Análise Tática #25 – Parte 2: o ataque dos Eagles

26/jan/18


A temporada de 2017 foi o ponto de virada do ataque do Philadelphia Eagles. Após o ano de calouro de Carson Wentz, em que houve uma clara regressão na metade final da temporada, os Eagles se tornaram o time mais quente da liga. O balanço com a defesa permitiu com que por semanas o mesmo fosse o melhor time da liga.

Semana 14 da temporada regular, lesão de Carson Wentz e todo o desdobramento que você já leu aqui, então vamos pular essa parte da história. Mas além de contar com o ótimo desempenho de um quarterback reserva, o trabalho de Doug Pederson (HC), Frank Reich (OC) e John DeFilippo (QB coach) foi de extrema importância para atenuar a queda de nível do ataque com Nick Foles.

A Run/Pass Option

Mas como esses três homens encontraram a solução mágica? Bem, imagino que o leitor tenha ouvido repetidamente na temporada regular o chamado termo RPO martelado a exaustão pelos comentaristas da televisão ou no twitter. A Run/Pass Option (ou Ridiculous Protection Offense) é uma forma de simplificar a leitura do quarterback.

Esse sistema foi uma alternativa que os treinadores, principalmente no High School ou no futebol americano universitário encontraram para produzir maiores ganhos de jarda por jogada e não massacrar jogadores novatos com leituras complexas de campo inteiro ou progressões. Os técnicos de NFL adotaram esses esquemas modernos com o mesmo objetivo, encontrar novas formas de vencer.

Na temporada de 2012, vimos a utilização da zone read option a partir de formações pistol, em que o QB lia o comportamento de um defensor específico (geralmente um edge rusher) e optava pelo handoff ao running-back ou corria ele mesmo.

Programas universitários como Army, Navy e Georgia Tech utilizam a triple-option flexbone offense, outro derivado desse conceito, baseado quase que exclusivamente em conceitos de jogo terrestre. A maioria da NCAA costuma adotar a RPO dentro de sistemas de spread offense

O processo da RPO consiste em fazer uma leitura pré-snap ou pós-snap e decidir pelo passe ou pela corrida. Uma jogada é construída adotando um sistema de bloqueios para corrida como base e um conceito de passe com recebedores espalhados pelo campo. A linha bloqueará como se fosse uma corrida e o quarterback observará a reação de um jogador específico que terá tarefa dupla na jogada. Tal atleta é chamado de conflict defender.

As leituras pré-snap em RPO

Um quarterback realiza duas leituras básicas quando trabalha em RPO: contar a relação de jogadores no box (box count read) e quantos defensores cercam a área onde estará seu recebedor primário (ratio read). Se há pelo menos um bloqueador para cada atleta no box, a situação está favorável para a corrida, portanto o QB realizará o hand off.

Caso contrário, deverá olhar para a região do campo designada e realizar contagem semelhante. Aqui, o trabalho do coordenador ofensivo na preparação pré-jogo é essencial, pois se identifica a região do passe e marca-se a hard deck line como limite, geralmente localizada a 7 jardas da linha de scrimmage. Jogadores de defesa além dessa linha não serão considerados, pois estão muito distantes para reagir a tempo e atacar a bola. Esse tipo de procedimento funciona muito bem quando a RPO é construída com conceitos de passe em screen.

As leituras pós-snap em RPO

Em jogadas de passe mais profundo, geralmente o quarterback precisará adotar uma leitura pós-snap. Nesse caso, ele deverá identificar o defensor que terá tarefas de passe e corrida na mesma jogada, outro ponto em que o coordenador ofensivo deverá ser importante.

Esse jogador em conflito tomará um movimento e com base nisso o quarterback tomará sua decisão. Se tal jogador for um linebacker ou um edge rusher, a linha ofensiva sequer precisará bloqueá-lo, tendo em vista que a dúvida sobre o que virá na jogada será o suficiente para tirá-lo de ação.

A Run/Pass Option aplicada pelos Eagles

O Eagles aproveitou a primeira jogada da partida contra os Vikings para testar a Run/Pass Option. Primeira jogada do primeiro drive e evidentemente, a defesa de Minnesota quer conter a ameaça de Jay Ajayi (DjeiAdjai) no jogo terrestre.

Essa condição é propícia para vender a ameaça da RPO, dando à defesa mais uma dimensão a se preocupar, e aumentar a complexidade dos ajustes que deverão ser feitos. Além de passe e corrida, a defesa tem a ameaça intermediária a se preocupar.

Observando a disposição dos atletas em campo, observamos Philadelphia alinhada em 11 personnel, partindo do shotgun e com um set de recebedores em 2×1. O Tight End está do lado direito e terá funções de bloqueio. Jay Ajayi está no strongside (mesmo lado que o TE) e executará uma inside zone junto com a linha.

Nick Foles fará as leituras tradicionais: observar a quantidade de safeties em campo, o posicionamento dos demais defensive backs. Dentro da Run/Pass Option, Foles realiza a box count e percebe que há mais defensores no box que bloqueadores, e a ratio read indica a situação favorável para o passe.

