga para 2018 (sob pena de serem ameaçados por jogadores como o próprio Alexander e George Iloka, velho conhecido de Zimmer que veio por um salário mínimo para brigar pelo seu lugar ao sol).

Palpite:

13-3, sem medo de ser feliz. Uma das derrotas, a mais previsível de todas, será contra os Bears no Soldier Field – porque os Vikings nunca ganham lá e temos medo de Khalil Mack. Outra, será contra os Eagles para enterrar qualquer esperança de que a equipe possa chegar ao título da NFC – e motivará o time para a grande final da conferência. É importante, e devo falar aqui como torcedor, acreditar que a vingança virá. E aí o drama de enfrentar um Super Bowl fica para outro texto.

A dicotomia em forma de time

As franquias da NFL podem ser explicadas pela seguinte relação antagônica: há aqueles times que só precisam de um QB para se tornarem competitivos e outros que possuem seu signal-caller, mas pecam em todo o resto. O Green Bay Packers é um exemplo da segunda parte desse fenômeno. Após anos com Brett Favre no comando, sucedidos por anos de Aaron Rodgers, a franquia é daquelas raras situações de estabilidade longeva na posição de quarterback que só conseguimos ver se repetir com o Indianapolis Colts (nesse caso mais na cagada mesmo). 

Ao contrário do coirmão da AFC, os Packers já estão na etapa final de seu segundo first ballot hall of famer QB seguido, e Rodgers possui só um anel de campeão nos dedos para mostrar aos coleguinhas. Após o título do Super Bowl XLV, Green Bay bateu na trave do Grande Jogo duas vezes nas últimas quatro temporadas, e é urgente que o time consiga chegar lá novamente, já que dificilmente conseguirá dar sequência ao alto nível de seus quarterbacks quando chegar a hora de Aaron curtir a aposentadoria.

Brinquedos novos no ataque

É perceptível que é impossível desassociar as pretensões dos Packers à disponibilidade de Aaron Rodgers em campo. O QB mostrou por vezes e vezes que se tiver a última bola do jogo, o torcedor de Wisconsin já pode ir comemorando por que a vitória é certa (pergunte para um amigo torcedor dos Cowboys. Só por diversão mesmo). Ao mesmo tempo que, em caso de lesão, a temporada do time está acabada – o que surpreendeu a diretoria do site, que pagou para ver Rodgers e levou uma atuação de gala de Brett Hundley.

Quase como uma maldição que assombra os QBs de elite (pense em Joe Flacco, por exemplo) da NFL, Rodgers é quase que obrigado a transformar jogadores medianos em peças funcionais de seu ataque. Basicamente, tirar leite de pedra. E assim será mais uma vez na temporada de 2018. Os Packers dispensaram Jordy Nelson e estão colocando Randall Cobb no trade block (mesmo que aleguem não ser verdade). Jeff Janis e Richard Rodgers também saíram, apesar de serem nomes de final de rotação.

Como reposição, chegaram os TEs Jimmy Graham e Marcedes Lewis, sendo que essas foram as únicas adições relevantes para o ataque. Calouros de ataque, entretanto, apenas os recebedores J’Mon Moore (133ª escolha) e Equanimeous St. Brown, que pode até não vingar, mas já é um dos melhores nomes da liga. No jogo corrido, os Packers precisam lidar com o comitê composto por Jamaal Williams, Aaron Jones e Ty Montgomery, nenhum deles excepcional de fato.

A linha ofensiva tem bons nomes em David Bakhtiari e Bryan Bulaga, mas após as saídas de Josh Sitton e TJ Lang vem tendo problemas com a parte interior. O center Corey Linsley parece estar completamente recuperado, enquanto Lane Taylor e Justin McCray completam o grupo titular.

Taticamente, é inegável que o ataque é dependente da capacidade de Rodgers, mas até aí o leitor deve estar pensando “até eu” (e todos os outros 31 times seriam). O trabalho de Mike McCarthy e Joe Philbin (coordenador ofensivo) aqui visivelmente é integrar melhor o jogo corrido, e encontrar um RB principal de facto, mesmo com a possível deficiência no interior da linha ofensiva.

Em relação aos recebedores, por mais que queiramos divagar sobre a contribuição de cada peça, a verdade é que Aaron Rodgers os fará produzir mais que o normal, a menos que o jogador seja incrivelmente ruim. Nesse caso, destaque para Jimmy Graham, cuja principal característica é jogar em times que tenham bons QBs, e será fator preponderante para o ataque dentro da redzone

Defesa em reformulação

Os Packers tiveram Don Capers por anos como coordenador defensivo. Como mostramos nessa análise tática do ano passado, o trabalho do coordenador por anos funcionou, mas caiu obsoleto nas últimas temporadas. A conta chegou e Capers acabou demitido, e para seu lugar foi trazido Mike Pettine. O treinador estava sem trabalho na liga desde a passagem como HC dos Browns, terminada em 2015.

Pettine foi formado sob a árvore do lendário Brian Billick, técnico dos Ravens no início da década de 2000, e teve seus últimos dois trabalhos como coordenador defensivo muito bons, nos Jets (2009 a 2012) e nos Bills (2013). Seu esquema é baseado em um front com jogadores com biótipo de 3-4 baseado em leituras de esquemas 4-3, uma defesa versátil, como disse o próprio a ser anunciado.

A defesa de Mike Pettine é focada no pass rush, e apresenta como principais formações os fronts do tipo sink, odd e over. Teorias de defesa típicas do 4-3, mas que Pettine aplica com atletas de biótipo de 3-4. Essas formações facilitam a aplicação do pacote nickel, mantendo a responsabilidade dos jogadores aos gaps. Os atletas da linha com “mão na terra” alinham-se em techs amplas, enquanto os linebackers cobrem os espaços internos. No front over, o pass rusher vai alinhar em frente ao tight end adversário, e essa responsabilidade será dividida entre Clay Matthews e Nick Perry de acordo com a situação jarda/descida.

Como dito anteriormente, no esquema de Pettine os DEs e DT alinham-se em techs amplas. Nesse caso, o objetivo é dobrar o rush nos OTs, aproveitando-se da capacidade física de bend dos atletas da defesa. Para isso, Mike Daniels e a nova contratação Muhammad Wilkerson serão essenciais para gerar esse cenário de double team, forçando os adversários a tirar TEs e RBs de execução de rotas.

Nota do editor: Eu também pulei essa parte.

Em questão de curva de aprendizado, o leitor deve estar se perguntando se um sistema assim não é complexo o suficiente a ponto de gerar o mesmo contragolpe do fire zone blitz de Don Capers. A resposta é sim, de certa forma. Porém, com a diferença de que, à princípio, o objetivo de Pettine é gerar interceptações de pressão, enquanto Capers tentava criar confusão na leitura do QB a reconhecer a secundária pré e pós-snap. De qualquer forma, a princípio, a chegada do coordenador defensivo é excelente para facilitar a vida da secundária, que por vezes nos últimos anos esteve entre as piores da liga, mas agora terá vida mais fácil em função do novo modelo de jogo.

Palpite

Por mais que haja a promessa de melhora defensiva, a temporada dos Packers ainda inevitavelmente depende da saúde de Aaron Rodgers. Se o QB permanecer saudável, os Packers são favoritos a vencer a NFC North, pendendo o desempenho contra a defesa dos Vikings. Devido a esse confronto, a campanha do time deve variar entre as 10 e 12 vitórias. Depois disso, seja o que Deus quiser.