Até somos bons (mas também somos muito idiotas)

15/ago/16


A dor da pancada nem sempre é assimilada e normalmente após o baque nos arrastamos agonizantes. Olhando para o horizonte, em qualquer canto de Cincinatti, é bem provável que ainda haja sofrimento em suas esquinas, potencializado quando um visitante de Pittsburgh sorri irônica e discretamente.

Aos que sobreviveram resta apenas esperar as feridas cicatrizarem, torcer para que alguma entidade divina conserte as fraturas deixadas e, enquanto o processo de luto ainda está ali, encontrar um lugar confortável para guardar uma das derrotas mais vexatórias de sua história.

Mesmo assim é preciso estar consciente que as derrotas que mais machucam devem de alguma forma ser cultivadas e lembradas: grandes quedas, se bem aproveitadas, ajudam a forjar caráter, algo que vitória alguma proporciona, afinal sobreviver ao martírio exige empenho e dedicação. Já sobreviver a uma grande vitória possui o mesmo mérito que sobreviver a uma grande ressaca.

Chamem um exorcista

Para o Cincinatti Bengals é impossível pensar no futuro enquanto não forem exorcizados todos os demônios que foram revelados no Paul Brown Stadium naquela noite chuvosa. E tampouco é possível saber se todos eles foram expulsos nesta offseason. Aliás é mais provável que a maioria deles ainda esteja lá e por lá permaneçam por muito tempo.

Não é fácil se livrar da imagem do fumble de Jeremy Hill a um minuto do fim, o mais próximo que o Bengals chegou de vencer um jogo de playoff desde janeiro de 1991. Ou apagar da memória a tentativa de assassinato do LB Vontaze Burfict contra Antonio Brown, com a bola já próxima ao meio campo. E em meio ao caos, quando ao mesmo tempo nada, tudo e coisa nenhuma seguiam algum princípio lógico, entender os motivos que levaram o CB Adam Jones a “trombar” com, Joey Porter, assistente do Steelers.

A vida é a bola e nós somos as mãos do Jeremy Hill.

A vida é a bola e nós somos as mãos do Jeremy Hill.

É difícil encontrar um só culpado pela implosão de Cincinatti naqueles minutos finais, mas doa a quem doer, Marvin Lewis é hoje a cara deste Bengals ainda imaturo, que mais lembra uma bomba relógio ou um adolescente problemático. Mesmo assim Lewis é o treinador com o maior número de jogos na história da franquia e também o head coach com mais vitórias. E das 14 vezes que o Bengals foi aos playoffs, sete delas foram sob seu comando, assim como quatro de seus 10 títulos de divisão.

De qualquer forma, é natural crer que uma derrota como esta irá afetar a franquia pelos próximos anos; é uma perda angustiante, mas Marvin argumenta que ela fará o Bengals um time melhor. “Você não pode se esconder atrás de uma derrota, você aprende com ela e cresce a partir dela. Então ela se torna parte de sua identidade, parte de sua história e só assim você saberá lidar com o que está por vir”, disse o treinador em entrevista a Sirius XM NFL.

Porém, para o Bengals, vencer nos playoffs parece impossível: são sete derrotas, quatro em Ohio. E na última delas com 30 jardas doadas para o maior rival nos últimos segundos. 30 jardas de graça para quase 30 anos sem vitórias na pós-temporada. Tudo isto enquanto um Big Ben manco ria da sua cara.

Olhando para o futuro

O lado bom é que AFC North parece cada vez mais frágil. É uma janela de oportunidade para Dalton que talvez ele não encontre novamente: claro, sempre há o Steelers, mas em contrapartida também existe um Ravens que reúne anciões cambaleantes que pouco ou nada prometem e, bem, jogar duas vezes contra o Browns é um presente que não se recusa.

É um cenário favorável, mas precisamos reconhecer que já conhecemos o melhor de Andy Dalton: é aquilo que vimos em 2015. Também é verdade que seu braço é extremamente limitado; Dalton tem inteligência, capacidade para reconhecer seus erros, mas não pode lançar a bola 40 vezes por partida. Não se você espera vencer algo.

