A dura realidade daqueles que não são facilmente iludidos

24/out/16


Começo a escrever no momento do segundo TD lançado pelo rookie Carson Wentz, em um jogo horroroso dos dois ataques (ou incrível das duas defesas, como você preferir), com trezentos turnovers para cada lado. Espero que, quando estiver chegando ao fim, possa comentar sobre uma virada incrível. Enfim, parece cada vez mais difícil, então falemos um pouco mais sobre de onde esse time saiu e perceberemos que a simples existência do 5-0 atual já é algo incrível.

Lembro bem quando conheci o Minnesota Vikings: aquela derrota deprimente para o New Orleans Saints – estaria torcendo contra qualquer time que jogassem contra eles, estava cansado de todo o hype em volta do time. Mas entre Brett Favre mito (mesmo que ele tenha lançado aquela interceptação na qual DEVERIA TER CORRIDO) e um nome legal (além de eu ser um tradicionalmente trouxa em escolher times para torcer) e mesmo após ter flertado com alguns times na intertemporada de 2010 (minha campanha no Madden no PC com o Detroit Lions foi espetacular), lá no fundo foi amor a segunda ou terceira vista.

Lembro também de ter acompanhado ansioso a visita de Jared Allen, Ryan Longwell e Steve Hutchinson a Favre em alguma fazenda no Mississippi (é fácil imaginar os três chegando a cavalo em uma daquelas plantations de filme) para convencê-lo a voltar – pior, torcendo muito que ele voltasse logo. Certo mesmo estava Allen que, recentemente, junto com sua também recente aposentadoria, aproveitou para contar que, na verdade, ele foi ao Mississippi para aconselhar Brett a não voltar a jogar – o que o quarterback infelizmente não seguiu, voltando para uma última temporada fracassada, que teve como seu ponto alto uma partida de terça-feira com Joe Webb. Contra o Eagles. O mesmo Eagles que estã chegando na redzone novamente e, bem, acho que hoje não vai dar.

De qualquer forma, o período pós-Favre trouxe, como a cartilha da NFL manda, novo head coach (Leslie Frazier) e novo quarterback (Christian Ponder). Foram três anos de, como manda a cartilha dos Vikings, novas decepções. Até houve uma época que tivemos um tal running back que foi MVP da liga, antes de voltarmos a Joe Webb nos playoffs (nunca esqueçamos) e perdermos. Foi a única vez que o time chegou nas fases finais da liga entre 2010 e a chegada de Mike Zimmer.

Mestre dos magos.

Mestre dos magos.

Um pouco sobre Mike Zimmer

Zimmer é uma das grandes histórias de injustiças que a NFL produziu. Se diz que, mesmo após ter produzido grandes defesas nos Cowboys, onde se tornou discípulo de Bill Parcells, sempre pedindo conselhos ao lendário treinador, e nos Bengals (além de uma grande entrevista no seu breve tempo de Falcons, em meio a polêmicas com Michael Vick preso e Bobby Petrino, o treinador chamado de “gutless motherfucker”, abandonando o barco), ele nunca recebeu uma oportunidade como head coach porque era sincero demais nas entrevistas – sua participação no Hard Knocks é um show à parte.

Até que Rick Spielman, o GM do time, resolveu dar uma chance e tentar mudar a cultura do time, que teve uma das piores defesas do ano de 2013 e, além disso, tinha problemas disciplinares a cada semana (ou pelo menos parecia assim) – aqui incluímos todo o drama de Adrian Peterson e seu filho que atrapalhou muito o time logo no começo de 2014. E funcionou.

A defesa de Zimmer

Anthony Barr, Harrison Smith, Linval Joseph, Everson Griffen, Xavier Rhodes e muitos mais que facilmente seriam titulares em qualquer equipe da NFL. Todos são grandes nomes por si só, já mais ou menos estabelecidos, e merecem crédito por serem simplesmente craques. Mas mais do que isso, seu denominador comum é: são frutos da espetacular parceria entre Mike Zimmer e Rick Spielman na sua aquisição.

Dos hoje ‘14’ titulares (considerando nickel e rotações na linha defensiva) dessa defesa, somente Andrew Sendejo, que chegou em uma época que Spielman ainda não era o chefe-mor do time, e Chad Greenway e Brian Robinson não foram trazidos por Spielman, seja via draft (com sua tática sagrada de buscar 10 escolhas por ano), via free agency (como as aquisições de Linval Joseph, um monstro no miolo da defesa, ou Terrence Newman, que parece melhor a cada ano que passa) ou ainda via renovações duvidosas a princípio, mas que se confirmaram indiscutíveis, como Everson Griffen.