Antes do snap, ele precisa identificar o defensor em conflito, e aqui estamos facilitando e marcamos o mesmo com o quadrado azul. O traço laranja indica a direção que o mesmo tomará quando snap acontecer, em direção a corrida.

O snap ocorre, o defensor em conflito toma o passo em falso e Foles sabe que precisa executar o roll-out para a direita, permitindo que Nelson Agholor executa a rota shallow-cross marcada em laranja, cruzar o campo até o lado direito, em que haverá a vantagem numérica.

Terrance Newman não consegue antecipar a rota (observe os passinhos para trás) e Agholor terá a vantagem física na recepção. First down.

O contraponto: leitura tradicional

Para mostrar a diferença de análise durante uma jogada entre a Run/Pass Option e o Pro-Style, vamos observar uma jogada “normal”, em que Nick Foles executou os procedimentos que todo pocket passer deve fazer na NFL.

Observemos a disposição em campo dos atletas no touchdown longo de Philadelphia logo antes do intervalo. Os Eagles armaram um set de 3×1 recebedores partindo de um 11 personnel no shotgun. O TE Zach Ertz está alinhado em spread, como se fosse um wide receiver, ainda que no slot. Isso indica para a defesa que o mesmo provavelmente correrá uma rota.

Nesse screenshot logo antes do snap, podemos identificar os safeties em campo. Um mais próximo ao box e outro mais distante. Pela situação de relógio e descida-distância, podemos determinar mesmo sem ver as rotas desenhadas, que a jogada será um passe. Outro ponto que ajuda a confirmar isso, basta observar o posicionamento dos jogadores de linha ofensiva, em dois apoios, postura adotada geralmente para recuar e proteger o quarterback.

Quando a jogada se desenvolve, observamos que as rotas dos três recebedores alinhados na parte superior têm o objetivo de inundar o lado esquerdo do campo, atraindo a defesa para lá (conceito flood). Duas rotas out que se quebram em profundidades diferentes e uma rota go.

Do lado direito, vemos Alshon Jeffery vendendo ao seu marcador uma rota post que termina na linha de 35 do campo de ataque. Como o defensor reagiu a esse hook up, Jeffery aproveita-se para criar a separação em direção ao fundo do campo.

Agora concentremos as nossas atenções em como Nick Foles observa o front dos Vikings. É essencial ao trabalho de todo quarterback identificar as techniques dos jogadores de linha defensiva, o que o ajudará a determinar de onde virá a pressão.

Antes do snap, Foles ajusta a pressão, indicando ao left tackle para atentar-se ao speed rush de Everson Griffen. Minnesota tem dois rushers alinhados abertos, formando a wide-9 tech, estância típica de quando o front tem certeza de que vai defender o passe. Danielle Hunter ainda se desloca em stunt para o A-gap, buscando confundir os bloqueios, mas é contido pelo center Jason Kelce, que estava flutuando entre os assignments.

No pass-block tradicional, geralmente os jogadores de linha ofensiva bloqueiam regiões que formam um semicírculo em volta do quarterback. Se algum jogador de defesa estiver pressionando o QB dentro desse determinado ângulo, o jogador de OL responsável pelo tal deverá efetuar o bloqueio. Os stunts são exatamente criados para confundir os bloqueadores quanto a suas tarefas, mas aqui não foi o caso, pela excelente linha ofensiva dos Eagles, mesmo com o desfalque do LT titular Jason Peters.

Voltando ao comportamento de Nick Foles na jogada, observe como ele mantém a cabeça virada para sua esquerda enquanto navega pelo pocket. Enfrentando uma cover 3, ele tenta atrair o safety do meio àquela direção. Foles quase sofre o sack por Griffen, mas ele consegue escalar o pocket até o ponto amarelo e se livrar dos rushers. Nesse momento, ele vira o rosto para a direita e conecta a big play com Alshon Jeffery.

Observando o desenvolvimento da jogada em campo aberto, conseguimos compreender que é nesse momento em que Jeffery consegue a separação em direção à endzone. TD e os Eagles viravam a partida antes do intervalo.

Run/Pass Option versus Pro-Style

Apesar de RPO ser o termo da moda e diferentes técnicos na liga estarem utilizando conceitos em seus playbooks, a leitura em estilo profissional ainda será por muito tempo a mais adequada a se vencer na liga. Dificilmente, veremos um time executar as jogadas de opção como base de seus ataques, mas é claro que essa nova dimensão dada ao jogo merece ser explorada, criando novas formas de vencer os oponentes.

Contra os Patriots, será essencial que o ataque comandado por Doug Pederson saiba executar bem as jogadas de opção e dosá-las na quantidade correta quanto aos conceitos profissionais. A defesa de Bill Belichick é a que melhor se prepara contra o adversário na liga, ainda mais quando o técnico tem duas semanas para explorar jogos anteriores e detectar tendências.

Nenhum time é capaz de vencer os Patriots jogando bem apenas de um lado da bola. A relação de interdependência entre ataque e defesa dos Eagles será importantíssima para que o time consiga manter Brady fora de campo e construir vantagem no placar. Para isso, o time precisará executar suas jogadas, no sistema que for, em um nível próximo a perfeição.

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