Não esqueçamos também que o corpo de recebedores do Bengals perdeu Marvin Jones e Mohamed Sanu na free agency. Ok, nenhuma dessas despedidas é capaz de provocar lágrimas nos torcedores, e AJ Green e Tyler Eifert, que combinaram para 138 recepções, 1912 jardas e 23 touchdowns no último ano, ainda estão lá. Porém o próprio Eifert deve perder boa parte do início da temporada após passar por uma cirurgia no tornozelo no final de maio.

De AJ Green, aliás, agora se espera que ele assuma a liderança que sempre lhe pareceu destinada. Hoje ele é o sexto em recepções (415) na história da franquia; quinto em jardas (6171) e quarto em touchdowns (45). Na temporada que passou, Green foi espetacular: foram 86 recepções para 1297 jardas e 10 touchdowns – pelo quinto ano consecutivo, ele superou as 1000 jardas.

Para compor o elenco de WRs, buscou-se Tyler Boyd no draft. Boyd quebrou inúmeros recordes na Universidade de Pittsburgh que pertenciam a um tal de Larry Fitzgerald. É um recebedor eficaz, que dropa poucos passes e capaz de ganhar jardas significativas após a recepção. A outra opção será o veterano Brandon LaFell, que hoje está mais próximo de uma piada de mau gosto do que de um atleta profissional.

O jogo corrido é outro que precisa se recuperar. Após uma temporada de estreia brilhante, Jeremy Hill fedeu em seu segundo ano, com média de 3,6 jardas por tentativa. Mesmo com 12 TDs, Hill foi extremamente ineficiente, isto que esteve durante boa parte do tempo protegido por uma das melhores OLs da NFL.

Mas mais do que recuperar seu bom football, Jeremy precisará também recuperar a confiança perdida com aquele fumble. Já Bernard tem bons momentos, mas é incapaz de ser um RB1; Gio consegue correr, receber e bloquear de maneira digna, mas não pode ser o foco do jogo corrido de uma equipe com alguma pretensão, seja ela qual for.

Você diria não para este homem?

Você diria “não” para este homem?

Temos talento, mas não tanta inteligência

Não podemos negar que o Bengals teve um dos melhores conjuntos defensivos da NFL em 2015. Mas que implodiu no jogo mais importante do ano.

Para 2016-2017, eles perderam o free safety Reggie Nelson, que mesmo aos 33 anos era um jogador excelente e agora defenderá o Oakland Raiders. Confia-se em Shawn Williams para substituí-lo e ao lado de George Iloka, eles devem dar conta do recado. Já o CB Adam Jones estará com 33 anos e não será surpresa se uma queda de produção chegar. Enquanto isso, Dre Kirkpatrick, saudável, tende a ter uma temporada superior a que passou.

Por outro lado, Geno Atkins (DT), segue como um dos defensores mais dominantes da liga, capaz de enfrentar com a mesma eficiência tanto o jogo aéreo como o jogo corrido. Mas ele está cercado por jogadores medianos e precisa compensar as deficiências de colegas como Rey Maualuga (MLB), Vincent Rey (OLB) e Carlos Dunlap (DE). Se o Bengals não quer sobrecarregá-lo, precisa buscar mais profundidade para o elenco – e, bem, Vontaze Burfict só retornará na semana 4, não precisamos relembrar os motivos.

O setor perdeu ainda Emmanuel Lamur e AJ Hawk, mas ambos tiveram uma temporada decepcionante e não devem fazer falta alguma. Para o lugar de Hawk, Karlos Dansby, que veio de Cleveland, deve assumir a posição. Dansby completará 35 anos em novembro e não sabemos ao certo o quanto ele pode render nesta altura da carreira: a única certeza é que ele será mais eficiente que os restos mortais de AJ Hawk que desfilaram pelos gramados na temporada passada.

Palpite: jogar duas vezes contra o Browns garantirá duas vitórias. A tabela, como sempre, deve enganar e o time estará novamente nos playoffs. Mas na hora que separa os homens dos meninos, o Bengals será o Bengals: Burfict ou Jones (ou ambos) darão algum chilique, colocando tudo a perder e, em 2017, Marvin Lewis desistirá de Cincinatti. E possivelmente da vida.

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