E ao que Rick Spielman traz, cabe a Mike Zimmer produzir. E o treinador, que já tinha feito isso em Cincinnati, continua tirando o máximo dos seus jogadores, como Xavier Rhodes e Trae Waynes, a quem lhes botavam dúvidas sobre serem muito dados às pass interference nos tempos de universidade e hoje têm anulado WRs como Kelvin Benjamin e Odell Beckham, ou Anthony Barr, que tinha apenas dois anos de experiência como LB, mas joga desde sua chegada como um veterano, produzindo em todas as fases do seu jogo.

Ponte para o futuro

Depois de anos difíceis com Christian Ponder, a lógica também apontava que Minnesota precisava de um franchise quarterback legítimo. Lembro bem também desse dia, já que desisti do primeiro round do draft quando Johnny Manziel foi selecionado, acreditando que os Vikings acabariam sem um QB de alto nível naquele ano. Para então, na madrugada, na última escolha, Rick Spielman fazer de suas mágicas e acabar com Teddy Bridgewater, que durante toda a temporada de 2013 era apontado como o melhor QB da classe, antes de acabar perdendo posições por não aparecer bem nos combines e afins pré-draft.

Obviamente, quando ele parecia o homem a dar o passo seguinte, superando as deficiências de rookie e se cimentando como um QB de alto nível, e assim dar uma ajudinha a essa defesa incrível montada (que apesar da derrota contra Wentz e companhia, continua se mostrando imbatível se o ataque colaborar), sofreu uma lesão bizarra, sozinho, em um lance normal de treino, para o desespero de todos.

Até que Sam Bradford entrou em seu lugar. Já falamos demais sobre Sam Bradford e, na verdade, até este domingo, ele estava indo além das melhores expectativas. Infelizmente, nenhum turnover, mesmo com a sua proteção destruída, não era algo que se manteria – e com a atuação horrível na última semana, não acho que ele esteja merecendo muitas palavras mais da minha parte. Pelo menos, considerando que os Bears ajudarão o time a voltar ao normal (curaram até Aaron Rodgers!), Bradford é a melhor opção para comandar o ataque dos Vikings e rezamos para que ele consiga seguir saudável – mesmo com essa proteção horrenda.

Lançando umas bolas enquanto aguardo um raio-x preventivo.

Lançando umas bolas enquanto aguardo um raio-x preventivo.

O que ainda podemos esperar

Já temos confirmada a primeira derrota dos Vikings. Inclusive, já temos também confirmadas as entrevistas REVOLTADAS do treinador Zimmer sobre a atuação do time – uma bosta completa, em resumo, especialmente a linha ofensiva, que ele chamou de “soft” e disse estar cansado de desculpas. Isso, lembrando, em entrevista à imprensa. Imagine que delícia deve ter sido o clima no vestiário.

Pelo menos a atitude de Zimmer dá a segurança de que o time dará a volta por cima (ano passado, depois de cada jogo complicado parecia vir um jogo de assertividade, como estava acontecendo entre o primeiro e segundo tempo esse ano). Mais do que isso, é importante atentar-se de que o grande questionamento está sobre o ataque (e algo sob os special teams, que não podem dar os vacilos que deram) – a alma do time, a defesa, continuou jogando bem contra os Eagles e cedeu somente 13 pontos (seguindo com a melhor média da NFL), mesmo estando pressionada o tempo inteiro pelos erros constantes do ataque.

O que o histórico aponta? O que podemos esperar para os próximos 10 jogos? Vamos listar, para depois sermos cobrados:

  • A defesa de Mike Zimmer seguirá dominante e ganhará pelo menos mais 6-8 jogos para Minnesota;
  • Sam Bradford ainda irá, infelizmente, se machucar (porque certamente não será Jake Long a solução para nossa odiável linha ofensiva) – nem que seja por excesso de raios-x preventivos;
  • Blair Walsh errará muito mais chutes do que deveria;

E os Vikings chegarão, apesar de todos os pesares, com moral aos playoffs, apenas para acontecer algo bizarro e, novamente, morrer na praia. Ou pior, ao Super Bowl, para que a dor e sofrimento sejam maiores ainda. Porque é isso que acontece quando se tem esperança com esse time: algo sempre dá muito errado.

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