Análise Tática #18 – A perspectiva do jogo pela Sky Cam

20/nov/17


Na noite da última quinta-feira, semana 11 da temporada, a NBC transmitiu a partida entre Tennessee Titans e Pittsburgh Steelers por um novo ângulo: a SkyCam ou na tradução mais livre e sacana possível, a câmera do Madden (paga nois, EA Sports).

Evidentemente, o ser humano é uma espécie que cultiva hábitos, e apesar de uma excelente novidade, muitos telespectadores estranharam e reclamaram bastante da nova perspectiva. Se você leitor, é daqueles que, assim como eu, é um  entusiasta do video-game ou da tática do esporte, já estava acostumado com a novidade e provavelmente gostaria que todas as transmissões do seu time fossem assim, para que você possa xingar aquele pereba específico com MAIS PROPRIEDADE e no calor do AO VIVO.

Entretanto, é perfeitamente compreensível que a maioria do público que acompanha a NFL, principalmente no Brasil, não saiba diferenciar um 4-3 under de um 4-3 over, e isso não desclassifica em nada a experiência em relação àquelas pessoas que saibam todos os check-with-me possíveis em situações de passe em uma West Coast Offense. Aliás, entendimento da tática não é fator obrigatório para você acompanhar a NFL, apenas acrescenta em sua experiência, que já é ótima caso você não queira desbravar este campo do conhecimento.

Depois dos panos quentes, vamos ao que interessa. A câmera aérea é um conceito que foi introduzido no futebol americano através da XFL (liga alternativa que teve apenas uma temporada em 2001). Hoje, todas as quatro emissoras que compartilham os direitos de imagem da NFL nos EUA utilizam em suas transmissões. Nesta temporada, a NBC a utilizou previamente no segundo tempo do Sunday Night Football entre Patriots e Falcons, quando a neblina tomou conta do Gillete Stadium e tornou impraticável o uso dos ângulos tradicionais. Na última quinta, esse recurso voltou a ser utilizado como a principal fonte de imagens da partida pelo fato de o TNF ser o ambiente de testes da liga – o que também explica o Color Rush.

Em situações específicas, a direção de TV decidiu retornar aos ângulos tradicionais, como ataques na redzone e terceiras descidas longas. Em outros pontos, o ângulo alternativo não agradou muito, como jogadas de retorno em special teams. Nas situações restantes, foi um deleite acompanhar o desenvolvimento de rotas, quarterbacks realizando a progressão de leitura, bloqueios se desenvolvendo no jogo corrido e comportamento da defesa.  Agora, vamos ELUCIDAR com o auxílio de imagens, o melhor e o pior dessa nova proposta.

O Passe Longo

Observe a seguinte situação:

Os Steelers estão em formação trips-bunch, Roethlisberger (esse nome eu escrevo sem pesquisar no Google) em shotgun e LeVeon Bell à sua esquerda. Antonio Brown, o alvo da jogada, não aparece nesse frame, já que o operador da câmera a aproximou demais do campo (ponto negativo para a utilização do recurso, que se aproveita melhor para a observação tática em tomadas mais abertas). Observe que na linha ofensiva todos os jogadores à exceção do center estão em posição de dois apoios. Juntando todas essas informações, podemos determinar que a jogada será de passe.

Quanto à defesa, os Titans apresentam um safety no fundo do campo, enquanto os corners se aproximam do box (região entre os tackles) por resposta à formação trips-bunch dos recebedores. Observando a jogada em movimento, repare que Ben Roethlisberger, atleta experiente, reconhece a marcação em zona e atrai o safety para o lado direito do campo. Eli Rogers desempenha uma rota nessa região e ajuda a fixar o adversário nessa região do campo. Big Ben conta com excelente proteção da linha ofensiva e percebe Antonio Brown no mano a mano com seu recebedor, um matchup favorável em 90% das vezes – até eu, que não consigo fazer um espiral decente com a bola oval, passaria para o 84 em marcação individual. Bola na endzone e touchdown.

A Interceptação

Nessa jogada protagonizada por Marcus Mariota, o posicionamento defesa e ataque pré-snap é semelhante ao mostrado nas imagens anteriores, com exceção que a defesa dos Steelers mostra um “casco” de cover-2. Se você leu o texto da semana passada, aprendeu sobre o esquema de zone blitz e como os jogadores da secundária rotacionam em direção a um sentido do campo de forma a cobrir o espaço deixado pelos jogadores extras que pressionam o quarterback.

Nesse caso, os Titans utilizam uma combinação de rotas comeback, go e post no lado esquerdo do campo. Devido à blitz, Mariota é obrigado a lançar antes do timing da jogada, a receita para o caos, já que ataques são como relógios e QBs precisam de ritmo.

Na jogada em movimento, pode-se ver a pressão vindo pelo strongside (lado que está posicionado o TE Delanie Walker, camisa 82), apressando o passe, apesar de um pocket razoavelmente limpo. Repare que o jogador do miolo da linha dos Steelers não engaja na pressão, respeitando a possibilidade do scramble de Mariota, postura conhecida como QB-spy. A secundária dos Steelers alterna os jogadores que cobrirão o fundo do campo e Mariota solta uma bola muito alta, que passa por cima da cabeça de Rishard Matthews e é interceptada.

1-segundo-antes-de-dar-merda.jpg

O Jogo Corrido

Podemos afirmar que o principal ganho de perspectiva que a câmera aérea proporciona é em situações de jogo corrido. No ângulo lateral, acompanhamos o desenvolvimento do lance sem vermos como os bloqueios, principais elementos da jogada, são construídos. Basicamente torcemos para que o carregador da bola atravesse a barreira de jogadores e apareça do outro lado.

A transmissão da NBC nesse momento preferiu retornar ao método tradicional, com ângulo da sideline, e foi esse o padrão ao longo da partida: toda vez que um time chegava à redzone, isso acontecia. Agora vamos utilizar o recurso da coaches film para observar o lance anterior em perspectiva semelhante a que a câmera aérea nos proporciona.

Se você leu o texto de semanas atrás sobre Dolphins-Falcons, lembrará-se da filosofia de bloqueios conhecida como zone-blocking, em que cada jogador da linha ofensiva deve bloquear o jogador à sua frente ou ao seu lado na direção em que a jogada se desenvolve. Aqui, temos exatamente essa situação. Os Steelers partem de uma corrida stretch para a direita, em que LeVeon Bell deverá acompanhar a linha e ler o local em que se abrirá o espaço que deverá atacar. O running back dos Steelers é o mais elusivo da liga, então as corridas em zone-blocking são predominantes no playbook de Todd Haley.

LeVeon Bell consegue ler o bloqueio, mas a defesa dos Titans fecha bem o segundo nível no ponto futuro e reduz a jogada que poderia resultar em TD para um ganho de cinco jogadas.

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